domingo, 10 de agosto de 2008

Inteligência e Ateísmo

A revista Época dessa semana apresenta uma entrevista com Richard Lynn, professor emérito da University of Ulster. Entre várias afirmações bombásticas, o entrevistado afirma que as pessoas mais inteligentes são mais propensas a questionar dogmas religiosos. Se por um lado a conclusão me agrada (teste sua inteligência inferindo a crença deste blogueiro), ela cheira a pseudo-ciência trabalhando para validar uma ideologia. Mais adiante na entrevista ficam claras as posições do prof. Lynn. Segundo ele "a média da população dos Estados Unidos tem Q.I. 98, alto para o padrão mundial, e ao mesmo tempo cerca de 90% das pessoas acreditam em Deus. A explicação é que houve um grande fluxo de imigrantes de países católicos, como México". Pode piorar: “Os negros americanos são mais inteligentes que os africanos porque têm 25% de genes da raça branca”. O próprio prof. Lynn afirma ter um Q.I. 145, o que o qualificaria como genial. Não percebi toda essa genialidade na entrevista. Na verdade fiquei bastante incomodado com as afirmações do prof. Lynn que me pareceram muito mais preconceituosas do que científicas. O próprio conceito de Q.I., ou Quociente de Inteligência é bastante controverso, dado que diferentes testes podem levar a diferentes resultados. Cada teste está fortemente vinculado à cultura de quem o escreve e quais seus valores sociais e intelectuais.
Como é possível a partir de uma medida tão difusa quanto a de QI afirmar que um grupo de pessoas (ou uma certa raça) é mais inteligente do que outro?
Antes de mais nada investiguei um pouco o perfil do prof. Lynn. Lynn é um defensor da eugenia, o aprimoramento da espécie humana através de controle da reprodução buscando melhorar a nossa carga genética. Esse tipo de idéia deu origem à ideologia nazista no século passado. O prof. Lynn faz parte do conselho (e recebe financiamento) do Pioneer Fund, uma fundação norte-americana estabelecida em 1937 para avançar o estudo científico de hereditariedade e diferenças humanas" (o grifo é meu). Na verdade trata-se de uma instituição que vem promovendo o racismo e o anti-semitismo pretensamente científicos. Trabalhos do prof. Lynn foram citados no infame The Bell Curve, o livro lançado nos EUA em 1994 que pretendia mostrar que os brancos são mais capazes que os negros e que felizmente caiu no merecido descrédito e esquecimento por entre outras coisas basear suas conclusões racistas em medidas metodologicamente mal feitas.
O trabalho do prof. Lynn é constantemente criticado pelas dificuldades das medidas, distorções e conclusões obtidas a partir de amostras muito ruins e limitadas.
Enfim, seu trabalho é muito mais ideológico do que científico, buscando dar uma roupagem de ciência a seus preconceitos. Isso fica claro na explicação dada pelo professor ao baixo índice de ateísmo no Brasil: "O Brasil segue a lógica, um porcentual baixíssimo de ateus (1%) e Q.I. mediano (87). É um país muito miscigenado e sofreu forte influência do catolicismo de Portugal e dos negros da África. Fica difícil mensurar a participação de cada raça no Q.I. atual. O que posso dizer é que a história do país se reflete em sua inteligência."

Apesar de viver muito feliz com meu ateísmo radical, não é com pseudo-ciência e racismo que vamos avançar em alguma direção.

O melhor a fazer em relação ao prof. Lynn é ignorá-lo. Aliás, essa é minha atitude em relação aos que colocam seus dogmas acima do bom senso e dos fatos. A revista Época errou ao dar-lhe espaço e credibilidade.

17 comentários:

Darlan Reis disse...

Parabéns pela análise. Concordo que a pseudo-ciência não pode ter este espaço que tem hoje.
Infelizmente a mídia cumpre este papel e acaba no final, dando mais força para o misticismo e a ignorância.

Anônimo disse...

Para que a mídia possa melhor cumprir seu papel em nosso país, sugiro publicação de matéria sobre os dois brasileiros indicados, pela Congregação da USP, para o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2008: o imunologista Nelson Figueiredo Mendes e o neurocientista Miguel Nicolelis. Afinal de contas, é a primeira vez que brasileiros são indicados ao Nobel. Devemos divulgar e prestigiar o Brasil.

Clarissa disse...

Que coisa, Leandro, li esse artigo e pensei na hora "isso não cheira bem..."Não pesquisei o cara, mas o recado ali estava óbvio. Faz só 6/8 mil de anos - um nada - que as diferenças em tons de pele começaram a se tornar mais fortes. Antes éramos todos da mesma cor...É aquela história: "we are all africans". E somos mesmo. Um beijo, Clarissa

Anônimo disse...

"é a primeira vez que brasileiros são indicados ao Nobel."

Carlos Chagas foi indicado ao Nobel duas vezes.

Testes de inteligência não são um mero número que aparece quando você faz um teste de QI. Estudos mostraram que há alta heredabilidade do QI(1), que QI está correlacionado com a quantidade de matéria cinzenta em partes específicas do córtex cerebral(4), que há sim uma correlação positiva entre as diferentes habilidades mentais (2), e que essa correlação está relacionada com a memória de trabalho(3). Não só isso, intervenções com a intenção de aumentar a memória de trabalho resultaram em um aumento significativo do resultado de testes de QI(5). Pseudo-ciência é uma bosta, mas me parece no mínimo preconceituoso chamar uma pessoa de racista sem pelo menos verificar se as afirmações do cara não são por algum acaso bem verdadeiras.

referências:
1) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17295998?ordinalpos=1&itool=EntrezSystem2.PEntrez.Pubmed.Pubmed_ResultsPanel.Pubmed_DefaultReportPanel.Pubmed_RVDocSum
2)http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=195141
3) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/14643371?ordinalpos=20&itool=EntrezSystem2.PEntrez.Pubmed.Pubmed_ResultsPanel.Pubmed_DefaultReportPanel.Pubmed_RVDocSum
4) http://today.uci.edu/news/release_detail.asp?key=1187
5) http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?tool=pubmed&pubmedid=18443283

Leandro R. Tessler disse...

Caro anônimo,
Se por um lado a mioria de suas afirmações está correta, por outro nenhuma delas dá suporte às afirmações de cunho racista e preconceituoso do sr. Lynn.
Os trabalhos dele estão cheios de citações a trabalhos metodologicamente errados e sua argumentação é de cunho ideológico quase religioso. Pseudociência, ainda mais com fins racistas é realmente muito ruim.

Anônimo disse...

Considerando que eu forneci boas referências, eu diria que não é a minoria mas sim a maioria, pelo menos, das minhas afirmações está correta.
O meu ponto foi exclusivamente sobre QI, repare que eu nem entrei no mérito do racismo. O meu ponto é que se você discorda do que o Dr.Lynn fala por achar que QI beira à numerologia, então seu argumento é falso.

A questão do racismo e de haver diferenças entre QI das raças são questões distintas. Além disso, se há alguma diferença entre o QI das raças isso é uma questão empírica, não sujeita a deliberações ideológicas, nem contra mas também nem a favor. Se há um componente genético na inteligencia, e há variações genéticas entre as raças (basta ver a incidência de doenças genéticas nos judeus Ashkenazi em comparação com outras etnias) isso não levanta pelo menos a hipótese de haver uma diferença genética entre as raças?

Outro ponto é que mesmo que se descubra que há uma diferença de QI entre as raças isso não é justificativa para o racismo.

Seja sincero: o que você pensaria se fosse descoberto que um povo da Polinésia tem um QI médio maior que o dos brancos? É curioso como nesse cenário as pessoas não sentem nenhuma repulsa, apesar de ser uma diferença de QI entre raças.

Note que eu estou sendo um pouco advogado do diabo, mas meu ponto é claro: se você quiser discordar dele, você vai precisar de um argumento melhor.

Leandro R. Tessler disse...

A diferença que a falta de uma letra faz. Eu havia escrito mAioria. Anônimo (que deveria sair do anonimato) leu miNoria.
No entanto, nenhuma das suas referências dá suporte às idéias racistas do Prof. Lynn.

Estimativas de QI não são universalmente aceitas como indicadores de inteligência. Será mesmo possíve quantificar inteligência com uma figura de mérito numérica? Pode-se usar esse número para comparar grupos culturais ou étnicos, dada a sensibilidade dos resultados ao método usado? Uma voz importante nesse debate foi o cientista Stephen Jay Gould em seu livro "A Falsa Medida do Homem (The Mismeasure of Man)". Note que em suas referências não se comparava um povo da Polinésia com huppies de New York. O modelo não se aplica. Um dos desafios mais importantes na ciência é reconhecer e aceitar os limites das nossas idéias e modelos. Extrapolá-los leva a várias das manifestações pseudo-científicas discutidas nesse blog.

Carlos Daniel disse...

"No entanto, nenhuma das suas referências dá suporte às idéias racistas do Prof. Lynn."
Correto. Eu nao estou defendendo as posições do Dr.Lynn, estou defendendo a validade dos testes de QI como algo que que mede inteligência, mostrando que já correlações entre QI e várias outras medidas relacionadas a habilidade mental. Devo destacar também que se as alegações dele fossem sustentadas por dados válidos, ele estaria certo em defende-las. Como eu disse, se há diferenças de inteligência entre raças é uma questão empírica, não ideológica. As pessoas aceitam que há diferenças genéticas entre as etnias: fibrose cística é mais prevalente em caucasianos, anemia falciforme em negros, hepatite C em negros tem maior tendência a tornar-se crônica, etc... Algumas pessoas concordariam que inteligência é herdável, pelo menos em parte (isso é sustentado pelos dados). Não vejo porque as pessoas acham tão absurda que possa haver uma diferença não ambiental entre a inteligência das raças.

O livro do Gould é considerado uma piada quase que unanimemente por psicologos que trabalham com psicometria e inteligência, é uma pessima referência para o assunto. Um statment assinado por especialistas em inteligencia e psicometria foi publicado um pouco depois da publicação do The Bell Curve, que gerou uma baita controvérsia. Vale a pena dar uma olhada.
http://www.udel.edu/educ/gottfredson/reprints/1997mainstream.pdf

João Marcos disse...

Eu li a entrevista com o doutor Lynn e, pelo o que eu entendi, ele estudou a inteligência humano durante 20 anos e me pareceu que a pesquisa dele é válida.
Outra pesquisa já confirmou que QI é inversamente proporcional a crença. Mas é claro que existem pessoas inteligentes e religiosas.
Se eu não me engano, ele explicou o porquê de geralmente os brancos serem mais inteligentes que os negros. De qualquer forma, eu não sou racista e vou esperar mais tempo para ver aonde isso vai chegar.

João Marcos disse...

Eu li a entrevista com o doutor Lynn e, pelo o que eu entendi, ele estudou a inteligência humano durante 20 anos e me pareceu que a pesquisa dele é válida.
Outra pesquisa já confirmou que QI é inversamente proporcional a crença. Mas é claro que existem pessoas inteligentes e religiosas.
Se eu não me engano, ele explicou o porquê de geralmente os brancos serem mais inteligentes que os negros. De qualquer forma, eu não sou racista e vou esperar mais tempo para ver aonde isso vai chegar.

Anônimo disse...

Tais testes são uma extensão da mentalidade da eugenia e frenologia. Não existem meios convincentes de medir inteligência é uma besteira como medir crânios. Alias alguns racistas aceitam a frenologia o mesmo vejo com alguns bajuladores de Q.I.

João Marcos Toledo Theodoro disse...

Ah, esse "pesquisador" é um racista filho da puta mesmo...

Anônimo disse...

Eugênia não começou com os nazistas, vá estudar!

Leandro R. Tessler disse...

Caro Anônimo mal educado:
Nem a Eugênia nem a Maricota nem a Joana foram inventadas pelos nazistas. Você deve estar se referindo à eugenia. Quando você estudou devia ter prestado mais atenção nas aulas de interpretação de texto. Está no texto acima que "Esse tipo de idéia deu origem à ideologia nazista no século passado." Não está escrito que os nazistas inventaram a eugenia. Nem a dona Eugênia.

Anônimo disse...

Você é um hipócrita, diz querer liberdade e na mesma hora censura a opinião de outras pessoas, deixa o cara ter a opinião dele em paz, seja ela qual for!

Richard Lynn, que é professor emérito da University of Ulster tem um lugar porque ele mereceu.

Quanto a você? quem é você? Um insignificante no sul da américa.

Se o trabalho dele é mais ideológico do que científico, o seu é puramente ideológico, será que ainda não percebeu isso!

Quanto ao mais, eu duvido de sua sinceridade!

Muchas gracias!

Leandro R. Tessler disse...

Caro Anônimo,
Eu só publiquei seu comentário porque ele é um excelente exemplo de como NÃO devemos proceder em uma discussão científica:
1) Começa pelo anonimato. As pessoas em discussões científicas precisam assumir o que dizem, mostrar a cara. Em geral nem se leva em conta opiniões anônimas.
2)Já que você quer usar um argumento de prestígio institucional, que não é exatamente um argumento científico, OK. A University of Ulster fica em Belfast, no Reino Unido. Um importante jornal do Reino Unido faz um ranking de universidades. A University of Ulster nao aparece nesse ranking. A universidade onde eu trabalho na América do Sul aparece na posição entre 301 e 350. Qual das duas é insignificante?
3) Sua critica é puramente baseada em ataques pessoais. Não se leva isso a sério em ciência.

De nada.

Geografia Geografia disse...

Bem, se ele fosse um cientista falando coisas politicamente corretas a respeito de assuntos como gênero, raça e religião, certamente a senhorita não iria ficar tão irritada assim com o sr. Lynn. Mas o fato é que seus estudos acabam frustrando todo o dogmatismo igualitarista que a ciência construiu à partir do pós-guerra, Lynn não tem papas na língua e mostra que em geral, mesmo controlando fatores socioambientais, ainda assim, ateus são mais inteligentes que teístas, homens são mais inteligentes que mulheres, e asiáticos e judeus asquenazi são mais inteligentes que brancos caucasianos, que por sua vez são mais inteligentes que os negros. E não é só ele que pensa assim, inúmeros psicólogos sabem disso, mas por razões óbvias não vão dizer. As vezes cabe a um cientista falar coisas das quais a sociedade não quer ouvir e acreditar que são verdades incômodas, foi assim com Galileu Galilei, com Kepler entre muitos outros. Se o estudo dissesse o contrário, ou seja, que mulheres são mais inteligentes do que homens e que negros são mais inteligentes do que brancos, eu duvido que as ideias e afirmações de Lynn causariam tanto desconforto e repulsa. E digo mais, se as ideias de Lynn são pseudocientíficas, por acaso as suas críticas a ele também não são de motivação puramente ideológica e não científica?

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