John Snow era um médico inglês reputado por seus estudos em anestesia. Ele era um cético em relação ao modelo do miasma, que nem sempre se verificava. Por isso ele fez algo simples que mudou a história da medicina: marcou em um mapa o número de mortos por cólera em cada casa da Broad Street no surto de 1854. Com o auxílio do mapa acima ele mostrou que o número de mortos em cada casa diminuía na medida em que se afastava de uma bomba usada para o abastecimento de água potável. Mais que isso, não havia nenhum morto na cervejaria (BREWERY no mapa), onde os operários bebiam a água da fonte usada para a fabricação do precioso líquido em lugar da água bombeada. Snow concluiu corretamente que a transmissão da cólera devia estar relacionada com o consumo de água contaminada. Para provar isso e evitar mais mortes Snow usou seu prestígio para fazer com que a alavanca de bombeio fosse retirada. O surto desapareceu graças à primeira intervenção de um médico sanitarista na história.E estava criada a epidemiologia. Desde então a interpretação de dados demográficos é uma ferramenta fundamental para ajudar a entender relações sutis de causa e efeito em saúde. Um trabalho bem feito pode mudar a história. Há uma excelente palestra legendada sobre o assunto no TED.
Lembrei disso ao ler uma matéria publicada na Folha há algumas semanas. Uma tese de doutorado defendida na UFMG afirma associar proximidade da antena de celular a maior probabilidade de câncer.
Uau. Finalmente a mecânica quântica foi desmentida (ver artigo anterior) e fótons de alguns mili eV estão conseguindo causar danos em ligações químicas de mais de 3 eV em moléculas de DNA. Será verdade?
Lá vou eu em minha eterna busca por informação. Infelizmente a UFMG não disponibiliza suas teses on line, de forma que não é fácil obter uma cópia eletrônica. Mas um resultado epidemiológico de tal importância certamente foi publicado em uma revista importante. Peço ajuda ao Google Acadêmico. Nada. Ou seja, uma pesquisadora mineira mostra definitivamente que a proximidade a antenas de celular aumenta a incidência de câncer e não publica isso numa revista de impacto? Sempre pode piorar. Basta entrar na página da MRE Engenharia, uma empresa que ganha dinheiro explorando a desinformação e o medo de radiações invisíveis que foi incutido nas pessoas ao longo dos últimos 30 anos. Por exemplo, ali aprendemos que "Radiações eletromagnéticas dos linhões preocupam" e podemos agendar uma "Medição de radiações eletromagnéticas Industrial, Empresarial, Ocupacional, Residencial e de Público em Geral". Não só isso, lá podemos comprar a tese de mestrado da autora, "com impressão colorida, 175 páginas e encadernação com capa dura, enviada por Sedex, preço sob consulta". Há também referências a uma série de artigos da revista Patophysiology, lamentavelmente célebre por seus baixos padrões editoriais e por publicar regularmente artigos mostrando que tudo causa câncer, do tipo de cama (isso mesmo!!) a qualquer campo eletromagnético, ou as maravilhas da drenagem linfática. Desnecessário mencionar a ligação próxima entre a autora das teses e a empresa. Pelo menos eles não prestam serviços de des-fantasmização. A Folha também publicou uma entrevista com a "epidemiologista" Devra Davis, que afirma um amontoado de besteiras sobre celulares e câncer. Um recente What's New questiona a qualificação da Dra. Davies como epidemiologista.
Existe epidemiologia como a feita por Snow e seus seguidores 150 anos depois e que através de rigorosa análise de dados continua produzindo resultados científicos relevantes. Existe pesquisa mal feita, com metodologia furada e sem rigor algum, que nem consegue ser publicada em uma revista internacional como as citadas acima.
Enquanto isso, o Science Based Medicine abre um artigo dizendo que "Telefones celulares continuam sendo o foco de estudos epidemiológicos e preocupação pelo público, apesar de até hoje não ter aparecido evidência convincente de qualquer qualquer risco à saúde a eles associado". Aliás, uma das autoras do SBM fez uma declaração com o bom senso dos médicos em lugar da pretensão dos físicos ao Skeptic Magazine: "Não existem boas evidências de que telefones celulares causem câncer. Até hoje não estou convencida que os mecanismos propostos possam causar câncer". Gostei muito disso. É possível que os celulares causem câncer, mas se esse for o caso, certamente não é através dos mecanismos propostos. No entanto, até hoje não há evidências epidemiológicas confiáveis que sugiram isso. Nem os estudos mineiros.
O mesmo vale para vários tratamentos alternativos sem base científica: É possível que acupuntura tenha um efeito analgésico, mas isso não se deve a correções do fluxo de qi pelos meridianos. É possível que quiropraxia alivie dores nas costas, mas isso não se deve à ação da inteligência inata nem ao realinhamento das vértebras. É possível que as pessoas melhorem enquanto usam homeopatia, mas isso não se deve ao potencial das diluições infinitas nem ao reforço dos sintomas. O perigo das pseudociências para nossa compreensão é justamente esse: propor mecanismos sem pé nem cabeça e acreditar neles mesmo quando as evidências apontam em outra direção.
Celulares são equipamentos extremamente perigosos para nossa saúde, quando na mão de motoristas. Pelo menos aqui em Campinas vejo todo dia gente dirigindo enquanto fala ao celular (ou será que é falando ao celular enquanto dirige?) sem medo nenhum de punição, multa ou de causar um acidente grave. Algum dia alguém fará um estudo epidemiológico sério mostrando que celular associado a automóvel põe em risco usuários e transeuntes. Mas através de um mecanismo de mecânica que nada tem a ver com as emanações de microondas ou mecânica quântica.
