terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Extra Terrestres, NASA e sonhos de infância

Para todos nós que crescemos nos anos 60/70 a palavra NASA tem um significado quase mítico. Dez entre dez dos meus colegas de jardim de infância tinha uma resposta pronta quando nos perguntavam "O que você vai ser quando crescer?". Astronauta.
A NASA significava a descoberta de outros mundos, o desafio para os corajosos, a aventura. Nós achávamos que a NASA era O lugar onde trabalhavam os cientistas. O grande sonho era um dia eles encontrarem vida em outros planetas.
De lá para cá o mundo mudou e mudei eu. Hoje eu sei que a NASA era um ambiente muito mais de realizações de engenharia do que da ciência. Sei também que diferentes formas de vida não precisam ser antropomórficas nem mesmo baseadas no DNA que conhecemos.
Mesmo depois de falhas graves como os dois acidentes com o ônibus espacial que resultaram a cada vez na morte de toda a tripulação, e outros erros patéticos como a perda de uma espaçonave não tripulada devido a confusão entre os sistemas de unidades métrico e o americano (essa foi difícil de acreditar mas aconteceu), o nome NASA continua associado a alta tecnologia e é continua usado para vender de travesseiros até geringonças pseudocientíficas inúteis.
Mas nos Estados Unidos, onde os contribuintes pagam as contas da NASA, ela hoje em dia não é uma unanimidade. Críticos questionam os pesados investimentos demandados pela agência argumentando que os avanços científicos dela advindos não se justificam. Bob Park, do clássico blog What's New, é um ácido crítico da insistência da NASA em missões tripuladas enquanto segundo ele os mesmos resultados poderiam ser obtidos de forma mais barata e menos arriscada através e missões não-tripuladas. Claro que isso tiraria grande parte do charme que me fascinava na infância...
A NASA vem buscando justificativas para sua existência. Então, na semana passada eu estava numa conferência sobre educação para todos na UNESCO quando recebi da amiga Sabine Righetti da Folha de São Paulo uma notícia que quase me fez ter um treco: Pesquisadores descobrem bactéria com DNA "ET". Será que tinham descoberto vida fora da terra? Lendo a notícia fica claro que não é bem isso, como o press release da NASA dava a entender com uma aura de mistério. Nossa imprensa seguiu o script da NASA. Teve até um blog ao vivo.
Afinal, qual era a novidade? Para citar o título do artigo publicado na Science e está aberto ao público: Uma bactéria que pode crescer usando arsênio no lugar de fósforo. Isso é uma notícia muito importante, mas não exatamente extra-terrestre. Afinal, os ácidos nucléicos conhecidos até hoje são compostos dos elementos carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, enxofre e fósforo. Uma forma de vida que substitui o fósforo pelo arsênio é improvável do ponto de vista energético mas não impossível sob condições extremas. É o fato do arsênio substituir o fósforo mas não realizar processos metabólicos vitais que o torna tão tóxico para os seres vivos. Isso seria portanto realmente uma novidade importante. Mas daí para sugerir que essa forma de vida tem origem extra-terrestre é um longo caminho. Não dei muita atenção ao fato, mas de volta ao Brasil assisti na TV a uma entrevista com  Felisa Wolfe-Simon, a principal autora do artigo. Fiquei um pouco perturbado pela atitude dela de usar evidência limitada para fazer afirmações profundas e significativas. Hoje decidi ver o que há na web sobre o assunto. E o resultado não cheira bem. Talvez cheire a arsênico...
Comecemos pelo blog da Felisa. Poucas vezes vi algo tão metido na internet. Adorei a parte: "Eu sou intrinsicamente multidisciplinar". Vai piorar. Através do The Scientist descobri que o blog RRResearch da microbióloga Rosie Redfield faz sérias críticas metodológicas ao artigo. Qual a reação da NASA? Desqualificar as críticas porque elas não foram feitas em um periódico com revisão de pares. Isso é um absurdo. Artigos científicos precisam de revisão pelos pares (e ainda assim o processo não é infalível), não críticas. A atitude da NASA só me deixou ainda mais desconfiado. Atualmente acho que é bem provável que o artigo nem consiga provar o que afirma.
Em lugar de encontrar vida nas luas de Saturno ou em Marte, Felisia e seus colegas isolaram uma linhagem de uma bactéria que eles chamaram de GFAJ-1 nas águas ricas em arsênio do lago Mono, na Califórnia. No laboratório, eles cultivaram a bactéria numa sopa de nutrientes. Quando eles diminuíram a oferta de fosfatos e o substituiram por arsenatos a bactéria sobreviveu e se reproduziu, ainda que mais lentamente. Eles então examinaram o DNA dessas bactérias e concluíram que ele continha arsênio. Mas não convenceram a todos.
Os críticos simplesmente dizem que não foram feitos experimentos simples que poderiam mostrar além de qualquer dúvida que o fósforo do DNA realmente foi substituído por arsênio. Mais que isso, eles não mostram que o DNA supostamente arseniado é capaz de replicar-se como o DNA comum.
The Loom, da Discover juntou numa página os 9 mais relevantes críticos ao artigo. Carl Zimmer do Slate vai além: Esse artigo nunca deveria ter sido publicado. Numa era de afiados blogs científicos só mesmo a NASA para insistir em ignorá-los.
Uma coisa é clara: Ciência mal feita não é usada só para validar crenças sem fundamento, mas também para justificar investimentos bilionários também com fundamento limitado. A sociologia da ciência certamente tem muito a dizer sobre como cientistas como a Felisia e seus chefes se comportam.
Não foi dessa vez que se demonstrou vida extra-terrestre. Mas também não se mostrou sua impossibilidade. Posso continuar sonhando tranquilo...

PS: Levei vários dias escrevendo esse texto. Quando comecei verifiquei os blogs mais óbvios para ver se já tinha saído algo. Não tinha. Acontece que viajei e não conferi se no momento que terminei já tinha saído algo. Tinha. Então tardiamente faço referência ao Brontossauros em meu Jardim, ao Gene Reporter, ao Geófagos e ao Quiprona.

4 comentários:

Rodrigo disse...

Até então eu não havia tido conhecimento de tais críticas. Me limitei a assistir ao vivo as palavras de Felisa.
Os links também estão bem contextualizados e informativos. Gostei muito do post.

Cristina Caldas disse...

Muito interessante sua análise.
Acompanhei todos esses desdobramentos de perto e o que mais me chamou atenção foi a rapidez com que a comunidade científica se manisfestou. Um dia depois da publicação do paper, o mundo já sabia das suas fragilidades.
Fiquei pensando nas cartas trocadas entre os cientistas no século 18, p.ex., qdo um europeu não concordava com um norte-americano. Imagina o tempo que isso levava. Agora é tudo real time quase.

Roberto G. S. Berlinck disse...

Caro Leandro,

Excelente postagem. Nunca é tarde para se fazer uma análise sobre qualquer assunto passado, ainda mais este, que gerou tanto barulho. O problema é que a mídia impressa e televisiva deve ter ficado sabendo de todas estas críticas, mas não repassa estas informações à sociedade, o que é muito ruim. Como apenas uma minoria de pessoas lêem blogs de e sobre ciência, a maioria da população ficou com informações errôneas sobre este assunto.

abraço,
Roberto

Anônimo disse...

Ok, com o boom dos programas aeroespaciais muitas empresas pegaram carona, produzindo supostos produtos que poderiam ser utilizados em missões espaciais mas foram mesmo explorados aqui na Terra, alguns eram verdadeiras besteiras, outros, como o joystick por exemplo passaram a ser de utilidade não apenas em jogos, mas em equipamentos mais sofisticados.

Mas foi tanta propaganda que a NASA virou realmente uma panacéia, que pode ser citada tanto por cientistas como por ufólogos tresloucados.

A mais curiosa usurpação do nome da NASA, juntamente com o do Oak Ridge e do Max Planct Institute para mim é a que podemos ver no CV de um certo criacionista que se diz físico, pesquisador e que ganha dinheiro aqui no Brasil fazendo palestras criacionistas em igrejas cobrando a entrada.

O Lattes daqui a pouco vai pelo mesmo caminho, pois até um criacionista que nem graduação tem conseguiu postar um cv Lattes dizendo que faz pesquisas de cura do câncer com alimentação.

Tentei reclamar no CNPq e eles disseram que não podem fazer nada... Fala sério...


Silvia Gobbo

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