quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Fosfoetanolamina: O Cogumelo do Sol da USP

Como meu amigo Carlos Orsi, inicio por um disclaimer: há aproximadamente uma década perdi uma pessoa muito próxima por causa de um câncer. Como ele, sei bem o que é ser forçado a entender que mesmo com todas as conquistas que tivemos em algumas situações o desenvolvimento científico na área da saúde simplesmente não tem nada a oferecer. Sei muito bem o que é passar por esse sentimento de impotência.


Acho que tudo o que podia ser dito sobre fosfoetanolamina e mais um pouco já foi dito nos últimos dias em blogs e na grande imprensa. Testes clínicos, eficácia, cura do câncer, gênio brasileiro, direito dos pacientes, etc...

Eu quero aqui abordar um aspecto pouco comentado do assunto que me preocupa muito porque está relacionado a como funcionam mal as instituições no estado brasileiro.

Em 2003 o Ministério Público do Estado de São Paulo solicitou a condenação da empresa Cogumelo do Sol Agaricus do Brasil Comércio Importação por propaganda enganosa e abusiva além de danos morais difusos. O requerimento inicial é muito claro em relação ao quanto a publicidade é enganosa:

"A publicidade, portanto, é capaz de induzir o consumidor em erro principalmente pela superficialidade com que trata de dado essencial do produto, qual seja, a de que é alimento e não remédio. E abusiva porque se baseia em depoimentos de supostos consumidores que oferecem relatos de que encontraram verdadeira solução para seus problemas de saúde com o uso do produto, induzindo consumidores que estão fragilizados por sofrerem de alguma enfermidade ou por terem amigos e familiares sofrendo dos mesmos problemas a adquirirem o produto como solução para tais problemas, além do fato desses depoimentos serem ratificados pelos populares apresentadores dos programas televisivos nos quais é normalmente veiculada a publicidade, quais sejam, os matutinos direcionados às mulheres e os vespertinos de variedades. Não bastasse, vale-se de um “simpósio” sobre cogumelos, com participação de um médico e um funcionário da EMBRAPA, o Instituto Brasileiro de Pesquisa Agropecuária, que evidenciam que o Cogumelo do Sol é o melhor dentre os cogumelos, visando, assim, dar reconhecimento científico ao produto, cujas propriedades terapêuticas não são cientificamente comprovadas, tanto é que o produto é registrado no Brasil como alimento ou complemento alimentar. Logo, a publicidade é abusiva na medida em que, utilizando-se dos citados artifícios, visa dar credibilidade ao produto como solução para problemas de saúde, o que pode levar o consumidor a crer em propriedades que o produto não tem, podendo levá-lo a se comportar de forma prejudicial à sua saúde, na medida em que pode deixar de procurar orientação médica ou abandonar tratamentos convencionais para buscar a “solução” no Cogumelo do Sol."

 Em 2014 finalmente a empresa foi multada.

Se trocarmos Cogumelo do Sol por fosfoetanolamina, Embrapa por USP e adaptarmos um pouco, o texto poderia se aplicar ao caso atual.

Infelizmente não foi esse o entendimento do juiz que proferiu ler a sentença que determina que o Instituto de Química de são Carlos (IQSC) da USP deve distribuir a droga, que não tem autorização para uso humano ou veterinário pela ANVISA. A sentença se vale da dissertação de mestrado de Renato Meneguelo como evidência científica; Na verdade, Meneguelo é também coautor de 4 artigos que aparecem no currículo de seu orientador. Todos versam sobre estudos in vitro ou com camundongos.

O que a fosfoetanolamina tem que o Cogumelo do Sol não tem?

  1. Um nome complicado. Princípios ativos que funcionam têm em geral nomes que nos fazem lembrar as aulas de química orgânica. Isso até faz sentido: mesmo que o cogumelo do sol contivesse um princípio ativo interessante, sua concentração no cogumelo dependeria de diferentes fatores como época . Aliás, esse é em geral o caso de princípios ativos presentes em fitoterápicos. É muito difícil saber quanto efetivamente tem de princípio ativo em uma planta ou fungo em particular. 
  2. A USP. Acho que ter envolvido a USP e a forma como a sociedade percebe a universidade pública no Brasil foi determinante para a sentença do juiz.
Nos anos 1990 apareceu uma tal dieta da USP que fez algum barulho nos meios dietéticos. Da USP ela só tinha o nome, pois nenhum departamento ou instituto assumiu a autoria. Nem tinha como, pois ela não foi desenvolvida na USP.

Agora um juiz assume que se a droga vem da USP é porque é boa, nem precisa pássar por testes clínicos.

Imagine um juiz obrigar a Cogumelo do Sol Agaricus do Brasil Comércio Importação a distribuir gratuitamente seus cogumelos, pois não se pode tirar a esperança de pacientes terminais? Foi exatamente isso o que ocorreu com a USP.

Ao contrário do que vem sendo afirmado, fosfoetanolamina não foi inventada na USP. O grupo do IQSC desenvolveu uma nova maneira de sintetizá-la, com um custo declarado de R$0,10 por cápsula.
Desculpem desapontá-los, mas fosfoetanolamina é um composto disponível comercialmente no Brasil. Quem dispor de R$4914,00 pode comprar on-line 500g do produto, entregue em casa (acredito que em função do noticiário recente o vendedor toime algumas precauções antes de entregar). Isso corresponde a R$0,009828 por mg. Não sei quanta fosfoetanolamina está presente nas cápsulas, mas se for 10mg sai por menos de R$0,01. Se for 100mg chegamos a R$ 0,09828, perto do custo declarado pelo professor aposentado da USP. Uma vez de posse do produto, uma balança de precisão e alguma instrumentação qualquer estudante do ensino médio que teve aula de laboratório de química é capaz de encapsular a fosfoetanolamina na dose que bem entender. Então pode ingeri-la com o fim que bem entender: cura para o câncer, resfriado, disfunção erétil, queda de cabelo, lumbago,.. Não seria preciso obrigar a USP a sintetizar e distribuir gratuitamente esse composto.

As pessoas não fazem isso porque fosfoetanolamina tem registro na ANVISA para esses fins. Só o fazem porque acreditam que os tumores vão se dobrar perante o peso da USP. Infelizmente não. Eu adoraria saber que essa molécula realmente cura vários tipos de câncer. Mas isso só acontecerá se alguma equipe conseguir financiamento para realizar os testes clínicos.

A total ignorância de juízes sobre como funciona uma instituição de pesquisa e ensino e as responsabilidades envolvidas causam esse tipo de situação. Sempre me pergunto a quem os familiares dos pacientes terminais vão se queixar se a droga não tiver o efeito esperado. Quem será o responsável? A USP? 

Essa história toda revela como a sociedade brasileira percebe suas universidades. Numa sociedade minimamente letrada cientificamente um juiz não determina que uma universidade deve sintetizar um composto e distribuí-lo gratuitamente a quem o queira. 

A justiça brasileira fez da fosfoetanolamina o Cogumelo do Sol da USP, apesar de institucionalmente o IQSC da USP negar veementemente seus superpoderes. Essa mesma justiça deveria avançar para um desfecho semelhante ao do Cogumelo do Sol.


Agradeço ao Clécio que me chamou a atenção para a disponibilidade comercial da fosfoetanolamina.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Luz, Ciência e Vida

Comemorando o tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2015, Luz, Ciência e Vida estou participando da blogagem coletiva proposta pelo meu colega e amigo Roberto Takata.

Eu decidi escrever sobre uma aplicação muito importante da luz na sociedade contemporânea, que é transmitir informação. Eu estou escrevendo a partir da minha casa. Meu computador está conectado à rede através de um cabo muito especial: ao contrário dos fios de telefone, de TV ou que transportam eletricidade e são feitos de metal, esse cabo é feito de vidro. Trata-se de uma fibra ótica. Ele é muito fino, tipicamente um quarto de milímetro de diâmetro. Dentro dele viajam pulsos de luz com uma atenuação baixíssima. Nesses pulsos estão codificadas cada letra do texto que escrevo agora (e muito mais) de forma que a informação possa chegar a todo mundo. É difícil as pessoas se darem conta da quantidade de ciência, conhecimento e compreensão de fenômenos que está envolvida nesse sistema que para o usuário pode parecer banal. Começando pela fibra: Nela a luz se propaga praticamente sem perdas. Fibras óticas são uma invenção humana, baseada no entendimento do fenômeno que chamamos de reflexão interna total quando a luz incide em uma interface entre dois meios vindo do meio com maior índice de refração.   Uma vez isso entendido foi preciso desenvolver vidros muito homogêneos e passíveis de serem esticados na forma de fibras com dezenas de quilômetros de comprimento. A elas é preciso acoplar emissores de luz que podem ser modulados (tipicamente lasers semicondutores) que modulam a luz emitida, ou seja, acendem e apagam alguns bilhões de vezes por segundo transmitindo a informação na forma de um código binário. Mesmo com baixas perdas por atenuação, os pulsos de luz se dispersam pelo caminho e a cada 50 km precisam ser regenerados e amplificados. Até 20 anos atrás isso era feito transformando a luz em sinais elétricos através de um detetor, amplificando eletronicamente e reemitindo a luz por intermédio de um laser. Atualmente isso é feito por um amplificador ótico, sem necessidade de eletrônica. Não é um exagero dizer que a internet acessível a de baixo custo só é possível graças aos desenvolvimentos envolvendo a luz. Atualmente uma das áreas de pesquisa que se desenvolve mais rapidamente no mundo é a chamada fotônica, A ideia é que usamos luz, fótons, como transportadores e mediadores de informação, como os elétrons na eletrônica. Até os anos 1980 essa palavra praticamente não existia, e só passou a ser usada de verdade a partir dos anos 1990.
Hoje em dia fibras óticas estão presentes em praticamente toda a transmissão de informação. Ligações telefônicas, sinais de TV, texto e internet em algum momento passaram por uma fibra ótica. Conexões internas de data centers usam fibras, e já se fala em conexões óticas dentro de um computador (inter-chip) e mesmo dentro de um circuito integrado (intra-chip).
Na próxima vez que você falar ao telefone, ou usar a internet, ou assistir TV a cabo, ou de alguma forma transmitir ou receber informação de forma eletrônica, pode ter certeza que em algum momento essa informação viajou na forma de luz. Luz não é só ciência e vida, mas também um elemento da natureza que pode ser entendido, dominado e usado para tornar nossa vida mais confortável e prazerosa. Aliás, como tudo o que chamamos de tecnologia.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Vi verde luz

Está previsto para o dia 19 de agosto de 2015 na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp o curso introdutório Viver de Luz . Quando vi o título fiquei muito contente. Entendi que os pesquisadores em genética da Unicamp haviam finalmente conseguido introduzir no genoma humano genes capazes de sintetizar clorofila. Fazendo fotossíntese, finalmente os humanos poderiam dispensar alimentos e viver de luz, como as plantas. Por um instante comecei a imaginar a repercussão que o feito teria. Talvez finalmente uma pesquisa brasileira candidata ao Prêmio Nobel.
Quando parei para ler o conteúdo do curso voltei à dura realidade. Trata-se na verdade de uma mesa redonda da qual participarão um "médico antroposófico" e um "terapeuta, pesquisador de homeostase quântica informacional". Nem vou discutir se medicina "antroposófica" deve ter espaço na universidade. O que será homeostase quântica? Para entender esse sutil conceito é preciso buscar informação na fonte: a página web do Instituto Quantum, aparentemente mantido pelo terapeuta convidado. Minha primeira impressão na página é que se tratava de um lugar que estuda os elementos das terras raras: há um modelo de um átomo de Európio (Eu) na entrada. Curiosamente só com 5 dos 63 elétrons do elemento, num modelo de Bohr simplificado que não faz jus à complexidade dos orbitais f que caracterizam esse elemento.
Segundo o Instituto Quantum, homeostase quântica da essência (não consegui entender se é o mesmo que informacional), é uma "terapia vibracional que ensina as pessoas a adquirirem o autocontrole da saúde emocional, mental e física, capacidade natural do ser humano que depende apenas do correto entendimento de como acessá-la ". Acho que não entendi. Mas onde entra a equação de Schroedinger, a quantização? "Através do estudo quântico dos três elementos da Essência humana, da conscientização, interação e da metodologia correta para manter a harmonia entre eles, as pessoa (sic) além de aprenderem que é possível controlar a mente, as emoções e o corpo físico, aprenderão a viver de maneira saudável e feliz, assumindo o controle de suas vidas e desfrutando da independência adquirida. Aprenderão também que não é preciso acreditar para conseguir alterar os sentimentos, basta querer." Continuei sem entender. Encontrei um vídeo do terapeuta em que ele é mais explícito, com legendas em inglês para mostrar para o mundo que a coisa é séria. Ai meu bom Max Plank, mais um que invoca teu nome em vão...
O entrevistado mostra, em todas suas referências, que tem um entendimento muito particular da Mecânica Quântica, em descompasso com o que qualquer estudante de Física sabe. Em suma, um amontoado de bobagens de auto ajuda, com as palavras que esse pessoal adora: vibrações, quantum, consciência, dessa vez junto com homeostase; no mesmo estilo da aula sobre "Saúde quântica" dada na UNIFESP que já comentei aqui.
Deixar-se enganar por um terapeuta que não entende a Física Quântica e diz bobagens sobre ela é um direito do cidadão. Não há nada de errado em ter crenças esquisitas.
Lamentável é isso se transformar em um evento oficial na Unicamp, com um cartaz exibindo os logos da Universidade e da Faculdade de Ciências Médicas.
O que faz da Unicamp uma das melhores universidades da América Latina é a seriedade e o rigor nas suas atividades. Quando uma unidade da universidade abre espaço para esse tipo de coisa ela está validando pseudociência como se fosse uma atividade científica. É um caminho extremamente perigoso para sua reputação. Não deve haver espaço para atividades pseudocientíficas em universidades sérias. Universidades têm a responsabilidade de mostrar à sociedade o que é possível a partir do conhecimento científico, e indicar a diferença entre ciência e crença de alguns travestida de ciência.
Assim como outros professores da universidade, mandei uma mensagem ao Diretor da FCM alertando para a leviandade por trás da "homeostase quântica", que aliás nunca foi publicada em revista científica séria. Solicitei que a Faculdade retirasse o apoio institucional ao curso. Até agora sem resposta.
Infelizmente parece que a Unicamp está no mesmo perigoso caminho da UNIFESP: confundir o público validando práticas da nova era. Não deve haver espaço para pseudociência na universidade. Como um pacato cidadão pode saber a diferença de eficácia entre a "homeostase quântica" e os cursos com base científica oferecidos pela universidade, se todos são tratados institucionalmente da mesma forma? Qual o interesse em oferecer aos estudantes de medicina e ao público um curso sem base científica?

Ao contrário do que afirmei ironicamente acima, o Eu do átomo do Instituto Quantum não é o símbolo do Európio, mas o pronome pessoal Eu, que para os mecânicos quânticos da nova era deve parecer um átomo de boro...

domingo, 24 de maio de 2015

Why Dawkins matters?

Richard Dawkins está de volta ao Brasil para participar da série Fronteiras do Pensamento. Ele dará palestras em Porto Alegre e São Paulo.

Richard Dawkins é talvez um dos intelectuais mais importantes do nosso tempo. Não por acaso, é o cientista que os criacionistas e adeptos do intelligent design mais adoram odiar e criticar.

Richard Dawkins Cooper Union Shankbone.jpgRichard Dawkins é um biólogo evolutivo que ganhou fama com seu livro O gene egoísta, que foi publicado originalmente em 1976. Esse livro tem como ideia central o protagonismo dos genes no processo evolutivo. A partir dessa ideia Dawkins resolve um paradoxo que me preocupava muito nas aulas de biologia sobre evolução no ensino médio: o que os professores chamavam de instinto de preservação da espécie. Isso faria com que os animais fossem solidários e adotassem estratégias de sobrevivência como um grupo. Eu nunca entendi bem o que faria com que um peixe ou um caramujo ou um polvo sacrificasse sua vida para que seu coleguinha de espécie sobrevivesse. Parecia muito paradoxal para animais com capacidade de raciocínio muito limitada ou nula. Até hoje pessoas escrevem artigos invocando esse "princípio". Na verdade não tinha mesmo o que entender. Usando seu modelo e alguns algoritmos matemáticos Dawkins desvenda o enigma: a razão é simples. Espécies que não apresentam traços de altruísmo e solidariedade simplesmente desaparecem ao longo do processo evolutivo. São extintas. Altruísmo é uma estratégia estável evolutivamente. Ausência de altruísmo não é. Depois de ler a argumentação de Dawkins parece óbvio. A favor de minhas professoras de biologia, é importante notar que que estudei exatamente quando o livro era publicado e naquela época ele não deve ter chegado ao Brasil tão rapidamente. Quando li esse livro, na edição comemorativa ao seu trigésimo aniversário, fiquei tão fascinado que me perguntei se eu não teria seguido uma carreira em biologia evolutiva se o tivesse lido na época certa. As ideias de Dawkins foram fortemente criticadas por pesos pesados da biologia como Ernst Mayr ou Stephen Jay Gould. A ciência funciona assim: evolui a partir de críticas bem embasadas e consistentes.

Richard Dawkins não parou por aí. A Zero Hora propõe a leitura de 5 livros para entendê-lo. Um que eu gosto muito é o Relojoeiro Cego de 1986. Nesse livro Dawkins explica com uma linguagem acessível como é possível a evolução resultar em seres mais complexos sem a intervenção de uma mente suprema. Em outras palavras, é uma excelente aula de recuperação para os adeptos do intelligent design que faltaram à aula sobre segunda lei da termodinâmica, ou nunca a estudaram ou pior, não a entenderam.

Richard Dawkins provavelmente não teria sido convidado para o evento do Fronteiras porque propôs uma teoria que explica o instinto de preservação da espécie,  ou por ter explicado em linguagem simples a segunda lei da termodinâmica para adeptos do intelligent design. Dawkins aborda uma questão fundamental na sociedade contemporânea em seu livro de livro Deus, um Delírio (eu gosto muito mais do título em inglês, The God Delusion). Nesse livro Dawkins toma uma posição extremamente lúcida e corajosa sobre o diálogo ciência-religião. Segundo Dawkins, a existência ou não de um Deus (ou vários Deuses) é uma hipótese científica e pode ser testada. A resposta dos testes até agora tem sido: "Tudo indica que não existe um Deus (ou vários Deuses) determinando os processos naturais." Isso é muito diferente do que outros intelectuais/cientistas vinham afirmando. Para preservar uma boa convivência com o establishment religioso, o já citado Stephen Jay Gould criou a expressão magistérios não-interferentes (Non-overlapping magisteria, ou NOMA). Segundo Gould, "A ciência busca documentar o caráter factual do universo natural e desenvolver teorias que descrevem e explicam esses fatos. A religião, por outro lado, atua no igualmente importante, mas completamente distinto, reino dos propósitos humanos, significados e valores - assuntos que o  domínio factual da ciência pode iluminar mas jamais resolver." Esse dois reinos são o NOMA. Obviamente a visão de Gould é diplomática num contexto em que a grande maioria da população crê em um ou mais Deuses. Dawkins insiste que as pessoas são livres para acreditarem no que querem, mas é um erro estratégico a religião buscar legitimidade no domínio científico. A ciência tem sido bastante compatível com a ideia de que não existe um ou mais Deuses. É exatamente por isso que as ideias de Dawkins vão muito além da sua contribuição à teoria da evolução. É por isso que os religiosos e adeptos do intelligent design odeiam Dawkins e tentam sempre colocar em dúvida sua contribuição à ciência. É por isso que as ideias de Dawkins importam.

Richard Dawkins mantém a Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência.

Para quem como eu não poderá assistir as palestras de Dawkins, recomendo assistir os documentários The Root of All Evil e The Enemies of Reason.

O título desse texto é inspirado no livro de Michael Shermer Why Darwin Matters.

Esse post é dedicado a Norma e Duda, minhas professoras de biologia lá nos idos dos anos 70. 

Upideite 29/05/2015: Azar dos azares, Dawkins tropeçou ao entrar no avião e caiu quando ia embora do Brasil. Teve um corte na cabeça que precisou de uma sutura. Contra sua vontade (ele queria ir embora) foi levado a um hospital onde foi suturado. Dois comentários dele dignos de nota:

  1. Ficou impressionado por ter tido que esperar pouco no hospital, comparado com o que esperava a partir de sua experiência com hospitais britânicos.  Ele provavelmente não foi levado a um pronto socorro do SUS.
  2. Nenhum enfermeiro ou paramedico que o atendeu falava uma palavra em inglês. O médico era fluente em inglês. Mais um retrato da sociedade brasileira.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Par ou ímpar?

É comum ultimamente ouvirmos afirmações do tipo "há uma crise na academia" a respeito de determinado assunto. Como é possível saber se essa crise ocorre na comunidade científica acadêmica ou na academia de ginástica frequentada por quem faz a afirmação e sua imaginação?
Para entender isso é preciso antes descobrir como a comunidade científica estabelece o senso comum sobre nossa compreensão do universo que nos cerca.
Há centenas de anos alguns rituais e procedimentos consensuais se estabeleceram para determinar se realmente as ideias correspondem aos fatos ou são pura imaginação.
Um  dos processos mais respeitados e aceitos por todos é a revisão por pares. Ele consiste em
submeter as comunicações científicas a pessoas com largo e estabelecido conhecimento na área para verificarem se o artigo representa de alguma forma um avanço ou uma contribuição relevante.
As revistas mais rigorosas e prestigiosas lançam mão de dois ou três revisores para anonimamente opinarem sobre os artigos submetidos. A aceitação para publicação depende de pareceres positivos dos revisores. O prestígio acadêmico de publicações como Nature ou Science é resultado do rigor e da seriedade de seu processo de revisão.
Não esqueço do orgulho que me tomou quando fui convidado pela primeira vez para ser revisor de um periódico importante. Foi há quase 30 anos no Applied Physics Letters. Para mim significava ser reconhecido como alguém de confiança para ajudar a decidir o que deve e o que não deve ser publicado na minha área. Depois disso me tornei revisor de outros periódicos. Essa é a trajetória normal de cientistas com produção de artigos minimamente relevante. Isso foi em tempos pré-internet, em que o acesso a artigos ocorria unicamente através de periódicos impressos que ficavam na biblioteca. Só era possível ler artigos que tinham passado pelo processo de revisão.
A internet abriu possibilidades nunca antes imaginadas para o acesso à informação. Eu  já comentei isso anteriormente. A internet permite que qualquer pessoa difunda suas ideias, produção artística, científica ou literária sem depender de cair nas graças de um editor ou ter seu artigo revisado por pares. A internet subverte o processo de revisão por pares..
Isso tem vantagens e desvantagens. A desvantagem mais óbvia é a exatamente a mesma que a vantagem: qualquer um pode se dizer artista, escritor ou cientista e divulgar sua produção sem passar por revisão alguma. Pseudocientistas abundam, com sites bem organizados e com aspecto respeitoso. Basta mandar seu artigo para o ArXiv, um impressionante repositório de um milhão de artigos não revisados mantido pela Universidade Cornell. Originalmente a ideia era permitir acesso rápido aos artigos durante o processo de revisão.
No entanto, os periódicos com revisão por pares continuam conferindo prestígio aos artigos neles publicados e são a referência quando falamos da comunidade acadêmica.
Nos últimos anos vem acontecendo uma explosão dos chamados periódicos de acesso livre.  Alguns ganharam rapidamente uma reputação invejável por sua seriedade, dinamismo e obviamente o acesso livre. Esse é o caso por exemplo do PLOS One.
Mas como a internet é livre da noite para o dia surgem periódicos nada sérios. Eles podem ter fins lucrativos, apresentando um processo de revisão por pares absolutamente frouxo ou não existente para que qualquer bizarrice seja aceita mediante uma módica contribuição por parte do autor. é o equivalente a autores de livros que pagam a edição impressa de suas obras medíocres. Esses são chamados apropriadamente de editores predatórios. A outra vertente, com uma agenda política e sme sem fins lucrativos, se dedica a publicar ideias pseudocientíficas e contrárias ao que a comunidade acadêmica aceita como ciência.

Recentemente recebi a mensagem que reproduzo a seguir:

De: ASCITNews
Para: tessler

Dear Tessler, L.R. ,

AASCIT is seeking individuals with diverse areas of expertise to serve as peer reviewers or editorial board members to evaluate papers submitted to AASCIT journals. The peer review process used by AASCIT enhances the efficiency and maximizes the quality of the paper.
After reading your article Structural characterization of ZnO/ Er2O3 core/shell nanowires published in Superlattices and Microstructures, our Editorial Board speak highly of it and think you are qualified to be a Reviewer or Editorial Board Member in our journals to review papers.Now, we sincerely invite you to join us serving as a journal Reviewer or Editorial Board Member and you will get below benefits:

1. Publish your own papers with certain discounts in our journals.
2. Enriching your knowledge and broadening your horizon by reading others’ papers.
3. Get a certificate.

A reviewer's responsibilities include reviewing manuscripts for clarity, accuracy, and research rigor; identifying the strengths and weaknesses of manuscripts and so on. For more details, you can visit: http://www.aascit.org/journals/callforeditorial

You can also visit our journal page to check the journals in which you are interested. If you are interested in becoming a Reviewer or Editorial Board Member, please submit your application through our online system:  http://www.aascit.org/common/login

We are looking forward to your participation.

A tradução corresponde a:
Caro Tessler, L.R. ,

AASCIT está à procura de indivíduos de diversas áreas de especialização para atuar como revisores ou membros do conselho editorial para avaliar os artigos submetidos aos periódicos da AASCIT. O processo de revisão por pares usado por AASCIT aumenta a eficiência e maximiza a qualidade do artigo.
Depois de ler o seu artigo Structural characterization of ZnO/ Er2O3 core/shell nanowires publicado em Superlattices and Microstructures, nosso Conselho Editorial tem falado muito bem dele, o que qualifica você para ser um revisor ou Membro do Conselho Editorial em nossas revistas para avaliar artigos. Então sinceramente convidamos você a se juntar a nós atuando como revisor ou como membro do Conselho Editorial e você terá benefícios abaixo: 

1. publicar seus próprios artigos com descontos em nossas revistas.
2. Enriquecer seu conhecimento e ampliar seu horizonte, lendo artigos de outros autores.
3. Obter um certificado.

As responsabilidades de um revisor incluem a revisão dos manuscritos para clareza, precisão e rigor na pesquisa; identificar os pontos fortes e fracos de manuscritos e assim por diante. Para mais detalhes visite: http://www.aascit.org/journals/callforeditorial

Você também pode visitar a nossa página para verificar as revistas em que você está interessado. Caso você se interesse em se tornar um Revisor ou Membro do Conselho Editorial, por favor, envie seu pedido através do nosso sistema on-line: http://www.aascit.org/common/login


Contamos com a sua participação.

Essa mensagem me chamou a atenção por alguns motivos:

1) O artigo mencionado é um artigo de congresso, com poucas citações na literatura. Não é exatamente o que qualifica um revisor num periódico sério. Eles pelo menos podiam escolher um artigo mais citado para tentar massagear meu ego.
2) Eles me convidam não só para ser revisor de algum periódico, mas também para participar do Conselho Editorial. Nos periódicos sérios isso é  restrito a verdadeiros experts. Mais uma tentativa de massagear meu ego.
3) Eles oferecem vantagens para ser revisor e um certificado. Bom, para o Brasil onde exigem certificado de tudo isso é maravilhoso. Imagine o prestígio que vou ganhar com o certificado de revisor emoldurado na minha sala! 
4) Eu nunca tinha ouvido falar dessa AASCIT (para mim ascite é barriga d'água).

Lá fui eu buscar saber do que se trata a AASCIT. Ela tem um site que parece sério. No entanto uma busca no Google mostra que ela está na lista de editores predatórios Beall's List, na Scientific Scam, e o melhor de tudo, seu site fica na Tailândia e é classificado como de risco, apesar de AASCIT significar Associação Americana (e não tailandesa) de Ciência e Tecnologia.

Ou seja, melhor ficar longe disso.

Agora além de nos preocuparmos com pseudociência precisamos também nos preocupar com pseudoeditoras e pseudoperiódicos.
Há vários exemplos de artigos falsos que foram enviados para testar o sistema de pseudorevisão por pares de pseudoperiódicos com fins lucrativos. O mais engraçado talvez seja o de David Mazières e Eddie Kohler, que submeteram um artigo chamado "Tirem me da merda da sua lista de mail" no International Journal of Advanced Computer Technology. O texto todo do artigo consiste nas palavras Get me off your fucking mail list repetidas ad nauseam. O artigo foi aceito com relatórios muito positivos dos revisores.

Há também os pseudoperiódicos com uma agenda definida, para dar roupagem científica à pseudociência. Aqui no Brasil temos o International Journal of High Dilution Research, que se dedica a divulgar a pseudociência que "valida" a homeopatia. Uma rápida olhada no tipo de artigo ali publicado dá uma boa ideia do que se trata. O pseudocientífico Life, "uma revista internacional de acesso livre, revisada por pares de estudos científicos relacionados a temas fundamentais nas Ciências da Vida, especialmente aquelas relativas às origens da vida e evolução de biosistemas" ficou famoso por artigos que não passariam em lugar algum minimamente sério. Num deles, com o pomposo título Teoria das Origens, Evolução e Natureza da Vida o autor faz um impressionante jogo de palavras sem sentido de mais de 100 páginas, rapidamente analisado por PZ Myers. Outro, "Seria a vida especial?" é realmente especial. Começando pelo endereço que autor apresenta: Department of ProtoBioCybernetics and ProtoBioSemiotics, Origin of Life Science Foundation, Inc., 113-120 Hedgewood Drive, Greenbelt, MD 20770, USA. Como mostrado pelo mesmo PZ Myers, não só essa instituição não existe como o endereço corresponde à casa do autor, David L. Abel.
O próprio Discovery Institute, bastião americano da pseudociência conhecida como Intelligent Design, reconhece a importância da revisão por pares e disponibiliza uma lista de artigos  aceitos supostamente com revisão por pares. A lista inteira foi refutada, artigo por artigo. Desnecessário dizer que pseudociência não passa por revisão por pares séria.

Como saber se realmente há uma crise na academia em relação a determinado assunto? Fácil: busque a informação onde a academia busca: periódicos sérios revisados por pares, não pelos ímpares que estão por aí confundindo a academia de verdade com a academia de ginástica.

Exercício: procure nos periódicos sérios se há alguma dúvida a respeito do processo de seleção natural, ou da evolução.
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