quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Cura magnética

Participar do II EWCLiPo foi uma experiência muito gratificante. Rever amigos, conhecer novos, discutir ciência e cultura científica, aprender com pessoas que pensam parecido comigo e especialmente com pessoas que pensam diferente. Acima de tudo ver nossa pequena comunidade crescendo e fazendo alguma diferença. Infelizmente eu não pude ficar no domingo para ouvir algumas palestras que devem ter sido excelentes. Eu precisava viajar para a Colômbia ao meio dia e precisei sair cedo. Para minha felicidade ainda levei até Niterói uma carona com quem mantive uma conversa tão boa e envolvente que nem notei passar as duas horas e meia entre Arraial do Cabo e o Rio. Então de alma leve embarquei no vôo da Copa Airlines. Como cheguei ao aeroporto em cima da hora não tive tempo para comprar um livro para ler na viagem. Apelei para a revista de bordo. Qual não foi minha surpresa quando dei de cara com uma manchete na página de Ciência (uma revista de bordo ter uma página de Ciência em si só já é uma boa notícia. O exemplo poderia ser seguido pelas companhias aéreas brasileiras): “Pesquisa invalida eficácia de terapia magnética”. Trata-se de um estudo feito na Pontifícia Universidad Javeriana de Colômbia, em Bogotá. Descobri mais na revista “Pesquisa” dessa universidade: Foi feito um estudo duplo-cego aleatorizado sobre o efeito de imãs sobre a dor no pós-operatório de 165 voluntários. O estudo concluiu o que qualquer pessoa de bom senso esperaria: o efeito dos ímãs é zero. Nenhum. Nada além do efeito placebo. O trabalho foi publicado na Anesthesia and Analgesia e foi o assunto de três editoriais.

Por que estudar um assunto como esse? Porque por incrível que pareça a indústria de imãs com supostos efeitos terapêuticos é um negócio bilionário no mundo inteiro. No Brasil várias empresas os vendem para diferentes propósitos. Por sorte magnetoterapia não foi elevada à condição de especialidade médica, ao contrário de uma outra terapêutica que após anos e anos de estudo nunca apresentou efeito superior ao placebo.

O que mais me intriga nisso é o que leva as pessoas a acreditar que a presença de um imã poderia trazer algum efeito benéfico. Magnetismo é tido por muitos como algo misterioso. Já vi gente argumentar que a hemoglobina contém ferro e portanto os imãs poderiam influenciar beneficamente o fluxo sanguíneo. Claro, todos sabemos que imãs atraem ferro metálico. Felizmente o ferro na hemoglobina não é metálico. Ele está num estado eletrônico fracamente diamagnético, que na verdade é muito fracamente repelido por um campo magnético Para obtermos algum efeito detectável é preciso aplicar campos muito maiores que os presentes em pewquenos ímãs. Por isso não somos arrastados pelos vários campos magnéticos presentes no nosso dia a dia.

A maior parte das pessoas que usam terapias magnéticas não lê revistas científicas. Aproximar um ímã de um ponto doloroso não causa nenhum dano. Usar ou não essas terapias é uma questão de fé. Sé espero que ninguém as use em lugar de um tratamento convencional. Na ausência de regulação oficial os fabricantes continuarão fazendo afirmações pseudo-científicas em seus produtos. Um comerciante apresenta a assinatura de um geriatra em um"parecer médico". Eu lembro de um fato ocorrido quando eu ainda era um mestrando na Unicamp. O colchão magnético Kenko Patto solicitou um laudo de toxicidade à Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Como ele não apresentava toxicidade, recebeu um laudo de que não apresentava riscos à saúde. O fabricante passou a destacar em sua publicidade “aprovado pela Unicamp”. Só parou depois de um processo judicial.

É triste ver tanta gente se deixando enganar.

1 comentários:

Pedro disse...

Creio que no Brasil a justiça concederia o "perdão judicial" aos pais: por aqui rege um princípio de que "burrice não é crime".

Sinceramente, não tenho opinião formada sobre o assunto. Certo que os pais foram negligentes, mas tendo a vê-los mais como vítimas do que como homicidas.

Quanto ao médico homeopata, todavia, minha opinião está bem formada: se há alguém que mereceria ir à cadeira, era ele.

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