segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cotas infladas

Estou cada vez mais prestando atenção na Cultura Científica (ou a ausência dela) na grande imprensa brasileira. O azedíssimo (isso é um elogio!) blogueiro Ben Goldacre, do Bad Science atribui à falta de um mínimo conhecimento científico de editores e jornalistas do Reino Unido grande parte do sucesso de tratamentos milagrosos com pílulas, ervas e vitaminas naquelas bandas. Ele sempre insiste que os editores em geral têm formação mais próxima das humanidades e das ciências sociais, com uma percepção bastante incompleta sobre o que é a ciência e como ela funciona.
Li hoje no Jornal da Ciência, clipping de ciência da SBPC, um artigo curioso sobre cotas no acesso ao ensino superior. O artigo original saiu no jornal O Estado de São Paulo. O título é: "País tem 148 instituições públicas de ensino superior com sistema de cotas". Eu estive bastante envolvido na elaboração do projeto de Ação Afirmativa da Unicamp e conheço os debates que até hoje vêm ocorrendo. Achei o número um pouco exagerado. O artigo ainda menciona que "Enquanto projeto [de lei] sobre o tema tramita no Congresso, as universidades têm autonomia para criar seus próprios modelos". A fonte da informação é uma compilação feita pelo Educafro, entidade que vem há anos defendendo cotas com todos os meios que dispõe. Resolvi olhar os dados originais do Educafro (que no meu browser pelo menos aparecem com caracteres estranhos). Parece ser uma compilação bastante completa de tudo o que há em ação afirmativa no Brasil.
A conclusão a que se pode chegar a partir da compilação é bem distinta da oferecida pelo Estadão. Segundo os dados do Educafro 48 instituições de ensino superior (1/3 do total) têm programas de bônus, que não é a mesma coisa que cotas. Não se pode classificar instituições que oferecem bônus como se oferecessem cotas. Cotas consistem em reserva de vagas. Bônus não. Mais de 2/3 do total, ou seja 102 instituições adotaram programas de ação afirmativa por força de decreto ou lei (municipal, distrital, estadual ou federal), o que é o contrário de "autonomia para criar seus próprios modelos". Há no meio acadêmico debate sobre a legitimidade de uma lei determinar como uma universidade deve selecionar seus estudantes.
Cada uma das 12 FATECs do Rio de Janeiro e das 38 São Paulo foi listada como se fosse uma instituição diferente. Na verdade são braços de uma só. As decisões são tomadas para o conjunto delas. Ou seja, 48 das 148 instituições não são instituições independentes.
O texto do jornal não chama a atenção para nenhum desses aspectos. A dificuldade de ler e entender textos, números, tabelas e gráficos não é exclusividade de artigos jornalísticos sobre ciências da natureza, como o Bad Science sempre insiste. Ela está presente também em artigos mais próximos às ciências sociais mesmo em jornais de prestígio.

2 comentários:

Anônimo disse...

ótimo artigo !

A meu ver o Estadão como Jornal das Elites estará sempre defendendo o Fim das Cotas e para tal deturpa os fatos para influenciar a opnião pública.

Andrea Pio disse...

Sou totalmente contra as cotas. Acho que implementar cotas em uma universidade [e sinonimo de preconceito.
Mas torna-se mais facil, teoricamente, do que reforcar o ensino basico e medio.

Andrea

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