Finalmente ela chegou!!!! A tão esperada vacina contra o vírus influenza A(H1N1), causador da gripe suína, começará a ser aplicada em Petrópolis e em Campo Grande. Em pouco tempo a pandemia terá sido controlada!
Como assim? Não iam começar a produzir a vacina no Brasil só em outubro? Como esses municípios conseguiram a vacina antes dos demais? Será que eles contam com algum fornecimento exclusivo, a exemplo do que o nosso nobre congresso tentou fazer em relação ao Tamiflu? Será????? Obviamente NÃO. Trata-se de uma "vacina homeopática".
No caso de Petrópolis é um preparado chamado Influenzinum RC 32 DH, "fruto de uma parceria entre a Prefeitura de Petrópolis, através da Secretaria Municipal da Saúde, o Instituto Roberto Costa e a Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, num projeto inédito".
O Instituto Roberto Costa tem toda a aura de instituição científica. Seu diretor tem tem seu currículo cadastrado na base de dados Lattes do CNPq. Suas páginas têm versões em inglês, (ok, macarrônico mas vale a intenção). Eles oferecem cursos de formação e fazem o que chamam de pesquisa em homeopatia. Infelizmente essa pesquisa não usa o método científico nem metodologias consagradas pela comunidade. Não há nenhum artigo publicado em revista científica na vasta lista de publicações do diretor.
Eu não consegui encontrar menções a essa parceria na página da UFRJ, nem qual o pesquisador (ir)responsável. Duvido que uma pesquisa com esse teor passe por algum comitê de ética em uma universidade séria como é a UFRJ. Duvido que uma instituição séria liberasse uma vacina sem antes passar pelos protocolos de testes clínicos estabelecidos.
O caso de Campo Grande foi parar no Jornal Nacional. Aqui eles simplesmente aplicam princípios da homeopatia à gripe e esperam algum efeito. Se entendi bem, sua poção é preparada a partir do próprio vírus influenza, não o A(H1N1) mas uma "junção de várias cepas do vírus influenza". Ahá, o princípio dos semelhantes. Eles devem ter faltado à aula sobre genética, mas tudo bem. Esse caldo de vírus é diluído e "dinamizado" (sacudido) 200 vezes, "o que significa que nesse medicamento já não há mais nem uma partícula, nenhuma molécula do vírus original". Entendi! A "vacina" na verdade é água! Além de ter faltado à aula sobre genética eles não acompanharam o nefasto caso da memória da água. Uma senhora da Sociedade de Homeopatia-MS esclarece que não se trata de vacina, mas de água uma prevenção homeopática. O Conselho Regional de Medicina se esquiva dizendo que homeopatia é uma especialidade reconhecida (apesar desse reconhecimento não ser uma unanimidade entre os próprios médicos dos Conselhos).
O que seria cômico se não fosse trágico é o depoimento do Secretário de Saúde de Campo Grande: "A gente pode esperar que funcione como um elemento de estabilização do humor". Então eles dão água pra população para estabilizar o humor fazendo as pessoas pensarem que estão se protegendo contra a gripe suína!!!
O melhor (mesmo) da reportagem é o depoimento da Dra. Andrea Lindemberg, ex-presidente da Sociedade de Infectologia do MS. É tão lúcido que reproduzo aqui:
"- A gente tenta trabalhar em cima de literatura científica, com coisas que comprovadamente são eficazes, que já têm estudos. Eu como infectologista desconheço os estudos e eficácia."
Ela desconhece esses estudos porque eles não existem para essas "vacinas". E quando existem, estudos sobre a eficácia da homeopatia demonstraram que ela não tem efeito maior do que o efeito placebo, ou seja, não tem eficácia alguma.
Com as melhores intenções, essas prefeituras estão no mínimo jogando fora dinheiro público com terapias comprovadamente ineficazes, envolvendo estudos mal-feitos e não-científicos. Em Campo Grande a própria farmacêutica responsável reconhece que estão dando à populção água sem nenhum traço do vírus como "vacina". Em Petrópolis trata-se do coroamento de uma longa série de estudos metodologicamente deficientes.
Pior que esbanjar os nossos suados reais é causar na população a sensação de estar protegida e imune contra uma doença que ainda não conhecemos bem. Isso pode matar. A "vacina homeopática" deveria vir com aquele aviso clássico presente nos rótulos e bulas de pseudo-medicamentos que são tratados como complementos alimentares: "O Ministério da Saúde adverte: não existem evidências científicas comprovadas que este alimento previna, trate ou cure doenças ou alterações fisiológicas".
Agradeço ao Osame por ter me mostrado a vacinação em Campo Grande.


