quinta-feira, 6 de março de 2008

Astrologia quântica

Na seção Holofote da Veja de 05/03/08 (acesso exclusivo para assinantes até 19/03/08) a ótima atriz Denise Fraga expressa seu fascínio pela astrologia, a ponto de recomendar que ela seja ensinada no primário, pois "é uma ciência fascinante". Fascinante talvez, mas certamente astrologia não é ciência. Sempre foi um mistério para mim por quê artistas são presas fáceis para as pseudo-ciências.
A ciência é talvez uma das grandes conquistas culturais da humanidade. Termos desenvolvido uma metodologia que permite verificar se nossas idéias correspondem ou não aos fatos levou a níveis de compreensão da natureza que não seriam possíveis de outra forma. A ciência é uma séria ameaça aos mitos e religiões que foram criados ao longo da história para saciar nossa necessidade de encontrar padrões e explicações para o mundo que nos cerca.
O sucesso da ciência é tão grande que mesmo crenças das mais arraigadas buscam validação científica. Isso deu origem ao que chamamos de pseudo-ciências, ou seja, a parte da cultura que se apropria da linguagem científica e aparência científica mas falha na verificação das hipóteses e mesmo assim mantém suas hipóteses, que na verdade são dogmas. A astrologia é um ótimo exemplo de pseudo-ciência, onde misturam-se elementos científicos como o cálculo da posição dos planetas (que não seria possível sem a descrição da gravitação iniciada por Galileu e Newton) com previsões relacionadas ao à posição dos astros atual em relação ao momento do nascimento de cada um de nós. Não importa se testes das hipóteses mostram que elas estão equivocadas, os verdadeiros crentes mantém suas crenças.
Infelizmente para os astrólogos, a mesma teoria da gravitação que permite calcular a posição dos planetas atesta que o efeito da posição dos planetas sobre nós não pode ser sentido pois é muito menor do que os efeitos de outras fontes mais próximas (que também não podem ser sentidos). Por exemplo, a atração exercida sobre nós por um ônibus a 1 metro de distância é muito maior do que a de Júpiter, o mais massivo planeta do sistema solar.
Ainda que existisse uma interação desconhecida, a astrologia não resiste ao paradoxo dos gêmeos: dois gêmeos nascidos no mesmo lugar com alguns minutos de diferença deveriam ter personalidades e trajetórias de vida semelhantes. Isso raramente é o caso. Eu mesmo sou pai de gêmeas completamente diferentes. Se a mudança na posição dos astros durante os 5 minutos de intervalo entre os dois nascimentos é relevante, então é impossível fazer qualquer previsão sem conhecer o local de nascimento com precisão de alguns milímetros na hora de calcular a posição dos astros, e esse cálculo necessitaria ser feito com uma precisão incompatível com as fontes de erro existentes.
O único teste científico sério da astrologia que conheço foi publicado na revista Nature (acesso exclusivo para assinantes) em 1985. O físico Shawn Carter preparou um teste em colaboração com uma instituição de astrólogos respeitada em seu meio, o National Council for Geocosmic Research (uma visita a sua página é uma aula magistral de pseudo-ciência!). A instituição indicou 28 astrólogos reconhecidos como competentes por seus pares. Foram feitos 2 testes duplo-cego: no primeiro os astrólogos prepararam mapas astrais e previsões para 83 pessoas com base em suas datas e locais de nascimento. Cada pessoa foi convidada a escolher entre 3 mapas (o seu e os de outras duas pessoas) qual seria o seu. Em 28 dos 83 casos (ou seja 1/3) a escolha foi correta. Esse é exatamente o resultado esperado pelo acaso. No segundo teste 116 pessoas passaram por um teste padrão de características de personalidade, o California Personality Index. O resultado de cada pessoa foi entregue aos astrólogos junto com mais 2 para que eles determinassem qual correspondia ao mapa astral da pessoa. Em 40 dos 116 casos os astrólogos acertaram, ou seja 1/3 das escolhas. Esse é exatamente o resultado esperado pelo acaso.

Conclusão: as previsões astrológicas não são melhores do que fazer previsões ao acaso. As previsões da astrologia não são previsões.

O que leva pessoas como Denise Fraga a acreditarem na astrologia?
Há uma conspiração de pelo menos dois fatores:
1. O efeito Forer, assim chamado em homenagem ao psicólogo Bertram R. Forer, que observou que as pessoas tendem a aceitar descrições vagas e gerais de personalidade como especificamente aplicáveis a elas sem se dar conta que a mesma descrição serve para quase todo mundo. Por exemplo: "Você é uma pessoa sensível. Você sente necessidade de que os outros gostem de você e o admirem, ainda que você tenda a ser autocrítico. Algumas vezes sente-se só no mundo, como se ninguém entendesse você." E assim vai... Isso impressiona.
2. A predisposição para a confirmação, uma forma de pensamento seletivo em que tendemos a reparar nos fatos que confirmam nossas crenças e ignorar ou desprezar a relevância dos que os contradizem. É assim que se formam os preconceitos. Em relação à astrologia isso se traduz na memória seletiva em relação aos acertos das previsões desprezando-se os erros.

Astrologia é uma pseudo-ciência. Ciência deve ser ensinada na escola. Pseudo-ciências não. Assim como a humanidade, as crianças em seu estágio inicial de desenvolvimento podem ser levadas a pensar que ciências e pseudo-ciências são equivalentes.
Pelo mesmo motivo, num estado laico o criacionismo não deve ser ensinado nas escolas.

Denise Fraga termina a entrevista dizendo que "Você vê isso quando estuda astrofísica, física quântica. A ciência e a religião convergem para um ponto no fim do túnel". Não sei o quanto ela entende do princípio da incerteza ou da equação de Schroedinger.
Eu venho estudando física quântica há quase 30 anos. Quanto mais aprendo mais me convenço que ciência e religião não convergem nem podem convergir. Devo ter entrado no túnel errado...

Agradeço ao amigo e colega Cristiano Cordeiro por ter me chamado a atenção para a entrevista.

7 comentários:

Marcia disse...

Seria "pseudo-ciência o melhor termo para descrever "pseudo-ciências" como a Astrologia?
Pseudo me passa a impressão de falsa.

Rodrigo disse...

@Marcia

hmmm.... será que passa a impressão de falsa justamente porque é isso que se quer dizer? :)

Astrologia não é ciência de jeito maneira, é só mais uma superstição que teima em persistir.

Cristian Gladistone Kossmann disse...

Olá!

É certo que a Astrologia não é uma ciêcia. O problema em questão sobre ser ou nao uma ciencia, está embutida na seleção de hipoteses mais provaveis que é o que justifica a ciencia no seu sentido mais pratico. Pensamos que a Astrologia deveria ter a mesma eficacia matematica que a fisica. Mas esquecemos que esse é o lado aparente dela. Talvez o seu grande erro foi querer provar aos olhos das "novas ciencias" e com o mesmo metodo sua relevancia tanto cientifica, justamente para estar ao lado do que pensamos como verdade, como sendo tambem uma das inumeras explicações da realidade. E o que vemos a respeito da realidade é apenas um aglomerado de ações, nao é nem de teoria, pois se a ciencia se baseasse em teorias, nao teriamos que ficar discutindo sobre a cientificialdade da Astrologia. Devemos repensar a verdade nos tempos atuais, para nao cair em opinioes comuns que estão impregnando tudo ao seu redor, como se o mundo em poucos anos, pudesse compreeder tudo atraves de justificações contra o saber que nao tem tempo.

Qualquer coisa, msn:
gladistone1@hotmail.com

André Luiz disse...

Parabéns pelo blog! Estou gostando muito do que li até agora. Gostei em especial desse texto e quero dar uma lida nesse artigo super interessante do Carter, não conhecia.

Astrologia não poderia se encaixar no conceito de ciência por uma série de razões. A mais óbvia é a sua rigidez, ja que a idéia subjacente a ela criada por Ptolomeu no século 2 a.c. não se modificou significativamente, apesar da descoberta de outros planetas no nosso sistema de lá para cá.

E toda idéia de influência da posição dos planetas na nossa carreira, personalidade e conquistas se baseia em nada além de "achismo", e não parece haver muito interesse por parte dos astrólogos em empreenderem esforços para testar hipóteses do que eles professam. Eles ganham o dinheiro que precisam, e isso parece satisfazê-los.

No mais gostaria de agradecer pelos textos inteligentes, bem escritos e esclarecedores dos autores do blog, ja estou seguindo!
um abraço,
André

Teresa Falcão disse...

Olá! Já conhece o trabalho do Hélio Couto? Tem várias palestras dele na internet. Obrigada pela atenção. Teresa

Fabiana bornacina disse...

Olá Leandro tudo bem ? Desculpa a minha ignorância no assunto mas me bateu a curiosidade para aprender um pouco de física quântica e gostaria de saber se tem alguma relação entre a astrologia e física quântica, em qualquer forma, se há alguma explicação da astrologia através da física quântica ou até mesmo em relação a reencarnação. Se vc souber de algum artigo relacionado a isso vc poderia me passar o link ? Se não for te incomodar. Muito obrigada

Leandro R. Tessler disse...

Fabiana,
Obrigado por nos visitar.
A Física se ocupa de modelar fatos observados experimentalmente. Como o artigo mostra, não há nenhuma evidência experimental de que a astrologia consiga fazer alguma previsão. Da mesma forma, não há nenhuma evidência confiável de reencarnação. Portanto a física quântica não serve para explicar nem a astrologia nem a reencarnação.
Abraço.

Creative Commons License
Os direitos de reprodução de Cultura Científica são regulados por uma Licença Creative Commons.