sábado, 31 de dezembro de 2011

Pseudociência nas alturas

Último dia do ano. Eu queria na verdade estar surfando nos mares do sul mas o vento nordeste de 20 nós e o mar mexido não permitem. Então aproveito para o último post do ano. Dei uma olhada nos vários inacabados e escolhi esse assunto porque é muito bom.  O Guilherme Genestreti da Folha tinha me entrevistado em agosto sobre uma nova família de pulseiras do equilíbrio. Trata-se da iBalance, anunciada pela empresa chinesa Oregon Scientific Brasil no Blogger (estranho usar o Blogger para promover um produto comercial...) com um preço recomendado de R$99. O texto promocional é um amontoado de bobagens entoado em linguajar tipicamente pseudo-científico. A melhor parte é "Os íons negativos são capazes de aumentar os níveis alcalinos do corpo, o que neutraliza os íons positivos e melhora a circulação sanguínea, elevando a temperatura corporal e o equilíbrio do metabolismo." Isso não significa rigorosamente nada. A iBalance "recebeu o certificado e registro da Associação Japonesa de Pesquisa e Aplicação de Íons (The Japan Association of Ion Research and Application)". Ah, bom! Então a tal pulseira é certificada pela obscura JAIRA. No entanto, infelizmente a página da JAIRA é em japonês e organizada de forma que o Google Translate só consegue traduzir o menu para o inglês. Mas a página da Eco-Holistic Inc.  tem explicações em inglês. Ali é possível descobrir que a JAIRA apareceu para "endireitar o caótico mercado de íons negativos no Japão". Que sorte. Assim a gente fica livre de picaretas! Desnecessário dizer que a Eco-Holistic dedica-se a vender geradores de íons negativos para incautos. Um dos produtos, o iOnion deve ter um baita cheiro de cebola . Tem mais na página de Hong Kong da Oregon Scientific, que dado o tom do que afirma na verdade devia se chamar Oregon PseudoScientific. Ainda que houvesse qualquer evidência de que aumentar a densidade de íons negativos tivesse algum efeito benéfico para a saúde (estou agora próximo ao mar, com uma alta densidade de do íon negativo Cl- no ar, o que na verdade tem um efeito corrosivo sobre estruturas metálicas), não há como uma pulseira com dois imãs gerar íons negativos sem uma fonte de corrente associada, ou ela mesma rapidamente assumiria uma maléfica carga positiva...

Revista da Lufthansa
Revista da Pluna
 Mas a Oregon não está sozinha nisso. Eu tenho viajado muito nos últimos tempos (essa é uma das razões pelas quais algumas vezes levo tanto tempo para produzir um novo artigo). Na falta do que fazer em aeroportos e aviões algumas vezes leio a revista de bordo ou de vendas sem impostos de companhias aéreas. É falta do que fazer mesmo! Para minha surpresa encontrei na alemã Lufthansa a propaganda da Lunavit, uma variante da iBalance. Pelo menos na página eles dizem os supostos "efeitos são controversos na Alemanha e não reconhecidos pela medicina ortodoxa". Germanicamente é exibido um esquema da pulseira: dois imãs com um bloquinho de germânio 99,9% entre eles (no meu laboratório eu só uso germânio 99,999%). O germânio é um semicondutor que era muito usado nos anos 60 para confeccionar diodos e transistores até o desenvolvimento da tecnologia do silício. Se alguém souber como dois ímãs e um pedaço de germânio podem gerar íons negativos por favor me avise. Por 79 euros ou 23 mil milhas, essa pulseira é a mais cara. 
A uruguaia Pluna oferece a Enerjii, sua versão por US$ 29. Nesse preço não dá para oferecer o germânio 99,9%, mas somente "silicone com íons negativos, bolas de cerâmica e ímãs de neodímio". É a versão sul-americana. Dado que o efeito das 3 pulseiras é o mesmo: nenhum. Melhor ser enganado pela Pluna...

Bom 2012 para todos (melhor ir aproveitando bem porque se os apocalípticos estiverem certos quando chegar 21/12 vai ser um problema...)

sábado, 15 de outubro de 2011

Vitamina E e câncer de próstata

ResearchBlogging.org Há uns 20 anos descobri quase acidentalmente que tenho duas enzimas hepáticas, AST e ALT eternamente em doses um pouco elevadas no sangue. Isso é indicativo de inflamação no fígado. Fui testado para hepatites de A a Z, fiz uma biópsia de fígado e até hoje não tenho um diagnóstico conclusivo.
Logo depois descobri que tinha o colesterol elevado para os padrões estabelecidos. Minha médica, muito cuidadosa, me receitou a estatina da época (acho que era Lipitor). Meu nível de colesterou baixou rapidamente. Com base em um artigo da época (só consigo lembrar que era um estudo alemão) ela me receitou também uma cápsula diária de Ephynal, contendo 400mg de vitamina E. O artigo não era conclusivo, mas apontava efeitos aparentemente positivos na redução do LDL, o colesterol ruim. Na dúvida e aparentemente sem efeitos colaterais relevantes, decidi aderir ao tratamento. Ephynal era caríssimo. Eu logo descobri que nos Estados Unidos era possível comprar em qualquer farmácia ou supermercado cápsulas de vitamina E por uma fração do preço do Ephynal. Eu comprava embalagens com 400 cápsulas, suficientes para mais de um ano. Assim por mais de 10 anos eu tomei uma dose diária de vitamina E que correspondia a 40 vezes o recomendado a um indivíduo saudável. Isso pode parecer estranho para um cético assumido como eu, mas dada a ausência de efeitos colaterais achei que no pior caso não teria efeito algum, no melhor teria uma redução no LDL, além dos supostos efeitos benéficos que na época se achava que todos os antioxidantes teriam no organismo. O tempo passou e um belo dia em 2009 um artigo no NY Times fez com que eu desistisse de vez da vitamina E. O título já diz tudo: "Vitamina E: nenhum benefício, talvez danos". Estudos mais bem feitos tinham mostrado que a ingestão contínua de vitamina E aumentava o risco de ataque cardíaco. Atualmente a Cochrane Collaboration afirma claramente que "vitamina E não deve ser recomendada para doenças do fígado". Trato do nível de colesterol com uma dose mínima de rosuvastatina.
Qual não foi minha surpresa ao ler em pleno feriado do dia da criança um artigo escrito pelo amigo Reinaldo Lopes na Folha: "Suplementos de vitamina E aumentam o risco de câncer de próstata". Como eu faço parte do grupo de risco para esse tipo de câncer, devorei o artigo original. Vale a pena comentá-lo porque é um excelente exemplo de ciência bem feita.O objetivo original do estudo era verificar se afinal a ingestão de selênio ou de vitamina E reduziriam o risco de câncer de próstata. A conclusão foi contrária à hipótese: a ingestão contínua de 400mg de vitamina E por dia aumenta em 17% o risco de câncer de próstata em homens brancos com mais de 50 anos e negros com mais de 55 anos. O estudo envolveu 35533 homens e o resultado tem relevância estatística. Mais que isso, os autores reconhecem não poder propor a partir dos dados um mecanismo químico responsável por esse aumento. Ele deve existir e será objeto de mais estudos.
Uma outra conclusão importante é, literalmente: "é preciso que os consumidores sejam céticos em relação a alegações a respeito de saúde de produtos não regulados vendidos  sem controle, na ausência de forte evidência de benefícios demonstrada em testes clínicos".
Espero que outras pessoas não caiam no meu erro de achar que uma vitamina recomendada por 10 entre 10 naturebas era inofensiva. É impressionante a quantidade de drogas e produtos sem nenhum efeito comprovado em testes clínicos sérios que são vendidos livremente em farmácias brasileiras (e americanas também!).
Depois da leitura desse artigo eu, como todos os homens na minha idade deveriam fazer, tenho mais motivos para repetir anualmente meu exame de próstata para caso (mais provavelmente quando) apareçam os primeiros sintomas de câncer ele seja tratado em sua fase inicial, com grandes chances de cura.

Update: O Petrucio me passou links para dois ótimos artigos no Science-Based Medicine: um sobre um estudo de cohorte em mulheres pós-menopausa, que não encontrou evidência de efeitos positivos e outro recente que mostra a inutilidade de ingestão de megadoses de vitaminas.

Referência:
Klein, E., Thompson, I., Tangen, C., Crowley, J., Lucia, M., Goodman, P., Minasian, L., Ford, L., Parnes, H., Gaziano, J., Karp, D., Lieber, M., Walther, P., Klotz, L., Parsons, J., Chin, J., Darke, A., Lippman, S., Goodman, G., Meyskens, F., & Baker, L. (2011). Vitamin E and the Risk of Prostate Cancer: The Selenium and Vitamin E Cancer Prevention Trial (SELECT) JAMA: The Journal of the American Medical Association, 306 (14), 1549-1556 DOI: 10.1001/jama.2011.1437

domingo, 25 de setembro de 2011

O fantasma da OPERA

A  primeira vez que eu cometi um erro monumental num experimento foi lá por 1983 ou 84. Eu fazia o mestrado na Unicamp, onde junto com o trabalho de pesquisa individual de cada um dos membros do grupo tentava desenvolver uma tecnologia de células solares de silício amorfo com 4% de eficiência. Tínhamos preparado um,a nova série com uma camada tipo-n diferente e eu fiquei de medir a eficiência num simulador solar. Era o final do expediente e a primeira célula que medi deu mais de 6%. Todas as demais ficavam entre 5 e 10%. Chamei colegas para verificarem se eu não estava fazendo nada de errado. Nada. Alguém teve a brilhante idéia de ligar para o chefe do grupo vir de casa para comemorar. Quando ele chegou ele não acreditou nos 10%. Apesar de não violar nenhuma lei fundamental da Física, 10% de eficiência com aquela tecnologia estava acima do atingível naquela época. Na verdade alguém numa medida anterior mexeu num controle que ninguém usava e  multiplicou por 10 o ganho de um amplificador de sinal. Nossas células tinham cerca de 1% de eficiência. Mesmo hoje em dia é muito difícil atingir eficiência de 10% com essa tecnologia. Paguei meu mico, pedi desculpas a todos e o episodio só teve conseqüências para o meu ego machucado.

Há ocasiões em que pesquisadores estão certos de que há algo de errado nas medidas mas não conseguem encontrar o que está errado. E o que fazer quando os resultados obtidos violam alguma lei fundamental do universo?

Nos últimos dias a imprensa mundial vem noticiando com estardalhaço o que pode ser uma das mais importantes descobertas dos últimos cem anos: neutrinos movendo-se mais rápido que a luz. Isso teria sido detectado pelo projeto OPERA no CERN. Minha primeira reação, de professor de laboratório de física moderna: mais um grupo de pesquisadores que não sabe tratar erros experimentais buscando notoriedade, a exemplo de vários casos recentes discutidos aqui e em outros blogs. E o anúncio foi feito antes que um artigo tenha sido aceito em alguma revista científica respeitada...

Sexta-feira uma versão preliminar do artigo foi divulgada no repositório ArXiv, junto com o seminário de Dario Autiero, que falou pela OPERA. O seminário dura cerca de uma hora, com mais uma hora de perguntas. Meu julgamento precipitado do grupo estava completamente enganado. Trata-se de um pessoal sério, que sabe muito bem o que está fazendo e trata os erros de forma sofisticada e aparentemente correta. Eles mesmos estão surpresos com o resultado. Em resumo, medir velocidade é sempre medir uma distância e um tempo. A maior fonte de erros nesse caso é a medida do tempo. Eles supostamente conseguem uma precisão muito boa na posição usando uma versão sofisticada do GPS, que dá conta em tempo real do continental drift. Eles conseguem uma precisão de 20cm em 1000km, e afirmam que essa medida poderia ser melhor (1cm) se não se tratasse de um túnel subterrâneo! Ao medir eles detectam os neutrinos chegando 60ns com uma incerteza de 10ns adiantados em relação à velocidade da luz.  Chamamos esse tipo de resultado de "6σ", pois o  sinal é 6 vezes maior que a incerteza σ.
Vale a pena mencionar que essa NÃO é a primeira vez que são detectados neutrinos andando acima da velocidade da luz. Um artigo do experimento MINOS do Fermilab detetou neutrinos a velocidades supraluminais mas os desconsiderou devido às incertezas nas medidas. E há o caso da supernova SN1987a, quando o feixe de neutrinos originado na explosão da estrela chegou à terra 3 horas antes da luz. No entanto, aparentemente o resultado da OPERA não é consistente com o da SN1987a.

 Há um aspecto sociológico interessante. Na Itália, país com uma cultura bastante chauvinista, onde fica o detector em que foram feitas as medidas, o jornal La Stampa não tem o cuidado dos pesquisadores da OPERA e avança tomando como correto o resultado da equipe italiana e colocando a relatividade de Einstein em questão. Ainda bem que ciência não é copa do mundo!

O blog de um físico teórico engraçado mas de estética duvidosa menciona, por exemplo, que desconsiderar a variação do índice de refração da atmosfera (1.00003 contra 1.00000 no vácuo), procedimento legítimo para quase todos os proósitos do GPS, pode ser a causa do aparente adiantamento de 60ns na medida do tempo. O mesmo blog levanta outras hipóteses. O sistema GPS não foi projetado para tamanha precisão. Caso neutrinos realmente andem acima da velocidade da luz há uma dependência da velocidade com a energia que deveria ser observado. Aparentemente isso não ocorre.

Se os resultados da OPERA estiverem corretos, nosso entendimento do universo precisará mudar. A teoria da relatividade restrita, que foi testada tantas vezes, precisará mudar. Minha intuição vai na direção de a relatividade estar correta e alguma fonte de erro sistemático não estar sendo considerada. Extraordinary claims require extraordinary evidence. Afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias. Essa frase foi popularizada pelo extraordinário divulgador da ciência Carl Sagan. Infelizmente, as evidências do OPERA apontam mais para um erro sistemático que escapou dos pesquisadores do que para evidências extraordinárias.

Update: O excelente Física na Veia! do meu colega Dulcídio Braz Jr. tem uma abordagem mais do ponto de vista da Física. Vale a pena conferir. É o nosso segundo bate-blog, expressão cunhada pelo Dulcídio!

Update 2: Citando Bob Park: "Disseram-me que Andrew Cohen e Sheldon Glashow (prêmio Nobel em 1979) em arXiv 1109.6562v1 fazem a observação que neutrinos superluminais iriam irradiar pelo mesmo efeito da radiação de Cerenkov quando a velocidade das partículas excedesse c/n (onde n é o índice de refração do meio). Isso torna claro, se já não estivesse, que a suposta observação de neutrinos superluminais está errada. Ninguém sabe o porquê."

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mais kW/h

No início desse ano foi a Época. Agora é a poderosa FIESP. Grande imprensa e federação das indústrias unidas pela confusão conceitual, tão bem comentada com profundidade no Física na Veia!.
Num anúncio de página dupla (páginas B6 e B7) na edição dominical da Folha de São Paulo, a FIESP reclama do preço cobrado pela energia brasileira. Curiosamente, em todo o anúncio não é dito nenhuma vez que eles estão se referindo às tarifas da energia elétrica.
O pior é quando o anúncio denuncia que o preço médio da energia (elétrica, subentende-se) vendido nas usinas é de R$ 90,98 por megawatt/hora. Essa unidade meio estranha se repete outras vezes no texto.
O que há de errado nisso? Simples:  megawatt/hora não é uma unidade de energia! o Watt é uma unidade de potência no Sistema Internacional de Unidades (SI), adotado no Brasil. A unidade de energia é o Joule. Um Watt corresponde a um Joule/s. Em sistemas elétricos é comum utilizar-se a unidade prática Watt.hora, que corresponde a uma potência de um Watt utilizada durante uma hora. Um megaWatt.hora (MWh) corresponde a um milhão (10 elevado à potência 6) Watts.hora.
As concessionárias cobram pela energia consumida, não pela variação da potência com o tempo, como sugere a campanha da FIESP. Se o texto da FIESP estivesse correto, poderíamos deixar todas as luzes, computadores e chuveiros elétricos da casa funcionando o tempo todo e não pagaríamos nada por isso desde que não houvesse variação da potência utilizada.
Na própria página da campanha o megawatt/hora aparece impune na seção chamada "Entenda" (!).
Uma entidade como a FIESP, povoada por engenheiros, devia ser um pouco mais cuidadosa com unidades em seus textos oficiais.
Motivado pela campanha fui conferir minha conta de luz. A CPFL cobra aqui em Campinas R$ 0,32882 pelo kWh, ou seja, R$ 328,82 pelo MWh. Isso é mais de 3 vezes o custo médio na usina! Pagamos pela distribuição o dobro do que pagamos pela geração. Há uma publicação muito legal que compara os preços ao consumidor da energia elétrica em diversos países (infelizmente o Brasil não está nela). O preço varia de US$ 0,0786 no México até US$ 0,3655 na Dinamarca. Nosso valor é comparável aos US$ 0,2060 do Reino Unido. Poderia ser menor.
Com ou sem MW/h sou a favor da assinatura do manifesto. Acho poucas as 2781 dada a dimensão da campanha. Talvez as pessoas tenham se intimidado pelo MW/h e recusam-se a assinar um documento com um erro tão básico de unidades!

Upideite 31/12/2011: O deputado federal Alfredo Sirkis escreveu dia 15/12/2011 um artigo chamado O Desafio Solar na Folha de São Paulo (acesso só para assinantes) onde mede energia elétrica em MW/h e GW/h. Apesar das boas intenções ecológicas, o erro continua. Não é possível medir energia em W/h.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Edzard Ernst, homeopatia e outras pseudociências

O médico e pesquisador Edzard Ernst tem uma carreira peculiar. Durante muitos anos ele manteve uma carreira de homeopata (que não deve considerada atividade médica, como muito bem apontado por um "Médico E Homeopata" no comentário #11 a esse artigo) paralela ao exercício de medicina. Com dez anos de experiência ele iniciou uma carreira acadêmica que o levou a ser o primeiro Professor Titular de Medicina Complementar e Alternativa (MCA) do mundo na Universidade de Exeter, na Inglaterra. Nessa posição ele começou a estudar, com um rigor científico raro para a área, diferentes assuntos relacionados à MCA. Em uma trajetória notável de honestidade intelectual, Ernst terminou se convencendo do que para céticos parece óbvio: que com raras exceções as práticas de MCA tem efeito igual ao efeito placebo. Imagino o quanto isso deve ter custado para ele: ter demonstrado que aquilo no que ele vinha acreditando por anos não corresponde aos fatos. E passar a dizer isso alto e bom tom, inclusive com uma coluna no prestigiado jornal The Guardian, além de livros e numerosos artigos científicos publicados em revistas com rigoroso processo de revisão por pares.
A Época dessa semana publica uma excelente entrevista com o Prof. Ernst. No entanto ela não menciona um fato recente que o colocou em evidência na mídia européia.
Em 2005 o Príncipe Charles, adepto de MCA entre outras bobagens, encomendou ao economista Christopher Smallwood um estudo que mostrasse que MCA é barata e valeria apena mantê-la no Sistema Nacional de Saúde britânico. A propósito, o SUS brasileiro, assim como meu seguro de saúde privado, também financia essas práticas. Comentário meu: do ponto de vista estritamente econômico, MCA é muito efetiva: sem tratamento adequado os pacientes morrem mais rápido e assim deixam de onerar os cofres do sistema.
Ernst tornou-se um ácido crítico do relatório Smallwood, inclusive tendo publicado artigos desafiando a metodologia empregada. Ernst foi acusado pelo secretário do Príncipe de ao publicar seus artigos ter rompido um acordo de confidencialidade em relação ao relatório. Ele foi investigado por uma comissão de sindicância da universidade pela qual, segundo suas palavras, ele foi "tratado como culpado até provar sua inocência". A universidade o considerou inocente, mas continuou tratando-o, segundo ele, como persona non-grata. Toda atividade de captação de fundos para sua pesquisa foi interrompida e ele se viu forçado a fechar seu laboratório.  Em 2011 ele aposentou-se, dois anos antes do previsto.
Ernst é o autor, junto com Simon Singh, do excelente livro Trick or Treatment?. Espero que mesmo depois de sua aposentadoria ele continue ativo trazendo mais luz para o entrevado mundo da Medicina Complementar e Alternativa. Não tenho nem nunca tive nada contra os usuários dessas práticas, mas validá-las e transformá-las em políticas de estado certamente não é uma boa prática. Ernst tem sido uma importante voz nessa direção.
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