segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Con-fusão nuclear

O ano era 1989. Eu estava terminando meu doutorado em Física. Bitnet, a avó da internet, já não era novidade na minha universidade. Qualquer conversa científica na cafeteria invariavelmente começava com a expressão "Recebi hoje um bitnet (como não existiam os browsers, o uso principal da rede era para troca de mensagens eletrônicas, que em lugar de e-mail chamavam-se pelo nome do sistema) dizendo que ....". Numa dessas conversas um colega (ou professor, não lembro mais) havia recebido um bitnet sobre um fenômeno impressionante e revolucionário: a fusão fria, que estava causando furor entre químicos e físicos no mundo inteiro. Parecia bom demais para ser verdade: fusão de núcleos de hidrogênio (ou deutério) aprisionados em paládio a temperatura ambiente. O fenômeno foi anunciado com pompa e circunstância pelos professores Martin Fleischmann e Stanley Pons da Universidade de Utah. A fusão nuclear é uma fonte de energia limpa e durável, mas que até hoje não conseguiu viabilidade técnica para ser empregada na Terra (apesar de ser a fonte de energia do Sol!). Em geral a reação de fusão envolve muita energia e atinge temperaturas muito altas gerando um plasma (gás ionizado) muito quente. Até agora tem sido tecnicamente impossível manter uma reação de fusão estável confinada e controlada em laboratório (as bomdas de hidrogênio são um exemplo de fusão não confinada e não estável). Se por um lado não parecia impossível que um fenômeno de fusão estivesse ocorrendo a um ritmo muito lento (sem grande aumento de temperatura, portanto, daí o nome "fusão fria") , os resultados foram recebidos com grande ceticismo. Um detalhe experimental em particular chamou a atenção da comunidade: Uma das evidências para a fusão fria no artigo original (só para assinantes) era uma emissão de raios gama na energia esperada para a reação. No entanto, o pico de radiação apresentado no artigo não trazia a chamada borda Compton, um efeito relativístico que ocorre dentro de detectores sólidos e é conhecido por qualquer estudante de graduação em Física que tenha passado por um laboratório de física moderna. Muita gente dizia que se fusão fria realmente tivesse ocorrido na montagem de Fleischmann e Pons eles estariam mortos por falta de proteção contra radiação. Vários laboratórios pelo mundo inteiro buscaram reproduzir o experimento, com taxa de sucesso quase nula. Lembro que a revista Nature usou um subterfúgio para dizer que os resultados não se reproduziam: publicou um artigo jornalístico que no título já dizia que "fusão fria é reproduzida no Brasil e na Índia". Depois um editorial (só para assinantes) assinado por John Maddox, que mais tarde se tornaria célebre por desmascarar a fraude da memória da água duvidava da veracidade dos experimentos.
Com o tempo a comunidade científica em geral ficou convencida de que a fusão fria era resultado de nada além do desejo de obter resultados animadores junto com fraude pura e simples por parte de pesquisadores que alteravam ou inventavam resultados para suportar suas idéias. Isso não impediu que muito dinheiro fosse gasto no assunto. Financiados por capital japonês, Fleischmann e Pons abriram um laboratório dedicado à pesquisa em fusão fria em Sophia Antipolis, no sul da França (o laboratório foi fechado em 1998). Estabeleceu-se uma série de conferências internacionais (a de número 14 acaba de ocorrer nos Estados Unidos, com Martin Fleishmann no Comitê Internacional).
Os defensores da fusão fria hoje em dia consideram-se incompreendidos e injustiçados pela comunidade científica e criaram uma comunidade própria, com publicações pretensamente científicas que passam por revisão por pares e tudo mais além da conferência. Isso não é diferente de outras manifestações de pseudo-ciência. Não faltam revistas especializadas em Homeopatia, para usar um exemplo conhecido. No entanto, devido à falta de resultados reprodutíveis algumas agências governamentais (em particular a japonesa) que vinham financiando suas pesquisas estão deixando de fazê-lo. A fusão fria já pode ser considerada uma manifestação de ciência patológica: ciência que está baseada em premissas e resultados falsos mas é praticada mesmo assim. Qualquer semelhança com outras manifestações de pseudo-ciência não é mera coincidência. Isso sempre ocorre quando uma idéia supostamente boa não corresponde aos fatos e alguém, versado ou não no método científico a "demonstra" seja fraudando os experimentos seja por pesquisa metodologicamente mal-feita ainda que de boa fé.
A história não tem fim. Em 22 de maio deste ano uma "demonstração" de um reator nuclear de fusão fria teve lugar na Universidade de Osaka no Japão. Não convenceu muita gente, como pode ser visto na reação à descrição detalhada do experimento. Uma fria.

Um comentário:

Marcia de Paula disse...

Artigo maravilhoso! Assisti a um filme que mencionava a fusão fria, fui pesquisar a respeito por curiosidade e cheguei no seu artigo...
Concordo com vc sobre esses "cientistas" e seus respectivos "métodos", pois sou Cientista da Computação e vejo muito isso ocorrer na minha área...

abraços!

M.

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