Aqui registro mais um de uma longa lista. A revista Época da semana passada publicou um diagrama para explicar a nova iluminação do Cristo Redentor no Rio que é um amontoado de erros e equívocos.
A partir de 1º de março o Cristo será iluminado por LEDs. Época se atrapalha ao tentar explicar o que é um LED. Segundo ela, as lâmpadas comuns "tem filamentos que propagam calor e se queimam. A luz se dispersa mais facilmente." Já o LED "é baseado em um condutor elétrico (diodo). A luz é dirigida, melhorando o foco."
Se você consegue entender alguma coisa a partir dessa explicação deve ser um gênio.
O que a revista queria dizer é que o funcionamento das lâmpadas de filamento é baseado na radiação térmica emitida devido à alta temperatura do filamento (cerca de 2800 a 3000ºC). Somente uma pequena parte da energia emitida corresponde à parte visível do espectro eletromagnético, sendo o resto perdido na forma de calor. É possível modelar a emissão do filamento como se esse fosse um corpo negro.
Isso caso o Cristo ainda fosse iluminado por lâmpadas de filamento. Há décadas a iluminação é feita por lâmpadas de haletos metálicos, nas quais a luz é resultado de uma descarga elétrica em um gás a alta pressão, que são muito mais eficientes. Não há filamento aquecido, mas um arco de alta voltagem. Essas lâmpadas emitem algum calor devido à alta potência dissipada no arco, mas muito menos do que as lâmpadas de filamento.
Já os LEDs baseiam-se na emissão de luz devido à recombinação de portadores em uma junção de semicondutores. Essa emissão tem um espectro bastante estreito comparado às lâmpadas de filamento e de descarga de gases e por isso são ainda mais eficientes. Praticamente toda a energia é emitida na forma de radiação visível.
Pode piorar? Claro que sim. Quando Época decide explicar a sustentabilidade a confusão só aumenta. Eles desenham um diagrama mostrando corretamente que atualmente as lâmpadas (que não são de filamento!) emitem luz e calor para frente. Na verdade elas emitem em todas as direções mas um refletor atrás da lâmpada projeta toda a radiação para frente. Mas segundo eles nas lâmpadas LED a luz sai pela frente e o calor por trás. Como elas conseguem essa façanha é impossível saber. Desconfio que isso seja resultado de um entendimento muito raso do processo por parte de quem fez o diagrama. Os LEDs também emitem calor em todas as direções, mas a quantidade de calor emitida é muito pequena comparada com a energia luminosa.
E a pérola maior: o consumo. Segundo a revista o consumo vai cair de 72 para 17,2 kW/h. Potência (medida em kW) por unidade de tempo (medida em horas) é uma grandeza sem significado nesse contexto.
É possível entender de onde vem essa confusão. A concessionária de energia elétrica cobra pela energia que fornece, não pela potência. Ela usa uma unidade prática de energia que é o kWh (kW*hora, e não kW/hora). Um kWh corresponde a um dispositivo com 1000 W de potência operando durante uma hora. Por exemplo, um banho de 12,5 minutos (0,208 hora) em um chuveiro elétrico de 4800 W consome 1 kWh. Um banho de 25 minutos no mesmo chuveiro elétrico na posição "verão", de 2400 W consome também 1 kWh.
O que a revista provavelmente queria dizer é que a potência do novo sistema de iluminação é de 17,2 kW. O /h apareceu para o consumo ficar parecido com a conta de luz. Só que kW/h é muito diferente de kWh.
Enfim, um assunto que poderia ser esclarecedor numa das mais importantes revistas semanais brasileiras virou uma peça de desinformação com uma seqüencia de erros primários. Uma revista desse tamanho poderia, a exemplo de similares estrangeiras, pagar um bom consultor científico.
Update: Numa parceria inédita, há uma continuação muito aprofundada desse post no ótimo Física na Veia!
Update: Numa parceria inédita, há uma continuação muito aprofundada desse post no ótimo Física na Veia!



