sexta-feira, 26 de julho de 2019

A Metodologia do Rolezinho

Nossa espécie consegue aprender através da experiência. Consegue também registrar o aprendizado e passá-lo de geração em geração. Inventamos a Matemática. Inventamos a Ciência. Desenvolvemos uma metodologia que chamamos de Método Científico que permite saber quando a nossas ideias correspondem aos fatos. Isso revolucionou a forma como percebemos a nós mesmos, a vida, o universo e tudo mais. Entendemos o universo e vivemos melhor com as tecnologias que desenvolvemos a partir do conhecimento científico.

O aprendizado muitas vezes contraria nossas crenças e a intuição que desenvolvemos na vida quotidiana. Bons exemplos de dicotomia entre realidade e nossa experiência quotidiana ocorrem na Mecânica Quântica. A Mecânica Quântica descreve o universo sub-microscópico. Nessa escala ocorrem efeitos bizarros e surpreendentes. Quando passa por uma fenda de tamanho comparável com o seu um elétron é difratado como acontece com a luz, ou seja, passa a existir uma probabilidade de encontrá-lo seguindo trajetórias diferentes da esperada para uma partícula macroscópica. Isso é um efeito quântico. Quando uma pessoa passa por uma fenda de tamanho comparável com o seu (uma porta, por exemplo) ela não é difratada. A Mecânica Quântica não descreve bem situações do mundo macroscópico. Por esse motivo os cientistas precisam desenvolver intuições compatíveis com as leis da natureza que se aplicam ao sistema que estão estudando para poder compreendê-los. Essas intuições levaram a invenções e descobertas que mudaram nossa vida. O transístor, base de toda a eletrônica e tecnologia da informação, é um dispositivo que só pode ser compreendido a partir da Mecânica Quântica. Ele funciona, ainda que seu funcionamento desafie nossa percepção da realidade macroscópica.
Políticos em geral não são cientistas. Políticos minimamente espertos, mesmo que não muito inteligentes, têm assessores científicos para apoiar suas decisões importantes. Eles sabem que o conhecimento científico permite a percepção mais fidedigna possível da natureza e da sociedade.
O Brasil tem um histórico contraditório, misturando decisões políticas baseadas em evidências com outras baseadas em bobagens. No governo Dilma um obscuro professor da USP alardeou aos quatro ventos que tinha descoberto uma substância milagrosa que curava qualquer tipo de câncer, a fosfoetanolamina. Apesar de não haver evidência científica alguma para suas afirmações, ele conseguiu uma horda de seguidores que pressionou governos estaduais e o federal a fazer estudos caros e injustificados, que demonstraram que as curas alardeadas eram fruto da imaginação coletiva.
Nada que possa ser comparado com o governo atual. O Método Científico foi substituído pela Metodologia do Rolezinho, termo cunhado no ótimo Direto da Ciência por Maurício Tuffani. Em que consiste a Metodologia do Rolezinho? Muito simples. Sempre que queremos testar se alguma ideia corresponde aos fatos em lugar de aplicar o método científico damos um rolê. Se no meio do rolê não observamos nenhuma evidência para essa ideia então ela deve estar errada.
O método do rolezinho foi brilhantemente usado pelo ministro da cidadania ao se deparar com dados sobre consumo de drogas cuidadosamente obtidos pela Fiocruz num estudo que durou 3 anos. Segundo o estudo, apesar de haver consumo elevado não há uma epidemia de uso de drogas no país. Isso contrariou a percepção do ministro. Ele precisava verificar quem estava certo: a Fiocruz ou ele. Então ele deu um rolezinho, chegando à conclusão obvia (para ele): "Eu andei nas ruas de Copacabana, e estavam vazias. Se isso não é uma epidemia de violência que tem a ver com as drogas, eu não entendo mais nada." Tenho uma péssima notícia para o ministro: ele não entende mais nada, como nunca entendeu. O método do rolezinho venceu.
O próprio presidente é um forte adepto da Metodologia do Rolezinho. Ele acha que não há fome no Brasil, porque "não vê gente pobre pelas ruas com físico esquelético". Portanto em sua compreensão limitada os dados da FAO obtidos pelo método científico devem estar errados. O presidente tem  convicção que os  dados obtidos pelo INPE sobre desmatamento durante seu governo são mentirosos. Ele mesmo deu um rolê de avião sobre a Amazônia e se convenceu disso. Portanto na opinião dele os cientistas do INPE são uns incompetentes e inimigos do Brasil. Mais Metodologia do Rolezinho em ação. O ministro da ciência, tecnologia, inovações e comunicações, que apesar  do cargo que ocupa não tem treinamento científico além do clássico experimento do pé de feijão, também acha que o desmatamento não é tanto assim e valida o uso da Metodologia do Rolezinho em lugar do Método Científico. Estamos num mau caminho. Se o presidente ou seus ministros aplicarem a Metodologia do Rolezinho a um transístor com certeza dirão que ele não pode funcionar.
O astrólogo oficial da república, mentor intelectual do atual governo, apresentou a base filosófica da Metodologia do Rolezinho em vídeos, como eu comentei aqui.
Ao substituir o Método Científico pelo Método do Rolezinho o governo do Brasil deu mais um enorme passo rumo ao obscurantismo pré-científico, que parece ser um de seus objetivos. Vai ser assim até que o mandato termine ou esse pessoal seja derrubado (inshallah). Os primeiros passos na direção de Gilead já foram dados.
Mas o que poderíamos esperar quando um dos dois projetos aprovados pelo presidente em 26 anos como deputado federal foi justamente o que autorizava o uso da fosfoetanolamina por parte de pacientes com câncer?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Olavo e a Relatividade

Em cada época da história há pessoas na vanguarda da compreensão da vida, do universo e tudo mais. Chamamos essas pessoas de filósofos. A palavra filósofo vem do grego φιλόσοφος, ou amante da sabedoria. Filósofos importantes influenciaram e mesmo determinaram como a sociedade se organizou, a moral, a ética, de onde viemos e para onde vamos. Obviamente a invenção do pensamento científico contemporâneo, que começou na Europa renascentista do século XVI, teve forte influência na filosofia. Isaac Newton chamou seu tratado sobre a natureza em três volumes de Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica (Princípios Matemáticos da Filosofia Natural). Nessa obra colossal é descrito o modelo que usamos até hoje para descrever o movimento de corpos materiais, a gravitação, o movimento de planetas. Ele sistematiza a noção de campos, e de quebra descreve o cálculo infinitesimal. No volume 3 Newton propõe "Regras de Raciocínio em Filosofia" em que enuncia algumas bases do raciocínio científico: efeitos similares devem ter causas similares (universalidade das leis da Física) e a compreensão da realidade deve derivar de fenômenos observados experimentalmente. Isso atualmente pode parecer óbvio, mas no século XVII não era.

O Brasil de 2019 está passando por um fenômeno muito curioso. Membros importantes do governo recém empossado (incluindo o presidente) têm citado como referência intelectual o senhor Olavo de Carvalho. Mesmo sem ter tido educação formal na área, o Sr. Carvalho se apresenta como filósofo e mantém uma página na qual oferece cursos on line sobre diversos assuntos ligados à filosofia.


Mas o que faz de um pacato cidadão um filósofo? Difícil de saber. Certamente não é um curso de graduação em Filosofia. Minha mãe era formada em Filosofia e nem por isso ficava filosofando ou falando dos mistérios da vida, do universo e tudo mais. O Sr. Carvalho é autor de uma longa lista de livros sobre os mais diversos assuntos. No entanto, ele não é reconhecido pelos pares ou pelo mundo acadêmico como alguém com algo relevante a dizer sobre a vida, o universo e tudo mais, como pode ser verificado aqui, aqui e aqui.


O Sr. Carvalho costuma publicar vídeos em seu canal no Youtube nos quais fala sobre os mais diversos assuntos, inclusive Ciência. Vou comentar um dos seus vídeos, no qual o Sr. Carvalho aplica seu bom senso ao movimento da terra em torno do sol.


"Com relação à origem da relatividade o que aconteceu foi o seguinte: no fim do século passado [houve] uma dupla de cientistas, Michelson e Morley, que disseram o seguinte: se de fato a terra se move em volta do sol então devem haver diferenças na velocidade da luz em vários pontos da terra conforme as várias estações do ano. Eles mediram isso milhares, milhares e milhares de vezes e viram que não mudava nada. Então das duas uma: ou a terra não se move ou então é preciso modificar a Física inteira. Um cidadão chamado Albert Einstein viu isso e decidiu que era preferível modificar a Física inteira só para não admitir que não havia provas do heliocentrismo. Ele fez então um arranjo que implicava em várias noções muito estranhas como a curvatura do espaço que é um conceito que até hoje eu não entendi. [...] Mais ainda a noção de que pessoas que viajassem através do espaço teriam várias idades ao mesmo tempo, e muitas coisas muito esquisitas que nunca foram provadas, mas que eram intelectualmente muito elegantes e de algum modo salvavam as aparências. O fato é que no confronto entre geocentrismo e heliocentrismo não existe nenhuma prova definitiva nem de um lado nem do outro. Você pode usar um sistema de referência ou pode usar o outro."
Citando a frase atribuída ao genial Wolfgang Pauli, isso é tão absurdo que nem chega a estar errado.

Como demonstraremos a seguir, o Sr. Carvalho mostra ter pouca familiaridade com o Método Científico, com a História da Ciência e com a própria Teoria da Relatividade.

Ao contrário do que o Sr. Carvalho afirma, os experimentos de Michelson-Morley, realizados entre 1871 e 1878, não estavam testando se a terra se move ou não. Isso já havia sido estabelecido sem sombra de dúvidas por Nicolau Copérnico 400 anos antes. Michelson e Morley estavam testando a hipótese de existir um meio (chamado de éter) para a propagação das ondas eletromagnéticas. Naquela época muitos cientistas pensavam que assim como ondas materiais (som por exemplo) só se propagam em meios materiais, deveria haver um meio de propagação para as ondas eletromagnéticas. Michelson e Morley projetaram um interferômetro extremamente sensível para detectar variações mínimas na velocidade da luz. Eles apontaram seu equipamento em diferentes direções, buscando variações na velocidade da luz, o que deveria ocorrer devido ao movimento da terra caso o éter existisse. Michelson e Morley determinaram que a velocidade da luz era sempre a mesma, não importando a direção na qual orientavam o seu interferômetro. Isso não só descartou a hipótese do éter mas também criou um novo desafio teórico: como pode a velocidade da luz ser a mesma em todas as direções dado que a terra está se movendo? A resposta veio a partir dos trabalhos de Fitzgerald e Lorentz (1892). Eles propuseram que por algum motivo uma mudança de sistema de referência no contexto do eletromagnetismo  (transformação de Lorentz) é diferente do que ocorre no contexto da mecânica (transformação de Galileu), mais intuitiva porque mais próxima de nossa experiência cotidiana. Em 1905 Albert Einstein formulou a Teoria da Relatividade Restrita na qual unificou os resultados da mecânica e do eletromagnetismo postulando que a velocidade da luz é constante em qualquer sistema de referência chamado de inercial. Portanto, apesar de a transformação de Lorenz ser a maneira correta para tratae de mudanças de sistemas de referência, a transformação de Galileu pode ser usada quando o movimento relativo dos sistemas de referência ocorre a velocidades baixas comparadas com a da luz que é de cerca de 300 mil km/s, muito maior do que estamos acostumados a experimentar em nosso dia-a-dia.

Isso tudo não tem nada a ver com a curvatura do espaço (que o Sr. Carvalho confessa não entender, e é um assunto muito difícil mesmo para quem estudou geometria avançada), que é um conceito que aparece na Teoria Geral da Relatividade.

Ao formular as teorias da relatividade restrita e geral, Einstein não estava tentando resolver o problema do movimento da terra, mas sim o problema da invariância da velocidade da luz em mudanças de sistemas de referência. Isso é provavelmente demais para o entendimento de Ciência do Sr. Carvalho, a quem resta aplicar o seu senso comum e interpretar o experimento de Michelson-Morley como evidência para a terra não se mover.

Mas afinal como sabemos que a terra gira em torno do sol (modelo heliocêntrico) e não o sol gira em torno da terra (modelo geocêntrico)? Na verdade, isso ocorre porque supondo o sol no centro do movimento de todos os planetas a descrição desses movimentos fica muito mais simples e compatível com a teoria da gravitação exposta nos Principia. Isso é a essência da Ciência: fazer modelos que nos ajudam a compreender a Natureza.
Com a invenção do telescópio no século XVI uma enxurrada de evidências astronômicas foi produzida:

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APOD/Tunç Tezel/NASA
Movimentos retrógrados dos planetas. Vistos da terra, os planetas executam trajetórias estranhas no céu, como o movimento de Marte reproduzido ao lado. Isso foi observado já no século XVI e foi um dos principais argumentos usados por Copérnico para propor o modelo heliocêntrico. O ajuste preciso das trajetórias só foi possível quando Johannes Kepler propôs que os planetas percorrem trajetórias elípticas e não estritamente circulares em torno do sol.


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As fases de Vênus. Vênus apresenta tem fases semelhantes às da Lua. Isso não tem explicação num modelo geocêntrico mas é consequência direta do modelo heliocêntrico.



As estações do ano. É muito difícil explicar porque ocorrem as estações do ano num modelo geocêntrico. No modelo heliocêntrico basta considerar que o eixo de rotação de terra está inclinado em relação ao plano da órbita em torno do sol. Essa inclinação é de cerca de 23° (é por isso que o trópico de Capricórnio passa bem pertinho de Campinas, que tem latitude 23°). A própria ocorrência de anos é consequência da rotação da terra em volta do sol.

O heliocentrismo foi adotado como a descrição correta do sistema solar porque seus resultados são passíveis de explicação por uma teoria simples e elegante, capaz de fazer previsões sobre a evolução do sistema. Essa é a base da Ciência. Por isso as escolas ensinam heliocentrismo, não geocentrismo. A fala o Sr. Carvalho só mostra o quanto suas ideias sobre Física, heliocentrismo, relatividade e tudo o mais são baseadas apenas no senso comum e não na erudição e entendimento de conceitos como ele quer que acreditemos. Na verdade isso só convence outras pessoas que também não entendem o assunto. O grave é que o Sr. Carvalho tem não só admiradores mas seguidores que tomam suas palavras como uma expressão da verdade. Assim nascem as pseudociências. Ao falar de Ciência o Sr. Carvalho certamente não se qualifica enquanto filósofo, mas simplesmente como articulador de senso comum óbvio e errado, prática comum entre os gurus de auto-ajuda. Ele no fundo não entende do que fala, usando fatos, resultados e conceitos fora de contexto e chegando a conclusões pretensamente científicas. Isso se chama pseudociência.

Pobre do país em que o guru intelectual dos governantes, com poderes suficientes para indicar dois ministros (inclusive o da Educação) seja tão superficial e tacanho.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Guerra Homeopática no Jornal da USP


Para que serve o jornal de uma universidade? Essa pergunta parece simples mas a resposta pode não ser muito óbvia. No Brasil praticamente todas universidades têm um jornal, que em geral é dedicado a promover o que a administração da universidade considera importante em suas atividades. Em alguns casos eles buscam traduzir em linguagem mais simples descobertas científicas importantes da universidade, e assim tornam-se importantes veículos de divulgação científica. Jornais de universidades importantes são também o locus de debates relevantes além da academia. Mas como o pano de fundo em geral é a ciência, os jornais de universidades respeitadas acabam emprestando prestígio e respeitabilidade aos assuntos que neles são discutidos.
Não foi por outro motivo que em março de 2017 houve uma reação unânime da comunidade científica quando um professor Ciro Marcondes Filho, da ECA-USP publicou em sua coluna Ciência Feliz (juro que o nome é este!!!) um artigo requentando uma informação falsa e irresponsável feita pela obscura Organização Médicos em Cidades Pulverizadas (o nome já deveria ser um sinal de alerta) associando o larvicida pyriproxyfen com microcefalia. Para piorar, em lugar de reconhecer o erro (o que talvez arranharia seu ego) o Prof. Ciro saiu com uma explicação esfarrapada em relação ao papel da divulgação científica, como se ela devesse dar voz a qualquer ideia por mais esquisita e distanciada da realidade que fosse. Esse assunto foi muito bem abordado por meus colegas Roberto Takata e Carlos Orsi.
Parece que o Jornal da USP insiste em dar voz e validade acadêmica à pseudociência.  Em 19 de abril publicou o artigo Ensino de homeopatia veterinária é deficiente, afirma pesquisadora sobre a dissertação de mestrado de Clarice Vaz de Oliveira apresentada à FMVZ-USP. Na dissertação a autora constata que homeopatia quase não faz parte dos currículos de Medicina Veterinária, o que ela considera injusto e resultado de uma disputa de poder. Eu e muitos outros cientistas temos uma opinião diferente. Até agora a dissertação não resultou em publicação em periódico especializado.
No dia 15 de maio o professor Beny Spira do ICB-USP reagiu com um artigo que teve o título forte, A Homeopatia é uma farsa criminosa mudado para A Homeopatia é uma farsa (o link continua com o nome original). O artigo do Prof. Spira é bastante didático ao mostrar como a homeopatia não tem efeito maior que o placebo, com 3 referências, entre elas o clássico editorial da Lancet em 2005 que sugere que paremos de destinar fundos a estudos sobre a homeopatia dada a total ausência de evidências de sua eficácia.
Em 19 de maio é publicado um artigo da lavra de Clarice Vaz de Oliveira, agora apresentada como "médica veterinária pela FMVZ e especializanda (sic) em Bioética na FMUSP", Uma resposta da homeopatia a Beny Spira,  com 7 referências (além de mais 4 não-hiperlinks). Entre outros argumentos, ela usa o artigo The Lancet e o proclamado fim da homeopatia: revisão crítica de publicação de Shang et al. (2005) e dos artigos relacionados subsequentes de José Eizayaga em contraponto ao editorial da Lancet e a meta-análise que o motivou. Ela não diz onde o artigo do Dr.  Eizayaga foi publicado. Uma busca na web revela que o artigo, em português, foi publicado na Revista de Homeopatia editada pela Associação Paulista de Homeopatia. Mostra também que o Dr. Eyzayaga é diretor do Departamento de Homeopatia da Universidad Maimónides, em Buenos Aires. Curiosamente ele usa seu endereço eletrônico no gmail em lugar de um endereço institucional. Clarice termina seu artigo afirmando que "A homeopatia tem provas dadas de sua capacidade de resistência, através da firme convicção de seus usuários e praticantes."
No mesmo dia 19 de maio foi publicado outro artigo O papel da água na homeopatia, de autoria de Alvaro Vannucci, docente aposentado do IFUSP. Nesse artigo o autor argumenta que a água tem memória, o que apoiaria a ultradiluição usada em homeopatia. Entre as 14 referências há um artigo baseado em uma tese de doutorado que ele orientou, em que os autores argumentam que diferenças na impedância de água que diluiu LiCl em 15C (ou seja, 10³⁰, além do número de Avogadro) e água de referência poderiam ser explicados por efeitos de memória. 
Em 22 de maio o Dr. Marcus Zulian Teixeira, homeopata que se apresenta como "coordenador da disciplina optativa Fundamentos da Homeopatia" da FM-USP contra-atacou com um artigo chamado Homeopatia e preconceito: ausência de evidências científicas ou negação das existentes?. Nesse artigo o Dr. Teixeira busca convencer o leitor de que a homeopatia é vítima de preconceito apesar de supostamente ter uma sólida base científica. Para apoiar suas afirmações o Dr. Zulian cita nada menos que 50 referências.
No dia 25 de maio o Prof. Spira rebateu as críticas do Dr. Teixeira em seu artigo Pós-verdade homeopática: Evidências científicas? Nem um pouco. Nele o Prof. Spira analisa uma por uma as 50 referências do Dr. Teixeira. Ele explica o que é a revisão por pares e porque 49 dos 50 artigos citados não deveriam ser tratados como evidência para nada. O único artigo que foi publicado em uma revista com padrões de qualidade minimamente aceitáveis foi alvo de crítica por outros pesquisadores que insinuam que um artigo com as falhas metodológicas que ele apresenta e que escaparam dos revisores não deveria ter sido aceito para publicação. A resposta, que por várias vezes agradece ao periódico por publicar um artigo sobre homeopatia, não reponde as principais críticas.

Eu gostaria primeiramente de comentar o artigo do Dr. Teixeira no Jornal da USP. Ele contém todos os ingredientes de um discurso pseudocientífico. Começa ameaçando o Dr. Spira com artigos do Código Penal e do Código de Ética. Esse tipo de atitude não é exatamente o que encontramos em discussões científicas, mas certamente tem apelo para o público em geral. Depois vem o argumento de autoridade: referência a vários conselhos profissionais que regulam a prática da homeopatia, como se decisões de conselhos profissionais alterassem os efeitos dessa ou daquela prática. Já discuti isso em Homeopatia mata.
A argumentação avança, eivada de referências a artigos (vários do próprio Dr. Teixeira) publicados em periódicos com pouco ou nenhum rigor editorial. Aqui é importante reforçar o que foi dito pelo Prof. Spira: Lancet tem muito mais respeitabilidade que a Revista de Homeopatia, justamente porque é muito rigorosa nas análises de artigos submetidos. Em lugar de tentar impressionar com 50 referências, bastaria uma única na Nature ou na Science, as mais respeitadas revistas científicas do mundo. Aliás, o célebre caso do artigo fraudado sobre a memória da água na Nature dá uma boa idéia do rigor com que homeopatas fazem suas pesquisas. Isso foi discutido em O Estudo Duplo Cego. Decorar seus textos com um grande número de referências é um expediente muito usado por pseudocientistas justamente porque cientistas costumam fazer referência a trabalhos anteriores. Dá um ar... científico. Pior, para parecer um cientista sério o Dr. Teixeira faz referência duas vezes à sua "tese de pós-doutorado". Como????? Vou repetir, porque foi isso que ele escreveu: "Tese de pós-doutorado". É verdade que aqui nas terras tupiniquins muita gente pensa que pós-doutorado é um título obtido após o doutorado. Não é. Pós-doutorado é uma posição precária, com contrato de tempo limitado, que muitos recém doutores (entre outros esse que vos escreve) assumem para fazer pesquisa enquanto não obtém uma posição permanente em alguma instituição. Não envolve tese, defesa, banca, diploma. Não confere título algum. Qualquer acadêmico sabe disso, mas obviamente a referência à tese de pós-doutorado impressiona, dá a entender a quem não conhece o universo acadêmico que o autor faz um trabalho além do doutorado. Mais relevante talvez.

No fundo, o que mais me preocupa nessa guerra são os seguintes aspectos:
  1. O que uma disciplina optativa de homeopatia está fazendo no currículo de uma das mais prestigiosas escolas de medicina do país? E ainda por cima coordenada por uma pessoa que não faz parte do quadro docente da faculdade? Desafio o leitor a encontrar alguma disciplina de homeopatia no currículo de Medicina de Harvard. Ou no da UCSF. Faculdades sérias não deveriam ter disciplinas voltadas para práticas sem base científica.
  2. Por que o Jornal da USP abre espaço para pseudociência? Quando isso acontece só quem ganha são os pseudocientistas, que emprestam o prestígio científico da instituição. Exatamente o mesmo espaço de reconhecimento acadêmico vem sendo buscado por outras pseudociências como Intelligent Design, Homeostase Quântica e Saúde Quântica.
Sempre admirei e respeitei pessoas que usam homeopatia como terapia (exceto em situações graves) porque acreditam nos efeitos dela. As pessoas têm o direito de acreditar no que querem e usar isso em suas próprias vidas. No entanto, parece-me muito inadequado homeopatas buscarem empurrar supostas evidências científicas que não existem para sua prática. Isso ofende os cientistas de verdade. Se os princípios da homeopatia tivessem conexão com a realidade tudo o que sabemos sobre Química e Física estaria errado. Homeopatia não é ciência. Homeopatia é uma farsa.

Upideite 1 29/05/2017. O Dr. Teixeira realmente pretende tomar "uma medida legal" contra o Prof. Spira!

Upideite 2 29/05/2017. A Associação Brasileira de Farmaceuticos Homeopatas divulgou uma nota de repúdio ao texto do Prof. Spira de 15/05/2017 no Jornal da USP,  por ele ter se expressado "de maneira inadequada e não cordial" além de "incorreções e uso de fundamentos científicos inadequados" ao tratar homeopatia como uma “farsa criminosa e pseudociência”. Eu concordo que talvez a palavra "criminosa" pode não ter sido a mais cordial. Ela foi retirada do título. Mesmo assim, recentemente na Itália um menino foi vítima dessa prática quando seus pais decidiram (não) tratar uma otite banal com homeopatia. Quanto a tratar a homeopatia como pseudociência e usar fundamentos científicos corretíssimos, só posso ser solidário ao Prof. Spira.

Upideite 3  29/05/2017. Certo como a água, o Dr. Teixeira não deixaria de responder ao Prof. Spira no Jornal da USP, agora com o pomposo título A verdade sobre as evidências científicas em homeopatia. Nada poderia estar mais longe da verdade. Não vou perder tempo aqui mencionando cada afirmação falsa, mas basta a referência feita por ele à suposta memória da água. Nenhum cientista sério leva isso a sério porque simplesmente contradiz tudo o que sabemos sobre a estrutura molecular da água. Claro que ele ainda vai argumentar que Brian Josephson e Luc Montaigner acreditam nisso. No entanto, a única conclusão que se pode chegar é que um prêmio Nobel não equivale a  um atestado de sanidade mental. A referência que ele cita para a memória da água é nada menos que um volume especial da infame revista pseudocientífica Homeopathy sobre o assunto. Essa revista não é levada a sério por cientistas: trata-se de longe da revista mais autoreferenciada de todas da Elsevier. Mais de 70% das citações a seus artigos vêm de artigos publicados na própria revista. Seu parâmetro de impacto em 2014 foi 0,78, um valor tão baixo que combinado com a alta taxa de autocitação fez com que a Thomson-Reuters excluísse a revista de sua indexação InCites em 2015. Basear sua argumentação em referências de padrão acadêmico tão lamentável faz parte da encenação pseudocientífica. Eles contam com a ignorância dos leitores do Jornal da USP em relação à diferença entre revistas sérias e repositórios de bobagens.

Upideite 4 01/05/2017. O Prof. emérito do IQ-USP Hernán Chaimovich entrou na guerra com seu artigo Car@s colegas.... Apesar de eu sentir um certo mal estar quando vejo a arroba invadir a grafia de palavras na língua mátria, vale a pena comentar aqui. Ele se refere a consensos em ciência, dado que é assim que a ciência avança, e de forma muito educada sugere que o comportamento dos que creem em homeopatia é quase religioso. Ele tem razão.

 Upideite 5 02/05/2017. O prof. Chaimovich aparentemente também não gosta das arrobas. O título de seu texto mudou para "Ciência e suas controvérsias". Meio estranha essa prática do Jornal da USP de eles mesmos inventarem títulos para artigos escritos por pesquisadores da casa.

domingo, 14 de maio de 2017

MackIntelligentDesign


A Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) é uma universidade privada com iniciativas sérias em pesquisa. O MackGraphe, Centro de Pesquisas Avançadas em Grafeno, Nanomateriais e Nanotecnologias parece seguir na direção das boas universidades do mundo. Trata-se de um centro de fazer inveja a qualquer instituição privada brasileira (e também a muitas instituições públicas), dedicado principalmente à pesquisa avançada em grafeno, uma camada monoatômica de carbono com propriedades muito interessantes e potenciais aplicações.
Com centros desse tipo a UPM poderia ser uma instituição de destaque no cenário latino-americano. Bastaria seguir o modelo estabelecido por algumas das melhores universidades protestantes do mundo. Por exemplo a Princeton University é uma instituição que como a UPM começou como uma iniciativa de missionários presbiterianos. Ao longo da história ela teve seu nome associado a não menos que 41 ganhadores do Prêmio Nobel, entre eles Albert Einstein. O prestígio acadêmico de Princeton é resultado da liberdade acadêmica de seus quadros e o compromisso com os resultados obtidos por seus pesquisadores e cientistas, mesmo quando esses resultados contrariam as crenças de seus administradores.
No entanto, enquanto cientistas sérios realizam suas pesquisas em grafeno, fotônica ou materiais complexos, a poucos metros do MackGraphe, abrigadas pela mesma universidade, outras pessoas dedicam-se discutir e propagar ideias pseudo e anticientíficas. Obviamente refiro-me ao recém-inaugurado Núcleo de Pesquisa Mackenzie em Ciência, Fé e Sociedade – Discovery-Mackenzie. Esse centro propõe-se a "promover estudos científicos focados em complexidade e informação na busca de evidências que apontem para a ação de processos naturais ou design inteligente na natureza." Em outras palavras, ele se dedica a negar uma das mais bem estabelecidas bases da biologia contemporânea: a evolução. O Núcleo Discovery-Mackenzie  está associado ao infame Discovery Institute, sediado em Seattle. Esse instituto tem se dedicado a propagar a falsa percepção de que a evolução é "uma teoria em crise" através de alegação incorreta de que ela é objeto de ampla controvérsia e debate dentro da comunidade científica. Não é. Mais que isso, ele propõe a ideia pseudocientífica do intelligent design como alternativa. Isso nada mais é do que tentar forçar a concepção de universo de uma certa religião como se fosse realidade científica. O Discovery Institute enfrenta forte oposição nos Estados Unidos e vem tentar a sorte em terras que entende mais promissoras para propagar sua pseudociência.
Eu tinha a esperança de que a inauguração do MackGraphe marcaria uma nova era para a UPM, que ela deixaria para trás as atividades pseudocientíficas criacionistas que a caracterizaram entre 2008 e 2012 e que já discuti no blog. Parece que não.
A UPM pode decidir o que quer para seu futuro. A exemplo de Princeton, Yale e outras ela pode abandonar o fundamentalismo religioso e tornar-se uma referência científica, como vem ocorrendo nas PUCs do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul (entre outras) ou senão insistir na mediocridade pseudocientífica dos criacionistas e propaladores do intelligent design. Tentar usar a estratégia de validar academicamente ideias claramente religiosas só desqualifica a instituição. Enquanto o MackGraphe contribui para o avanço da ciência e publica seus resultados em periódicos científicos de prestígio internacional, o Núcleo Discovery-Mackenzie ou MackIntelligentDesign continuará propalando sua pseudociência para o delírio de religiosos e incautos. Nenhum periódico científico sério jamais publicou artigos defendendo o intelligent design. Isso não trará prestígio à UPM. Nenhuma instituição séria no mundo mantém um centro dedicado à pseudociência.

Ontem foi publicado um texto com uma argumentação distinta mas com espírito muito semelhante a este. Recomendo a leitura.

Upideite 1 15/05/2017: O meu amigo Carlos Orsi também publicou um texto com o mesmo espírito em seu blog. Design Inteligente é propaganda, não​ ciência.

Upideite 2 15/05/2017: Enquanto eu terminava esse texto uma emissora de TV religiosa se unia a uma universidade com padrão acadêmico duvidoso, como argumentado acima, para transmitir essa maravilha de propaganda pseudocientífica. O título não podia ser mais mentiroso. Note que os americanos  são apresentados como se fossem cientistas prestigiados (não são). Um brasileiro curiosamente dirige o centro fora da sua própria universidade, que tem um padrão acadêmico que não permitiria o estabelecimento de um dentro de pesquisas em pseudociência.

domingo, 23 de abril de 2017

Onde foi que eu errei?

Um texto meu de 2008 recebeu recentemente talvez o melhor e mais inteligente comentário que já foi feito nesse blog. Infelizmente o autor (ou autora) não se identificou. Segue a íntegra do comentário. Eu adicionei links onde achei relevante:
Cientistas sérios não deveriam se desviar demais das lições da epistemologia. Ninguém é obrigado a concordar com Feyerabend, por exemplo, mas de forma geral a epistemologia contemporânea não só justifica como endossa a criação de linhas alternativas e não paradigmáticas da ciência. Numa perspectiva pós-moderna, Amit Goswami presta serviço à ciência e à sociedade na medida em que produz discursos ricos e de alto valor social, que envolvem filósofos, religiosos, políticos e cientistas, aproximando comunidades inteiras do pensamento científico e criando diálogos, ainda que não caibam nos corredores dos departamentos de física. Não se trata de forma alguma de um embusteiro, mas de alguém que diverge da postura dominante, branca e ocidentalizada do conhecimento. Os físicos deveriam levantar a mão para o céu em agradecimento ao deus que não acreditam por Goswami reascender a vontade de milhares de pessoas de conhecer mais a física e a ciência, ajudando-as a dar os primeiros passos para fora de um cotidiano não-científico, oferecendo um discurso que dialoga a partir desse mesmo cotidiano. Em vez disso ficam preocupados com certa cruzada mecanicista que não encontra apoio nem ouvidos. Sou ateu e não creio numa palavra de Amit Goswami. Mas não vou levar adiante um ceticismo que resvala no preconceito, como muitas vezes as vozes dominantes tão admiradas (inclusive por mim) como a de Sagan, por exemplo, chegou a resvalar. Ao final, o que faz mal à civilização não é a "pseudociência" e sim uma estrutura econômica e política sórdida, da qual a ciência ocidental tem sido aliada incondicional por quatro séculos. Essa sim é responsável pela ignorância científica global.
Por coincidência (ou não) o comentário foi feito pouco antes da Marcha pela Ciência e na mesma semana em que tomei conhecimento de um ótimo texto sobre o pós-modernismo escrito por Helen Pluckrose (há uma versão em português aqui).

Não há a menor dúvida de vivemos tempos complicados para a ciência. Líderes mundiais negam seus resultados. Aqui no Brasil o ex-Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação destinou R$ 10 milhões para uma pesquisa rigorosamente anticientífica (não a pesquisa em si, mas o assunto). Como bem mencionado pelo jornalista científico Michael Specter em seu TED talk, nunca houve um tempo como o atual. Vivemos mais e melhor do que em qualquer outra época devido ao sucesso do método científico. Por que cientistas precisam marchar pela ciência? Por que as pessoas preferem a versão mistificada da ciência proposta por Goswami, o auto intitulado ativista quântico com suas respostas fáceis? Onde foi que nós erramos?

Provavelmente essa questão tem mais de uma resposta, mas ultimamente eu tenho estado muito atento à negação da ciência no próprio meio acadêmico. Em universidades do mundo todo, a poucas dezenas de metros dos departamentos onde ocorrem descobertas científicas grupos de intelectuais se dedicam a discutir a negação da ciência. Citando o texto de Pluckrose, "Acima de tudo, pós-modernos atacaram a ciência e seu propósito de alcançar conhecimento objetivo acerca duma realidade que exista independente das percepções humanas, as quais têm por só mais uma forma de ideologia dominada por suposições burguesas ocidentais." Para eles a ciência nada mais é do que uma construção europeia, ocidental e opressora. Isso se expressa de uma forma particularmente lamentável na África. Eu tive a oportunidade de participar da conferência Going Global 2016, organizada pelo British Council na belíssima Cidade do Cabo, África do Sul. Houve uma sessão chamada "Decolonising the curriculum: a catalyst for change?" na qual os apresentadores reivindicavam a substituição dos conteúdos científicos supostamente europeus por conteúdos genuinamente africanos. Eu da plateia ingenuamente perguntei se existe uma mecânica africana, ou uma teoria eletromagnética africana, ou uma teoria quântica africana. Um dos palestrantes me olhou com desdém, perguntou de onde eu era (apesar de eu ter me identificado ao perguntar) e passou a discorrer sobre o quanto a ciência como ela existe hoje é um mecanismo de opressão e colonização. Confesso que não entendi bem a resposta.

Caro(a) anônimo(a), Goswami presta um desserviço à ciência e à sociedade na medida em que baseia muitas de suas afirmações em experimentos fraudados, publicados em periódicos sabidamente pouco cuidadosos com o rigor científico, e vende sua interpretação pessoal de fenômenos quânticos como se fossem um passo além do entendimento científico. Dessa forma ele reforça as crenças pré concebidas de seus incautos seguidores. A postura dominante, branca e ocidentalizada diante do conhecimento se confunde com o próprio conhecimento. Sim, ciência como nós a entendemos é uma criação europeia que se desenvolveu muito nos Estados Unidos no século passado. Não temos como mudar isso. Eu a percebo como um desenvolvimento da humanidade. A ciência é uma criação humana que não depende de crenças, nossa vontade, de nossa consciência. Ela sim tem um compromisso inequívoco com a realidade física que nos cerca. O resto é política, ou como a sociedade se organiza e distribui as benesses econômicas advindas das aplicações da ciência. Os sucessos e fracassos desse complicado sistema econômico não podem ser creditados ao método científico ou ao fazer ciência.

Um excelente exemplo do quanto misturar posições políticas e pseudociência pode ter consequências catastróficas ocorreu no final dos anos 1990 e 2000 na África do Sul. O então presidente Thabo Mbeki tinha todas as razões do mundo para desconfiar do conhecimento científico ocidental. Ele caiu na conversa fácil de pseudocientistas que negavam a conexão entre HIV e AIDS e combatiam a big pharma. Mbeki não aceitou o uso de anti retro virais, mesmo doados e seguindo as recomendações de seus assessores pseudocientistas fomentou o uso de vitaminas para conter a epidemia. Estima-se que 300 mil pessoas morreram.

Sem dúvida estamos errando por não conseguirmos fazer com que as pessoas percebam que vivem mais e melhor hoje devido ao conhecimento científico. Mas certamente o caminho não é buscarmos nos aproximar do público travestindo esse conhecimento para reforçar suas crenças. Ativismo quântico coisa nenhuma!!!
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