domingo, 30 de março de 2014

Uma aula de pseudociência

Por vários motivos, pseudociência não deve ser acolhida em universidades prestigiosas. Na verdade não deveria entrar em instituição alguma que se pretenda séria.
Depois do evento sobre Saúde Quântica, fiquei muito curioso em relação a que significado os proponentes dão ao tema. Trabalho com Física Quântica há 30 anos e não consigo entender o que isso pode ter a ver com saúde. Encontrei no YouTube uma aula dada pelo Engenheiro Wallace Liimaa (não, meu teclado não está com defeito, ele escreve assim mesmo) num programa de pós-graduação da UNIFESP. O Professor Liimaa é provavelmente a maior referência em Saúde Quântica no Brasil. No entanto, mesmo tendo prestado bastante atenção na aula toda (requer tempo e uma boa dose de paciência) não é possível entender o que significa saúde quântica. O que aprendi é que o Professor Liimaa tem um entendimento bastante limitado e confuso da Física Quântica. A aula inclui um amontoado de conceitos errados, equivocados ou fora de contexto, apesar de fazer referência a cientistas historicamente importantes e usar termos corretos. Trata-se de pseudociência na sua forma mais pura: um monte de baboseiras ditas com um linguajar sofisticado que parece cientifico, vagando entre agricultura orgânica, autoajuda, new age e intelligent design. Quase nada de Mecânica Quântica. O que realmente não consegui entender é como isso se tornou uma aula num programa de pós-graduação de uma das melhores universidades do Brasil.


Para que você não precise assistir a toda a aula vou apontar algumas das passagens mais bizarras. 
Perto de 6:20 "Temos hoje, com o auxílio da Física Moderna, [evidências] de que o universo também se comporta como um ser vivo e que nossa mente é o veículo dessa comunicação com o universo".
Isso não é uma consequência de Física Moderna. Esse padrão vai se repetir ao longo da aula: afirmações pseudocientíficas atribuídas a conceitos da Física Quântica.
Perto de 16:00 "O que isso [a Física Quântica] tem a ver com saúde? O universo na sua linguagem energética e vibracional, aí vamos compreender que uma inteligência regeu essa orquestra sinfônica universal por bilhões de anos" Isso é uma versão não-religiosa de intelligent design, mas não tem nada ver com Física Quântica. Aqui ele aqui mostra que além de não entender a Física Quântica ele não entende o que é a Teoria da Evolução. E me convenceu definitivamente que intelligent design não precisa obrigatoriamente ser baseado em visões religiosas, apesar de frequentemente o ser. Aprendi alguma coisa.
Perto de 19:00 "Do ponto de vista quântico e relativístico nós vivemos em um universo que é uma melodia, e nosso corpo também é uma melodia complexa. De um ponto de vista energético e vibracional nós estamos aqui para ser felizes.". Não é possível entender como a Mecânica Quântica e a Relatividade implicam em uma melodia ou levam à felicidade, exceto pelo prazer que temos quando conseguimos achar a solução para algum problema complexo.
Perto de 21:00 "A Física Moderna está nos apontando um caminho de olhar para o ser humano em todas as suas dimensões" Isso não significa absolutamente nada e não é uma consequência da Física Moderna.
De 22:00 a 30:00 Mais argumentos de intelligent design.
30:00 "Do ponto de vista quântico relativístico uma doença é uma oportunidade". Não consigo imaginar em que livros o professor aprendeu Mecânica Quântica ou Relatividade, mas nos que eu conheço não há ligações entre esses assuntos, doenças e oportunidades. 
32:40 Ele tenta falar de Emaranhamento Quântico, e ligar isso a dor (!?)
35:50 "O mundo quântico diz: toda ação volta para si própria" Nos bons livros de física quântica não há nenhuma afirmação desse tipo.
40:30 "Do ponto de vista quântico a realidade é a nossa percepção da realidade.... Mude suas estruturas de crença e a realidade muda." Isso é uma das crenças new age mais difundidas que não tem suporte algum na Mecânica Quântica. A realidade não depende de nossas crenças (ainda bem).
43:15 "Essa é a perspectiva quântica de saúde: estimular cada um a ser um cientista." Cada vez entendo menos.
1:01:30 "Niels Bohr mostrou que quando um elétron salta de um nível para outro ele desaparece aqui e aparece aqui, mas não é possível encontrá-lo entre as órbitas. Onde ele foi parar? Esse é um dos paradoxos da Física Moderna. O elétron não está aqui. Ele foi para outra dimensão." Paradoxo para ele que não entende o básico de física atômica. Um bom aluno de graduação em Física sabe o que acontece com o elétron durante uma transição. Basta calcular a evolução da função de onda ao interagir com o dipolo elétrico oscilante para entender que ele não vai para outra dimensão. Tem até uma animação excelente em Java que mostra onde está o elétron durante a transição. Não há paradoxo algum. Mas para entender isso é preciso conhecer um pouco mais do que mecânica quântica de almanaque.
1:02:50 "O salto quântico é uma mudança súbita de percepção, assim como as curas quânticas, milagrosas." Então tá...
1:04:45 "Temos uma impressão digital e também temos uma [impressão digital] energética e vibracional." Será que isso é a tal saúde quântica? 
1:08:25 "O modelo quântico de saúde é uma medicina integral, entre corpo e espírito." Não era...
1:13:00 "A perspectiva quântica da saúde muda o cenário: ela é saúde, não doença." Cada vez entendo menos...
1:13:30 "Em Recife tem um plano de saúde interessado num hospital quântico". Essa é das melhores. Um plano de saúde quântico!!!
1:13:50 "O que é um hospital quântico?" Infelizmente quando o Prof. Liimaa ia responder sua própria pergunta alguém o interrompeu. Ficaremos sem saber.
1:17:20 "Os físicos chamam: é o colapso da função de onda: você tem medo de ousar, de fazer uma coisa diferente". Não é possível entender o que ousadia tem a ver com colapso da função de onda.
1:20:00 "A UNIFESP é uma das melhores universidades do país.". Precisei esperar 1:20h para ouvir uma coisa que faz algum sentido. 

Não tenho ideia de como o Prof. Liimaa conseguiu infiltrar sua aula num programa de pós-graduação numa das melhores universidades do país. Não sei qual programa de pós forma seus estudantes em "Saúde quântica". Só espero que alguém na UNIFESP, preocupado com a qualidade científica de sua instituição, um dia convença a coordenação do programa de pós que uma universidade séria não deve oferecer aulas de pseudociência.

Upideite 31/03/14: Não se trata de um programa de pós-graduação, mas de um curso de extensão (que no Brasil gostam de chamar de pós-graduação lato senso). Continua estranho uma universidade séria emprestando seu prestígio para validar pseudociência. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Posso ser amigo de um religioso?

Rodrigo Silva é criacionista e professor de teologia na UNASP. Ele seria um dos palestrantes no I Fórum de Filosofia e Ciências das Origens da Unicamp, que foi cancelado depois que eu e outros docentes da universidade se manifestaram. Depois desse cancelamento alguns blogs criacionistas se manifestaram atacando-me pessoalmente, inclusive qualificando-me como "academicamente desonesto". Quando percebi que alguns órgãos da imprensa estavam exagerando nas declarações que publicavam a nosso respeito, eu tomei a iniciativa de entrar em contato com ele. Em momento algum tive ou tenho qualquer restrição pessoal em relação a ele ou qualquer um dos demais participantes. Eu sim tenho críticas às ideias que eles defendem. Rodrigo respondeu a minha mensagem com um convite para almoçarmos juntos, o que fizemos na semana passada. Continuamos discordando, mas criamos um canal de comunicação bastante respeitoso. Em razão de novos ataques pessoais que eu sofri ontem, Rodrigo pediu que eu publicasse o texto dele que se segue, que também será publicado no blog Criacionismo.
Eu fiquei verdadeiramente tocado pela solidariedade dele e não sei como agradecer por este gesto tão significativo. Eu sei que ele provavelmente nunca deixará de ter sua crença, nem eu desejo isso. Alguns valores são humanos e estão acima de crenças. Aqui temos uma bonita expressão disso.


         Posso ser amigo de um ateu?


         Debater é uma arte essencial para aqueles que lidam com questões acadêmicas. Prefiro mil vezes um debate que não chegue a uma conclusão a uma conclusão que dispense um debate. Conclusões que não foram exaustivamente discutidas são como soluções vazias para um problema que nem foi sistematizado. Neste processo, é muito importante que haja espaço para boas discussões. Veja, eu disse “boas” discussões. É uma pena que certos comportamentos belicosos tenham dado à palavra discutir um novo sentido semântico que não tinha nada a ver com aquele original de quando o termo foi criado. Só para que se saiba, “discutir” vem do latim discutere (dis, separação + quatere, quebrar). O sentido original era quebrar, sacudir, abalar. Era isso o que os médicos romanos faziam com as plantas para produzir um medicamento. Eles quebravam e sacudiam as raízes para separar a terra e verificar as que eram ou não fortes o bastante para servir de remédio. Em virtude dessa prática, discutir também adquiriu um sentido adicional de “curar”.

          Originalmente, portanto, “discutir” seria pegar um assunto e agitá-lo, até ele se dividir em partes menores e se desprender daquelas que seriam periféricas. Assim, ele fica mais fácil de ser digerido, pois não podemos compreender tudo de uma só vez. É por isso que, em qualquer discussão, todos os envolvidos parecem ter sempre um pouco de razão: cada um só vê a parte que lhe interessa, a do outro é sempre a terra a ser desprendida ou o pedaço de raiz que não serve para nada. O importante, portanto, numa discussão, é superar a tendência partidarista e usar as partes “sacudidas” para se alcançar, senão o consenso, pelo menos o respeito por aquele que discorda de nossa opinião.

          Seria a busca por esse respeito uma utopia? Bem, somando a ideia de que “a esperança é a última que morre” ao fato de que sou um homem de fé, ainda acredito que é possível discordar com respeito. E vou mais além: é possível ser amigo de alguém de quem você discorda profundamente? Também creio que sim.

          Veja o que aconteceu comigo: perdi a chance de falar num fórum na Unicamp e isso me deixou muito chateado, muito mesmo! Não concordei com a postura assumida por alguns professores. Mas vejam o presente que ganhei de Deus (isso mesmo, “de Deus”; lembre-se de que quem escreve acredita nEle): ganhei três novos amigos, uma antropóloga canadense, um matemático e um físico – esses dois últimos se empenharam ativamente pelo cancelamento do fórum. Um deles é o físico Leandro Tessler, cujo nome está circulando como elétrons nas redes sociais. Espero não ter errado na comparação, mas antes isso que dizer “circulando como azeitona na boca de um velho”.

         Mas, falando sério, como pode existir amizade numa situação dessas? Pode um crente e um ateu se tornarem amigos? Ora, se o que eu acredito for verdade, eu e o Leandro somos filhos de um mesmo Deus. Se o que ele diz for verdade, também somos todos parentes por ter uma ancestralidade comum. Logo, no frigir dos ovos, independentemente do modelo adotado, somos todos irmãos. Então, por que se comportar como se fôssemos um bando de porcos-espinhos numa noite de inverno? Devemos ser mais evoluídos do que isso!

          Dá, sim, meus amigos, para discordar com classe. Dizer que o professor Leandro é academicamente desonesto não ajuda na argumentação. Pelo contrário, é tão ofensivo quanto supor que eu esteja sorrateiramente entrando na Unicamp, como um lobo disfarçado de ovelha para convencer os alunos da “perigosa” doutrina do criacionismo. Noutras palavras: eu também seria desonesto!

           Ambos, ele e eu, somos muito honestos com nossa linha de pesquisa, mesmo que cheguemos a conclusões diferentes sobre algumas coisas da vida. O professor Leandro foi muito cortês no almoço que tivemos e não vi motivos para duvidar da idoneidade dele. Ao contrário do que alguns supõem do caráter de um ateu, ele não pediu “criancinhas ao molho pardo” e eu também não pedi alfafas. Ele não é canibal e eu não sou burro. Somos dois pensadores tentando entender a vida e o sentido de nossa existência. Temos todas as respostas? É claro que não! Mas as estamos buscando. Cada um a seu modo. Ele me deseja um “bom culto” quando digo que vou para a igreja. E eu digo que “orarei por ele”. Não há ironias, nem desaforos, apenas respeito um pelo outro, sem desconsiderar os pontos nos quais discordamos.


          Como cristão, eu tenho de entender que não sou dono da verdade e não sei tudo sobre Deus. E como dizia uma velha canção católica: “às vezes quem duvida e faz perguntas é muito mais honesto do que eu”. Deus é menos ofendido pela sinceridade de um ateu do que pela hipocrisia de um santo. É claro que meu desejo é que um dia o Leandro acredite em Deus. E se isso não ocorrer? Que me importa? Pela evolução ou pela criação ele continua sendo meu irmão e merece meu respeito. Devemos defender com paixão aquilo no qual acreditamos, mas alguns preferem defender com “raiva” e isso não é nada bom!


          (Rodrigo Silva é graduado em teologia e filosofia, doutor em teologia e doutorando em arqueologia clássica pela USP)

domingo, 13 de outubro de 2013

Criacionismo na Unicamp, de novo!

Upideite 14/10/13: O  1o Fórum de Filosofia e Ciência das Origens foi cancelado (leia abaixo para entender). Segundo fui informado a decisão de suspende-lo foi tomada ainda na semana passada, mas por algum motivo a página continuava no ar. Hoje foi retirada. A administração central da Unicamp está de parabéns por ter tomado a decisão mais acertada para esse caso. Infelizmente não foi a primeira nem será a última vez que criacionistas e adeptos do intelligent design tentarão buscar credibilidade nas universidades brasileiras.

Upideite 16/10/13: Fui brindado com duros ataques pessoais em dois blogs criacionistas que acham que eu tenho algum poder sobre o que acontece ou não na Unicamp. Nenhum deles permite comentários. Só chamo a atenção para o fato de nunca em meu blog ter sido feito um único ataque pessoal a quem quer que seja, e venho autorizando todos os comentários, exceto os que contém ataques pessoais muito pesados a mim ou a outras pessoas. O nível da discussão cai muito quando um dos lados decide partir para ataques pessoais sem permitir defesa pelo outro. Recomendo que meus leitores não leiam esses blogs.

Upideite 13/11/13: Ontem blogs criacionistas voltaram a fazer pesados ataques pessoais contra mim. Um deles teve o cuidado de retirar as referências ao meu nome ao reproduzir o texto do outro. Obviamente nenhum dos dois permite resposta pois não admitem comentários. Por motivos que em breve se tornarão públicos eu prefiro não comentar nada aqui. O excelente DNA Cético analisou o caso.

Upideite 26/10/13: A Isto É publicou uma nota afirmando que "Grupo de ateus impede que evento religioso com especialista dos EUA se realize na universidade e dificulta o debate acadêmico". Acertaram uma parte: Tratava-se de um evento religioso. Erraram outras: Não há um grupo organizado de ateus (nós temos mais o que fazer), o "especialista" dos EUA é o sujeito sobre o qual comentei acima, e todos apoiamos debates acadêmicos. Deploramos religião travestida de ciência.


Mais do que tentar angariar novos adeptos, o movimento criacionista e de intelligent design no Brasil busca desesperadamente ser reconhecido como ciência.
Não é por outro motivo que instituições de ensino superior confessionais ligadas a denominações protestantes no Brasil promovem periodicamente eventos supostamente científicos onde chamam "especialistas" para debater o que eles entendem por darwinismo ou por "ciência das Origens". Eu já me manifestei sobre o triste caso da Universidade Presbiteriana Mackenzie aqui e aqui. O evento "Darwinismo Hoje" já chegou na sua quarta edição, sempre com os mesmos palestrantes dedicados a negar Darwin e com a mesma irrelevância científica. Não deixa de ser triste que uma universidade privada brasileira que está construindo o que espera que venha a ser uma referência mundial em pesquisas com grafeno coloque sua reputação como instituição científica em risco por esse tipo de iniciativa que agrada aos religiosos fundamentalistas mas não contribui em nada para o avanço da ciência ou do próprio criacionismo, dado que para ele todas as respostas já estão escritas. Universidades confessionais protestantes americanas de primeira linha como Harvard, Princeton ou Yale jamais permitiram que um evento desse tipo ocorresse em suas dependências. Recentemente o Centro Universitário Adventista de São Paulo organizou o encontro criacionista O Universitário  Cristão e as Origens, repetindo os mesmos palestrantes e os mesmos argumentos.
Há alguns anos duas palestras foram proferidas por um criacionista americano na Unicamp. Na ocasião juntamente com colegas conseguimos deixar claro que não se tratava de um evento oficial da Unicamp e o logotipo da Unicamp que estava no cartaz foi retirado. De lá para cá pelo menos por 3 vezes foram canceladas palestras criacionistas em diferentes institutos da Unicamp e no encontro da SBPC que ocorreu na universidade. Eu sempre defendi o direito dos criacionistas de terem e defenderem sua opinião e a propagarem dentro de suas igrejas,  na imprensa ou na mídia, ao mesmo tempo que mantenho que criacionismo não deve ser validado nem ter espaço na universidade.
Por isso causou-me surpresa que a administração central da Unicamp, uma universidade pública e prestigiada como uma das melhores do Brasil  esteja dando suporte institucional para um evento criacionista que ocorrerá dia 17/10 dentro da série de debates chamados de Fóruns Permanentes. Trata-se do 1o Fórum de Filosofia e Ciência das Origens (espero que seja também o último!).  Esse evento chama a tenção por vários aspectos que destoam de uma atividade acadêmica em uma universidade de ponta. Não há nenhum docente da Unicamp na comissão organizadora, e nenhum dos funcionários envolvidos trabalha com pesquisas no tema. Como mostrarei a seguir nenhum dos palestrantes tem um perfil acadêmico compatível com essa universidade, exceto pelo Professor Marcos Eberlin, do Instituto de Química da Unicamp, que participará da sessão de abertura. O Prof. Eberlin é um reconhecido pesquisador na sua área de atuação, com um expressivo reconhecimento pela comunidade e é autor ou coautor de mais de 420 artigos publicados em revistas de seletiva política editorial. NENHUM deles sobre criacionismo ou intelligent design! Vale notar que o Prof. Eberlin é um assíduo participante nos eventos já citados no Mackenzie e na UNASP.
As duas primeiras palestras estão a cargo do Prof. Russell Humphreys, que tem um doutorado em Física e foi professor associado no Institute for Creation Research. Seu currículo contém patentes e publicações em periódicos de seletiva política editorial especialmente na área de instrumentação mas também vários artigos delirantes, publicados em revistas criacionistas, que pretendem mostrar pela teoria da relatividade que a terra foi criada em 6 dias e não tem mais que 6 mil anos (coincidentemente os tempos prescritos nas sagradas escrituras), que ocorreu um dilúvio (idem) durante o qual o campo magnético da terra foi invertido várias vezes fazendo com que os fósseis pareçam mais antigos que são, que o decaimento nuclear prova que a terra tem entre 4 e 14 mil anos (idem) e que o vôo do Pioneer mostra que Deus existe. Nenhum físico que se preza levaria esse tipo de trabalho a sério.
O evento continua com uma palestra do Prof. Nahor Neves, da UNASP que é doutor em geociências. O Prof. Neves também é assíduo participante em eventos criacionistas. Dos seus 10 trabalhos publicados em periódicos apenas um, o mais antigo, é em um periódico com seletiva política editorial e não é sobre criacionismo. O próximo palestrante, Prof. Rodrigo Silva da UNASP tem doutorado em Teologia Bíblica e apresenta semanalmente o programa Evidências na TV Novo Tempo. ele falará sobre Arqueologia e os mistérios das origens humanas. O último palestrante será o jornalista e escritor Michelson Borges, que não tem Currículo Lattes mas mantém os blogs Criacionismo e Michelson Borges. Borges vem tentando mostrar, sem sucesso, que criacionismo é ciência.

Por que a Unicamp empresta seu prestígio a um evento desse tipo, que estaria muito mais apropriadamente sediado em alguma igreja ou associação cristã?
Só consigo imaginar que trata-se de mais um esforço dos criacionistas para ganhar status de ciência. Todos os palestrantes compartilham a mesma visão de mundo baseada na leitura literal da Bíblia. Não existe a menor chance de ocorrer um debate. Mesmo que algum dos palestrantes fosse um cientista não ocorreria um debate científico. Ao contrário da ciência que elabora seus modelos em torno de resultados experimentais e fatos, os criacionistas buscam adaptar os fatos e resultados experimentais ao que prescreve a Bíblia judaico-cristã.
Eu não vou a esse evento e espero que os colegas cientistas façam o mesmo. Participar significa validar como ciência a anti-ciência dos criacionistas. Debater com eles é perda de tempo, pois não há evidência na terra (ou no céu!) que os faça rever seu modelo e suas posições, como os cientistas costumam fazer.  Ao contrário, como muito bem faz o Prof. Humphreys, eles preferem mudar os fatos para adaptá-los ao modelo.
Esse evento não vai fazer da Unicamp uma universidade pior, mas vai mostrar que em nome da abertura para a diversidade de pensamento podemos nos expor a situações embaraçosas que deveriam ser evitadas. Universidades, museus e bibliotecas são (ou deveriam ser) os repositórios do saber. Até hoje a reputação da UnB é manchada pela existência do Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais e pelo curso de extensão em Astrologia, a ponto de ter sido solicitado seu fechamento...

Upideite 13/10/13: Um ponto de vista radicalmente diferente do meu apareceu hoje pela manhã no Criacionismo.com. Ele apresenta um programa distinto do que está na página do evento na Unicamp. Insider information... Existe até uma página (não hospedada na Unicamp) com informações e programação diferentes das oficiais.

Upideite 13/10/13: O ótimo Never Asked Questions do Roberto Takata já tinha postado um texto sobre o evento no dia 10/10. Esse tem um ponto de vista mais próximo ao meu.

Upideite 15/10/13: O blog Criacionismo.com do palestrante Michelson Borges apresenta uma versão diferente desse assunto. Infelizmente o blog não é aberto para comentários, mas eu ia propor que fizéssemos um debate verdadeiro e mais equilibrado em algum templo (não numa universidade): 2 criacionistas e 2 cientistas abordariam evolução e as origens do universo, seguido de um debate.

Upideite 1/11/13: Ótima análise no Bule Voador.

Upideite 6/11/13: A TV Novo Tempo, ligada à Igreja Adventista, fez um programa bastante equilibrado mostrando os pontos de vista do Prof. Rodrigo Silva e o meu.

Upideite 7/11/13: Só hoje eu soube de um excelente editorial do Destak de Campinas de 4/11 (precisa baixar a versão em pdf) intitulado Adão e Eva na Unicamp. Isso motivou uma carta que foi enviada ao Destak pelo já aqui citado Prof. Eberlin, que faz referência a uma frase atribuída a mim na Isto É. A carta foi publicada aqui. Infelizmente o blog onde ela foi publicada não permite comentários, mas nela o Prof. Eberlin afirma que nenhum dos palestrantes falaria sobre a idade da terra. Ele provavelmente não prestou atenção ao resumo da palestra do Dr. Russell Humphreys, que ia justamente mostrar "cientificamente" que a terra foi criada em 6 dias há menos de 6 mil anos. Apesar de negar o caráter claramente religioso do fórum, o Prof Eberlin deixa escapar no final da carta a palavra Verdade com vê maiúsculo, um conceito normalmente associado com um certo grupo de religiões monoteístas ocidentais e não com a Ciência (com cê maiúsculo).

Upideite 10/11/13: Para quem ainda tem dúvidas a respeito da natureza religiosa do evento, vale a pena ler as declarações do Dr. Russell Humphreys, após evento na Igreja da UNASP dia 19/10. "Em seguida, Humphreys, apresentou suas teorias sobre a real idade da Terra. Com base na física e na Bíblia, o criacionista explicou que a Terra não tem como ter bilhões de anos, como declara a teoria evolucionista. O físico ressaltou que através da cosmologia podemos entender as origens do Universo. “Minha confiança está na precisão da Bíblia. Quando comecei o estudo bíblico vi em várias passagens, que a Terra é nova. Toda cosmologia mostra que a Terra é nova,” relata Humphreys." Se alguém chama isso de ciência certamente não tem ideia do que é ciência. Obrigado Claudio Julio por chamar atenção para esse link.

Upideite 11/11/13: Outros blogs comentaram esse evento. Vale a pena ler o ExataMente e o Bar do Ateu.

Upideite 25/11/13: O Eneraldo Carneiro do Gato Precambriano publicou hoje mais um excelente texto no Bule Voador sobre as repercussões do cancelamento do evento.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

30% dos cursos avaliados abaixo da média do ENADE. O que isso significa? Rigorosamente NADA!

Ou melhor, isso significa que as notas foram padronizadas. É muito engraçado ler as manchetes dos principais órgãos da imprensa:
G1: Enade tem 30% dos cursos do ensino superior abaixo da média, diz MEC
Folha: 30% dos cursos tiveram desempenho insatisfatório no Enade, diz MEC
Estadão: Enade: 30% dos cursos de ensino superior têm desempenho insuficiente
Os comentários do Ministro Mercadante vão na mesma direção. No G1: "Entretanto, mesmo com o resultado, o ministro da Educação,Aloizio Mercadante, considera que o ensino no país está evoluindo se comparados aos resultados do Enade de 2009, quando foi feita a avaliação dos mesmos cursos avaliados em 2012."
Só é possível concluir que o Ministro e os jornalistas que cobriram a divulgação dos resultados estavam muito mal preparados ou não entendem como é gerado o Conceito ENADE e por isso dão declarações que equivalem a dizer que 1+1=2 como se isso fosse uma grande novidade. Vou mostrar a seguir que pela forma como ele é gerado, exceto em casos extremos que também comentarei, SEMPRE cerca de 30% dos cursos terão nota entre 0 e 2, com pequenas flutuações aleatórias de ano para ano.
Figura 1. Três possíveis distribuições de notas no ENADE.
O processo de tratamento dos dados está descrito em Nota Técnica do INEP.  Para se obter o Conceito ENADE é feita uma mudança de escala muito usada em estatística, chamada de padronização.  Os conceitos são calculados a partir da média e do desvio padrão da distribuição de notas. Os estatísticos têm boas razões para supor que a distribuição de notas do ENADE obedece uma curva em forma de sino chamada distribuição normal. A primeira mudança de escala transforma as distribuições de nota em uma curva em que a média vale zero e cada desvio padrão vale um. Então para transformar essa escala padronizada em uma escala supostamente linear de zero a 5 é feita uma segunda padronização que deve estremecer qualquer estatístico que entende do assunto: adiciona-se a menor nota padronizada a todas as pontuações, fazendo a curva começar em zero e depois divide-se as pontuações pelo maior valor obtido, chegando a uma escala entre zero e um que é multiplicada por 5 para chegar na escala entre zero e cinco. Essa segunda padronização que eu saiba (não sou estatístico, apesar de usar muito estatística em minha vida profissional) não tem justificativa teórica alguma, mas transforma os dados em uma escala entre zero e cinco. Como isso é complicado, esse  é o momento para fazer alguns exemplos. Imaginemos que o resultado do ENEM de 3 edições seguidas apresenta as 3 curvas na figura abaixo na ordem verde, preta e vermelha. Isso significa que o ensino superior brasileiro está piorando? Talvez, mas pode também significar que ele está melhorando ao mesmo tempo que as provas estão ficando mais difíceis. Uma das justificativas da padronização é justamente tornar o Conceito ENADE insensível a variações no grau de dificuldade das provas. Após a primeira padronização, as três curvas ficam exatamente iguais, representadas na figura 2.
Figura 2. As mesmas distribuições da figura 1 padronizadas.
Isso mostra de forma bastante conclusiva que independentemente do grau de dificuldade da prova, que no meu exemplo teve uma variação exagerada, a padronização faz com que as distribuições de notas tenham sempre a mesma cara e sigam uma mesma escala. Afinal, é para isso mesmo que serve a padronização: evitar que uma prova atipicamente difícil ou atipicamente fácil altere de forma significativa o resultado da avaliação, que tem como objetivo comparar desempenhos de quem faz uma prova, jamais comparar quem faz provas diferentes.
Então fazemos a segunda padronização e chegamos à próxima figura, que corresponde à distribuição do Conceito ENADE (as notas são arredondadas para o valor mais próximo para chegar a uma escala de inteiros de zero a 5).

Figura 3. O conceito ENADE para as curvas
anteriores. A área entre zero e 2 corresponde a
31% da área total.
Cabe ainda perguntar que percentual da curva  corresponde aos conceitos entre zero e 2. Como a curva da distribuição normal segue uma função conhecida e não é possível calcular sua área analiticamente (a partir de sua integral, como diriam os matemáticos), qualquer livro de probabilidade ou de estatística tem esses valores tabelados. Eu procurei no livro do Sheldon Ross de Probabilidade (simplesmente porque o tinha em casa) e encontrei essa área igual a exatamente 30,85%.  Portanto, não deveria surpreender que 30% dois cursos tenham nota inferior a 3, ou que "Um em cada três cursos de Direito tenha desempenho ruim no ENADE". É assim para todos os cursos, porque o Conceito ENADE é definido dessa forma. Eu venho dizendo que se as pessoas soubessem um mínimo de estatística ela sestariam muito mais bem equipadas intelectualmente para lidar com pseudo-ciência e curas milagrosas. Elas também deixariam de se surpreender a cada ano por ter 30% ou 1/3 dos cursos "reprovados" no ENADE.
Antes de terminar eu quero chamar a atenção par ao absurdo que é a segunda padronização, a que transforma a escala ancorada na média numa escala linear. Imagine que um único curso tenha um desempenho particularmente ruim no ENADE e fique com uma nota padronizada muito abaixo da média (um outlier no jargão técnico). Quando for feita a segunda mudança de escala, todos os Conceitos ENADE serão artificialmente empurrados para cima. Certamente o Ministro elogiará o fato de quase todos os cursos brasileiros (exceto o coitadinho com desempenho muito abaixo da média) estarem "aprovados" com Conceito maior que 3. Isso não significaria absolutamente nada também, a não ser que uma escola teve nota muito inferior às demais. Isso na verdade ocorreu numa das primeiras avaliações de Medicina, como foi discutido de forma muito clara no artigo O Enigma do ENADE por Simon Schwartzman em 2005.
A propósito, quando fui buscar a referência vi que ele escreveu um texto muito bom e mais conciso sobre o mesmo assunto.
Eu havia abordado essencialmente o mesmo assunto de agora em um texto sobre o ENEM.
Enfim, ao contrário do que o Ministro da Educação afirmou, não é possível dizer que o ensino superior brasileiro melhorou a partir do resultado do ENADE, nem seria de se esperar que um número muito diferente de 30% ou 1/3 dos cursos tirasse uma nota abaixo de 3.

Upideite 8/10/2013: Na gloriosa região campineira são só 25% abaixo de 3. Esse tipo de comparação entre regiões é perfeitamente válido, mas o jornalista insinua como má o que deveria ser uma ótima notícia para a região.

Upideite 10/10/2013: Algum editor do G1 andou lendo o Cultura Científica ou o blog do Simon: Hoje saiu uma notícia abordando exatamente esse assunto, claro que sem fazer menção à barriga original. ou aos blogs.

Upideite 18/10/2013: O Simon nota que um editorial do Estadão incorre no mesmo erro relatado aqui. Parece que ao contrário do pessoal do G1, o editorialista não leu o blog do Simon nem o Cultura Científica. A exemplo do que acontece nos EUA, a grande imprensa teria a ganhar se prestasse atenção nos blogs.

Upideite 23/10/2013: O caso da revista Época é o mais curioso: Enquanto sua página web cai no erro apontado aqui, um editorial na versão impressa corretamente afirma o mesmo que apontado aqui e no blog do Simon. O editor deve ter lido os blogs, mas o redator não...

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A Cultura da Burocracia, ou a Anti-Cultura Cientifica

Cultura vai muito além do que tem nos livros e bibliotecas, museus e auditórios. Cultura é parte do que faz de um grupo de pessoas um povo. É parte dos pactos não escritos e valores que regem as relações humanas. É parte dos ritmos e imagens que nos provocam, agradam ou desagradam. No Brasil infelizmente estabeleceu-se uma cultura local do saber que torna muito difícil o avanço do conhecimento. Não é a toa que aqui é tão difícil transferir conhecimento da universidade para a indústria. Não sei como identificar as origens disso, talvez uma mediocridade geral e ignorância por parte das pessoas que construíram nossa sociedade. O que mais me perturba é o entendimento implícito generalizado de que tudo o que fazemos deve estar sujeito a regulamentações, regras, aprovações e certificações. Nunca vou esquecer do dia em que o grande Prof. Luiz Bevilacqua, então reitor da UFABC, contou gargalhando que decidiu se demitir do Conselho Nacional de Educação depois da terceira ou quarta reunião para discutir quantos minutos tem uma hora. É sério. Essas discussões culminaram no Parecer 261/2006 que felizmente em seu artigo 3o garante que uma hora tem 60 minutos. Que sorte. O perigo é quando este tipo de discussão contamina as mentes dos cientistas que passam a tratar com naturalidade situações completamente absurdas, ninguém sabe muito bem por que. Isso remete a uma pauta imensa, que vai desde o atual debate em torno da regulamentação da profissão de cientista, o exagerado número de profissões regulamentadas (devem ser mais de 50 de nível superior) até as peripécias exigidas de quem estudou no estrangeiro. Por algum motivo os brasileiros sempre desconfiam da qualidade da formação e da autenticidade dos diplomas obtidos fora.
O Brasil tem uma estranha fixação em validade de documentos. Outro dia fui reconhecer minha firma em um cartório (duas excrecências locais: o reconhecimento de firma ainda exigido em vários documentos banais e o cartório para consumar o fato) e a simpática balconista achou meu documento de identidade expedido em 16/01/1975 pela SSP/RS sem nenhuma indicação de data de validade muito velho (certamente mais velho que ela).  "Dessa vez vou deixar passar, mas na próxima o senhor vai precisar de outro." Dias depois uma situação similar ao embarcar em um vôo doméstico. "O senhor precisa providenciar outro RG pois em 2014 com a copa não vamos aceitar mais RGs antigos". Não consegui entender o que a copa do mundo de futebol tem a ver com meu RG de 1975. Será que acham que vou tentar passar por algum jogador? Ou pior, por cartola? Nem que tentasse não adiantaria...
Pior mesmo é o tratamento que damos aos diplomas expedidos no estrangeiro. Eu tive o privilégio de fazer meu doutorado no exterior. Era o fim dos anos 80. Eu achava que nunca ia conseguir trabalho no Brasil e estava um pouco resignado à perspectiva de viver em outro país, de forma que não estava muito preocupado com a burocracia brasileira. No entanto, eu conhecia alguns funcionários do consulado brasileiro em Tel Aviv, que me recomendaram fortemente "consularizar" as assinaturas no diploma, ou seja, te-las autenticadas por um funcionário consular (que age como um cartório nesses casos). A propósito, quando precisa certificar uma assinatura em Israel as pessoas não procuram um cartório (isso não existe lá com essa função), mas sim um lugar onde autenticar a assinatura é realmente importante. Sim, são os bancos que autenticam as assinaturas e não cobram nada pelo serviço, ao contrário dos cartórios brasileiros.
Mas que diploma? Como no mundo menos burocratizado o diploma não serve nem para decorar parede de consultório, a universidade não tinha pressa alguma em expedir o meu. No final do meu doutorado o diretor de um laboratório francês passou pela universidade para dar um seminário. Ele estava buscando um pós-doc com o perfil similar ao meu. Aceitei. Fui contratado como pesquisador do CNRS, o CNPq  francês. Mesmo não sendo cientista ou pesquisador uma profissão regulamentada na França e portanto sem um conselho profissional ou carteira de identidade profissional diferente dos demais mortais, assinei um contrato de trabalho, recolhia impostos e contribuía para a previdência social (francesa, claro). Muito diferente da prática brasileira de conceder bolsas sem direito trabalhista ou previdenciário algum aos pós-docs. Na dúvida, eu consultei o CNRS para saber como proceder pois não tinha diploma, muito menos tradução juramentada para o francês ou autenticação pelo consulado da França. Nada disso. Bastava uma carta em inglês (nada de tradução juramentada) do meu orientador ou do coordenador do programa de pós certificando que eu tinha defendido a tese. Assim foi, e no início de 1990 mudei para Caen sem ter o diploma, sem autenticação no consulado, sem tradução juramentada, sem ser francês, em um trabalho que exigia doutorado (Pesquisador Classe II).
Um belo dia recebi um telefonema em casa de um professor da Unicamp, oferecendo uma posição temporária de professor, que era o caminho para uma posição permanente. Apesar de ter adorado o tempo fora do Brasil, eu queria muito voltar. Cheguei na Unicamp no início de 1991 com a carta do coordenador do programa de pós-graduação em Física da Universidade de Tel Aviv atestando que eu tinha terminado o doutorado que tinha servido para os franceses (o diploma só foi expedido muitos meses depois) e algumas cópias da tese, que tinha rendido algumas publicações em periódicos. No entanto, como meu doutorado não foi feito no Brasil eu fui contratado como mestre (eu fiz o mestrado na própria Unicamp) até que a Unicamp "reconhecesse" meu doutorado. Na época existia (não sei se ainda tem) um processo de reconhecimento interno que só é válido na própria instituição, mas que ainda assim levou meses. Só então meu doutorado, obtido a partir de um trabalho apresentado à Universidade de Tel Aviv passou a ser reconhecido pela Unicamp, que só tinha me contratado porque eu tinha feito o doutorado. Maluco, não? Claro que podia piorar: algum burocrata decidiu que a Unicamp não pagaria a diferença retroativa entre os salários de mestre e doutor, pois a universidade só me reconhecia como doutor a partir daquela data. Fiquei furioso. Pensei em voltar para a França. Como podiam ter me contratado para uma posição que exigia um doutorado se achavam que meu doutorado não valia nada até a data do "reconhecimento"? Com alguma conversa e argumentação as coisas se resolveram favoravelmente. Mesmo assim, quando o diploma foi expedido, pedi a um amigo levá-lo ao consulado brasileiro para autenticar a assinatura do reitor da Universidade de Tel Aviv antes de enviá-lo para mim. Ironia das ironias, o consulado pediu para ele mesmo providenciar uma amostra da assinatura do reitor! Reconhecimento de firma meio frouxo, mas duvido que o reitor aceitasse ir até o consulado para isso.
Por essas e outras uma recente notícia no Jornal da Ciência chamou-me a atenção: Mestres e doutores com diploma no exterior buscam revalidar título. Segundo a notícia, em pleno século XXI todo semestre um grupo de mestres e doutores formados no exterior acampam junto à reitoria da UnB para garantir um dos 6 (isso mesmo, SEIS) primeiros lugares na fila para solicitar a "revalidação" do diploma. A UnB só abre seis processos desse tipo por semestre. Existe até uma pomposa Associação Nacional dos Pós-Graduados em Instituições Estrangeiras de Ensino Superior, ANPGIEES. A associação busca por todas as maneiras tornar automático o "reconhecimento" dos diplomas obtidos no exterior. Na verdade o processo de "reconhecimento" é demorado por vários motivos. Além da burocracia interna e aprovação por diversas comissões, ao "reconhecer" o diploma a universidade reconhecedora está afirmando que o mestrado ou doutorado do candidato é equivalente ao seu. Aí as coisas se complicam.
A verdadeira pergunta deveria ser: Por que isso é importante? Eu virei doutor numa tarde fria e ensolarada lá em Tel Aviv, não no dia que a Unicamp atestou que meu título é equivalente ao outorgado por ela. Um doutorado em Tel Aviv vale o que vale um doutorado em Tel Aviv. Um doutorado em Assunción vale o que vale um doutorado em Assunción. Um doutorado a distância na UBA vale o que vale. É de uma pretensão infinita as universidades públicas brasileiras julgarem se doutorados estrangeiros são equivalentes aos delas. Um doutorado em Cambridge equivale a um doutorado na UFRR (a última colocada do RUF)? Não preciso radicalizar: e na USP? Como bem lembrou recentemente em outro contexto Richard Dawkins, só o Trinity College de Cambridge tem 32 prêmios Nobel, mais que o Brasil todo (não vou aqui entrar na desagradável tarefa de contar todos os prêmios Nobel brasileiros)!
Por que somos tão fixados na validade de documentos? Um doutorado "reconhecido" no Brasil faz do doutor um pesquisador mais qualificado? Mais competente? Infelizmente, um ato acadêmico ou burocrático não muda a realidade. Não dá para mudar o número de minutos de uma hora por uma decisão de conselho, por mais egrégio que ele seja. Não dá para fingir que um doutorado de segunda ou terceira linha é equivalente ao de uma universidade de primeira do Brasil. Nem dá para fingir que um doutorado em Harvard não significa nada no Brasil se não for "reconhecido" (duvido que algum doutorado em Harvard tenha dificuldade para ser "reconhecido" em uma universidade brasileira. Se esse for o caso há algo de errado com a universidade brasileira, não com o doutor). Se durante o doutorado o estudante publicou em periódicos de prestígio, ou teve a tese publicada como um livro importante, provavelmente seu trabalho tem qualidade, mesmo que tenha sido feito em uma instituição de menor prestígio. Como é possível países como a França ou os EUA terem uma ciência muito mais desenvolvida do que a nossa sem se preocupar com "reconhecimento" de diplomas?
Antes que alguém reclame, não estou aqui dizendo que os médicos estrangeiros contratados pelo programa Mais Médicos devam ser automaticamente autorizados a exercer a medicina. Medicina, como Direito, é um caso específico no qual sim a profissão só deveria ser exercida depois de a pessoa provar uma capacitação mínima. Isso seria muito mais bem feito submetendo os médicos (não só estrangeiros) a testes e controles periódicos como o Revalida. Nos Estados Unidos nenhum médico pode chegar perto de um paciente sem antes passar por um rigoroso processo de acreditação.

Uma cultura leva muito tempo para mudar, mas para isso começar precisamos repensar nossas práticas sociais. E pensar em abolir a exigência de "reconhecimento" de diplomas de doutorado e da maioria das graduações. Um doutorado em Harvard sempre será um doutorado em Harvard, um doutorado em Assunción, especialmente a distância, sempre será um doutorado em Assunción a distância.

Em breve escreverei sobre a (equivocada) proposta de regulamentar a profissão de cientista.
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