quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Posso ser amigo de um religioso?

Rodrigo Silva é criacionista e professor de teologia na UNASP. Ele seria um dos palestrantes no I Fórum de Filosofia e Ciências das Origens da Unicamp, que foi cancelado depois que eu e outros docentes da universidade se manifestaram. Depois desse cancelamento alguns blogs criacionistas se manifestaram atacando-me pessoalmente, inclusive qualificando-me como "academicamente desonesto". Quando percebi que alguns órgãos da imprensa estavam exagerando nas declarações que publicavam a nosso respeito, eu tomei a iniciativa de entrar em contato com ele. Em momento algum tive ou tenho qualquer restrição pessoal em relação a ele ou qualquer um dos demais participantes. Eu sim tenho críticas às ideias que eles defendem. Rodrigo respondeu a minha mensagem com um convite para almoçarmos juntos, o que fizemos na semana passada. Continuamos discordando, mas criamos um canal de comunicação bastante respeitoso. Em razão de novos ataques pessoais que eu sofri ontem, Rodrigo pediu que eu publicasse o texto dele que se segue, que também será publicado no blog Criacionismo.
Eu fiquei verdadeiramente tocado pela solidariedade dele e não sei como agradecer por este gesto tão significativo. Eu sei que ele provavelmente nunca deixará de ter sua crença, nem eu desejo isso. Alguns valores são humanos e estão acima de crenças. Aqui temos uma bonita expressão disso.


         Posso ser amigo de um ateu?


         Debater é uma arte essencial para aqueles que lidam com questões acadêmicas. Prefiro mil vezes um debate que não chegue a uma conclusão a uma conclusão que dispense um debate. Conclusões que não foram exaustivamente discutidas são como soluções vazias para um problema que nem foi sistematizado. Neste processo, é muito importante que haja espaço para boas discussões. Veja, eu disse “boas” discussões. É uma pena que certos comportamentos belicosos tenham dado à palavra discutir um novo sentido semântico que não tinha nada a ver com aquele original de quando o termo foi criado. Só para que se saiba, “discutir” vem do latim discutere (dis, separação + quatere, quebrar). O sentido original era quebrar, sacudir, abalar. Era isso o que os médicos romanos faziam com as plantas para produzir um medicamento. Eles quebravam e sacudiam as raízes para separar a terra e verificar as que eram ou não fortes o bastante para servir de remédio. Em virtude dessa prática, discutir também adquiriu um sentido adicional de “curar”.

          Originalmente, portanto, “discutir” seria pegar um assunto e agitá-lo, até ele se dividir em partes menores e se desprender daquelas que seriam periféricas. Assim, ele fica mais fácil de ser digerido, pois não podemos compreender tudo de uma só vez. É por isso que, em qualquer discussão, todos os envolvidos parecem ter sempre um pouco de razão: cada um só vê a parte que lhe interessa, a do outro é sempre a terra a ser desprendida ou o pedaço de raiz que não serve para nada. O importante, portanto, numa discussão, é superar a tendência partidarista e usar as partes “sacudidas” para se alcançar, senão o consenso, pelo menos o respeito por aquele que discorda de nossa opinião.

          Seria a busca por esse respeito uma utopia? Bem, somando a ideia de que “a esperança é a última que morre” ao fato de que sou um homem de fé, ainda acredito que é possível discordar com respeito. E vou mais além: é possível ser amigo de alguém de quem você discorda profundamente? Também creio que sim.

          Veja o que aconteceu comigo: perdi a chance de falar num fórum na Unicamp e isso me deixou muito chateado, muito mesmo! Não concordei com a postura assumida por alguns professores. Mas vejam o presente que ganhei de Deus (isso mesmo, “de Deus”; lembre-se de que quem escreve acredita nEle): ganhei três novos amigos, uma antropóloga canadense, um matemático e um físico – esses dois últimos se empenharam ativamente pelo cancelamento do fórum. Um deles é o físico Leandro Tessler, cujo nome está circulando como elétrons nas redes sociais. Espero não ter errado na comparação, mas antes isso que dizer “circulando como azeitona na boca de um velho”.

         Mas, falando sério, como pode existir amizade numa situação dessas? Pode um crente e um ateu se tornarem amigos? Ora, se o que eu acredito for verdade, eu e o Leandro somos filhos de um mesmo Deus. Se o que ele diz for verdade, também somos todos parentes por ter uma ancestralidade comum. Logo, no frigir dos ovos, independentemente do modelo adotado, somos todos irmãos. Então, por que se comportar como se fôssemos um bando de porcos-espinhos numa noite de inverno? Devemos ser mais evoluídos do que isso!

          Dá, sim, meus amigos, para discordar com classe. Dizer que o professor Leandro é academicamente desonesto não ajuda na argumentação. Pelo contrário, é tão ofensivo quanto supor que eu esteja sorrateiramente entrando na Unicamp, como um lobo disfarçado de ovelha para convencer os alunos da “perigosa” doutrina do criacionismo. Noutras palavras: eu também seria desonesto!

           Ambos, ele e eu, somos muito honestos com nossa linha de pesquisa, mesmo que cheguemos a conclusões diferentes sobre algumas coisas da vida. O professor Leandro foi muito cortês no almoço que tivemos e não vi motivos para duvidar da idoneidade dele. Ao contrário do que alguns supõem do caráter de um ateu, ele não pediu “criancinhas ao molho pardo” e eu também não pedi alfafas. Ele não é canibal e eu não sou burro. Somos dois pensadores tentando entender a vida e o sentido de nossa existência. Temos todas as respostas? É claro que não! Mas as estamos buscando. Cada um a seu modo. Ele me deseja um “bom culto” quando digo que vou para a igreja. E eu digo que “orarei por ele”. Não há ironias, nem desaforos, apenas respeito um pelo outro, sem desconsiderar os pontos nos quais discordamos.


          Como cristão, eu tenho de entender que não sou dono da verdade e não sei tudo sobre Deus. E como dizia uma velha canção católica: “às vezes quem duvida e faz perguntas é muito mais honesto do que eu”. Deus é menos ofendido pela sinceridade de um ateu do que pela hipocrisia de um santo. É claro que meu desejo é que um dia o Leandro acredite em Deus. E se isso não ocorrer? Que me importa? Pela evolução ou pela criação ele continua sendo meu irmão e merece meu respeito. Devemos defender com paixão aquilo no qual acreditamos, mas alguns preferem defender com “raiva” e isso não é nada bom!


          (Rodrigo Silva é graduado em teologia e filosofia, doutor em teologia e doutorando em arqueologia clássica pela USP)

domingo, 13 de outubro de 2013

Criacionismo na Unicamp, de novo!

Upideite 14/10/13: O  1o Fórum de Filosofia e Ciência das Origens foi cancelado (leia abaixo para entender). Segundo fui informado a decisão de suspende-lo foi tomada ainda na semana passada, mas por algum motivo a página continuava no ar. Hoje foi retirada. A administração central da Unicamp está de parabéns por ter tomado a decisão mais acertada para esse caso. Infelizmente não foi a primeira nem será a última vez que criacionistas e adeptos do intelligent design tentarão buscar credibilidade nas universidades brasileiras.

Upideite 16/10/13: Fui brindado com duros ataques pessoais em dois blogs criacionistas que acham que eu tenho algum poder sobre o que acontece ou não na Unicamp. Nenhum deles permite comentários. Só chamo a atenção para o fato de nunca em meu blog ter sido feito um único ataque pessoal a quem quer que seja, e venho autorizando todos os comentários, exceto os que contém ataques pessoais muito pesados a mim ou a outras pessoas. O nível da discussão cai muito quando um dos lados decide partir para ataques pessoais sem permitir defesa pelo outro. Recomendo que meus leitores não leiam esses blogs.

Upideite 13/11/13: Ontem blogs criacionistas voltaram a fazer pesados ataques pessoais contra mim. Um deles teve o cuidado de retirar as referências ao meu nome ao reproduzir o texto do outro. Obviamente nenhum dos dois permite resposta pois não admitem comentários. Por motivos que em breve se tornarão públicos eu prefiro não comentar nada aqui. O excelente DNA Cético analisou o caso.

Upideite 26/10/13: A Isto É publicou uma nota afirmando que "Grupo de ateus impede que evento religioso com especialista dos EUA se realize na universidade e dificulta o debate acadêmico". Acertaram uma parte: Tratava-se de um evento religioso. Erraram outras: Não há um grupo organizado de ateus (nós temos mais o que fazer), o "especialista" dos EUA é o sujeito sobre o qual comentei acima, e todos apoiamos debates acadêmicos. Deploramos religião travestida de ciência.


Mais do que tentar angariar novos adeptos, o movimento criacionista e de intelligent design no Brasil busca desesperadamente ser reconhecido como ciência.
Não é por outro motivo que instituições de ensino superior confessionais ligadas a denominações protestantes no Brasil promovem periodicamente eventos supostamente científicos onde chamam "especialistas" para debater o que eles entendem por darwinismo ou por "ciência das Origens". Eu já me manifestei sobre o triste caso da Universidade Presbiteriana Mackenzie aqui e aqui. O evento "Darwinismo Hoje" já chegou na sua quarta edição, sempre com os mesmos palestrantes dedicados a negar Darwin e com a mesma irrelevância científica. Não deixa de ser triste que uma universidade privada brasileira que está construindo o que espera que venha a ser uma referência mundial em pesquisas com grafeno coloque sua reputação como instituição científica em risco por esse tipo de iniciativa que agrada aos religiosos fundamentalistas mas não contribui em nada para o avanço da ciência ou do próprio criacionismo, dado que para ele todas as respostas já estão escritas. Universidades confessionais protestantes americanas de primeira linha como Harvard, Princeton ou Yale jamais permitiram que um evento desse tipo ocorresse em suas dependências. Recentemente o Centro Universitário Adventista de São Paulo organizou o encontro criacionista O Universitário  Cristão e as Origens, repetindo os mesmos palestrantes e os mesmos argumentos.
Há alguns anos duas palestras foram proferidas por um criacionista americano na Unicamp. Na ocasião juntamente com colegas conseguimos deixar claro que não se tratava de um evento oficial da Unicamp e o logotipo da Unicamp que estava no cartaz foi retirado. De lá para cá pelo menos por 3 vezes foram canceladas palestras criacionistas em diferentes institutos da Unicamp e no encontro da SBPC que ocorreu na universidade. Eu sempre defendi o direito dos criacionistas de terem e defenderem sua opinião e a propagarem dentro de suas igrejas,  na imprensa ou na mídia, ao mesmo tempo que mantenho que criacionismo não deve ser validado nem ter espaço na universidade.
Por isso causou-me surpresa que a administração central da Unicamp, uma universidade pública e prestigiada como uma das melhores do Brasil  esteja dando suporte institucional para um evento criacionista que ocorrerá dia 17/10 dentro da série de debates chamados de Fóruns Permanentes. Trata-se do 1o Fórum de Filosofia e Ciência das Origens (espero que seja também o último!).  Esse evento chama a tenção por vários aspectos que destoam de uma atividade acadêmica em uma universidade de ponta. Não há nenhum docente da Unicamp na comissão organizadora, e nenhum dos funcionários envolvidos trabalha com pesquisas no tema. Como mostrarei a seguir nenhum dos palestrantes tem um perfil acadêmico compatível com essa universidade, exceto pelo Professor Marcos Eberlin, do Instituto de Química da Unicamp, que participará da sessão de abertura. O Prof. Eberlin é um reconhecido pesquisador na sua área de atuação, com um expressivo reconhecimento pela comunidade e é autor ou coautor de mais de 420 artigos publicados em revistas de seletiva política editorial. NENHUM deles sobre criacionismo ou intelligent design! Vale notar que o Prof. Eberlin é um assíduo participante nos eventos já citados no Mackenzie e na UNASP.
As duas primeiras palestras estão a cargo do Prof. Russell Humphreys, que tem um doutorado em Física e foi professor associado no Institute for Creation Research. Seu currículo contém patentes e publicações em periódicos de seletiva política editorial especialmente na área de instrumentação mas também vários artigos delirantes, publicados em revistas criacionistas, que pretendem mostrar pela teoria da relatividade que a terra foi criada em 6 dias e não tem mais que 6 mil anos (coincidentemente os tempos prescritos nas sagradas escrituras), que ocorreu um dilúvio (idem) durante o qual o campo magnético da terra foi invertido várias vezes fazendo com que os fósseis pareçam mais antigos que são, que o decaimento nuclear prova que a terra tem entre 4 e 14 mil anos (idem) e que o vôo do Pioneer mostra que Deus existe. Nenhum físico que se preza levaria esse tipo de trabalho a sério.
O evento continua com uma palestra do Prof. Nahor Neves, da UNASP que é doutor em geociências. O Prof. Neves também é assíduo participante em eventos criacionistas. Dos seus 10 trabalhos publicados em periódicos apenas um, o mais antigo, é em um periódico com seletiva política editorial e não é sobre criacionismo. O próximo palestrante, Prof. Rodrigo Silva da UNASP tem doutorado em Teologia Bíblica e apresenta semanalmente o programa Evidências na TV Novo Tempo. ele falará sobre Arqueologia e os mistérios das origens humanas. O último palestrante será o jornalista e escritor Michelson Borges, que não tem Currículo Lattes mas mantém os blogs Criacionismo e Michelson Borges. Borges vem tentando mostrar, sem sucesso, que criacionismo é ciência.

Por que a Unicamp empresta seu prestígio a um evento desse tipo, que estaria muito mais apropriadamente sediado em alguma igreja ou associação cristã?
Só consigo imaginar que trata-se de mais um esforço dos criacionistas para ganhar status de ciência. Todos os palestrantes compartilham a mesma visão de mundo baseada na leitura literal da Bíblia. Não existe a menor chance de ocorrer um debate. Mesmo que algum dos palestrantes fosse um cientista não ocorreria um debate científico. Ao contrário da ciência que elabora seus modelos em torno de resultados experimentais e fatos, os criacionistas buscam adaptar os fatos e resultados experimentais ao que prescreve a Bíblia judaico-cristã.
Eu não vou a esse evento e espero que os colegas cientistas façam o mesmo. Participar significa validar como ciência a anti-ciência dos criacionistas. Debater com eles é perda de tempo, pois não há evidência na terra (ou no céu!) que os faça rever seu modelo e suas posições, como os cientistas costumam fazer.  Ao contrário, como muito bem faz o Prof. Humphreys, eles preferem mudar os fatos para adaptá-los ao modelo.
Esse evento não vai fazer da Unicamp uma universidade pior, mas vai mostrar que em nome da abertura para a diversidade de pensamento podemos nos expor a situações embaraçosas que deveriam ser evitadas. Universidades, museus e bibliotecas são (ou deveriam ser) os repositórios do saber. Até hoje a reputação da UnB é manchada pela existência do Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais e pelo curso de extensão em Astrologia, a ponto de ter sido solicitado seu fechamento...

Upideite 13/10/13: Um ponto de vista radicalmente diferente do meu apareceu hoje pela manhã no Criacionismo.com. Ele apresenta um programa distinto do que está na página do evento na Unicamp. Insider information... Existe até uma página (não hospedada na Unicamp) com informações e programação diferentes das oficiais.

Upideite 13/10/13: O ótimo Never Asked Questions do Roberto Takata já tinha postado um texto sobre o evento no dia 10/10. Esse tem um ponto de vista mais próximo ao meu.

Upideite 15/10/13: O blog Criacionismo.com do palestrante Michelson Borges apresenta uma versão diferente desse assunto. Infelizmente o blog não é aberto para comentários, mas eu ia propor que fizéssemos um debate verdadeiro e mais equilibrado em algum templo (não numa universidade): 2 criacionistas e 2 cientistas abordariam evolução e as origens do universo, seguido de um debate.

Upideite 1/11/13: Ótima análise no Bule Voador.

Upideite 6/11/13: A TV Novo Tempo, ligada à Igreja Adventista, fez um programa bastante equilibrado mostrando os pontos de vista do Prof. Rodrigo Silva e o meu.

Upideite 7/11/13: Só hoje eu soube de um excelente editorial do Destak de Campinas de 4/11 (precisa baixar a versão em pdf) intitulado Adão e Eva na Unicamp. Isso motivou uma carta que foi enviada ao Destak pelo já aqui citado Prof. Eberlin, que faz referência a uma frase atribuída a mim na Isto É. A carta foi publicada aqui. Infelizmente o blog onde ela foi publicada não permite comentários, mas nela o Prof. Eberlin afirma que nenhum dos palestrantes falaria sobre a idade da terra. Ele provavelmente não prestou atenção ao resumo da palestra do Dr. Russell Humphreys, que ia justamente mostrar "cientificamente" que a terra foi criada em 6 dias há menos de 6 mil anos. Apesar de negar o caráter claramente religioso do fórum, o Prof Eberlin deixa escapar no final da carta a palavra Verdade com vê maiúsculo, um conceito normalmente associado com um certo grupo de religiões monoteístas ocidentais e não com a Ciência (com cê maiúsculo).

Upideite 10/11/13: Para quem ainda tem dúvidas a respeito da natureza religiosa do evento, vale a pena ler as declarações do Dr. Russell Humphreys, após evento na Igreja da UNASP dia 19/10. "Em seguida, Humphreys, apresentou suas teorias sobre a real idade da Terra. Com base na física e na Bíblia, o criacionista explicou que a Terra não tem como ter bilhões de anos, como declara a teoria evolucionista. O físico ressaltou que através da cosmologia podemos entender as origens do Universo. “Minha confiança está na precisão da Bíblia. Quando comecei o estudo bíblico vi em várias passagens, que a Terra é nova. Toda cosmologia mostra que a Terra é nova,” relata Humphreys." Se alguém chama isso de ciência certamente não tem ideia do que é ciência. Obrigado Claudio Julio por chamar atenção para esse link.

Upideite 11/11/13: Outros blogs comentaram esse evento. Vale a pena ler o ExataMente e o Bar do Ateu.

Upideite 25/11/13: O Eneraldo Carneiro do Gato Precambriano publicou hoje mais um excelente texto no Bule Voador sobre as repercussões do cancelamento do evento.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

30% dos cursos avaliados abaixo da média do ENADE. O que isso significa? Rigorosamente NADA!

Ou melhor, isso significa que as notas foram padronizadas. É muito engraçado ler as manchetes dos principais órgãos da imprensa:
G1: Enade tem 30% dos cursos do ensino superior abaixo da média, diz MEC
Folha: 30% dos cursos tiveram desempenho insatisfatório no Enade, diz MEC
Estadão: Enade: 30% dos cursos de ensino superior têm desempenho insuficiente
Os comentários do Ministro Mercadante vão na mesma direção. No G1: "Entretanto, mesmo com o resultado, o ministro da Educação,Aloizio Mercadante, considera que o ensino no país está evoluindo se comparados aos resultados do Enade de 2009, quando foi feita a avaliação dos mesmos cursos avaliados em 2012."
Só é possível concluir que o Ministro e os jornalistas que cobriram a divulgação dos resultados estavam muito mal preparados ou não entendem como é gerado o Conceito ENADE e por isso dão declarações que equivalem a dizer que 1+1=2 como se isso fosse uma grande novidade. Vou mostrar a seguir que pela forma como ele é gerado, exceto em casos extremos que também comentarei, SEMPRE cerca de 30% dos cursos terão nota entre 0 e 2, com pequenas flutuações aleatórias de ano para ano.
Figura 1. Três possíveis distribuições de notas no ENADE.
O processo de tratamento dos dados está descrito em Nota Técnica do INEP.  Para se obter o Conceito ENADE é feita uma mudança de escala muito usada em estatística, chamada de padronização.  Os conceitos são calculados a partir da média e do desvio padrão da distribuição de notas. Os estatísticos têm boas razões para supor que a distribuição de notas do ENADE obedece uma curva em forma de sino chamada distribuição normal. A primeira mudança de escala transforma as distribuições de nota em uma curva em que a média vale zero e cada desvio padrão vale um. Então para transformar essa escala padronizada em uma escala supostamente linear de zero a 5 é feita uma segunda padronização que deve estremecer qualquer estatístico que entende do assunto: adiciona-se a menor nota padronizada a todas as pontuações, fazendo a curva começar em zero e depois divide-se as pontuações pelo maior valor obtido, chegando a uma escala entre zero e um que é multiplicada por 5 para chegar na escala entre zero e cinco. Essa segunda padronização que eu saiba (não sou estatístico, apesar de usar muito estatística em minha vida profissional) não tem justificativa teórica alguma, mas transforma os dados em uma escala entre zero e cinco. Como isso é complicado, esse  é o momento para fazer alguns exemplos. Imaginemos que o resultado do ENEM de 3 edições seguidas apresenta as 3 curvas na figura abaixo na ordem verde, preta e vermelha. Isso significa que o ensino superior brasileiro está piorando? Talvez, mas pode também significar que ele está melhorando ao mesmo tempo que as provas estão ficando mais difíceis. Uma das justificativas da padronização é justamente tornar o Conceito ENADE insensível a variações no grau de dificuldade das provas. Após a primeira padronização, as três curvas ficam exatamente iguais, representadas na figura 2.
Figura 2. As mesmas distribuições da figura 1 padronizadas.
Isso mostra de forma bastante conclusiva que independentemente do grau de dificuldade da prova, que no meu exemplo teve uma variação exagerada, a padronização faz com que as distribuições de notas tenham sempre a mesma cara e sigam uma mesma escala. Afinal, é para isso mesmo que serve a padronização: evitar que uma prova atipicamente difícil ou atipicamente fácil altere de forma significativa o resultado da avaliação, que tem como objetivo comparar desempenhos de quem faz uma prova, jamais comparar quem faz provas diferentes.
Então fazemos a segunda padronização e chegamos à próxima figura, que corresponde à distribuição do Conceito ENADE (as notas são arredondadas para o valor mais próximo para chegar a uma escala de inteiros de zero a 5).

Figura 3. O conceito ENADE para as curvas
anteriores. A área entre zero e 2 corresponde a
31% da área total.
Cabe ainda perguntar que percentual da curva  corresponde aos conceitos entre zero e 2. Como a curva da distribuição normal segue uma função conhecida e não é possível calcular sua área analiticamente (a partir de sua integral, como diriam os matemáticos), qualquer livro de probabilidade ou de estatística tem esses valores tabelados. Eu procurei no livro do Sheldon Ross de Probabilidade (simplesmente porque o tinha em casa) e encontrei essa área igual a exatamente 30,85%.  Portanto, não deveria surpreender que 30% dois cursos tenham nota inferior a 3, ou que "Um em cada três cursos de Direito tenha desempenho ruim no ENADE". É assim para todos os cursos, porque o Conceito ENADE é definido dessa forma. Eu venho dizendo que se as pessoas soubessem um mínimo de estatística ela sestariam muito mais bem equipadas intelectualmente para lidar com pseudo-ciência e curas milagrosas. Elas também deixariam de se surpreender a cada ano por ter 30% ou 1/3 dos cursos "reprovados" no ENADE.
Antes de terminar eu quero chamar a atenção par ao absurdo que é a segunda padronização, a que transforma a escala ancorada na média numa escala linear. Imagine que um único curso tenha um desempenho particularmente ruim no ENADE e fique com uma nota padronizada muito abaixo da média (um outlier no jargão técnico). Quando for feita a segunda mudança de escala, todos os Conceitos ENADE serão artificialmente empurrados para cima. Certamente o Ministro elogiará o fato de quase todos os cursos brasileiros (exceto o coitadinho com desempenho muito abaixo da média) estarem "aprovados" com Conceito maior que 3. Isso não significaria absolutamente nada também, a não ser que uma escola teve nota muito inferior às demais. Isso na verdade ocorreu numa das primeiras avaliações de Medicina, como foi discutido de forma muito clara no artigo O Enigma do ENADE por Simon Schwartzman em 2005.
A propósito, quando fui buscar a referência vi que ele escreveu um texto muito bom e mais conciso sobre o mesmo assunto.
Eu havia abordado essencialmente o mesmo assunto de agora em um texto sobre o ENEM.
Enfim, ao contrário do que o Ministro da Educação afirmou, não é possível dizer que o ensino superior brasileiro melhorou a partir do resultado do ENADE, nem seria de se esperar que um número muito diferente de 30% ou 1/3 dos cursos tirasse uma nota abaixo de 3.

Upideite 8/10/2013: Na gloriosa região campineira são só 25% abaixo de 3. Esse tipo de comparação entre regiões é perfeitamente válido, mas o jornalista insinua como má o que deveria ser uma ótima notícia para a região.

Upideite 10/10/2013: Algum editor do G1 andou lendo o Cultura Científica ou o blog do Simon: Hoje saiu uma notícia abordando exatamente esse assunto, claro que sem fazer menção à barriga original. ou aos blogs.

Upideite 18/10/2013: O Simon nota que um editorial do Estadão incorre no mesmo erro relatado aqui. Parece que ao contrário do pessoal do G1, o editorialista não leu o blog do Simon nem o Cultura Científica. A exemplo do que acontece nos EUA, a grande imprensa teria a ganhar se prestasse atenção nos blogs.

Upideite 23/10/2013: O caso da revista Época é o mais curioso: Enquanto sua página web cai no erro apontado aqui, um editorial na versão impressa corretamente afirma o mesmo que apontado aqui e no blog do Simon. O editor deve ter lido os blogs, mas o redator não...

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A Cultura da Burocracia, ou a Anti-Cultura Cientifica

Cultura vai muito além do que tem nos livros e bibliotecas, museus e auditórios. Cultura é parte do que faz de um grupo de pessoas um povo. É parte dos pactos não escritos e valores que regem as relações humanas. É parte dos ritmos e imagens que nos provocam, agradam ou desagradam. No Brasil infelizmente estabeleceu-se uma cultura local do saber que torna muito difícil o avanço do conhecimento. Não é a toa que aqui é tão difícil transferir conhecimento da universidade para a indústria. Não sei como identificar as origens disso, talvez uma mediocridade geral e ignorância por parte das pessoas que construíram nossa sociedade. O que mais me perturba é o entendimento implícito generalizado de que tudo o que fazemos deve estar sujeito a regulamentações, regras, aprovações e certificações. Nunca vou esquecer do dia em que o grande Prof. Luiz Bevilacqua, então reitor da UFABC, contou gargalhando que decidiu se demitir do Conselho Nacional de Educação depois da terceira ou quarta reunião para discutir quantos minutos tem uma hora. É sério. Essas discussões culminaram no Parecer 261/2006 que felizmente em seu artigo 3o garante que uma hora tem 60 minutos. Que sorte. O perigo é quando este tipo de discussão contamina as mentes dos cientistas que passam a tratar com naturalidade situações completamente absurdas, ninguém sabe muito bem por que. Isso remete a uma pauta imensa, que vai desde o atual debate em torno da regulamentação da profissão de cientista, o exagerado número de profissões regulamentadas (devem ser mais de 50 de nível superior) até as peripécias exigidas de quem estudou no estrangeiro. Por algum motivo os brasileiros sempre desconfiam da qualidade da formação e da autenticidade dos diplomas obtidos fora.
O Brasil tem uma estranha fixação em validade de documentos. Outro dia fui reconhecer minha firma em um cartório (duas excrecências locais: o reconhecimento de firma ainda exigido em vários documentos banais e o cartório para consumar o fato) e a simpática balconista achou meu documento de identidade expedido em 16/01/1975 pela SSP/RS sem nenhuma indicação de data de validade muito velho (certamente mais velho que ela).  "Dessa vez vou deixar passar, mas na próxima o senhor vai precisar de outro." Dias depois uma situação similar ao embarcar em um vôo doméstico. "O senhor precisa providenciar outro RG pois em 2014 com a copa não vamos aceitar mais RGs antigos". Não consegui entender o que a copa do mundo de futebol tem a ver com meu RG de 1975. Será que acham que vou tentar passar por algum jogador? Ou pior, por cartola? Nem que tentasse não adiantaria...
Pior mesmo é o tratamento que damos aos diplomas expedidos no estrangeiro. Eu tive o privilégio de fazer meu doutorado no exterior. Era o fim dos anos 80. Eu achava que nunca ia conseguir trabalho no Brasil e estava um pouco resignado à perspectiva de viver em outro país, de forma que não estava muito preocupado com a burocracia brasileira. No entanto, eu conhecia alguns funcionários do consulado brasileiro em Tel Aviv, que me recomendaram fortemente "consularizar" as assinaturas no diploma, ou seja, te-las autenticadas por um funcionário consular (que age como um cartório nesses casos). A propósito, quando precisa certificar uma assinatura em Israel as pessoas não procuram um cartório (isso não existe lá com essa função), mas sim um lugar onde autenticar a assinatura é realmente importante. Sim, são os bancos que autenticam as assinaturas e não cobram nada pelo serviço, ao contrário dos cartórios brasileiros.
Mas que diploma? Como no mundo menos burocratizado o diploma não serve nem para decorar parede de consultório, a universidade não tinha pressa alguma em expedir o meu. No final do meu doutorado o diretor de um laboratório francês passou pela universidade para dar um seminário. Ele estava buscando um pós-doc com o perfil similar ao meu. Aceitei. Fui contratado como pesquisador do CNRS, o CNPq  francês. Mesmo não sendo cientista ou pesquisador uma profissão regulamentada na França e portanto sem um conselho profissional ou carteira de identidade profissional diferente dos demais mortais, assinei um contrato de trabalho, recolhia impostos e contribuía para a previdência social (francesa, claro). Muito diferente da prática brasileira de conceder bolsas sem direito trabalhista ou previdenciário algum aos pós-docs. Na dúvida, eu consultei o CNRS para saber como proceder pois não tinha diploma, muito menos tradução juramentada para o francês ou autenticação pelo consulado da França. Nada disso. Bastava uma carta em inglês (nada de tradução juramentada) do meu orientador ou do coordenador do programa de pós certificando que eu tinha defendido a tese. Assim foi, e no início de 1990 mudei para Caen sem ter o diploma, sem autenticação no consulado, sem tradução juramentada, sem ser francês, em um trabalho que exigia doutorado (Pesquisador Classe II).
Um belo dia recebi um telefonema em casa de um professor da Unicamp, oferecendo uma posição temporária de professor, que era o caminho para uma posição permanente. Apesar de ter adorado o tempo fora do Brasil, eu queria muito voltar. Cheguei na Unicamp no início de 1991 com a carta do coordenador do programa de pós-graduação em Física da Universidade de Tel Aviv atestando que eu tinha terminado o doutorado que tinha servido para os franceses (o diploma só foi expedido muitos meses depois) e algumas cópias da tese, que tinha rendido algumas publicações em periódicos. No entanto, como meu doutorado não foi feito no Brasil eu fui contratado como mestre (eu fiz o mestrado na própria Unicamp) até que a Unicamp "reconhecesse" meu doutorado. Na época existia (não sei se ainda tem) um processo de reconhecimento interno que só é válido na própria instituição, mas que ainda assim levou meses. Só então meu doutorado, obtido a partir de um trabalho apresentado à Universidade de Tel Aviv passou a ser reconhecido pela Unicamp, que só tinha me contratado porque eu tinha feito o doutorado. Maluco, não? Claro que podia piorar: algum burocrata decidiu que a Unicamp não pagaria a diferença retroativa entre os salários de mestre e doutor, pois a universidade só me reconhecia como doutor a partir daquela data. Fiquei furioso. Pensei em voltar para a França. Como podiam ter me contratado para uma posição que exigia um doutorado se achavam que meu doutorado não valia nada até a data do "reconhecimento"? Com alguma conversa e argumentação as coisas se resolveram favoravelmente. Mesmo assim, quando o diploma foi expedido, pedi a um amigo levá-lo ao consulado brasileiro para autenticar a assinatura do reitor da Universidade de Tel Aviv antes de enviá-lo para mim. Ironia das ironias, o consulado pediu para ele mesmo providenciar uma amostra da assinatura do reitor! Reconhecimento de firma meio frouxo, mas duvido que o reitor aceitasse ir até o consulado para isso.
Por essas e outras uma recente notícia no Jornal da Ciência chamou-me a atenção: Mestres e doutores com diploma no exterior buscam revalidar título. Segundo a notícia, em pleno século XXI todo semestre um grupo de mestres e doutores formados no exterior acampam junto à reitoria da UnB para garantir um dos 6 (isso mesmo, SEIS) primeiros lugares na fila para solicitar a "revalidação" do diploma. A UnB só abre seis processos desse tipo por semestre. Existe até uma pomposa Associação Nacional dos Pós-Graduados em Instituições Estrangeiras de Ensino Superior, ANPGIEES. A associação busca por todas as maneiras tornar automático o "reconhecimento" dos diplomas obtidos no exterior. Na verdade o processo de "reconhecimento" é demorado por vários motivos. Além da burocracia interna e aprovação por diversas comissões, ao "reconhecer" o diploma a universidade reconhecedora está afirmando que o mestrado ou doutorado do candidato é equivalente ao seu. Aí as coisas se complicam.
A verdadeira pergunta deveria ser: Por que isso é importante? Eu virei doutor numa tarde fria e ensolarada lá em Tel Aviv, não no dia que a Unicamp atestou que meu título é equivalente ao outorgado por ela. Um doutorado em Tel Aviv vale o que vale um doutorado em Tel Aviv. Um doutorado em Assunción vale o que vale um doutorado em Assunción. Um doutorado a distância na UBA vale o que vale. É de uma pretensão infinita as universidades públicas brasileiras julgarem se doutorados estrangeiros são equivalentes aos delas. Um doutorado em Cambridge equivale a um doutorado na UFRR (a última colocada do RUF)? Não preciso radicalizar: e na USP? Como bem lembrou recentemente em outro contexto Richard Dawkins, só o Trinity College de Cambridge tem 32 prêmios Nobel, mais que o Brasil todo (não vou aqui entrar na desagradável tarefa de contar todos os prêmios Nobel brasileiros)!
Por que somos tão fixados na validade de documentos? Um doutorado "reconhecido" no Brasil faz do doutor um pesquisador mais qualificado? Mais competente? Infelizmente, um ato acadêmico ou burocrático não muda a realidade. Não dá para mudar o número de minutos de uma hora por uma decisão de conselho, por mais egrégio que ele seja. Não dá para fingir que um doutorado de segunda ou terceira linha é equivalente ao de uma universidade de primeira do Brasil. Nem dá para fingir que um doutorado em Harvard não significa nada no Brasil se não for "reconhecido" (duvido que algum doutorado em Harvard tenha dificuldade para ser "reconhecido" em uma universidade brasileira. Se esse for o caso há algo de errado com a universidade brasileira, não com o doutor). Se durante o doutorado o estudante publicou em periódicos de prestígio, ou teve a tese publicada como um livro importante, provavelmente seu trabalho tem qualidade, mesmo que tenha sido feito em uma instituição de menor prestígio. Como é possível países como a França ou os EUA terem uma ciência muito mais desenvolvida do que a nossa sem se preocupar com "reconhecimento" de diplomas?
Antes que alguém reclame, não estou aqui dizendo que os médicos estrangeiros contratados pelo programa Mais Médicos devam ser automaticamente autorizados a exercer a medicina. Medicina, como Direito, é um caso específico no qual sim a profissão só deveria ser exercida depois de a pessoa provar uma capacitação mínima. Isso seria muito mais bem feito submetendo os médicos (não só estrangeiros) a testes e controles periódicos como o Revalida. Nos Estados Unidos nenhum médico pode chegar perto de um paciente sem antes passar por um rigoroso processo de acreditação.

Uma cultura leva muito tempo para mudar, mas para isso começar precisamos repensar nossas práticas sociais. E pensar em abolir a exigência de "reconhecimento" de diplomas de doutorado e da maioria das graduações. Um doutorado em Harvard sempre será um doutorado em Harvard, um doutorado em Assunción, especialmente a distância, sempre será um doutorado em Assunción a distância.

Em breve escreverei sobre a (equivocada) proposta de regulamentar a profissão de cientista.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Saude Quântica 2, o retorno (quântico)

São esperados até 2500 participantes, que é a capacidade do Palácio de Convenções Anhembi, no que se anuncia como "o maior evento de Saúde Quântica do planeta". Nos dias 13, 14 e 15 de setembro próximos ocorrerá o III Simpósio Internacional Saúde Quântica e Qualidade de Vida. Como é que é? Saúde Quântica? Pode ficar tranquilo que o gato de Schroedinger continua bem (ou morreu envenenado, nunca se sabe), e o píon não está causando a doença da vaca louca como seu xará príon.
Quem pagar R$ 1024 (2¹⁰, ou 1 kibi R$) poderá assistir a 3 dias de palestras versando sobre temas como "O Paradigma Quântico", "A Mente Quântica", "Os Fundamentos Quânticos da Medicina Energética e da Psicologia Energética", "Soluções Práticas para a Saúde Quântica", "Física Quântica e Espiritualidade". Como brinde extra, poderá assistir ao show com o Coral Quântico do Planeta (que provavelmente interpretará clássicos da música quântica, seja lá o que isso for). Santa quantização, Batman!
Haverá também Workshops Quânticos de 3 ou de 6 horas (pagamento a parte) e apresentação de "trabalhos científicos". Como todo simpósio sério, esse tem uma Comissão Científica.
Com um público esperado tão grande e assuntos tão relevantes, o que esse encontro tem de errado? Tudo. Trata-se provavelmente do maior encontro pseudo-científico já organizado no Brasil.
Mas afinal o que é a tal Saúde Quântica? Eu escrevi sobre o tema anteriormente. A resposta dessa vez é mais elaborada. Como aparece no resumo da palestra de abertura: ¨A dimensão quântica da realidade resgata a multidimensionalidade da existência humana e os princípios quânticos possibilitam a compreensão da interconexão entre todas as coisas e nos coloca como co-criadores da realidade desejada, convidando-nos a aprender a fazer as melhores escolhas capazes de transformar o nosso mundo interior e consequentemente a termos mais saúde e qualidade de vida." Entendeu? Nem eu. O que parece ficar claro é que dentro do melhor espírito new age, por não entenderem o que é a mecânica quântica nem a que contexto ela se aplica, essas pessoas acreditam que é possível alterar a realidade do universo invocando princípios que elas acham que estão associados à teoria. Claro, para isso tentam dar uma roupagem científica através de um linguajar rebuscado e com referências nebulosas a conceitos que o grande público não conhece mas que os conforta em suas crenças e práticas. É como uma religião na qual o deus todo poderoso é substituído por uma teoria com resultados que não fazem parte de nosso dia-a-dia (como as divindades). Nenhum dos palestrantes abordará os fundamentos e as limitações da teoria quântica, mas certamente utilizarão conceitos como o princípio da incerteza, dualidade onda-partícula, emaranhamento, colapso da função de onda em contextos nos quais eles não se aplicam. E assim "explicarão" homeopatia, acupuntura, quiropraxia, medicina ayurvedica, energias, psicoterapias transpessoais e tudo o mais que você quiser.
Na verdade a mecânica quântica nada mais é do que a teoria que usamos para descrever o universo na escala atômica ou sub-atômica. Ela foi desenvolvida a partir de observações que indicaram que nessa escala as ondas se comportam também como partículas e as partículas como ondas. Isso não é parte do nosso cotidiano, e tem consequências no mínimo surpreendentes, como a difração de partículas por uma fenda, como se fossem ondas.
O simpósio contará com a participação do simpático ex-físico transformado em guru quântico Amit Goswami, sobre o qual já escrevi um texto, e também personalidades do universo pseudo-científico além de ícones da auto-ajuda. Vale a pena conferir na página do simpósio.
O encontro é organizado por Wallace Limma ou Wallace Liimaa, que se apresenta como "físico quântico" e depois como engenheiro eletrônico. Inicialmente achei que as letras do nome dele poderiam ter sofrido alguma alteração quântica, talvez ao passar por uma fenda, mas logo me convenci que trata-se provavelmente de um teclado defeituoso pois no seu currículo Lattes Lima volta à grafia usual.
O organizador do encontro não fez mestrado ou doutorado, e provavelmente jamais realizou pesquisa séria em algum assunto que envolva a mecânica quântica (um engenheiro eletrônico com boa formação deve ter passado por cursos introdutórios sobre o assunto) e nunca publicou um artigo em alguma revista arbitrada. Ou seja, suas credenciais acadêmicas não são exatamente as de um físico ativo cientificamente. O evento tem o suporte acadêmico da Universidade Holística do Brasil (o uso da denominação universidade deveria se melhor controlado, o MEC tem uma série de exigências) , que não aparece no RUF mas oferece formação holística em Eneagrama, Sonhos, Biodanza (sic), Xamanismo, Constelação Familiar, Couraças, Caminhos da Cura, Transpessoal, Reprogramação Neural e... Física Quântica.
Os organizadores acham que eles estão ajudando a divulgar a Física Quântica no Brasil, e que já existem pesquisas e cursos na área na USP e na Unifesp. Santa ignorância, Batman! Há mais de 50 anos estudamos e ensinamos Física Quântica onde quer que haja algum curso Física pelo país. Nem nisso eles acertam.
Se você insistir em ir lá, não deixe de passar na Expoquantum, onde o "público será atendido gratuitamente nos ambulatórios com Terapias Energéticas e Quânticas". Pelo menos sai energizado. E talvez quantizado...

Agradeço ao Marcelo por ter me chamado a atenção para o evento.

Upideite: A Folha de São Paulo publicou um artigo sobre o Simpósio, adotando uma postura bastante neutra. Perdeu uma boa chance de informar as pessoas sobre esse espetáculo de pseudo-ciência.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

RUF: um ano depois, o que mudou?

Hoje foi publicada a edição 2013 do Ranking Universitário da Folha, o RUF. Como no ano passado, não posso deixar de elogiar a iniciativa de termos um ranking independente das avaliações oficiais (apesar de considerá-las na sua receita no indicador Ensino) Brasil. Isso ocorre em muitos países e tem sido um indutor de uma busca por qualidade. Não se pode desprezar nesses países a importância dos rankings na escolha da instituição por parte dos estudantes. Ao contrário do Brasil, com raríssimas exceções o ensino superior público cobra taxas dos estudantes e há uma saudável competição por talento e por recursos. Isso fica explícito no caso da Forbes, que indica junto com o resultado de seu ranking o custo anual de estudar nas instituições. Com uma média próxima a US$ 60 mil por ano entre os Top 20, trata-se de um serviço com um custo que pode ser pesado para as famílias de classe média. Os americanos economizam um dinheiro durante toda a vida para garantir uma educação de qualidade a seus filhos.

No Brasil a Folha escolheu indicadores que me parecem bem adequados à realidade brasileira: Ensino, Pesquisa, Mercado, Inovação e Internacionalização. Esse último indicador foi aplicado pela primeira vez neste ano, seguindo as tendências mundiais de considerar internacionalização um elemento indispensável na formação com qualidade. Os indicadores escolhidos deixam claro que mais do que ser um ranking fortemente voltado para os resultados em pesquisa como o ARWU (que desencadeou em 2003 a febre mundial por rankings), o RUF busca ser a exemplo do US News e do Forbes um indicador para o estudante brasileiro: onde é melhor estudar?

Um ranking que se preza precisa ser minimamente estável, ou seja, não mudar radicalmente as posições de um ano para o outro. Nesse sentido, o RUF é bem coerente: Algumas top 20 mudaram um pouco de posição mas apenas uma não estava entre as top 20 do ano passado. Poucos rankings internacionais conseguem essa façanha.

Mas será que o RUF está avaliando consistentemente todos os indicadores? Uma rápida análise gráfica pode ajudar a responder a essa pergunta. Eu representei cada um dos parâmetros em função da colocação geral no ranking.

O indicador Pesquisa é o que tem a melhor correlação com a classificação geral. Isso é um pouco óbvio se levamos em consideração que pesquisa corresponde a 40% do ranking (menos que os 55% de 2012). A segunda melhor correlação é para o Ensino, que corresponde a 32% (era 20% em 2012). Metade das instituições não pontuaram em Inovação, mas mesmo assim a correlação é boa até a centésima colocação, e a partir daí fica tudo empatado. Mesmo valendo apenas 4%, é de se esperar que a inovação esteja nas instituições onde há pesquisa.  Pesquisa foi avaliada a partir do número de patentes depositadas no INPI, ou seja, devem ser resultado de atividades de pesquisa aplicada. Esse indicador é um pouco injusto com as instituições menores, dado que não foi ponderado pelo número de docentes. Que é melhor para o estudante? Estar numa instituição onde poucos professores de um universo extenso submetem patentes ou onde quase todos os poucos professores submetem patentes?
E aí aparecem os indicadores problemáticos: Mercado e Internacionalização. Já na versão anterior eu havia chamado atenção para a fragilidade do indicador Mercado: uma pesquisa de opinião feita junto a 1681 responsáveis pela área de recursos humanos de empresas que atuam na área dos 30 cursos de graduação avaliados pelo RUF. Como argumentei no ano passado, essa metodologia não pode trazer resultados confiáveis. Basta olhar o gráfico que mostra a total ausência de correlação entre a avaliação do Mercado e a classificação no ranking, mesmo com esse indicador valendo 18% do total. Mais que isso, aqui sim ocorrem instabilidades importantes: A Unicamp estava em 42 no ano passado pulou para 11 nesse ano. A UNESA saltou de 56 para 16 no mesmo período. É pouco provável que de um ano para o outro o mercado tenha mudado tanto. O problema não está no indicador mas na metodologia incrivelmente frágil que a Folha adotou. Por exemplo, a Forbes avalia esse indicador considerando o grau sucesso dos egressos em suas profissões escolhidas. Para isso ela avalia o salário médio dos  formados, o número de egressos em posições de direção em empresas selecionadas e em listas do tipo Who's Who (tenho dúvidas sobre essa última, já me pediram autorização para me colocar nela várias vezes...). De qualquer forma são indicadores de sucesso no mercado muito mais robustos do que perguntar para responsáveis por RH.  É mais importante formar o diretor de uma empresa ou ser lembrado pelo responsável por RH?

O novo indicador de Internacionalização padece de problemas similares (mas por razões distintas) e como consequência apresenta também baixa correlação com o resultado do RUF. Ele considerou as citações internacionais por docente (essencialmente um resultado de pesquisa de qualidade), as publicações em coautoria internacional (interessante, mas restrito às universidades que publicam e sujeito a efeitos do tamanho da instituição) e o percentual de docentes estrangeiros (esse é usado no mundo todo). Faltou o indicador mais importante e relevante para os estudantes, que é a presença de estudantes estrangeiros. Várias universidades estão há anos fazendo um esforço enorme para atrair estudantes estrangeiros em graduação e pós, mas isso foi ignorado pela Folha.  Da mesma forma, especialmente depois do Ciência sem Fronteiras, é importante considerar o percentual de estudantes da instituição em intercâmbio no exterior. Tendo participado de vários eventos de internacionalização do ensino superior nos últimos anos, tenho claro quais as universidades mais internacionalizadas do Brasil. Várias não figuram entre as Top 20 do RUF neste indicador.

A Folha tem dado uma atenção especial à qualificação e à internacionalização do ensino superior brasileiro, inclusive tendo proposto o RUF. É muito importante que ela preste atenção a detalhes que por menores que pareçam podem ter uma forte influência no resultado.

Dia 10 de setembro será divulgada a edição 2013/14 do QS World University Ranking, que tem um perfil muito similar ao RUF (Disclaimer: Sou membro do Advisory Board).

Vale a pena conferir o que aparecerá por lá e tentar entender as eventuais diferenças em relação ao RUF. Cada ranking tem suas qualidades e limitações. Não devemos considerá-los como verdades absolutas. Aliás, nada deve ser considerado dessa forma...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Neymar e a educação pública fundamental

Favoráveis ou contrários à realização da Copa das Confederações, temos todos assistido maravilhados a performance do Neymar e também de outros jogadores talentosos na seleção brasileira. Maravilhados e um pouco enciumados, pelo menos a parte da população do sexo masculino. Por mais satisfeitos com a vida que estejamos, temos uma justificada inveja da genialidade dele no campo. E ninguém pode argumentar que não está no lugar dele por falta de oportunidade. O segredo do sucesso do Brasil no futebol está talvez num dos mais eficientes sistemas de caça a talentos do mundo. Todos nós que não seguimos a carreira futebolística só podemos atribuir isso a um único fator: falta de talento. Jamais falta de oportunidade. Qualquer menino (hoje em dia também menina) minimamente talentoso é logo reconhecido pelo sistema e recrutado para aprimorar sua habilidade através de treinamento adequado. Nos últimos anos esse sistema foi adotado também por outros esportes coletivos (em particular vôlei) com resultados igualmente positivos. Por razões que não vou discutir agora, o método não é tão eficaz para esportes individuais como atletismo ou tênis.

Quando minhas filhas ainda estavam em idade escolar nós passávamos todo dia de carro por uma escola pública que ficava a 3 quadras de onde morávamos, a caminho da escola particular onde elas estudavam. Eu via as crianças chegando a pé de todos os lados, com um colorido muito mais vibrante do que elas poderiam ter acesso na sua escola, que era frequentada por filhos de profissionais de nível universitário e professores. Famílias não muito diversas da minha. Eu me perguntava por que elas precisavam frequentar uma escola (bem) paga, muito mais longe e menos diversa.
Semana passada estive em Londres a convite do British Council como parte de uma delegação em um encontro para discutir as possibilidades do ensino de inglês no Brasil. Um dos pontos altos da programação para mim foi a visita à Stockwell Primary School, uma escola pública em um bairro pobre londrino. No almoço (excelente, com frutas e sorvete na sobremesa) adorei conversar com Chanel, menininha linda de uns 8 anos, filha de imigrantes jamaicanos que achava que falamos espanhol no Brasil. Algumas coisas me chamaram a atenção já na chegada: a absoluta disciplina das crianças, que se deslocam dentro da escola sempre em grupo e em filas organizadas, o carinho e respeito com que tratam os professores, o estúdio para atividades musicais. Depois do almoço fomos brindados por um grupo de uns 15 instrumentistas e cantores interpretando Billy Jean com o professor na bateria num arranjo incluindo diálogos entre trompetes e flautas-doces. Havia também um espaço para atividades artísticas/lúdicas onde vários grupos trabalhavam ao mesmo tempo lado a lado.
O estúdio da escola.
Conversando com dirigentes aprendemos fatos surpreendentes: naquela escola há crianças que falam em casa uma de 37 línguas diferentes. Seguem religiões diferentes (os véus islâmicos em meninas de 10 anos não deixam de chamar a atenção), têm cores diferentes (foi difícil convencer uma filha de chineses que minha colega brasileira de origem japonesa era brasileira), caras diferentes, poderes aquisitivos diferentes e recebem a mesma educação de qualidade. Não existe o conceito de reprovação: apesar de a relação entre professores e estudantes ser claramente de poder nenhum estudante vive sob a ameaça de não continuar seus estudos com seu grupo de amigos e colegas no ano seguinte porque falhou em algum teste ou porque algum professor assim decidiu.
Se no meio dessas crianças estiver alguém talentoso para a ciência como o Neymar é para o futebol não tenho a menor dúvida que ele ou ela terá todas as oportunidades que precisa para ser educado adequadamente e seguir uma carreira científica. Os demais terão tido o privilégio de terem sido educados em um ambiente de diversidade onde terão aprendido cidadania através do afeto e da convivência com pessoas muito diferentes do que encontram em casa ou entre seu grupo social imediato.
Estamos errando historicamente no Brasil por não darmos a devida atenção à educação desde os primeiros anos de vida e por acharmos que mantendo um apartheid educacional temos alguma chance de avançar como nação. Além do óbvio contraste na infraestrutura, a principal razão que me levou a investir uma parte importante do que ganho na educação privada das minhas foi o preparo e atitude dos professores. Sem pagar salários competitivos e prestigiar os bons profissionais é difícil atrair professores de qualidade. Na Coréia do Sul o salário inicial de um professor primário é maior que o de um professor universitário. Adivinhe se lá licenciaturas são carreiras concorridas. Nos processos seletivos das universidades brasileiras estão entre os cursos menos concorridos.
Ao contrário dos países latinos, na Inglaterra as escolas primárias públicas são autônomas para atrair os melhores professores (como fazem as particulares por aqui). Como consequência eles têm um dos melhores e mais inclusivos sistemas de ensino fundamental do mundo. Na escola em que estivemos todos os professores têm pelo menos meio dia (alguns têm um dia inteiro) por semana para se atualizarem e aprimorarem continuamente.
Infraestrutura conta. Ter instalações adequadas, salas bem arrumadas e limpas, banheiros em boas condições. Não se pode desprezar uma boa biblioteca, instrumentos musicais em um estúdio como na foto, instalações esportivas. A comida oferecida aos estudantes (todos ficam na escola em tempo integral) precisa ser de boa qualidade.
Quando se tentou implantar progressão continuada por nossas bandas esqueceram de preparar os professores para isso. O resultado foi um fracasso a ponto de políticos terem usado como propaganda eleitoral a volta à reprovação indiscriminada, como se assim a qualidade da educação aumentasse.
Não tem cota no ensino superior capaz de recuperar completamente talentos perdidos por não terem tido uma formação básica inadequada. Não dá para tentar fazer um jogador talentoso que ficou muitos anos sem jogar e não foi treinado brilhar na seleção. Simplesmente não funciona. Não é por acaso que a performance da educação brasileira no PISA, a copa do mundo da educação básica, é tão ruim.

O Brasil está nas ruas buscando mudanças, mesmo sem saber muito claramente quais. Meu palpite por um país melhor: Educação básica pública de qualidade melhor que o sistema privado tem a oferecer. Essa é a situação do ensino superior. Porque não podemos fazer melhor no ensino básico?

Não podemos nos dar ao luxo de deixar escapar o Neymar da biologia, do meio ambiente, da física, da matemática, da engenharia, da filosofia, da arte, da literatura... 

sábado, 5 de janeiro de 2013

Foi sem querer...

Estou sem escrever há muito tempo. Uma agenda de viagens pesada não tem me permitido a paz necessária para pensar em artigos que sejam ao mesmo tempo interessantes e instigantes.
Quando não é possível ter idéias originais e relevantes o melhor é não publicar nada.
Infelizmente parece que essa não foi a postura do Prof. Rui Curi, membro da Academia Brasileira de Ciências e diretor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.
Em 2011 o prof. Curi foi coautor de 25 artigos científicos publicados. Isso corresponde a mais que 2 artigos a cada mês, além das atividades administrativas que a direção do ICD certamente exige. É muito pouco provável que o Prof. Curi tenha conseguido ler cuidadosamente cada um dos 25 artigos que levam sua assinatura, mas seguindo uma prática muito comum tem seu nome associado a todos eles. Eu tive um chefe na França que tinha seu nome em mais de 50 artigos publicados em um ano!
No entendimento das financiadoras e de boa parte da comunidade científica brasileira esses números inflados são sinal de alta produtividade científica. Tudo anda bem e o prestígio do pesquisador só aumenta, até que algum chato decide olhar os artigos com atenção. E aí a casa pode desabar...
A Folha de São Paulo e o Herton Escobar do Estadão publicam hoje notas mencionando a retratação de um artigo publicado pelo Prof. Curi e colaboradores em 2007. Eles mencionam também o quiproquó internacional no qual o prof. Curi se envolveu recentemente e que provavelmente causou a retirada do artigo.
O blog Retraction Watch, mantido por Adam Marcus, editor do Anesthesiology News e Ivan Oransky, editor executivo da Reuters Health, considerou a retratação "irônica". Ela ocorreu logo depois do fechamento do blog Science Fraud. O blog foi encerrado dia 2/1/2013 devido a uma sucessão de ataques legais (ou seja, mensagens de advogados ameaçando o autor com um processo) que ocorreu após alguém ter enviado a mais de 100 pessoas (com suspeitas de fraude científica apontadas pelo blog) o e-mail do editor do blog. Ele depois veio a público, identificando-se como Paul Brookes, um pesquisador da Universidade de Rochester. Uma carta enviada por um advogado representando o Prof. Curi foi a primeira dessa série. Por que isso correu? 
Tudo começou quando em 15/11/2012 o Science Fraud notou em seu artigo Reuso de imagens por Brasileiros (*) que a mesma imagem de controle foi usada em dois artigos diferentes, publicados em 2012, um no Journal of Cell Physiology e e um no Cellular Physiology and Biochemistry submetidos com meses de diferença.
Dia 5/12/2012, em CURIosidades nos dados, o Science Fraud mostra que em um artigo na Life Sciences de 2006 a mesma imagem foi usada para representar duas condições diferentes, que num artigo de 2007 no Journal of Lipid Research "quase todas as figuras apresentam problemas" e que num artigo de 2010 no Free Radical Biology and Medicine o reuso de imagens é tão evidente que é de se perguntar como isso passou pelo processo de revisão pelos pares.
Dia 7/12/2012, em CURIoso e mais CURIoso é mostrado que já em 2008 o mesmo truque de repetir a mesma imagem em várias figuras foi usado num artigo no Journal of Cell Physiology. E o mais curioso é que o que o artigo de 2012 mencionado dia 15/11 cita o artigo de 2008!
O Prof. Curi ficou indignado com as alegações do Science Fraud. Decidiu tomar medidas legais contra o site. Para isso buscou ajuda de um escritório de advocacia que enviou uma carta ameaçadora, a primeira recebida pelo editor do blog e postada em 17/12/2012 em Nossa primeira carta "Pare e desista". O texto, escrito em um inglês que denuncia a origem brasileira do autor, segue:
"Dear Sir or Madam, 
We do hereby inform you that we represent Professor Dr. Rui Curi, Dean of ICB-USP,  (Instituto de Ciências Biomédicas), the Biomedical Sciences Institute of the University of São Paulo in Brazil, Professor Dr. Rafael Herling Lambertucci, and other professors and researchers linked to the ICB which have been and still are the object of denigrating postings on your site. 
This is a fraud website, but there has never been a fraudulent action neither taken nor proven. Even worse is being publicly disclosed: prejudice and prejudgement not only against their authors but as well against all the involved institutions ICB, USP, FAPESP and Brazilian scientific community. 
Furthermore, these unfairly and anonymously accused Brazilian professors and researchers are also having their papers and article denied for further publications. Their students are becoming not secured anymore and everything regarding their conduct and scientific performance is being challenged. 
We inform you that such postings are triggering irreversible effect on their scientific activities since they cause the interruption of the flow of funds to their ongoing research projects at the ICB institute among others. 
One of its main public supporters, namely the FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), the Research Support Foundation of the State São Paulo has very strict regulation determining immediate suspension of funding.
http://www.fapesp.br/boaspraticas/FAPESP-Code_of_Good_Scientific_Practice_jun2012.pdf
5.9. Upon becoming aware of an allegation of scientific misconduct, FAPESP may, taking into account the seriousness of the alleged misconduct and the supporting evidence available, temporarily suspend the grant or scholarship related to the allegation if such actions are deemed necessary to protect the interest of science or preserve public health, safety and resources.
(...)
5.10.3. FAPESP may also take contractual measures, such as the cancellation of existing grants or scholarships for which those guilty of the misconduct are beneficiaries or are responsible.
We therefore urge you to remove the referred denigrating postings from your site until further clarification on the subject matters dealt with therein, under the penalty of your being held liable on a civil and criminal sphere. 
We are at your entire disposal for further comments or proceedings you may deem necessary or applicable in the present case. 
Yours very truly,"
O editor do Science Fraud não quis identificar o advogado ou o escritório por trás da mensagem. Apesar das passagens macarrônicas, é possível traduzi-la mais ou menos como:

"Caro senhor ou senhora, 
Informamos que nós representamos o Professor Dr. Rui Curi, Diretor do ICB-USP, o Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, no Brasil, o professor Dr. Rafael Herling Lambertucci e outros professores e pesquisadores ligados ao ICB, que foram e ainda são objeto de postagens que os denigrem em seu site. 
Este é um site de fraude, mas nunca houve uma ação fraudulenta feita ou provada. Pior ainda, está sendo divulgada publicamente: preconceito e prejulgamento não só contra seus autores, mas também contra todas as instituições envolvidas ICB, USP, FAPESP e a comunidade científica brasileira. 
Além disso, esses professores e pesquisadores brasileiros acusados injusta ​​e anonimamente também estão tendo recusados para publicação seus trabalhos e artigos. Seus estudantes estão inseguros e tudo que diz respeito a sua conduta e desempenho científico está sendo posto em dúvida.
Informamos que as postagens estão provocando efeitos irreversíveis em suas atividades científicas já que elas causam a interrupção do fluxo de fundos para os seus projetos de pesquisa em curso no instituto ICB entre outros. 
Um de seus principais financiadores públicos, nomeadamente a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), tem um regulamento muito estrito determinando a suspensão imediata do financiamento. 
http://www.fapesp.br/boaspraticas/FAPESP-Code_of_Good_Scientific_Practice_jun2012.pdf 
5.9. Ao tomar ciência de uma acusação de má conduta científica, a FAPESP poderá, tendo em conta a gravidade da falta alegada e os elementos de prova disponíveis, suspender temporariamente a concessão ou bolsa de estudos relacionados com a alegação se tais ações são consideradas necessárias para proteger o interesse da ciência ou preservar a saúde pública, a segurança e os recursos.(...)5.10.3. FAPESP também pode tomar medidas contratuais, tais como o cancelamento de subsídios existentes ou bolsas de estudo pelas quais os culpados de má conduta são beneficiários ou responsáveis.
Por isso, solicito a imediata remoção dos referidos posts denegridores do seu site até mais esclarecimentos sobre os assuntos ali tratados, sob pena de ser responsabilizado nas esferas civil e criminal.
Estamos a sua inteira disposição para esclarecimentos adicionais ou procedimentos que julgar necessário ou aplicável no presente caso.
Atenciosamente,"

Se realmente não houvesse sinais de fraude, bastaria o Prof. Curi ter demonstrado isso. No entanto, a carta do seu advogado lança mão de argumentos preconceituosos, estapafúrdios e mentirosos, como apontado pelo próprio Paul Brookes assinando como Frances DeTriusce (um anagrama de Science Fraudster). Minha análise, baseada nos argumentos de Brookes:

  1.  A palavra "denegrir" é usada duas vezes na carta. Eu ensinei minhas filhas a jamais usar termos de conotação racista e preconceituosa. O advogado, que acusa Brookes de preconceito e prejulgamento deveria fazer o mesmo.
  2. O advogado acusa o Science Fraud de tornar públicas as acusações de fraude. Na verdade os artigos já são públicos. Brookes apenas aponta os indícios de fraude em vários artigos diferentes escritos durante um período 8 anos.
  3. O advogado afirma que artigos dos envolvidos estão sendo recusados devido à acusação de fraude. Devido ao curto tempo decorrido entre as publicações do blog e a carta, é virtualmente impossível que algum artigo tenha sido recusado por esse motivo. Em geral os periódicos científicos levam no mínimo de 3 a 5 semanas para decidir se um artigo será recusado ou publicado. Não houve tempo para que um novo artigo dos autores fosse recusado. Essa afirmação é mentirosa.
  4. O mesmo vale em relação à FAPESP. Não é razoável a FAPESP cortar algum financiamento sem uma investigação criteriosa. Na minha opinião, as acusações são suficientemente consistentes para que isso seja feito.
  5. O advogado usa a velha tática de aumentar a acusação para o ICB, a USP, a FAPESP e toda a comunidade científica brasileira. A enorme maioria dos cientistas brasileiros não manipula dados ou imagens, ou seja, não se sente em nada diminuída quando é descoberto que algum colega o faz.
  6. O advogado afirma que não há uma ação fraudulenta comprovada. No entanto, na figura abaixo há um forte indício de fraude. Eles são o resultado de uma técnica chamada western bloting. As manchas pretas sobre cinza, que em princípio deveriam ser retas, assumem formas irregulares devido a fatores fora do controle do experimentador. Cada vez que o experimento é repetido a forma muda. O Science Fraud mostrou que mesma imagem foi usada em artigos assinados pelo Prof. Curi como representando diferentes medidas. Isso poderia ser só um "engano", o que já seria grave numa publicação científica. No entanto, numa das aparições a banda marcada em rosa girou meia volta, e em uma das aparições as bandas marcadas em vermelho foram deslocadas uma coluna. Isso NÃO acontece sem que algum dos autores do artigo tenha tido a intenção de faze-lo, apesar do que afirmou o Prof. Curi na Folha.



Mesmo que pessoalmente não tenha sido o autor das manipulações de dados e imagens apontadas, o Prof. Curi foi no mínimo conivente com elas ou pior, nem leu os artigos em que aparece como autor. E buscar a ajuda de um advogado não é a atitude que se espera de um cientista de seu prestígio. A pressão por publicar muito e a qualquer preço deveria ser revista pelas financiadoras brasileiras.

Quando terminava de escrever esse artigo notei que ele está sendo discutido também no Gene Reporter do Roberto Takata e pelo Ciência Brasil do Marcelo Hermes.


(*) Os links para o Science Fraud são na verdade para o cache do Google, dado que o blog está fora do ar.

Upideite 26/2/2013: Há um artigo intrigante na página da ADUSP sobre o assunto. Aproveito para agradecer os comentários e links neles postados.

Upideite 6/8/2013: O Herton Escobar do Estadão tem seguido de perto esse caso. Ele publicou que o Prof. Curi foi inocentado pela Comissão de Integridade na Atividade Científica (Ciac) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)e também por uma comissão interna da USP. O presidente da CIAC do CNPq afirmou em nota que "a CIAC verificou que há erros na composição de figuras e na apresentação de dados, erros reconhecidos pelos autores denunciados, que indicam descuido nos procedimentos empregados na elaboração e revisão dos manuscritos em pauta. A CIAC conclui que houve falha no exercício de rigor na condução e divulgação de resultados, indispensáveis à pesquisa de qualidade.”
Eu acredito que a comissão tenha tido acesso a todos os fatos e agido dentro da maior lisura. No entanto, em tempos de imagens digitais, é muito pouco provável que uma figura apareça de ponta cabeça misteriosamente sem que alguém tenha cuidadosamente feito isso.
Durante meu doutorado eu usei muito microscopia eletrônica. Naquela época ainda não haviam sido inventados os sensores de imagem de alta resolução digitais atuais. As imagens eram registradas em filme fotográfico e reveladas por nós mesmos num laboratório fotográfico contíguo ao microscópio. Fazia parte da rotina de obter imagens marcar as placas fotográficas para saber qual o lado certo. Antes de publicar qualquer coisa nós verificávamos que não houve inversão alguma de imagem usando as marcas que tínhamos feito. Mesmo que alguma imagem tivesse sido invertida seria muito difícil alguém detectar pois cristais são simétricos e sem as marcas não é possível saber o lado certo. Esse não é o caso dos blots mostrados acima. As imagens não são simétricas, mas como elas são arquivos binários no computador não há o risco de serem processadas viradas inadvertidamente. Elas só apareceram viradas porque um dos autores propositalmente as virou.  Não precisa de CIAC para saber isso.

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