domingo, 19 de julho de 2009

Lá em Mogi, o cara da janela dá

Eu ouvi essa frase estranha há pouco tempo em Copenhagen. Obviamente a pessoa que a pronunciou não tem a menor idéia sobre os hábitos do cara da janela, especialmente em Mogi. Ela provavelmente nunca ouviu falar de Mogi.
Nosso cérebro tem uma capacidade incrível de encontrar padrões nas coisas. Essa capacidade deu à espécie humana uma enorme vantagem evolutiva. Ela nos permite entender as coisas. Ela nos dá a capacidade de apreciar a arte. Nos fez criar a matemática. Estabelecer a ciência e a tecnologia. O psicólogo Michael Shermer insiste em seus livros que os humanos são animais que buscam padrões.
Mas encontrar padrões em tudo pode nos enganar muitas vezes. Achar frases na nossa língua quando ouvimos línguas desconhecidas é um desses casos.
Há muitos anos eu não ia a um país onde a língua me é completamente impenetrável. A última vez tinha sido na Hungria no início da década. Em Húngaro obrigado é köszönöm. No meu ouvido virava algo como kusadám. De nada é üdvözöljük. No meu ouvido, algo como váenxugáochão. Diálogos supostamente educados ficavam hilários: uma referência estranha ao ex-ditador do Iraque, seguida de um pedido para evitar que as pessoas escorregassem ao andar no piso molhado. Na verdade era meu cérebro em ação tentando "traduzir" o que ouvia para um padrão conhecido em português. Obviamente as frases ficam sem sentido. O mesmo aconteceu na Dinamarca. Eu distraído ouvia pessoas falando frases desconexas em "português". Algumas vezes era em francês. O motivo é o som da letra ø, muito usada em Dinamarquês que não tem som correspondente em português mas parece um som do francês.
Essa capacidade de encontrar padrões mesmo onde eles não existem é uma das bases para a pseudo-ciência. As pessoas acreditam que as relações que elas supõe encontrar realmente existem. Se isso é reforçado por algum guru então o estrago está feito. Tente convencer alguém que tem dores de cabeça e as trata com homeopatia que quanto mais diluímos um princípio ativo menos eficaz ele fica. A resposta é sempre "mas comigo a homeopatia funciona". E funciona mesmo, no sentido de a pessoa atribuir o efeito a uma causa, apesar de essa não ser a causa real. É como achar que a pessoa que ouvi falando em dinamarquês realmente falava de um cara de Mogi! Difícil é o adepto da homopatia se dar conta de que o efeito que ele observa não se deve ao padrão que seu cérebro estabeleceu.

2 comentários:

Hecton P.Domingos disse...

Interessante, principalmente se tratando de linguagens os "padrões" que nossa mente busca tentando um "translation" do que encontra são mais forçados a se caracterizar.

As crenças religiosas usam e abusam dessa "falha" (note que é uma falha na maioria das vezes) para valorizar uma história ou ela mesma, uma pessoa está com dor no peito, ela vai à um médico, faz a consulta, ele indica um medicamento que a principio tem efeito depois de algum tempo, esse individuo com suas "convicções" e crenças conversa com seus lideres religiosos sobre o “mal” que está sofrendo, eles indicam o que (um doce pra quem acertar essa)? Oração. Enquanto isso, o principio ativo já está agindo no organismo no individuo....ahhhh, quem foi o mocinho da história na cura da doença?


Ótimo texto.

Abraço

Maffalda disse...

Sobre o reconhecimento de padrões e pseudo-ciência, O mundo assombrado pelos demônios é leitura indispensável.

(Mas confesso que sou das que já escreveram "quelérretíle" no livro de francês para lembrar a pronúncia ao perguntar as horas.)

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