domingo, 30 de março de 2008

Cegonhas lunáticas

"É um fato. Nascem mais bebês quando muda a lua. Pode perguntar a qualquer pessoa que trabalhe em uma maternidade." Ou então: "Nascem mais bebês na lua cheia".
Já ouvi essa conversa várias vezes. Ao menor sinal de espanto ou dúvida, o mecanismo aflora: "Se a lua pode influenciar as marés, por que não influenciaria os nascimentos?". Ou ainda essa, em geral afirmada por mulheres: "Minha menstruação sempre teve relação com as fases da lua, portanto é claro que a lua deve ter alguma influência sobre os nascimentos."
Encontrei mesmo no site de orientação Amigas do Parto um texto originalmente publicado no Correio Braziliense que só reforça conceitos pseudo-científicos.
Há também pessoas que associam vários eventos de suas vidas com as fases da lua. Cortar o cabelo, claro, só na lua crescente.

Antes de buscar uma explicação é prudente verificar se realmente a lua tem alguma influência sobre a taxa de nascimentos. Para isso eu usei o conjunto de quase 50 mil inscritos no Vestibular Nacional 2008 da Unicamp, nascidos entre 1936 e 1983.



Na figura acima representamos o número de nascidos em função do dia do ano, corrigido para a incidência de anos bissextos. Como o número de nascidos a cada dia é relativamente pequeno, da ordem de 150 pessoas, há muita flutuação estatística. A curva vermelha representa os mesmos dados após filtragem das flutuações. As linhas verticais marcam intervalos de 28 dias, de forma que se houvesse alguma correlação entre o ciclo lunar e a taxa de nascimentos ela apareceria com essa freqüência, o que não ocorre. Há mais nascimentos no primeiro semestre do que no segundo. Alguém pode argumentar que 50 mil nascimentos não é um número suficiente para encontrar o efeito da lua. Descobri um estudo similar muito mais completo, envolvendo 20 vezes mais nascimentos, feito pelo meu professor da graduação Fernando Lang da Silveira. Há também um artigo científico completo publicado no American Journal of Obstetrics and Gynecology e outro no Primary Care Update in Obsterics and Gynecology mostrando a ausência de correlação entre nascimentos e fase da lua.

Podemos ter certeza que a lua não influencia a taxa de nascimentos.

Então por quê tanta gente afirma com segurança o contrário?

Como sempre num assunto desse tipo não há uma única razão mas um conjunto de fatores que conspiram na mesma direção. Vária têm sido mencionadas:

1. A mídia, que como no exemplo do Correio Braziliense reafirma os mitos de nascimentos, cortes de cabelo, pescarias, e também lobisomens e outras criaturas.

2. A quase coincidência entre o período menstrual médio, de 28 dias e o mês lunar de 29.5 dias. Nossa espécie busca padrões e correlações em tudo. É tentador associar o ciclo menstrual ao ciclo lunar e várias culturas na antiguidade o fizeram (também associaram o homem ao sol, embora eu tenha dificuldade em encontrar ciclos de um dia ou de um ano para associar aos homens). Por outro lado, o dia de diferença entre os ciclos significa que ao longo de aproximadamente um ano a menstruação ocorre justamente na lua oposta. Mas quem lembra com detalhes do que ocorreu há um ano? O mito da lua regendo a vida das mulheres sobreviveu e continua seduzindo mentes menos observadoras e mais sujeitas a crer em mitos até hoje.

3. As marés. As marés agem sobre as águas, somos feitos de água, obviamente a lua de alguma forma nos influencia. Nada mais falso. Marés são um fenômeno curioso, de interpretação sutil e muita gente não o entende corretamente. Lembro de uma das primeiras versões da Encarta, a enciclopédia da Microsoft que trazia uma explicação errada com animação e tudo. As marés ocorrem porque a massa da terra é grande e seu diâmetro não é desprezível em relação à sua distância até a lua, de forma que a diferença de atração gravitacional entre o centro de massa e as duas superfícies opostas não é desprezível. Por outro lado, o a massa e o tamanho de um ser humano são pequenos demais para que ocorra algum efeito de maré em nós (felizemente. Imagine que nas noites de lua cheia tivéssemos uma forte pressão na cabeça e nos pés...). Para que tenhamos uma idéia, um pernilongo de 1g de massa pousado em nossa cabeça tem um efeito de "maré" sobre o nosso corpo muito maior do que a lua ou o sol! O efeito da lua sobre as marés é maior do que o do sol porque apesar de sua massa ser muito menor sua distância é muuuuito menor. As equações relevantes para estimar os efeitos podem ser encontradas aqui. Para completar, pouca gente sabe mas ocorrem efeitos de maré sobre os continentes também, embora eles sejam muito menores do que os efeitos sobre os oceanos.

4. Os efeitos psicológicos do chamado reforço comunitário (está muito melhor em inglês), o processo pelo qual uma afirmação ganha ares de verdade ao ser repetida por muitos membros de uma comunidade. Esse é o processo que faz com que nações inteiras acreditem em mitos passados de geração em geração. Ele também explica como testemunhos reforçados por outros testemunhos em comunidades de terapeutas, psicólogos, teólogos, políticos, apresentadores de TV, etc. podem suplantar e ser mais fortes do que estudos científicos bem feitos e honestos. O reforço comunitário combina-se com a predisposição para a confirmação (o mecanismo de observação seletivo inconsciente: profissionais de maternidades acham que nascem mais bebês na lua cheia e conseqüentemente só lembram de mais nascimentos nas noites de lua cheia) e idéias falsas tornam-se "verdades".

Para saber mais vale a pena olhar o verbete Lua cheia no Skepdic ou na Wikipedia.

No fundo é correto afirmar que bebês sempre nascem na mudança de lua, pois a fase da lua está mudando a cada instante. Quem garante que a lua só tem 4 fases?

Enquanto eu preparava esse artigo pensei em mais um mecanismo alternativo para compatibilizar a lua cheia com tudo o que sabemos sobre nascimentos: As cegonhas trazem os bebês de muito longe e certamente não querem colocar suas preciosas cargas em risco na escuridão. Voar nas noites de lua cheia é sem dúvida mais seguro e agradável.

6 comentários:

Samuel Rocha de Oliveira disse...

Muito legal desmontar mitos com números. Fiquei intrigado com a anomalia dos calouros aniversariantes do primeiro semestre. É provável que seja do mesmo tipo da anomalia observada na elite de jogadores de futebol da europa. No artigo A Star Is Made os autores do Freakonomics argumentam que a anomalia se deve a dois fatores:
1) A escolha dos jogadores ao final do ano
2) A auto estima de quem é escolhido.
O primeiro fator privilegia quem está por fazer aniversário no início do ano porque está uns 6 meses mais maduros do que os garotos de mesma idade.
O segundo fator estimula um jovem que foi aprovado na primeira chamada em comparação um outro que não tenha sido.

OK disse...

Leandro, esse maior numero de calouros nascidos no primeiro semestre é estatisticamente significante? Realmente tem a ver com a maturidade do estudante?
Não entendi direito o gráfico: você misturou todos os nascimentos de todos os anos em um mesmo gráfico? Não deveria usar apenas os dados de um único anos, dado que as fases ocorrem em dias diferentes a cada ano?

Leandro R. Tessler disse...

Vamos por partes:
1. Não sei dizer se a maior incidência de nascidos no primeiro semestre é significativa ou não. Talvez valesse a pena verificar os dados de outros vestibulares também. Ficará para outro post, ainda mais com a informação do comentário anterior.
2. Na verdade o gráfico é mais complicado do que parece. O primeiro dia é 1/1/1936 (ano de nascimento do candidato mais velho) e os anos seguintes têm "correções de fase" que podem ser positivas ou negativas para manter a sincronia com os meses sinódicos de 29.53 dias e considerar os anos bissextos . Quando a data resultante era negativa ela era subtraída de 365. Não expliquei isso no post porque acho que é difícil de entender para quem não tem familiaridade com cálculos de calendários, datas negativas, etc...
Usei todos os anos disponíveis porque em um único ano as flutuações estatísticas não permitem concluir nada. No site do Fernando Lang da Silveira ele calculou explicitamente em função das luas e com um número muito maior de nascimentos.

Andre disse...

Otima analise. Gostaria apenas de lembrar o fato de que em varias espeices os ciclos da lua sao usados como "zeitgeibers" modulando ou influenciando algum padrao biologico, mesmo que de forma sutil (para nos, o zeitgeiber causado pelo ciclo noite/dia e muito mais notavel, influenciando nosso padrao de sono e regulacao hormonal). Por exemplo, na pesca: peixes voadores tendem a se aproximar da superficie em noites de lua cheia, atraidos pelo plankton, que por sua vez sao atraidos pela luminosidade. Atras dos peixes-voadores vem os atuns, e atras destes... os pescadores.

Anônimo disse...

Leandro, gostei de ler o seu texto! Ultimamente, tenho-me tornado um pouco numa dessas místicas de que fala ;) uma amiga disse-me para ver se encontro algum relacão entre a minha menstruacão (que é muito irregular! Nada de ciclos de 28 dias) e a fase lunar em que acontece e até com a fase lunar do meu nascimento... e não é que as últimas menstruacões todas ocorreram em quarto minguante, tal como o meu nascimento? Interessante mesmo... eu nem sequer olho para a lua nem tenho nenhuma aplicacão no tlm a dizer em que lua estamos :) agora fiquei bastante curiosa!... Abraco, Ana

Leandro R. Tessler disse...

Ana,
Muito obrigado por seu comentário.
É muito interessante como nossa percepção das coisas pode ser influenciada pelo que acreditamos. Seu ciclo pode não ser regular mas não deve fugir muito de cerca de 4+-1 semanas. As fases da lua duram uma semana cada. Ou seja, a chance de seu ciclo coincidir com alguma fase da lua, incluindo a do seu nascimento é de cerca de 50%. Junte isso a uma memória seletiva (você lembrar mais das coincidências do que das não coincidências) e parece para você que seu ciclo está sincronizado com a fase da lua do seu nascimento. Para poder dizer qualquer coisa conclusivamente seria necessário guardar um registro detalhado. De qualquer forma, para que houvesse uma sincronia precisaria ter um mecanismo para isso, o que não ocorre.
Grande abraço!

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