domingo, 6 de dezembro de 2009

O Viagra cor-de-rosa e a referência que não existe

Excesso de atividades profissionais deixaram escapar várias manifestações públicas de pseudo-ciência recentes como a terra quadrada (ou retangular), o Cacique Cobra Coral e o apagão, o chefe de estado visitante que nega parte da história recente da humanidade, etc...
Não resisto a uma que saiu na Época da semana passada. A matéria de capa tem o sugestivo nome Em busca do Viagra cor-de-rosa:Uma nova droga está em testes para combater a falta de desejo feminino. Ela funciona mesmo ou é apenas uma jogada da indústria farmacêutica? A matéria fala sobre a suposta eficácia de uma substância chamada flibanserina no tratamento de mulheres com baixa libido. Um estudo financiado pela dona da patente da substância, a multinacional Boehringer Ingelheim, foi apresentado recentemente "em um encontro médico na França". O que mais me chamou a atenção foram as seguintes frases: "O estudo reuniu dados recolhidos por sete grupos de testes envolvendo mais de 5 mil europeias e americanas ao longo de 48 semanas. Enquanto tomavam o novo medicamento, pediu-se a elas que relatassem eventos sexuais de qualquer espécie. Valiam relação sexual, sexo oral, masturbação ou estimulação genital pelo parceiro. O questionário perguntava se o ato foi satisfatório ou não. As 738 participantes do teste publicado na revista científica Journal of Sex Research relataram um aumento médio de 96% no número de “eventos sexuais satisfatórios” por mês." Isso me pareceu obviamente efeito placebo. Na página seguinte num quadro obtido a partir de dados fornecidos pela própria Boehringer Ingelheim é dito de forma um pouco confusa que no grupo com flibanserina o número médio de eventos satisfatórios passou de 2,8 para 4,5 por mês e no grupo com placebo ele foi de 2,7 para 3,7. Para mim esse número não é exatamente satisfatório: 1 por mês com placebo, 1,7 com a droga... Em um mês!!! Como não trabalho nessa área, a primeira coisa que fiz foi ver se o Journal of Sex Research é indexado no ISI Web of Knowledge. Trata-se de um índice de publicações científicas que atendem a alguns critérios importantes como revisão por pares e periodicidade. Uma tentativa de hierarquizar as publicações científicas (piada interna, ver o texto anterior). Estar indexado não é uma garantia de qualidade (por exemplo, Homeopathy é indexado), mas não estar indexado é uma indicação de falta de qualidade e rigor da publicação. O JSR é indexado. Ótimo. Então fui procurar o artigo e não encontrei. Época não dá a referência completa e uma busca no periódico ou no Google Acadêmico usando como critério "flibanserin" ou "738" ou "2,7, 3,7, 2,8, 4,5" resulta em nada! O artigo citado não existe. Consegui aprender mais sobre o assunto num press release da própria Boehringer Ingelheim. Para ter acesso precisei declarar que sou jornalista (pelo menos amador...). Lá descobri qual foi o "encontro médico na França" citado na Época. Descobri mais sobre os dados: participaram do estudo 1378 mulheres norte-americanas pre-menopausa (como isso se transformou em 738 é um mistério que a numerologia deve explicar...) nas quais verificou-se o resultado citado. Sobre as 634 européias pre-menopausa apenas é afirmado que foram detetadas melhoras estatisticamente significativas no nível de desejo sexual. Os estudos duraram 24 semanas. O release termina com 10 referências, nenhuma no JSR. Provavelmente as 48 semanas da Época resultam da soma das 24 semanas do estudo europeu com as 24 do estudo americano. Como ela chegou a 5 mil mulheres quando a soma dos dois estudos corresponde a cerca de 2 mil é um mistério.
Conclusão minha: a jornalista da Época leu o press release da Boehringer Ingelheim, entendeu pouco do que ali está escrito, misturou números e ainda citou um artigo de periódico científico que ela nunca viu porque não existe. Em ciência nós sempre lemos os artigos antes de citá-los.
Cá entre nós, uma diferença de 0,7 eventos prazerosos por mês da droga em relação ao placebo, por mais estatisticamente significativo que seja não é grande coisa. É um evento a cada 43 dias. Melhor tomar um bom vinho, comer num bom restaurante, enfim, buscar outros prazeres na vida...

sábado, 10 de outubro de 2009

Hierarquizar a blogosfera

Minha fala no II EWCLiPo causou reações muito além do que eu imaginava. A Maria Guimarães do Ciência e Idéias entendeu que eu estava criticando os jornalistas. A Adriana Carvalho do Karapanã viu uma contradição (só uma?!) nas minhas idéias: "por um lado, é boa a expressão livre, mas depende de quem ou do que se fala?". Eu acho que não critiquei os jornalistas nem quis tolher o direito de alguém expressar o que pensa. Se o fiz peço desculpas em público. Nunca foi essa minha intenção.

Eu devia falar sobre anti-ciência. Falei um pouco sobre isso mas também sobre informação e poder. Sobre hierarquia e autoridade. Autoridade no sentido de credibilidade e fé pública.

Falei sobre como a civilização ocidental mudou de forma irreversível com a invenção da imprensa por Gutenberg em 1454. Antes disso os livros eram manuscritos ou impressos em quantidades muito pequenas. Isso permitia que a difusão de idéias fosse controlada pelos poderosos, em particular pela igreja. Com a imprensa o controle da difusão de idéias escapou da igreja. Quem tinha acesso a máquinas de imprimir podia editar livros e panfletos com suas idéias, independentemente da vontade dos poderosos. A imprensa foi um instrumento tão perigoso e subversivo que cem anos depois a igreja publicou o Index Librorum Prohibitorum, o qual só foi revogado 4 séculos mais tarde em 1966, 15 anos antes da bitnet.

A internet, e o aparecimento de ferramentas simples para blogs pode ter a longo prazo um efeito comparável à invenção da imprensa. Acabou o poder dos editores e donos do poder na imprensa. Qualquer pessoa com acesso à web (até eu!) pode escrever e difundir suas idéias, sua arte, sua ciência para quem quiser ouvir (ou ler). Isso tem uma conseqüência maravilhosa em termos de difusão de idéias. Mas tem também um lado sombrio. Para citar um exemplo radical, a web está cheia de blogs nazistas, racistas, homófobos, xenófobos e com todo tipo de preconceito e incitação à violência. Basta procurar que você os encontrará.

Outro aspecto da democratização radical da difusão de idéias tem a ver com qualidade. Isso vem preocupando intelectuais e artistas e deve preocupar também os que se importam com a cultura científica. Eu ouvi essa conversa pela primeira vez de artistas mais ou menos na época em que comecei meu blog. Ela materializou-se no livro O culto do amador de Andrew Keen. Ele diz que a web "É a celebração do amadorismo: qualquer um, por mais mal-informado que seja pode publicar um blog, postar um vídeo no YouTube ou alterar um verbete na Wikipedia. Esse anonimato da web põe em dúvida a confiabilidade da informação". No início de setembro o Nouvel Observateur publicou uma entrevista com Emmanuel Hoog, presidente do Institut National de l'Audiovisuel francês. Ele preocupa-se com a ausência de hierarquia para bens culturais na rede, e o consequente nivelamento por baixo da atividade cultural. Ele afirma que a hierarquização é feita pelos mecanismos de busca (Google, Yahoo, etc) e sugere, dentro de uma visão absolutamente francesa de mundo, que o governo estabeleça mecanismos de busca de qualidade. Obviamente isso não resolveria nada. Uma entrevista parecida saiu no Le Monde.

Todas as áreas do conhecimento construíram mecanismos de validação e de suporte à qualidade. Como nós não-artistas podemos decidir quais tendências em arte contemporânea podem ser relevantes? Podemos ir a um museu. Por exemplo o Museu de Artes Visuais Ruth Schneider em Passo Fundo. Com todo respeito por Passo Fundo, se você tiver possibilidade e quer saber sobre as últimas tendências seria melhor ir ao MOMA em Nova Iorque. Lá você poderá até encontrar trabalhos que talvez não entenda se não estiver muito por dentro do que acontece em arte hoje. Talvez uma instalação que consiste numa sala com o piso de madeira coberto por estopa. Você pode mexer na estopa a vontade e achar isso uma bobagem, mas é possível que isso mexa com você. Por que o MOMA tem mais prestígio que o MAVRS? Porque a sociedade atribuiu ao MOMA uma autoridade maior do que ao MAVRS.

A ciência criou toda uma sociologia própria (vou escrever especificamente sobre esse assunto em breve). Rituais, meios de divulgação, procedimentos de validação, universidades, meritocracia (que não tem nada a ver com democracia), títulos acadêmicos, revisão pelos pares, etiqueta, encontros, etc... A comunidade científica atribui à Nature mais credibilidade que ao Journal of Chiropractic Medicine. Quem trabalha com ciência conhece a diferença. A maioria das pessoas não já que os dois têm políticas de publicação seletivas, revisão por pares, etc.

A internet é o paraíso da informação de qualidade duvidosa. Ela está cheia de arte de segunda categoria posando de relevante e de blogs e discussões citando periódicos do padrão do citado JCM como se fossem sérias. Como pode o pacato cidadão entender e qualificar essas coisas? Não existe o MOMA da internet. Nem os mecanismos de validação usados pela ciência.

Eu disse claramente em Arraial do Cabo e repito aqui que não sei a resposta para essas inquietações. O bom de ser cientista é que ao contrário das culturas dogmáticas nós temos o privilégio de discutir sem saber as respostas. Sugeri um mecanismo primário de validação, copiado da sociologia da ciência, o tal selo de qualidade. Alguma autoridade científica (qual?) poderia certificar blogs com algum critério de qualidade da informação. Isso é uma espécie de revisão por pares a priori. Isso não impediria a difusão de blogs pseudo-científicos, mas eles não conseguiriam jamais o status de blogs científicos.

Estou velho demais para achar, como alguns blogueiros por aí, que com informação de qualidade as pessoas em geral (jornalistas incluídos) deixarão de se fazer enganar. Não consigo imaginar nada além de algum mecanismo hierárquico para validação de qualidade. Ou alguém tem outra idéia?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Cura magnética

Participar do II EWCLiPo foi uma experiência muito gratificante. Rever amigos, conhecer novos, discutir ciência e cultura científica, aprender com pessoas que pensam parecido comigo e especialmente com pessoas que pensam diferente. Acima de tudo ver nossa pequena comunidade crescendo e fazendo alguma diferença. Infelizmente eu não pude ficar no domingo para ouvir algumas palestras que devem ter sido excelentes. Eu precisava viajar para a Colômbia ao meio dia e precisei sair cedo. Para minha felicidade ainda levei até Niterói uma carona com quem mantive uma conversa tão boa e envolvente que nem notei passar as duas horas e meia entre Arraial do Cabo e o Rio. Então de alma leve embarquei no vôo da Copa Airlines. Como cheguei ao aeroporto em cima da hora não tive tempo para comprar um livro para ler na viagem. Apelei para a revista de bordo. Qual não foi minha surpresa quando dei de cara com uma manchete na página de Ciência (uma revista de bordo ter uma página de Ciência em si só já é uma boa notícia. O exemplo poderia ser seguido pelas companhias aéreas brasileiras): “Pesquisa invalida eficácia de terapia magnética”. Trata-se de um estudo feito na Pontifícia Universidad Javeriana de Colômbia, em Bogotá. Descobri mais na revista “Pesquisa” dessa universidade: Foi feito um estudo duplo-cego aleatorizado sobre o efeito de imãs sobre a dor no pós-operatório de 165 voluntários. O estudo concluiu o que qualquer pessoa de bom senso esperaria: o efeito dos ímãs é zero. Nenhum. Nada além do efeito placebo. O trabalho foi publicado na Anesthesia and Analgesia e foi o assunto de três editoriais.

Por que estudar um assunto como esse? Porque por incrível que pareça a indústria de imãs com supostos efeitos terapêuticos é um negócio bilionário no mundo inteiro. No Brasil várias empresas os vendem para diferentes propósitos. Por sorte magnetoterapia não foi elevada à condição de especialidade médica, ao contrário de uma outra terapêutica que após anos e anos de estudo nunca apresentou efeito superior ao placebo.

O que mais me intriga nisso é o que leva as pessoas a acreditar que a presença de um imã poderia trazer algum efeito benéfico. Magnetismo é tido por muitos como algo misterioso. Já vi gente argumentar que a hemoglobina contém ferro e portanto os imãs poderiam influenciar beneficamente o fluxo sanguíneo. Claro, todos sabemos que imãs atraem ferro metálico. Felizmente o ferro na hemoglobina não é metálico. Ele está num estado eletrônico fracamente diamagnético, que na verdade é muito fracamente repelido por um campo magnético Para obtermos algum efeito detectável é preciso aplicar campos muito maiores que os presentes em pewquenos ímãs. Por isso não somos arrastados pelos vários campos magnéticos presentes no nosso dia a dia.

A maior parte das pessoas que usam terapias magnéticas não lê revistas científicas. Aproximar um ímã de um ponto doloroso não causa nenhum dano. Usar ou não essas terapias é uma questão de fé. Sé espero que ninguém as use em lugar de um tratamento convencional. Na ausência de regulação oficial os fabricantes continuarão fazendo afirmações pseudo-científicas em seus produtos. Um comerciante apresenta a assinatura de um geriatra em um"parecer médico". Eu lembro de um fato ocorrido quando eu ainda era um mestrando na Unicamp. O colchão magnético Kenko Patto solicitou um laudo de toxicidade à Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Como ele não apresentava toxicidade, recebeu um laudo de que não apresentava riscos à saúde. O fabricante passou a destacar em sua publicidade “aprovado pela Unicamp”. Só parou depois de um processo judicial.

É triste ver tanta gente se deixando enganar.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Homeopatia mata

Gloria Sam era um bebê como todos os outros. Nascida na Austrália de pais com nível universitário, tinha tudo para crescer feliz. Isso não aconteceu devido a um eczema. Eczemas são irritações na pele decorrentes de alguma inflamação. Causam coceira e o ato de coçar só piora a situação. As causas podem ser diversas, mas o tratamento é relativamente simples, em geral envolvendo a aplicação tópica de um corticóide. O corticóide não cura o eczema, mas reduz ou elimina seus sintomas permitindo que o corpo se recupere. Na maioria dos países, pode-se comprar um creme corticóide em farmácias sem necessidade de receita médica.
Como muitos outros bebês pelo mundo, aos 4 meses Gloria apresentou um eczema. Como em qualquer situação desse tipo, os pais de Gloria, Thomas e Manju, decidiram procurar ajuda médica. O único problema é que Thomas é um homeopata e buscou atendimento com pediatras homeopatas. Os homeopatas receitaram tratamento homeopático. Algumas gotas de algum princípio ativo com nome em latim diluído até que nenhuma molécula estivesse nas gotas foram administradas seguindo rigorosamente as indicações do pediatra homeopata.
Com um tratamento adequado, o eczema de Gloria deveria ter se resolvido em algumas semanas. No entanto, com o tratamento homeopático a situação só se agravava. A pele desprotegida é uma porta aberta para infecções. Gloria contraiu uma infecção. Infecções podem ser tratadas com antibióticos. Os homeopatas preferem ministrar preparados com nomes latinos diluídos até que nenhuma molécula do princípio ativo esteja presente nas gotas. Efeito no máximo igual ao placebo, ou seja, efeito nenhum. A infecção de Gloria piorou. Seu corpo passou a usar toda a energia que recebia pela alimentação para combater a infecção. Apesar de normalmente alimentada ela chegou a um quadro grave de desnutrição. Os pais insistiram no tratamento homeopático e a levaram para visitar a família na Índia, onde recebeu mais tratamento homeopático. Após voltar à Austrália, percebendo que Gloria não melhorava os pais decidiram levá-la a um hospital infantil. Ela tinha um quadro de desnutrição, irritação severa na pele e infecção no globo ocular. Teve que receber morfina para a dor e finalmente foi tratada com antibióticos. Infelizmente isso foi tarde demais para Gloria. Ela morreu três dias depois aos nove meses e meio de idade. Isso ocorreu em 2002.
Os pais de Gloria foram presos e julgados pela justiça australiana por homicídio culposo, onde não há a intenção de matar. A sentença acaba de ser pronunciada. O pai deve ficar pelo menos seis anos e a mãe pelo menos 4 anos na cadeia.
Há mais informação sobre o caso no excelente Ceticismo Aberto, e em inglês no RichardDawkins.net.
Como pai, não consigo concordar com a condenação ao casal. Eles fizeram o que entendiam ser o melhor para sua filha. Usaram uma forma de tratamento usada por eles mesmos, praticada por alguns médicos e reconhecida por parte da sociedade.
Parece-me que os verdadeiros culpados por esse caso (e por vários outros que ocorrem pelo mundo) são os que validam uma prática baseada em princípios não-científicos como especialidade médica e afirmam para a população que estão curando. De fato estão, mas nada além do efeito placebo. No Brasil a homeopatia é legalmente considerada especialidade médica, com título de especialista outorgado pela Associação Médica Brasileira. O fato de ser especialidade reconhecida é seguidamente usado como argumento a favor de tratamentos homeopáticos. Reconhecimento legal ou por uma sociedade profissional não eleva uma disciplina categoria de ciência. Do ponto de vista científico, tratar-se com homeopatia não é diferente de tratar-se com uma reza forte ou com o pai-de-santo. Há poucos anos um ex-conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo publicou na grande imprensa um artigo sugerindo que o status legal da homeopatia fosse rediscutido. Que eu saiba até agora nada foi feito. Meu seguro de saúde torra recursos pagando consultas e tratamentos homeopáticos, comprovadamente inócuos (inócuo nesse contexto significa de eficácia igual à do palcebo).
Grave é a sociedade validar como aceitável uma prática médica baseada em princípios nunca comprovados cientificamente. Gloria e seus pais são vítimas disso.

Agradeço ao Hecton por ter me indicado essa notícia. Esse caso me tocou particularmente porque uma criança muito próxima teve um eczema tratado com "óleos essenciais" segundo a conduta indicada por uma médica antroposófica (uma corrente de tratamento ainda mais radical que a homeopatia). A situação só reverteu devido à atuação da avó que fez com que fosse a um pediatra. O quadro estava agravado mas foi resolvida com alguns meses de aplicação de corticóides. Infelizmente Gloria não teve a sorte de ter uma avó esclarecida.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

II EWCLiPo

O primeiro foi um sucesso. O segundo com certeza será. Nesse final de semana estaremos todos lá em Arraial do Cabo, no II Encontro de Weblogs Científicos em ngua Portuguesa. Adoro a sigla. A programação completa está no Bioletim.
O movimento de blogs científicos em português vem crescendo e pode um dia fazer alguma diferença. É só olhar os comentários que recebemos, ora simpáticos, ora irados.
Parabéns ao Mauro Rebelo do Você que é biólogo pelo árduo e competente trabalho de organização.
Vai ser muuuuuito legal!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Vacina homeopática contra a gripe suína: desde quando água sacudida protege contra vírus?

Finalmente ela chegou!!!! A tão esperada vacina contra o vírus influenza A(H1N1), causador da gripe suína, começará a ser aplicada em Petrópolis e em Campo Grande. Em pouco tempo a pandemia terá sido controlada!
Como assim? Não iam começar a produzir a vacina no Brasil só em outubro? Como esses municípios conseguiram a vacina antes dos demais? Será que eles contam com algum fornecimento exclusivo, a exemplo do que o nosso nobre congresso tentou fazer em relação ao Tamiflu? Será????? Obviamente NÃO. Trata-se de uma "vacina homeopática".
No caso de Petrópolis é um preparado chamado Influenzinum RC 32 DH, "fruto de uma parceria entre a Prefeitura de Petrópolis, através da Secretaria Municipal da Saúde, o Instituto Roberto Costa e a Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, num projeto inédito".
O Instituto Roberto Costa tem toda a aura de instituição científica. Seu diretor tem tem seu currículo cadastrado na base de dados Lattes do CNPq. Suas páginas têm versões em inglês, (ok, macarrônico mas vale a intenção). Eles oferecem cursos de formação e fazem o que chamam de pesquisa em homeopatia. Infelizmente essa pesquisa não usa o método científico nem metodologias consagradas pela comunidade. Não há nenhum artigo publicado em revista científica na vasta lista de publicações do diretor.
Eu não consegui encontrar menções a essa parceria na página da UFRJ, nem qual o pesquisador (ir)responsável. Duvido que uma pesquisa com esse teor passe por algum comitê de ética em uma universidade séria como é a UFRJ. Duvido que uma instituição séria liberasse uma vacina sem antes passar pelos protocolos de testes clínicos estabelecidos.
O caso de Campo Grande foi parar no Jornal Nacional. Aqui eles simplesmente aplicam princípios da homeopatia à gripe e esperam algum efeito. Se entendi bem, sua poção é preparada a partir do próprio vírus influenza, não o A(H1N1) mas uma "junção de várias cepas do vírus influenza". Ahá, o princípio dos semelhantes. Eles devem ter faltado à aula sobre genética, mas tudo bem. Esse caldo de vírus é diluído e "dinamizado" (sacudido) 200 vezes, "o que significa que nesse medicamento já não há mais nem uma partícula, nenhuma molécula do vírus original". Entendi! A "vacina" na verdade é água! Além de ter faltado à aula sobre genética eles não acompanharam o nefasto caso da memória da água. Uma senhora da Sociedade de Homeopatia-MS esclarece que não se trata de vacina, mas de água uma prevenção homeopática. O Conselho Regional de Medicina se esquiva dizendo que homeopatia é uma especialidade reconhecida (apesar desse reconhecimento não ser uma unanimidade entre os próprios médicos dos Conselhos).
O que seria cômico se não fosse trágico é o depoimento do Secretário de Saúde de Campo Grande: "A gente pode esperar que funcione como um elemento de estabilização do humor". Então eles dão água pra população para estabilizar o humor fazendo as pessoas pensarem que estão se protegendo contra a gripe suína!!!
O melhor (mesmo) da reportagem é o depoimento da Dra. Andrea Lindemberg, ex-presidente da Sociedade de Infectologia do MS. É tão lúcido que reproduzo aqui:

"- A gente tenta trabalhar em cima de literatura científica, com coisas que comprovadamente são eficazes, que já têm estudos. Eu como infectologista desconheço os estudos e eficácia."

Ela desconhece esses estudos porque eles não existem para essas "vacinas". E quando existem, estudos sobre a eficácia da homeopatia demonstraram que ela não tem efeito maior do que o efeito placebo, ou seja, não tem eficácia alguma.

Com as melhores intenções, essas prefeituras estão no mínimo jogando fora dinheiro público com terapias comprovadamente ineficazes, envolvendo estudos mal-feitos e não-científicos. Em Campo Grande a própria farmacêutica responsável reconhece que estão dando à populção água sem nenhum traço do vírus como "vacina". Em Petrópolis trata-se do coroamento de uma longa série de estudos metodologicamente deficientes.

Pior que esbanjar os nossos suados reais é causar na população a sensação de estar protegida e imune contra uma doença que ainda não conhecemos bem. Isso pode matar. A "vacina homeopática" deveria vir com aquele aviso clássico presente nos rótulos e bulas de pseudo-medicamentos que são tratados como complementos alimentares: "O Ministério da Saúde adverte: não existem evidências científicas comprovadas que este alimento previna, trate ou cure doenças ou alterações fisiológicas".

Agradeço ao Osame por ter me mostrado a vacinação em Campo Grande.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Duas luas na noite sem lua

Provavelmente começou em espanhol, mas nunca se sabe. Pode ter sido em inglês ou português. A internet é ótima para propagar boatos de todo o tipo. Boatos científicos entre els. Boatos científicos que invocam misticismo então são melhores ainda.
O curioso é que as pessoas não param para pensar 1 segundo antes de passar adiante as mensagens por mais que pareçam, absurdas!

Nos últimos três dias recebi variaçõe da mesma mensagem, em espanhol, português e inglês.

Em espanhol ela diz:

EL 27 DE AGOSTO DE 2009
El planetario Internacional en Vancouver de la British Columbia Canada, ha calculado la precisión en la que Marte estará orbitando el (27-08-2009).
Pero lo más interesante de todo es que esto estaba predicto en un códice Maya encontrado en la pirámide a lado del Observatorio Estelar en Palenque en Chiapas México.
Con este cálculo matemático Maya ahora los Mayas son considerados como los Griegos de América y orgullo de México.
Por lo menos cuatro o cinco generaciones de la humanidad no volveremos a ver este fenomeno natural.
Muy poca gente lo sabe por el momento, esto fue publicado el lunes 11 de mayo 2009.

Hazlo circular!

Dos Lunas en el Cielo
El 27 de Agosto, a medianoche y 30 minutos, mirar al cielo.
El planeta Marte será la estrella más brillante en el cielo. Será tan grande como la luna llena, Marte estará a 55,75 millones de kilómetros de la tierra
No te lo pierdas Será como si la tierra tuviera dos lunas.
La próxima vez que este acontecimiento se producirá, está previsto para el año 2287

Compartir esta información. Nadie que esté vivo podrá volverlo a ver.

Em inglês:

Dear Friends,
*Two moons on 27 August 2007*
*27th Aug the Whole World is waiting for.........Two moons ....*

Planet Mars will be the brightest in the night sky starting August.

It will look as large as the full moon to the naked eye.
This will cultivate on Aug. 27 when Mars comes within 34.65M miles of
earth.
Be sure to watch the sky on Aug. 27 12:30 am.
It will look like the earth has 2 moons.


Share this with your friends as NO ONE ALIVE TODAY will ever see it
again.
Regards,"

Em português é parecido com espanhol:

O Planetario Internacional de Vancouver, da British Columbia - Canadá, calculou a precisão em que Marte estará orbitando perto da terra. Será no dia 27 de agosto de 2009.
Todavia, o mais interessante de tudo é que isto estava previsto em um código Maya, encontrado na piramide ao lado do Observatorio Estrelar em Palenque, Chiapas-México.
Com este cálculo matemático Maya, agora os Mayas estão sendo vistos como os gregos da America, e orgulho da Guatemala.
Pelo menos, quatro ou cinco gerações da humanidade não voltará a ver este fenomeno natural, e poucas pessoas sabem até o momento, embora tenha sido noticiado em 11 de maio de 2009.

Duas Luas no Ceu
No dia 27 de Agosto, a meia noite e meia


O planeta Marte será a estrela mais brilhante do ceu, e será tao grande quanto a lua cheia, e estará a 55,75 milhões de kilometros da terra.
Não perca!!

Falemos da versão em português. Ela provavelmente foi gerada em algum site de tradução. Usa palavras pouco usadas (todavia), palavras que não existem no sentido proposto (Estrelar), palavras com grafia errada em português (Maya) estruturas erradas (quatro ou cinco gerações da humanidade não voltará). Pode ter sido simplesmente um tradutor humano pouco versado na língua mátria, nunca se sabe.

A primeira coisa que fiz foi verificar a existência do tal "Planetario Internacional de Vancouver". Ele não existe. O mais próximo que cheguei foi o H. R. MacMillan Space Centre, em Vancouver, que até tem uma nota sobre a fraude da internet. Apesar de a versão em inglês (reproduzida parcialmente pelo centro) não mencionar nada em Vancouver como as versões latinas, eles esclarecem que essa informação não partiu deles nem vai ser possível ver duas luas nessa data simplesmente porque a nossa lua não estará acima do horizonte na data e hora mencionadas.

Encontrei pelo menos quatro lugares que analisam com mais profundidade o assunto, três blogs (aqui, aqui e aqui) e uma revista.

Do ponto de vista da Cultura Científica, o mais interessante é a menção ao maias, "os gregos da América". Orgulho do México em espanhol e da Guatemala em português. Eu tratei disso em um texto anterior. Um grupo new age americano com uma horda de seguidores no Brasil inventou um "calendário maia". No entanto, eles mesmos avisam que "Cabe ressaltar, no entanto, que este não é o calendário maia. Nem tampouco constitui-se numa tentativa de reviver a cultura maia." Ou seja, a menção à cultura maia é apenas um subterfúgio para trazer credibilidade ao delírio das tempestades magnéticas vermelhas, ou do ano-semente auto-existente amarelo. Como fenômeno cultural, isso não é muito diferente do que se fez em relação à acupuntura, que para ganhar credibilidade foi classificada como "milenar" e parte da "cultura tradicional chinesa" apesar de as evidências para isso serem .

A cultura maia é fascinante e há ainda muito para aprender sobre ela. Mas algumas coisas já sabemos. Uma delas é que em Palenque há ruínas muito impórtantes, mas nenhum observatório estelar (nem "estrelar"). Assim como não existe o "Planetário Internacional de Vancouver". Os seguidores da falsa cultura maia pelo menos podiam aprender um pouco de geografia, já que em ciência são meio fraquinhos...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Porcos com asas (e castanholas)

Eu resisti a escrever sobre a onda de gripe A(H1N1) que a cada dia parece preocupar mais. Eu não tenho conhecimento suficiente para avaliar as medidas que vêm sendo tomadas pelas autoridades sanitárias. Algumas parecem não ter muito fundamento científico. Alguns países como o Brasil recomendam restrições a viagens a países como Chile e Argentina (isso a primeira vista me parece inócuo), outros como os Estados Unidos não fizeram recomendações desse tipo e focam as campanhas de prevenção em cuidados com a higiene pessoal. Jornais e revistas no Brasil são pródigos em alarmar a população. Na Argentina (de onde voltei há 9 dias) parece que a população está menos assustada. Vê-se muito mais gente usando máscaras no aeroporto de Porto Alegre do que no de Buenos Aires. Duarante 10 dias na Argentina só vi literalmente meia dúzia de pessoas com máscaras, sendo 2 na vigilância sanitária e na imigração do aeroporto. As demais eram 4 turistas brasileiras na calle Florida. Mas por lá também há crenças originam-se sabe-se lá aonde e logo viram "verdades". Todos os argentinos com quem conversei me garantiram que só pessoas já contaminadas devem usar máscaras... É como se as máscaras filtrassem gotículas de saliva e secreções só numa direção. Vá entender...
Como sempre em situações com potencial para reações irracionais, abundam as teorias da conspiração. A primeira com que tive contato está em um documentário mexicano devidamente comentado no ótimo A Rainha Vermelha.
Há poucos dias deparei-me com outra que inspirou o título desse texto, remetendo a um livro de um casal de anarquistas italianos que fez sucesso no Brasil e até virou peça de teatro há mais de 25 anos. Quem lembra?
Assista o vídeo abaixo, o qual alguém se deu o trabalho de legendar em português.



Eu adoro quando o Dr. Horowitz sinaliza as aspas, no melhor estilo do Dr. Evil do Austin Powers, também imitado pelo candidato derrotado à presidência dos EUA John McCain:



Em resumo, o Dr. Horowitz afirma que o vírus H1N1 foi criado em laboratório misturando código genético dos vírus da gripe espanhola, da gripe aviária e da gripe suína original. Tudo isso seria uma conspiração para vender vacinas da companhia Novavax. Uma variação sobre o tema apresentado no documentário mexicano. Mais ainda, para confirmar a teoria conspiratória, o Dr. Horowitz afirma que a grande indústria de vacinas desencoraja o uso de alternativas "verdes" como por exemplo o Oxysilver. Há até um link para a página da Oxysilver na divertidíssima página do Dr. Horowitz. Oxysilver é uma versão hi-tech daqueles elixires que curam tudo, literalmente de infecção no olho até hepatite C. Segundo eles informam trata-se de "uma nova classe de águas minerais que proporciona o mais poderoso apoio ao sistema imunitário da história dos tratamentos de saúde". Uau. Estou exagerando nas aspas. Influência dos vídeos. Mais adiante aprendemos que "OXYSILVER™ é um preparado energizante, ressonante, oxigenante, alcalinizante e hidratante celular contendo moléculas de prata-oxigênio que só podem ser preparadas usando tecnologias especiais de som e luz." Obviamente, uma tecnologia tão sofisticada só podia ter sido desenvolvida na NASA, a instituição de pesquisa preferida entre os picaretas!! Desnecessário dizer que trata-se de mais uma tentativa de empurrar pseudo-ciência para o público. O Dr. Horowitz é um dentista conhecido nos EUA por sua sistemática oposição à vacinação, seu apoio a terapias holísticas e "alternativas" e seus livros em que sugere que o vírus HIV também foi criado em laboratório.
A OXYSILVER™ parece ser água contendo traços da boa e velha prata coloidal bactericida que reveste os filtros de barro muito usados pelo interior do Brasil, que também não está livre de controvérsias . Até pensei em comprar OXYSILVER™ para testá-la, apesar dos elevados custos que isso teria. Uma garrafa é vendida por nada menos que US$49,40 + postagem a garrafa (não especificam o volume). Mas tive que mudar de idéia devido ao aviso na página de venda: "AVISO: NÃO COMPRE OXYSILVER se você dá crédito à Food and Drug Administration (FDA) que não permite que nós informemos sobre os benefícios potencialmente milagrosos que podem resultar do uso de OXYSILVER™." Gosto de gente honesta. Acreditei no aviso e não comprei.
Assim como o Dr. Horowitz há várias pessoas defendendo tratamentos "naturais" e "alternativos" para a gripe A(H1N1), ainda que nem todos acreditem nas teorias da conspiração. O melhor a fazer é ignorá-los e seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde:
  • Evite o contato direto com pessoas de aspecto adoentado o que tenham febre e tosse.
  • Lave as mãos frequentemente com água e sabão.
  • Mantenha uma boa higiene de vida: durma bem, coma alimentos nutritivos e mantenha-se fisicamente ativo.
Vou seguir a última delas e parar. Escrever para o blog à uma da manhã pode fazer mal para a saúde...

Agradeço ao Renato por ter me apontado o vídeo do Dr. Horowitz.

domingo, 19 de julho de 2009

Lá em Mogi, o cara da janela dá

Eu ouvi essa frase estranha há pouco tempo em Copenhagen. Obviamente a pessoa que a pronunciou não tem a menor idéia sobre os hábitos do cara da janela, especialmente em Mogi. Ela provavelmente nunca ouviu falar de Mogi.
Nosso cérebro tem uma capacidade incrível de encontrar padrões nas coisas. Essa capacidade deu à espécie humana uma enorme vantagem evolutiva. Ela nos permite entender as coisas. Ela nos dá a capacidade de apreciar a arte. Nos fez criar a matemática. Estabelecer a ciência e a tecnologia. O psicólogo Michael Shermer insiste em seus livros que os humanos são animais que buscam padrões.
Mas encontrar padrões em tudo pode nos enganar muitas vezes. Achar frases na nossa língua quando ouvimos línguas desconhecidas é um desses casos.
Há muitos anos eu não ia a um país onde a língua me é completamente impenetrável. A última vez tinha sido na Hungria no início da década. Em Húngaro obrigado é köszönöm. No meu ouvido virava algo como kusadám. De nada é üdvözöljük. No meu ouvido, algo como váenxugáochão. Diálogos supostamente educados ficavam hilários: uma referência estranha ao ex-ditador do Iraque, seguida de um pedido para evitar que as pessoas escorregassem ao andar no piso molhado. Na verdade era meu cérebro em ação tentando "traduzir" o que ouvia para um padrão conhecido em português. Obviamente as frases ficam sem sentido. O mesmo aconteceu na Dinamarca. Eu distraído ouvia pessoas falando frases desconexas em "português". Algumas vezes era em francês. O motivo é o som da letra ø, muito usada em Dinamarquês que não tem som correspondente em português mas parece um som do francês.
Essa capacidade de encontrar padrões mesmo onde eles não existem é uma das bases para a pseudo-ciência. As pessoas acreditam que as relações que elas supõe encontrar realmente existem. Se isso é reforçado por algum guru então o estrago está feito. Tente convencer alguém que tem dores de cabeça e as trata com homeopatia que quanto mais diluímos um princípio ativo menos eficaz ele fica. A resposta é sempre "mas comigo a homeopatia funciona". E funciona mesmo, no sentido de a pessoa atribuir o efeito a uma causa, apesar de essa não ser a causa real. É como achar que a pessoa que ouvi falando em dinamarquês realmente falava de um cara de Mogi! Difícil é o adepto da homopatia se dar conta de que o efeito que ele observa não se deve ao padrão que seu cérebro estabeleceu.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Quiropraxia nos tribunais

A sociedade britânica tem uma tradição invejável de liberdade de expressão. Desde o Bill of Rights de 1689 o direito de opinião e de comentário é protegido por lei. Isso é equilibrado por leis anti-difamação que garantem o direito das pessoas e instituições de não terem suas reputações injustamente prejudicadas por declarações falsas ou difamatórias. Este equilíbrio é bastante delicado na mídia tradicional, mas com o advento da internet suas consequências se amplificam radicalmente. A natureza global do meio significa que qualquer coisa publicada em qualquer lugar pode muito facilmente levar a uma indenização milionária nos termos do direito britânico.
Simon Singh é um escritor premiado no Reino Unido. Autor de livros sobre divulgação da ciência como como Fermat´s Enigma, The Big Bang e mais recentemente Trick or Treatment, sobre medicina alternativa junto com Edzard Ernst, o conhecido Professor de Medicina Complementar e Alternativa da Universidade de Exeter.
Todo ano a Associação Quiroprática Britânica (BCA) realiza a Semana da Consciência Quiroprática com o objetivo de chamar a atenção do público para a quiropraxia.
Em 19 de abril de 2008 Singh aproveitou a semana para publicar no jornal The Guardian um artigo em que chamava a atenção para outro aspecto da quiropraxia: seus riscos e a ausência de uma base científica para sua suposta eficácia e seu mecanismo de ação. No artigo ele menciona casos em que tratamentos quiropráticos em lugar de levarem a cura causaram danos e mesmo a morte de pacientes. Ele qualifica a quiropraxia como bogus treatment, ou tratamento falso.
O uso da palavra bogus teve uma consequência grave para Singh. A BCA considerou isso difamação e o processou com base nas leis anti-difamação britânicas. O caso custou até agora pelo menos 100 mil libras a Singh. O juiz do caso determinou que ele precisa provar que os quiropraxistas "têm consciência de que seu tratamento é inútil" e "desonestamente o apresentam a um público confiante e em alguns aspectos vulnerável".
Essa determinação, que poderia parecer razoável num contexto realmente difamatório, não poderia se aplicar a um debate científico. Se a BCA tivesse realmente argumento científicos contra o Sr. Singh em lugar de um processo produziria um artigo que deveria ser publicado em uma revista científica respeitada, após o processo usual de revisão pelos pares, que mesmo não sendo perfeito e sujeito a erros é a forma pela qual os cientistas debatem e fazem suas idéias avançar. Mas como é impossível provar cientificamente a eficácia e a segurança da quiropraxia, o caminho dos tribunais baseado em leis de alguns séculos atrás foi a única alternativa.

Como consequência do processo o Guardian retirou o artigo de seu site. No entanto, várias cópias podem ser encontradas na rede. Ele está reproduzido na formatação original aqui. A organização Sense About Science colocou o caso em destaque e organizou um abaixo-assinado eletrônico em apoio a Singh que pode ser assinado aqui. Na última contagem tinha 12 mil assinaturas, incluindo a minha. O abaixo-assinado pede uma revisão urgente dos efeitos das leis anti-difamação sobre o debate científico, forçando pessoas a não expressarem sua opinião!.

Singh apelou da sentença. Devido à atenção que o assunto recebeu na mídia, a BCA publicou recentemente uma atualização em que apresenta as evidências "científicas" para a prática de quiropraxia. Mais uma vez pretendem enganar os incautos. Dos 29 artigos apresentados, 25 foram publicados em periódicos de medicina alternativa como o Journal of Manipulative and Physiological Therapeutics, o Journal of Complementary and Alternative Medicine e o Journal of the American Ostheopatic Association. Todos com critérios editoriais no mínimo duvidosos em relação ao rigor científico e metodológico de suas publicações. Mas nem tudo está perdido! A referência 16 é para uma respeitável Cochrane Review. Ela trata do uso de tratamentos de medicina complementar para enurese, o xixi na cama das crianças. Qual a conclusão? "Há fraca evidência para apoiar o uso de hipnose, psicoterapia, acupuntura e quiropraxia, mas ela [a evidência] foi obtida em cada caso em estudos únicos e pequenos, alguns com rigor metodológico duvidoso. Estudos robustos randomisados em que eficácia, relação custo/benefício e efeitos adversos sejam cuidadosamente monitorados são necessários."
Os grifos são meus. A frase final é a que mais se encontra em revisões sobre medicina complementar e alternativa. Até quando vamos continuar exigindo mais estudos antes de concluir que todas as evidências mostram que essas terapias carecem de efeito mensurável além do placebo?
A única referência mais respeitável da lista afirma justamente que a quiropraxia não tem efeito nenhum sobre a enurese.

Os praticantes de medicinas complementares e alternativas deveriam um dia entender que idéias como as do Sr. Palmer, o padeiro de Davenport, Iowa que criou a quiropraxia, por mais sedutoras que sejam, não bastam para mudar os fatos da natureza. Nem processos em tribunais.

Ciência se faz com observação, rigor e método. Nunca com práticas bogus!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Acupuntura, um tratamento milenar?


No meio do caderno de tv&lazer do Estadão dos domigos há um anúncio de página inteira de um acupunturista.  Começa com a afirmação Tratamento Milenar ao lado de um daqueles símbolos Yin-Yang. Não bastasse a hilária observação Fala Português junto ao nome do Prof. Liu, para mostrar que é coisa séria está seu número 36325 de matrícula no CRT. CRT? Conselho Regional de Terapeutas? Eu achava que essa profissão não tinha conselho... 
E não tem mesmo: Segundo o SINTE, Sindicato dos Terapeutas, "CRT é a marca registrada que abrevia CRT - CARTEIRA DE TERAPEUTA HOLÍSTICO CREDENCIADO, a qual atesta a filiação ESPONTÂNEA do profissional ao SINTE - SINDICATO DOS TERAPEUTAS, o que resulta em compromisso contratual ao cumprimento dos requisitos éticos e qualitativos de seu órgão de classe." O próprio SINTE exclarece:"O fato do Terapeuta Holístico possuir ou não CRT - CARTEIRA DE TERAPEUTA HOLÍSTICO CREDENCIADO - ou estar filiado a qualquer entidade de nossa área, do ponto de vista legal, é irrelevante, uma vez que inexiste obrigatoriedade por Lei Federal.", ou seja, o número apresentado pelo Prof. Liu (assim como de todos os demais acupunturistas que o divulgam) não tem nada a ver com autorização para o exercício da profissão. É usual nas profissões regulamentadas na área de saúde os profissionais apresentarem seu número de registro junto ao conselho profissional, o CRM dos médicos, o CRO dos dentistas. No entanto, o CRT seguido de um número atesta a filiação a um sindicato. Com certeza as pessoas que registraram a marca CRT pensavam em CaRTeira, jamais em fazer os incautos pensarem que se trata de um Conselho Regional de Terapeutas Holísticos... A pseudociência agora inventou o pseudoregistro profissional!!!

O anúncio apresenta resultados de emagrecimento devido a tratamentos com acupuntura, mas esclarece: "Utilizando um método natural e sem medicação, a pessoa aprende a buscar o equilíbrio geral do organismo através da reeducação alimentar e da mudança de hábitos trabalhando com a ansiedade do paciente". Ou seja, além da acupuntura o prof. Liu prescreve uma dieta. Manter uma dieta é um exercício mental muito difícil, e é mais fácil motivar um paciente espetando agulhas e convencendo-o que é isso que o emagrece do que conversando. No entanto, não é a "liberaçào de pontos de gordura" devido à acupuntura que causa a diminuição do peso. 

Acupuntura é uma técnica de inserir e manipular agulhas muito finas em pontos específicos do corpo com fins terapêuticos ou para reduzir a dor. Segundo a hipótese da medicina chinesa tradicional, esses pontos ficam em meridianos por onde flui a energia vital Qi. Esses meridianos não correspondem a nenhuma estrutura anatômica no nosso corpo. Apesar de numerosos estudos, nunca foi demonstrado de forma convincente que a acupuntura tem um efeito maior que o placebo. Dez entre dez adeptos de Medicina Complementar e Alternativa recorrem à acupuntura ou suas variantes auriculares para os mais diversos fins. Seus praticantes como o prof. Liu a reverenciam como uma técnica milenar chinesa. Será?
Um artigo recente no Skeptic coloca em dúvida a idade e a origem da acupuntura. Estudando os documentos mais antigos disponíveis, o renomado sinólogo Paul Unschuld passou a suspeitar que na verdade a idéia da acupuntura pode ter se originado do grego Hipócrates de Cos e depois ter se espalhado na China. Os textos médicos chineses mais antigos (esses sim milenares), do século 3AC não a mencionam. Na verdade a tecnologia necessária para fazer agulhas finas de aço só passou a existir há aproximadamente 400 anos. O primeiro ocidental a mencionar a acupuntura, Wilhelm ten Rhijn, em 1680, não mencionou pontos específicos nem Qi. Através do início do século XX, nenhum relato ocidental de acupuntura menciona os pontos. As agulhas eram inseridas próximo ao ponto da dor. Qi era o nome que os chineses davam ao vapor que sai de comida quente. O francês George Soulié de Morant foi o primeiro a usar o termo "meridiano" e relacioná-lo à energia Qi em 1939.

Tudo indica que a acupuntura como é praticada atualmente não é milenar, provavelmente não é chinesa, e seus praticantes brasileiros apresentam um número de registro que não é de um conselho profissional. Mas afinal, para muita coisa não precisamos de mais que um efeito placebo...

quarta-feira, 4 de março de 2009

A Cultura Pop encontra a Cultura Científica

Essa eu encontrei no Pharyngula, e está também no simpático e ótimo Coletivo Ácido Cético.

Algumas manifestações da cultura pop fizeram história. Muito antes de inventarem os vídeoclips, lá por 1965, Bob Dylan, então com vinte e poucos anos fez um clip inesquecível pela linguagem visual, pela música e pela enigmática participação do poeta Allen Ginsberg, o careca barbudo que atravessa a rua no final.



Alguns anos mais tarde a banda britânica de rock-pop T-Rex apareceu com uma música pegajosa e meio brega chamada Children of the Revolution.



E o que acontece quando um grupo de alemães irreverentes, celebrando o Ano de Darwin propõe mudar a o feriado do Dia da Ascenção, que celebra o dia em que Jesus supostamente ascendeu aos céus para o Dia da Evolução? O resultado é o clipe hilário que mistura os dois anteriores.



Talvez fosse legal projetar esse vídeo na abertura do encontro que vai acontecer no Mackenzie, pra ir descontraindo o pessoal enquanto esperam o brilho criacionista...

Criacionismo no Mackenzie 3, a missão

A Universidade Presbiteriana Mackenzie adotou uma política de promoção de idéias obscurantistas que deve ser motivo de atenção pela comunidade científica e pelos que se preocupam com cultura científica. Em 2008 organizou o "I Simpósio Internacional Darwinismo Hoje", um evento que apesar do nome foi nada mais que uma celebração do criacionismo e do intelligent design. Comentei aqui no blog. Depois disso foram divugadas as apostilas para o ensino fundamental onde a criação divina era apresentada como explicação para a diversidade e "perfeição" da natureza. Comentei aqui no blog.
Agora está anunciado o "II Simpósio Internacional Darwinismo Hoje". Espero que a série pare por aí. 

Na apresentação há a justificativa para o evento:

O II Simpósio trata basicamente dos mesmos temas, mas avança um pouco, ao ampliar o número de palestrantes e debatedores representantes do Darwinismo, do Design inteligente e do criacionismo. Dessa forma, o Mackenzie procura manter o espírito da Academia como o local adequado para o debate, para o contraditório.

O grifo é nosso. Essa última afirmação faz parte da tática que os criacionistas e adeptos do intelligent design vêm usando no mundo todo. Equiparar sua leitura literal e fundamentalista da Bíblia judaico-cristã, em particular do Gênesis às descobertas da ciência e afirmando que a postura razoável e compatível com o "espírito da Academia" deve ser a do debate.
No entanto, devem ficar claro que isso é um argumento falacioso e mal intencionado. Não há espaço para debate científico quando não se aceitam evidências que contradizem suas idéias (na verdade idéias de quem escreveu as escrituras que eles adotaram como verdade absoluta). É comum criacionistas argumentarem que a terra tem menos de 6 mil anos, ainda que NENHUMA evidência aponte para essa afirmação exceto o Gênesis (que NÃO é e nem pode ser tratado como evidência). Recentemente num debate na TV o biólogo Mário de Pinna da USP afirmou com ótimo humor que "é impossível você achar que a história do universo tem menos do que o tempo de domesticação do cachorro".
A ciência é uma invenção humana. O Gênesis foi escrito muito antes de a humanidade criar a ciência ou o método científico. Trata-se sim de uma descrição da natureza e suas origens, feita a partir do que se conhecia na época em que foi escrito. Se fosse escrito hoje certamente seria diferente, evolucionista, compatível com o estágio atual do conhecimento.

Mais adiante na apresentação:

Não se pode mais, diante do avanço científico e das recentes descobertas da bioquímica, insistir-se numa única teoria como a explicação exclusiva da realidade. É necessário que todas as vozes sejam ouvidas nessas questões fundamentais, que tocam praticamente em todas as áreas do conhecimento e nos mais diversos setores da nossa vida.

De novo o grifo é meu. Existem dois tipos de teorias: as que correspondem aos fatos e as que não correspondem aos fatos. A ciência é uma metodologia para determinar quais as teorias que correspondem aos fatos e devem continuar sendo estudadas e quais as que não correspondem aos fatos e devem ser abandonadas. Não podem duas teorias contraditórias estar corretas. Devemos sim insistir em uma única teoria. Uma teoria que postule que os objetos caem para cima certamente desafia as observações experimentais e rapidamente é esquecida. O mesmo deveria ocorrer com o criacionirmo e o intelligent design.

Na apresentação dos palestrantes há um rótulo ao lado do nome de alguns deles, indicando a que religião pertencem: criacionista, evolucionista, Design Inteligente(que na verdade é uma forma de criacionismo). Curiosamente isso é omitido em alguns:
  • Paul Nelson, notório criacionista e membro do Discovery Institute. Ainda segundo a apresentação é "Autor de vários artigos científicos em revistas especializadas." O Dr. Nelson é efetivamente autor de vário artigos. Nenhum sobre criacionismo foi publicado em uma revista científica.
  • John Lennox, apologético cristão e criacionista, vem participando de debates em que argumenta em favor da existência de Deus.
A programação é mais do mesmo: equiparar visões religiosas a visões científicas.

Quais serão os resultados do Simpósio? Eles são perfeitamente previsíveis.
Do ponto de vista acadêmico e científico nenhum. Ocorrerá mais um debate em que um grupo adota uma posição pseudocientífica e recusa-se a aceitar qualquer idéia ou evidência que desafie (literalmente) sua Bíblia. Os fósseis não são evidências para eles, a datação radiométrica não é evidência para eles. Nenhum criacionista abandonará sua religião. O bom da ciência é que ela está, ao contrário, sempre pronta para avançar quando aparecem novas evidências. 
Do ponto de vista midiático, certamente ocorrerá a exposição de idéias religiosas travestidas de científicas. Para o pacato cidadão não há diferença entre uma revista científica séria e um pasquim criacionista, entre uma instituição de pesquisa científica e um instituto de divulgação do intelligent design. O criacionismo aparecerá como uma alternativa séria à teoria da evolução. No Brasil real, desafiar a palavra divina ainda é visto com maus olhos. Ponto para eles.

Sempre que a ciência é colocada no nível de crenças e superstições a humanidade perde. Não devemos prestigiar de eventos como esse. Não devemos cair na armadilha de um suposto debate aberto, franco e pluralista. Não é isso que vai ocorrer no Mackenzie.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Vitamina C e cama!

Quando eu era jovem lá pelo início dos anos 70 passava na TV (em preto e branco) o comercial de um medicamento para gripe e resfriado. Uma pessoa espirrava, uma voz dava o diagnóstico:"Resfriado?!". A outra rebatia com "É gripe!" e logo iniciava uma discussão entre as duas sobre qual o procedimento a ser seguido. A primeira voz sugeria "Vitamina C e cama!", a outra "Analgésico!". A discussão continuava com cada um repetindo sua receita até que uma terceira voz apontava a solução para o conflito: Coristina, "que é analgésico, contém vitamina C e ainda por cima é descongestionante". Logo tocava o jingle grudento que dizia "Deixe sua gripe na farmácia, e troque por Coristina!".
Os tempos mudaram. Hoje em dia Coristina virou Coristina d e não contém mais vitamina C. No entanto o mesmo laboratório comercializa Coristina Vitamina C, aproveitando-se da crença ainda largamente disseminada de que uma suplementação de vitamina C previne ou mesmo trata gripes e resfriados. Só tem um detalhe: Na bula da Coristina Vitamina C não há menção a gripes ou resfriados, mas diz que a vitamina C está indicada como:

- suplemento vitamínico auxiliar do sistema imunológico e como antioxidante;
- suplemento vitamínico na convalescença;
- para a suplementação de vitamina C na gestação e aleitamento;
- para a suplementação de vitamina C na cicatrização.

Outra marca comercial de vitamina C, Redoxon recomenda seu produto apenas nos casos de:

Carência de Vitamina C (pré-escorbuto, escorbuto, doença de Moeller-Barlow). Sintomas principais: petéquias, equimoses, edema e sangramento das gengivas, hiperqueratoses acompanhadas de obstrução dos folículos pilosos e manifestações da síndrome de Sjögren. Quando ocorre agravamento da carência, surgem manifestações psíquicas (histeria, hipocondria, depressão).

Uma terceira marca popular, Cebion começa bem mas logo passa às indicações duvidosas:

Para rápida correção de estados carenciais de vitamina C; como estimulante das defesas orgânicas nas épocas de maior perigo de infecção; para suprir o aumento das necessidades que ocorrem em estados normais (gestação, lactação, atividade desportiva, trabalho intenso) e patológicos (doenças infecciosas e estados febris).

Gripe é uma infecção viral que tem os seguintes sintomas: febre que começa rapidamente, calafrios e suor, dor de cabeça, dores nos músculos e articulações, tosse seca, fatiga, perda de apetite, náusea. Na maior parte das pessoas com um sistema imunológico saudável a gripe passa em uma ou duas semanas, sem que façamos nada. Recomenda-se que pessoas com gripe bebam bastante líquido e se necessário usem analgésicos, antitérmicos e descongestionantes (olha a Coristina D aí, gente!) para reduzir os sintomas. Resfriados podem ser causados por mais de uma centena de vírus e em geral apresentam sintomas similares mas mais brandos. Os resultados com medicamentos antivirais para essas doenças são discretos e não justificam sua ingestão. A única maneira reconhecida de prevenir a gripe é a vacina, que devido às constantes mutações dos vírus deve ser repetida anualmente.

Então por que tanta gente usa altas doses diárias de vitamina C para prevenir gripes e resfriados?

A resposta passa obrigatoriamente pelo genial químico norte-americano Linus Pauling. Pauling foi a única pessoa na história a receber o prêmio Nobel sozinho duas vezes, um de química em 1954 por ter usado a mecânica quântica para elucidar a natureza da ligação química e outro da paz em 1962. Apesar dessa carreira invejável (além disso ele quase acertou a estrutura do DNA nos anos 50) a partir dos anos 60 ele passou a disseminar a idéia de que a ingestão diária de mega-doses de vitamina C combateria ou mesmo previniria gripes e resfriados. Essa idéia foi defendida de maneira entusiástica por Pauling até o final de sua vida. Essa idéia nunca foi demonstrada cientificamente, mas ganhou a cultura popular. É comum ainda hoje encontrarmos pessoas que ingerem vitamina C não para tratar do escorbuto, doença ligada a sua carência que dizimava marinheiros no século XVI, mas contra gripes e resfriados.

O mais completo estudo sobre vitamina C e resfriados, Vitamin C for preventing and treating the common cold foi publicado em 2007 no Cochrane Database Systematic Review , um compêndio que tem o modesto objetivo de sistematizar TODO o conhecimento médico do mundo. Conclusão do meta-estudo colossal, envolvendo 11350 participantes e seguindo critérios de qualidade em relação aos dados primários: "O insusesso da suplementação de vitamina C para reduzir a incidência de resfriados na população normal indica que profilaxia de rotina por mega-doses não se justifica racionalmente para uso pela comunidade. No entanto as evidências sugerem que ela pode se justificar em pessoas expostas por breves períodos de exercícios severos ou frio."

Ou seja, na próxima vez que você tiver uma gripe ou resfriado pode até tomar vitamina C. Nesse caso você estará curado em uma a duas semanas. Se não tomar provavelmente estará curado em 7 a 14 dias... Mas não deixe de ingerir muito líquido e ficar em repouso!

Este é o primeiro de uma série de textos sobre vitaminas que pretendo publicar aqui.





terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Macaco Harmonico Azul

Como eu vinha fazendo nos últimos anos, passei a virada do ano nas proximidades de Garopaba em Santa Catarina. É um lugar ótimo para se isolar do mundo, descansar um pouco e praticar esportes aquáticos. Para minha surpresa, dessa vez também aumentou minha cultura astrológica. Minhas filhas chegaram de compras em uma loja descolada de lá com um guia do "Calendário Maia". Descobri que sou Kin 31, ou seja, Macaco Harmônico Azul. Você pode descobrir seu kin aqui. Descobri também que o "Calendário Maia" é supostamente um código astrológico comparável ao egípcio usado pelos astrólogos de plantão. Fiquei um pouco desconfiado devido aos termos usados, que não me pareceram muito compatíveis com a cultura maia: magnético, elétrico, ressonante, harmônico. Isso parecia mais um guia New Age. Na verdade é. O "Calendário Maia", também chamado de Calendário da Paz, que muita gente segue religiosamente no Brasil tem pouco a ver com a cultura maia e muito com o movimento New Age.
O padrão sociológico se repete nas pseudociências e nas crenças em geral, religiosas ou não: algum iluminado recebe uma revelação, escreve um tratado acima de verificação experimental porque contém a Verdade, uma turba de seguidores se forma. No caso do "Calendário Maia" o iluminado é José Argüelles, um americano com doutorado em história da arte e estética pela Universidade de Chicago que segundo consta lecionou em universidades prestigiosas incluindo Princeton antes de escrever o livro místico The Mayan Factor: Path Beyond Technology (encontrei uma tradução em português esgotada aqui). Depois disso, junto com sua companheira Lloydine ele criou o Instituto de Pesquisas Galácticas da Fundação da Lei do Tempo. Observando os grafismos dessa página sou levado a pensar que o Dr. Argüelles há muito esqueceu o que aprendeu em seu doutorado em estética. Segundo uma página do instituto, os maias tinham um sistema matemático, astronômico e de calendário peculiar, usando como
medida de base a razão 13:20. Eles usavam 19 calendários, sabiam que o tempo é a quarta dimensão, e sabiam também que a história vai terminar em 2012.
Já a nossa civilização moderna usa a frequencia artificial 12:60. É provavelmete por isso que ocorrem guerras e injustiças no mundo. A solução, segundo os seguidores do Dr. Argüelles é adotar o seu Calendário Maia, com 13 meses de 28 dias. Isso mudará o mundo.
Opa, 13x28=364 dias. Como sincronizamos com o calendário gregoriano? E o dia que falta? Fácil. Criamos um Dia fora do tempo, que ocorre todo dia 25 de julho. Um dia tão especial deve ser inteiramente dedicado à meditação e preces. Em Gravatal, SC , a Câmara dos Vereadores aprovou uma lei criando o Dia Municipal da Cultura e da Paz, comemorado com o apoio da Sercretaria de Turismo.
Mas espere. Na verdade o período do ano solar não é só 365 dias, mas aproximadamente 365 dias e 6 horas. É por isso que a cada 4 anos temos um ano bissexto, que inclui o dia 29 de fevereiro, formado pela soma das 6 horas extras de cada ano. Como os supostos maias do Dr. Argüelles dão conta disso? Simples: não dão. Após 720 anos o verão cai nos meses de inverno e vice-versa. Leva mais 720 anos para voltar ao normal.
Mas não precisamos nos preocupar com isso. Segundo as supostas previsões maia seguidas pelos seguidores do Dr. Argüelles a história terminará em 2012. Mais precisamente em 21 de dezembro de 2012.
Mas nem tudo está perdido! Segundo eles em 2012 terminam três ciclos: um de 5125 anos, um maior de 26 mil anos e um ainda maior de 104 mil anos. Aí o mundo acaba? Nada disso! Após Sete Luas Místicas será lançada a Nave do Tempo 2013, marcando a entrada do planeta na civilização cósmica e participação plena na Federação Galática. Esse pessoal deve ter tido uma overdose de Guerra nas Estrelas!

De qualquer forma, até o próximo Dia Fora do Tempo estaremos aproveitando o ano da Tormenta Elétrica Azul. Tem muito mais na página do movimento no Brasil. É divertidíssimo. Segundo eles o ataque de 11 de setembro é apenas um aviso do que está por vir. A crise nas bolsas também. Arrependei-vos!

Recentemente um documentário (vai passar de novo dia 15/1/09) na Discovery mostrou como cientistas sérios conseguiram recentemente decifrar a escrita maia. Foi um empreendimento que durou mais de um século, envolvendo gerações de antropólogos com suas sacadas geniais e também seus preconceitos, mas nenhuma revelação (em breve espero escrever sobre isso, pois é um excelente exemplo de como a ciência funciona). Há muita informação sobre a cultura maia na página da Discovery Brasil. Felizmente os verdadeiros maias não assistiam Guerra nas Estrelas!
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