sábado, 13 de dezembro de 2008

Tabula Rasa

Em 1994, o lingüista do MIT Steven Pinker publicou um livro intitulado “The Language Instinct”, cujo tema central é uma discussão ampla da capacidade humana para a linguagem. A questão central é entender que o milagre aparente da aquisição da linguagem por uma criança humana é, de fato, a operação de um órgão complexo, alicerçado na fisiologia do cérebro e desenvolvido pela evolução. Dá para argumentar que o desenvolvimento deste “órgão lingüístico” é o fato central da evolução humana, ou seja, que a operação deste órgão é a característica mais distinta do acidente evolucionário que conduziu à aparição do bicho homem.

O funcionamento do órgão de linguagem é um assunto científico extremamente relevante e interessante. Ele representa a junção de diversas tradições científicas importantes, principalmente de neurofisiologia, de lingüística e de psicologia cognitiva, com aplicações no tratamento e compensação dos distúrbios da linguagem e na educação. Este estudo representa também um ponto de vista bastante ilustrativo sobre o que nos faz humanos.

A voz do autor do “The Language Instinct” é de um pesquisador apaixonado pela sua área, que vê no progresso alcançado pela sua disciplina um achado valioso, que pode e deve ser amplamente divulgado. Houve uma reação negativa considerável ao livro de Pinker, veja, por exemplo, o sítio do livro “The Language Instinct Debate” na amazon.com e o debate associado a ele. É claro que os criacionistas de plantão são bastante hostis às idéias exploradas por Pinker. Contudo, as críticas mais azedas vieram de uma outra direção – da comunidade de ciências humanas e sociais. O problema é muito simples. De maneira geral, as ciências humanas e sociais do século XX são construídas sobre um modelo bastante específico da natureza humana, e a proposta de um “instinto de linguagem” parece ser um ataque violento aos alicerces deste modelo.

Em 2002, Pinker publicou um outro livro, “The Blank Slate”, ou “Tabula Rasa” que é primariamente uma resposta a todo o ultraje suscitado pelo “The Language Instinct”. De fato, o objetivo do livro de Pinker é delinear cuidadosamente as hipóteses por trás deste modelo hegemônico de natureza humana das ciências sociais, explorar suas origens históricas e contrapor argumentos racionais, ao que é, em última análise, uma construção de natureza ideológica e política. O autor de “The Blank Slate” é zangado e ácido, muito menos simpático que o autor do “The Language Instinct”, mas sua argumentação continua a ser bastante efetiva.
De acordo com Pinker, o modelo padrão das ciências sociais inclui três hipóteses centrais:

1) Tabula Rasa: o cérebro humano é um instrumento computacional que emerge do útero sem nenhuma estrutura a priori, e é completamente formado pelos condicionantes sociais operantes após o nascimento.

2) O Bom Selvagem: os seres humanos são intrinsecamente bons, e são corrompidos pela sociedade.

3) O Fantasma na Máquina: o locus da livre-escolha, independente e desvinculado da biologia humana.

Colocadas desta maneira, essas três hipóteses são obviamente absurdas. Em particular, elas rejeitam o papel criativo da evolução e dos condicionantes biológicos da natureza humana, e representam, de fato uma negação completa do que significa ser humano. Mais ainda, essas hipóteses absurdas estão refletidas em muitas das práticas modernas em política, nas leis, na educação e nas práticas sociais de governos e instituições. É curioso observar que muitas das práticas sociais vigentes, aquelas que parecem mais sem sentido e contrárias ao senso comum estão formalmente apoiadas nesta negação sistemática da natureza humana feita pelas ciências sociais do século XX. Tome, por exemplo, o discurso hegemônico sobre a natureza das instituições penais – em que todos os “especialistas” concordam na mais absoluta essencialidade dos mecanismos de resgate e resocialização dos presos. Isto é algo que todos sabem, pela mais elementar experiência com pessoas, ser quase inteiramente irrelevante.

2 comentários:

Roberto Cohen disse...

Ué...

Milton, você concordou ou discorda do autor?

Quando pensei que ia ser desenvolvida uma argumentação sobre as idéias postuladas... O texto acaba.

?

El Cohen

Milton Lopes Filho disse...

Roberto,

No "Tabula Rasa" o tema central do Pinker é o absurdo das hipóteses de "tabula rasa", "bom selvagem"
e "o fantasma na maquina". Ao dizer
que estas hipóteses são obviamente absurdas eu estou concordando com a tese central dele, e, ao mesmo tempo, fazendo uma discreta crítica por ele passar um livro inteiro demonstrando o óbvio.

Reconheço, contudo, que neste mundo irracional, pode ser bom discorrer longamente sobre o óbvio.

Creative Commons License
Os direitos de reprodução de Cultura Científica são regulados por uma Licença Creative Commons.