terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Macaco Harmonico Azul

Como eu vinha fazendo nos últimos anos, passei a virada do ano nas proximidades de Garopaba em Santa Catarina. É um lugar ótimo para se isolar do mundo, descansar um pouco e praticar esportes aquáticos. Para minha surpresa, dessa vez também aumentou minha cultura astrológica. Minhas filhas chegaram de compras em uma loja descolada de lá com um guia do "Calendário Maia". Descobri que sou Kin 31, ou seja, Macaco Harmônico Azul. Você pode descobrir seu kin aqui. Descobri também que o "Calendário Maia" é supostamente um código astrológico comparável ao egípcio usado pelos astrólogos de plantão. Fiquei um pouco desconfiado devido aos termos usados, que não me pareceram muito compatíveis com a cultura maia: magnético, elétrico, ressonante, harmônico. Isso parecia mais um guia New Age. Na verdade é. O "Calendário Maia", também chamado de Calendário da Paz, que muita gente segue religiosamente no Brasil tem pouco a ver com a cultura maia e muito com o movimento New Age.
O padrão sociológico se repete nas pseudociências e nas crenças em geral, religiosas ou não: algum iluminado recebe uma revelação, escreve um tratado acima de verificação experimental porque contém a Verdade, uma turba de seguidores se forma. No caso do "Calendário Maia" o iluminado é José Argüelles, um americano com doutorado em história da arte e estética pela Universidade de Chicago que segundo consta lecionou em universidades prestigiosas incluindo Princeton antes de escrever o livro místico The Mayan Factor: Path Beyond Technology (encontrei uma tradução em português esgotada aqui). Depois disso, junto com sua companheira Lloydine ele criou o Instituto de Pesquisas Galácticas da Fundação da Lei do Tempo. Observando os grafismos dessa página sou levado a pensar que o Dr. Argüelles há muito esqueceu o que aprendeu em seu doutorado em estética. Segundo uma página do instituto, os maias tinham um sistema matemático, astronômico e de calendário peculiar, usando como
medida de base a razão 13:20. Eles usavam 19 calendários, sabiam que o tempo é a quarta dimensão, e sabiam também que a história vai terminar em 2012.
Já a nossa civilização moderna usa a frequencia artificial 12:60. É provavelmete por isso que ocorrem guerras e injustiças no mundo. A solução, segundo os seguidores do Dr. Argüelles é adotar o seu Calendário Maia, com 13 meses de 28 dias. Isso mudará o mundo.
Opa, 13x28=364 dias. Como sincronizamos com o calendário gregoriano? E o dia que falta? Fácil. Criamos um Dia fora do tempo, que ocorre todo dia 25 de julho. Um dia tão especial deve ser inteiramente dedicado à meditação e preces. Em Gravatal, SC , a Câmara dos Vereadores aprovou uma lei criando o Dia Municipal da Cultura e da Paz, comemorado com o apoio da Sercretaria de Turismo.
Mas espere. Na verdade o período do ano solar não é só 365 dias, mas aproximadamente 365 dias e 6 horas. É por isso que a cada 4 anos temos um ano bissexto, que inclui o dia 29 de fevereiro, formado pela soma das 6 horas extras de cada ano. Como os supostos maias do Dr. Argüelles dão conta disso? Simples: não dão. Após 720 anos o verão cai nos meses de inverno e vice-versa. Leva mais 720 anos para voltar ao normal.
Mas não precisamos nos preocupar com isso. Segundo as supostas previsões maia seguidas pelos seguidores do Dr. Argüelles a história terminará em 2012. Mais precisamente em 21 de dezembro de 2012.
Mas nem tudo está perdido! Segundo eles em 2012 terminam três ciclos: um de 5125 anos, um maior de 26 mil anos e um ainda maior de 104 mil anos. Aí o mundo acaba? Nada disso! Após Sete Luas Místicas será lançada a Nave do Tempo 2013, marcando a entrada do planeta na civilização cósmica e participação plena na Federação Galática. Esse pessoal deve ter tido uma overdose de Guerra nas Estrelas!

De qualquer forma, até o próximo Dia Fora do Tempo estaremos aproveitando o ano da Tormenta Elétrica Azul. Tem muito mais na página do movimento no Brasil. É divertidíssimo. Segundo eles o ataque de 11 de setembro é apenas um aviso do que está por vir. A crise nas bolsas também. Arrependei-vos!

Recentemente um documentário (vai passar de novo dia 15/1/09) na Discovery mostrou como cientistas sérios conseguiram recentemente decifrar a escrita maia. Foi um empreendimento que durou mais de um século, envolvendo gerações de antropólogos com suas sacadas geniais e também seus preconceitos, mas nenhuma revelação (em breve espero escrever sobre isso, pois é um excelente exemplo de como a ciência funciona). Há muita informação sobre a cultura maia na página da Discovery Brasil. Felizmente os verdadeiros maias não assistiam Guerra nas Estrelas!

4 comentários:

MethodicalMind disse...

É interessante notar que aparentemente tudo o que não é ciência vê na tradição uma forma de validar suas idéias. Assim a prática (deliberada geralmente, mas as vezes por pura ignorância ou análise superficial) de usar o nome de civilizações "avançadas" e "perdidas" como os Maias para validar todo tipo de bobagem. Para a ciência, a tradição não tem valor. O que importa são evidências e na verdade, dado a tendência de novas teorias suplantarem as anteriores, dá para dizer que em ciência, usar a tradição como argumento pode ser um passivo. Em resumo, a ciência evolui, o que traz muito desconforto para algumas pessoas. Mudar é traumático e ter que exercitar constantemente seu pensamento crítico e julgamento pessoal significa muito trabalho e incerteza. É bem melhor consumir idéias prontas e que nunca mudam.

Quanto aos Maias, até onde sei eles realmente tinham uma astronomia e matemática avançadas. Mas a razão por trás de tal desenvolvimento não era a busca de conhecimento. Era pura supertição. Eles acreditavam que a cada fim de ano havia o risco do mundo acabar. Daí criaram vários calendários (solar, lunar, segundo Vênus, etc). A idéia era enganar os deuses deles, já que quando um calendário estava trocando de ano, o outro não estava. Tb inventaram o zero independentemente dos indianos, e acho que um dos calendários deles tinha um dia zero (que talvez seja o dia fora do tempo). Novamente a idéia era enrolar os deuses deles, já que o zero era visto como um ás em um baralho. Era ao mesmo tempo o fim e o início de uma seqüencia. Mesmo assim, a cada mínimo múltiplo comum dos vários calendários que tinham, todos os calendários chegavam ao fim, e daí a solução era típica: sacrifícios humanos.

É sintomático que os que alegam serem inspirados pelos sábios Maias esqueçam das práticas bárbaras deles e preferem ficar fora do tempo a evoluir.

Leandro R. Tessler disse...

É isso mesmo. Para minha completa estupefação depois de escrever esse artigo descobri um aviso meio escondido numa das páginas de http://www.calendariodapaz.com.br.
O aviso diz que "Cabe ressaltar, no entanto, que este não é o calendário maia. Nem tampouco constitui-se numa tentativa de reviver a cultura maia."
Ou seja, os proponentes e defensores do calendário do Dr. Argüeles sabem que não se trata de um calendário maia, mas não deixam de fazer com que os incautos pensem tratar-se de uma manifestação da cultura maia.

Osame Kinouchi disse...

Teremos que aguentar isso até 2012!
Em todo caso, parece que os Maias realmente tinham determinado o ano solar com maior precisão que os europeus até a Renascença, por motivos tanto religiosos como ligados à agrigultura.

Acho que uma boa pergunta é: por que esse clima apocalíptico no movimento New Age atual? O que isso sinaliza sociológicamente? Um desejo de acabar com este mundo por falta de qualquer alternativa social ou pensamento utópico realizável?

Anônimo disse...

Sem exageros, é impressionante a nossa arrogancia frente a outros tipos de conhecimento. Algo "surreal". Cito um exemplo, no caso da civilização Maia. Dentre as ruinas ainda de pé hoje, há um lugar onde geralmnente entra só uma pessoa e, ao centro, emite qualquer tipo de som, como uma palma, por exemplo. Esse som simplismente se propaga pelo pátio e ecoa sete fezes. Isso mesmo, o som é ouvido mais sete vezes por conta da acustica do lugar. Claro que isso foi planejado, em verdade deve ter dado muito é trabalho, mas foi feito. Tratar uma civilização dessa como "superticiosos" ao meu ver é um absurdo!

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