sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Criacionismo no Mackenzie de novo

O pai de uma aluna toma conhecimento de que as apostilas usadas na escola de sua filha apresentam o criacionismo como modelo para o aparecimento da vida na terra. O pai procura a direção da escola, que imediatamente substitui as apostilas por livros didáticos mais de acordo com a compreensão que a ciência tem do fenômeno. Nada de mais se o pai não fosse ninguém menos que Fernando Haddad, o Ministro da Educação. A escola era a unidade de Brasília do Instituto Mackenzie. A direção da escola depois minimizou o ocorrido, afirmando que a reclamação dizia respeito a erros gramaticais no material (isso só deveria deixar a direção envergonhada). A unidade de São Paulo continuou usando o material, como contado no Ciência em Dia.
O Instituto Presbiteriano Mackenzie é uma tradicional instituição educacional presbiteriana, presente no Brasil há mais de um século. As instituições presbiterianas, que incluem universidades de prestígio internacional como Harvard e Princeton se caracterizam pela liberdade para pesquisar qualquer tema, não sendo permitido qualquer tipo de censura por tradição ou crenças religiosas. Pelo menos assim deveria ser. No entanto, a direção do Mackenzie vem se deixando seduzir pelas idéias de alguns fundamentalistas cristãos norte-americanos e está se tornando uma das mais importantes vozes do criacionismo tupiniquim. Há pouco tempo realizaram um encontro sobre darwinismo que na verdade foi uma celebração do criacionismo e do Intelligent Design.
Não deixa de ser lamentável que uma instituição que representa uma tradição tão rica e importante para o desenvolvimento da cultura científica nos Estados Unidos e no mundo escolha um caminho tão obscuro. A ciência não se contrapõe à religião. Ela busca evidências e a compreensão dos fenômenos que nos cercam. Suas idéias não dependem da fé das pessoas. Por mais que alguém não acredite na evolução e na seleção natural, há evidências suficientes para que esse modelo esteja bem estabelecido. Não é uma questão de fé.
O que está errado com os criacionistas é adotar a interpretação literal dos textos sagrados de uma determinada religião como verdade absoluta. Isso é perigoso quando passa para os textos didáticos pois começa a mexer com cabeças em formação.
Alguém consegue imaginar como seriam as apostilas do Mackenzie se ele fosse uma instituição umbandista? Ou do candomblé?

sábado, 13 de dezembro de 2008

Tabula Rasa

Em 1994, o lingüista do MIT Steven Pinker publicou um livro intitulado “The Language Instinct”, cujo tema central é uma discussão ampla da capacidade humana para a linguagem. A questão central é entender que o milagre aparente da aquisição da linguagem por uma criança humana é, de fato, a operação de um órgão complexo, alicerçado na fisiologia do cérebro e desenvolvido pela evolução. Dá para argumentar que o desenvolvimento deste “órgão lingüístico” é o fato central da evolução humana, ou seja, que a operação deste órgão é a característica mais distinta do acidente evolucionário que conduziu à aparição do bicho homem.

O funcionamento do órgão de linguagem é um assunto científico extremamente relevante e interessante. Ele representa a junção de diversas tradições científicas importantes, principalmente de neurofisiologia, de lingüística e de psicologia cognitiva, com aplicações no tratamento e compensação dos distúrbios da linguagem e na educação. Este estudo representa também um ponto de vista bastante ilustrativo sobre o que nos faz humanos.

A voz do autor do “The Language Instinct” é de um pesquisador apaixonado pela sua área, que vê no progresso alcançado pela sua disciplina um achado valioso, que pode e deve ser amplamente divulgado. Houve uma reação negativa considerável ao livro de Pinker, veja, por exemplo, o sítio do livro “The Language Instinct Debate” na amazon.com e o debate associado a ele. É claro que os criacionistas de plantão são bastante hostis às idéias exploradas por Pinker. Contudo, as críticas mais azedas vieram de uma outra direção – da comunidade de ciências humanas e sociais. O problema é muito simples. De maneira geral, as ciências humanas e sociais do século XX são construídas sobre um modelo bastante específico da natureza humana, e a proposta de um “instinto de linguagem” parece ser um ataque violento aos alicerces deste modelo.

Em 2002, Pinker publicou um outro livro, “The Blank Slate”, ou “Tabula Rasa” que é primariamente uma resposta a todo o ultraje suscitado pelo “The Language Instinct”. De fato, o objetivo do livro de Pinker é delinear cuidadosamente as hipóteses por trás deste modelo hegemônico de natureza humana das ciências sociais, explorar suas origens históricas e contrapor argumentos racionais, ao que é, em última análise, uma construção de natureza ideológica e política. O autor de “The Blank Slate” é zangado e ácido, muito menos simpático que o autor do “The Language Instinct”, mas sua argumentação continua a ser bastante efetiva.
De acordo com Pinker, o modelo padrão das ciências sociais inclui três hipóteses centrais:

1) Tabula Rasa: o cérebro humano é um instrumento computacional que emerge do útero sem nenhuma estrutura a priori, e é completamente formado pelos condicionantes sociais operantes após o nascimento.

2) O Bom Selvagem: os seres humanos são intrinsecamente bons, e são corrompidos pela sociedade.

3) O Fantasma na Máquina: o locus da livre-escolha, independente e desvinculado da biologia humana.

Colocadas desta maneira, essas três hipóteses são obviamente absurdas. Em particular, elas rejeitam o papel criativo da evolução e dos condicionantes biológicos da natureza humana, e representam, de fato uma negação completa do que significa ser humano. Mais ainda, essas hipóteses absurdas estão refletidas em muitas das práticas modernas em política, nas leis, na educação e nas práticas sociais de governos e instituições. É curioso observar que muitas das práticas sociais vigentes, aquelas que parecem mais sem sentido e contrárias ao senso comum estão formalmente apoiadas nesta negação sistemática da natureza humana feita pelas ciências sociais do século XX. Tome, por exemplo, o discurso hegemônico sobre a natureza das instituições penais – em que todos os “especialistas” concordam na mais absoluta essencialidade dos mecanismos de resgate e resocialização dos presos. Isto é algo que todos sabem, pela mais elementar experiência com pessoas, ser quase inteiramente irrelevante.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

I EWCLiPo

Ocorrerá dias 11 e 12 de dezembro próximos o I Encontro de Weblogs Científicos em Língua Portuguesa - I EWCLiPo. A realização do encontro é um sinal muito positivo para nós que dedicamos parte de nossas vidas à divulgação científica através dos blogs. Parabéns ao Osame Kinouchi, do SemCiência pela iniciativa.
Eu estarei lá.

domingo, 12 de outubro de 2008

Picaretagem quântica lusitana atacando em terras d'além mar

Há poucos dias uma pessoa próxima me disse que ia a São Paulo submeter-se a um exame através de um "scanner" para diagnóstico desenvolvido pela NASA. Essa pessoa vem sofrendo de dor crônica e não gosta da idéia de submeter-se ao tratamento proposto pela medicina.
O tal scanner esteve em exibição no VIII Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida.
A existência de um tal aparelho e a menção à NASA despertaram meu ceticismo. Aparelhos sérios são apresentados em artigos científicos e em encontros profissionais, não congressos de qualidade de vida.
Quando eu era menino o sucesso das missões Apollo conferiram à NASA uma aura de engenharia (na época eu pensava que era ciência, mas hoje entendo que tratava-se de engenharia) de primeira qualidade. Tudo o que vinha da NASA devia ser de fronteira, muito bom. Afinal, eles conseguiram por muitas vezes mandar gente à lua e trazê-los de volta à terra em segurança. Nos últimos anos a NASA passou por crises gerenciais que culminaram nos acidentes fatais com os ônibus espaciais e mesmo de razão-de-ser (é realmente necessário mandar gente para o espaço?). Mesmo assim, José Joaquim Lupi, um engenheiro português deve pensar que a NASA ainda é um carimbo de qualidade tecnológica e decidiu adotá-lo em sua fraude.

Trata-se do SCIO (Scientific Consciousness Interface Operations) / QXCI (Quantum Xrroid Conscience Interface). Segundo a página da Neuroquantum, empresa que produz e vende a engenhoca, ela foi mesmo "desenvolvida por cientistas que trabalharam na NASA , com base nos sistemas de monitorização bio-energética dos astronautas". Monitorização bioenergética dos astronautas? Sejamos sérios... Tem mais:

Como funciona? "Depois do SCIO/QXCI ter medido os níveis de Vitaminas, amino ácidos, nutrientes, alimentos, minerais, enzimas, açucares naturais, toxinas, niveis hormonais, tónus muscular, doenças, bactérias, bolores, fungus, virus,bem como o estado de saúde e o equilibrio dos orgãos internos, então compara estes valores com uma “norma”. Revela tanto os aspectos negativos como tambem os aspectos positivos. No entanto, para tentar melhorar e revitalizar a saúde, temos tendência a focalizar-nos mais nos aspectos negativos, do que nos positivos. Em alguns casos vai acrescentar frequências,e noutros casos pode invertê-las para ou reforçar, ou contrapôr às resonâncias próprias do corpo."
Como ele obtém toda essa informação? "O SCIO liga-se ao cliente através de bandas colocadas estrategicamente na testa, pulsos e tornozelos."
Qual o princípio de funcionamento? "Por que o SCIO/QXCI se baseiam na Fisica Quântica, é dificil explicar muito brevemente como funcionam estas terapias. Durante a terapia , o SCIO/QXCI, medem os padrões de resonância/reactância do corpo e determinam que melhoria ocorreu no periodo de tempo decorrido desde a ultima medida (menos de 1 segundo antes). Se se verifica uma melhoria a ressonância de entrada é alterada energéticamente. Mantêm-se cada parâmetro benéfico enquanto for útil, e adapta-se á medida das necessidades detectadas. Para mais informação e melhor compreensão, a Internet oferece extensa informação sobre Física Quântica."
Quanto custa? "Atualmente 15 mil euros excluindo impostos."

Ah, bom, agora entendi. Vou tentar traduzir: Trata-se provavelmente de um medidor de bio-impedância conectado a um computador que pretende a partir disso medir os níveis de todos aqueles ingredientes citados acima. Claro que isso não é possível. Não tem com explicar, não porque os princípios se baseiam na física quântica, mas simplesmente porque não tem explicação mesmo.
Há mais (des)informação na página da Associação Ibero-Americana de Terapias Quânticas, fundada e presidia pelo próprio Lupi e no Instituto Neuro Quantum, presidido adivinhem por quem, e ainda na Bioquantica.

Pode piorar? Claro que sim, pois uma fraude nunca limita-se a uma engenhoca. A "tecnologia" teria sido criada pelo "Prof Dr William Nelson". Tem uma suposta biografia dele no blog Medicina Quântica, que foi traduzida do The Quantum Centre. Toda essa biografia é uma fraude, como mostrado no ótimo Occam's Donkey, uma mistura da navalha de Ockham com o burro do Shrek. Há material sobre o Sr. Nelson também no Bad Science.
Um artigo no Seattle Times levantou em novembro de 2007 muito sobre a verdadeira biografia do picareta. Citando o artigo:
"Nelson faz afirmações extraordinárias sobre sua vida. Ele diz ter trabalhado como consultor para a NASA, ajudando a salvar a problemática missão Apollo 13 quando ainda era adolescente. Ele orgulha-se de ter sido um ginasta reserva na equipe olímpica americana em 1968. Ele afirma ter 8 doutorados, incluindo em medicina e direito. Seu CV foi obtido pelo Seattle Times.
Nada disso pode ser verificado. A NASA não tem registro algum de seu emprego. Ele não foi um atleta olímpico. Seus "doutorados" vêm de universidades não reconhecidas nos EUA ou de cursos por correspondência.
O Seattle Times relata vários casos em que pacientes com câncer foram convencidos por charlatães que se utilizam de aparelhos SCIO/QXCI a substituir seus tratamentos médicos pela SCIO/QXCI, resultando em mortes inevitavelmente dolorosas. Eles provavelmente morreriam de qualquer forma, mas os charlatães retiraram deles qualquer esperança de sobrevivência. O marido de uma das vítimas é um diretor aposentado da Microsoft e analisou o código-fonte do software. Ele gera resultados ao acaso. Uma fraude completa.
Obviamente Nelson teve problemas com a FDA, a agência americana que regula esse tipo de equipamento. Ele foi condenado em 9 processos e fugiu dos Estados Unidos. Hoje ele vive em Budapest, de onde controla seus negócios e também se apresenta no Club Bohemian Alibi com o nome artístico de Desiré Dubounet. É isso mesmo, nosso genial inventor faz um biquinho como travesti depois do expediente. Os 15 mil euros por máquina aparentemente não são suficientes para garantir o leitinho das crianças.

Que podemos esperar do senhor Lupi, representante luso do grande Nelson/Dubounet? Filho de peixe peixinho é, diz o ditado. Uma rápida olhada em seu currículo revela um amontoado de fraudes. Ele é supostamente professor/autor da Faculdade Integrada da Grande Fortaleza, que ficou na posição 574 na categoria "Outros" do Indice Geral de Cursos divulgado pelo MEC. Não é bem um brilho acadêmico. Na verdade muito ruim. Lá eles oferecem os seguintes cursos de extensão a distância: Anatomia, Especialista em Biofeedback SCIO, Fisiologia, Terapias Quânticas, Profissional avançado de biofeedback SCIO, Técnico de aplicação profissional de biofeedback SCIO, Técnico de operação e navegação e Educador quântico.
Oba, vou me formar Educador quântico!!! Ou quem sabe em Anatomia a distância?
O Sr. Lupi diz ser "SCIO / QXCI Advanced TRAINER" formado pela IMUNE, ou International Medical University of Natural Education. Na página institucional em lugar de medicna encontramos trailers de vários filmes sobre a gloriosa vida do "Professor" Bill Nelson, inventor do SCIO / QXCI.
O senhor Lupi oferece certificação em SCIO (até o nível de master!), com uma lista de pessoas certificadas que inclui brasileiros! Pela lei brasileira não cabe ao Sr. Lupi certificar profissionais de saúde quaisquer que sejam.

Espero que os conselhos profissionais brasileiros e portugueses tenham o bom senso de evitar em nossos países o que ocorreu nos Estados Unidos. Gente que usa o SCIO para diagnóstico e tratamento deve ser punida por exercício perigoso e ilegal de profissão da área da saúde.

Agradeço à Lygia por ter me falado sobre o "scanner desenvolvido na NASA". Esse foi um dos posts mais surpreendentes que já escrevi.

PS: Depois de escrever esse texto descobri que há vídeos do próprio senhor Lupi mostrando sua máquina quântica milagrosa no You Tube.
Ele afirma coisas desse teor:
"A função dessa terapia quantica é permitir levar de novo o ser humano a sua dimensão integral de corpo, mente e espírito.
O diagnóstico é feito pelo corpo energético. Então o corpo elétrico da pessoa, através da sua reatividade eletrofisiológica medida nos níveis mais inconscientes, nos meridianos de acupuntura, no sistema nervoso autônomo e até na reatividade do cérebro vai permitir um diagnóstico completo, rápido.
O princípio do reequilíbrio bioenergético, tocando os quatro níveis de cura do ser humano: físico, emocional, mental e energético, permite tocar todo o tipo de perturbação de saúde e bem estar. A terapia quantica, ao entrar na base da essência do quantum, que está na base de tudo, vai permitir inter-relacionar os aspectos físicos, mentais, emocionais e energéticos da pessoa e então levar uma abordagem integrada que é mais rápida e definitiva."


Desnecessário dizer que isso é um monte de frases sem sentido mas que impressionam os incautos. O corpo energético, o corpo elétrico, a reatividade eletrofisiológica, os quatro níveis de cura, a base da essência do quantum...
Pra piorar, no vídeo aparece a célebre equação E=mc2. O único problema é que essa equação é uma expressão relativística, que não tem absolutamente nada a ver com mecânica quântica. Desconfio que a compreendsão que o Sr. Lupi tem de mecânica quântica seja bastante limitada.

Grave mesmo é ele afirmar que seu equipamento "permite tocar todo o tipo de perturbação de saúde e bem estar". Vender um aparelho que cura todos os males tem um nome, que é o mesmo em português do Brasil e de Portugal: charlatanice.

Prefeitura astrológica

Uma notícia no mínimo curiosa chamou a atenção depois das eleições 2008 no Brasil: A influência dos astros na política. Em Recife, tanto o prefeito que sai João Paulo quanto o prefeito eleito no primeiro turno João da Costa são adeptos da astrologia e mantiveram até uma assessoria astrológica para consulta. O trabalho foi comandado pelo astrólogo Eduardo Maia, que há cinco anos e meio opina sobre a gestão do prefeito, no cargo desde 2001. Maia é astrólogo profissional, professor de Astrologia, fundador e diretor da Academia Castor & Pólux, pesquisador e conferencista nas áreas de astrologia, simbologia, mitologia, cinema, teatro, poesia e arte tradicional. A Academia Castor & Pólux, segundo o gabinete do prefeito de Recife, "é uma das mais antigas do país e trabalha na reconstituição da astrologia enquanto ciência, arte e conhecimento tradicional, partindo do estudo do simbolismo contido em várias áreas do saber humano."
Qualificar astrologia como ciência é no mínimo equivocado. Talvez alguns astrólogos a percebam assim, mas isso ocorre apenas porque essas pessoas não sabem o que é ciência. A confusão aumenta porque em astrologia se mistura pensamento positivo com conhecimento científico da astronomia observacional. Os astrônomos usam conhecimento científico para determinar com alguma precisão a posição dos astros. Quando Eduardo Maia afirmou, por exemplo, que Urânio entrou em Aquário, ele na verdade utilizou conhecimento científico para determinar a posição de Urânio no céu. Talvez ele não saiba, mas só é possível fazer esse cálculo porque muita gente observou muitos astros no céu e registrou suas posições durante séculos. Foi preciso entender as leis da gravitação para poder formular esses softwares que os astrólogos usam para determinar a posição dos astros a qualquer momento em qualquer lugar do planeta.
Astrologia não é ciência, é . Seus praticantes acreditam que a posição dos astros tem influência sobre o que acontece na nossa vida, sem nunca terem tido evidência alguma para isso ou proporem um mecanismo pelo qual isso ocorre. Quem nunca esteve numa conversa em que alguém pergunta seu signo? Ao responder segue-se inevitavelmente o comentário "Claro, óbvio, agora entendo você". Durante um tempo eu passei a dizer o signo que me passava pela cabeça ao acaso. Curiosamente o comentário era sempre "Claro, óbvio, agora entendo você". As supostas características de cada signo são suficientemente gerais para abraçar todo mundo. Tem mais sobre o assunto aqui.
João da Costa votou exatamente às 12:05h, momento determinado pelo astrólogo no qual uma conjunção astral lhe seria particularmente favorável. Chegou a pedir para que as pessoas na fila lhe deixassem passar. O candidato acreditou que votando às 12:05h sua chance de ser eleito seria maior. Ele efetivamente foi eleito no primeiro turno. Quem poderá convencê-lo que o efeito não se deve à causa que ele supõe, e que sua eleição é na verdade resultado de sua preferência popular e que ele poderia ter votado em qualquer momento do dia e o resultado seria o mesmo, independentemente dos humores de Urano?
Isso é o resultado de uma aplicação intuitiva e equivocada do método científico. Imaginemos que alguém levantasse a hipótese de que bananas são venenosas, porque alguém passou mal e morreu por alguma causa qualquer depois de comer bananas. Aí deixamos de comer bananas e continuamos vivos. "Confirmamos" nossa suspeita e passamos a acreditar que a hipótese da banana venenosa estava correta. Essa nossa conclusão, bananas são venenosas, não tem efeito importante algum. Sobrevivemos sem comer bananas, apesar de a vida perder um prazer imenso. Estabelecemos um falso positivo.
Para evitar cair nas ciladas dos falsos positivos é preciso entender o método científico. Verificar uma hipótese pode ser mais complicado do que imagina nossa vã filosofia. Infelizmente as pessoas em geral buscam validar suas crenças pela experiência cotidiana em lugar de desafiá-las.
Desejo sucesso à nova gestão de Recife, independentemente do que os astros lhe reservam...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O Preço da Cura

A recente divulgação dos prêmios IgNobel 2008 chamou a atenção no Brasil pelo prêmio de Arqueologia atribuído a pesquisadores da USP que publicaram no periódico Geoarchaeology um artigo mostrando o quanto um tatu pode esculhambar um sítio arqueológico a ponto de falsear resultados. Trata-se de pesquisa séria, apesar do óbvio toque de humor. Os prêmios IgNobel são atribuídos a "pesquisas que fazem a gente rir, depois pensar." Não se trata de premiar a pseudo-ciência.
O IgNobel 2008 que mais me impressionou foi o da Medicina. Um estudo publicado em 2008 no prestigioso JAMA (Journal of the American Medical Association) mostrou uma face curiosa do efeito placebo: placebos supostamente caros apresentam um efeito placebo superior a placebos supostamente de baixo custo. Atribuimos maior eficácia a drogas mais caras. Os autores compararam dois grupos de 41 voluntários são cada um. Cada participante recebeu a informação de que testaria um novo analgésico opióide aprovado pela FDA, com efeito similar ao da codeína mas com ação muito mais rápida. Na verdade todos receberam um mesmo placebo. O grupo I foi informado que suas pílulas custavam US$2.50 cada. O grupo II foi infirmado que suas pílulas foram adquiridas com desconto, por US$0.10 cada. O estudo foi feito em duplo-cego, como devem ser feitos estudos de qualidade sempre que o efeito placebo pode estar presente.
A metodologia utilizada foi comparar a intensidade de dor devido a um choque elétrico aplicado a um pulso do voluntário em função da voltagem aplicada, até 80V (NÃO TENTEM REPETIR O ESTUDO EM CASA!).
O grupo que recebeu o placebo "caro" mostrou de forma consistente um efeito de analgesia (devido apenas à autosugestão pois não receberam analgésico algum) muito mais elevado do que o grupo que recebeu o placebo "barato". Para valores altos da voltagem aplicada inclusive o placebo "barato" não foi eficaz.
O resultado mais óbvio do estudo tem implicações importantes sobre a eficácia de medicamentos. Em muitos casos parte importante do efeito de um remédio está associado ao efeito placebo. Pessoas próximas (inclusive médicos) já me garantiram que medicamentos genéricos têm efeito mais fraco, apesar de terem exatamente o mesmo princípio ativo dos similares de marca. Isso provavelmente está relacionado à expectativa dos pacientes, associando qualidade à marca.
Outra conseqüência importante vai muito além de medicamentos: associamos qualidade a marcas de prestígio, e estamos dispostos a pagar mais por isso. É por isso que pessoas aceitam pagar preços muito mais altos para adquirirem produtos de marcas prestigiosas. O poder de sedução das marcas está arraigado em nossa percepção de qualidade. O efeito placebo é muito mais geral do que o que vivenciamos com medicamentos!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Con-fusão nuclear

O ano era 1989. Eu estava terminando meu doutorado em Física. Bitnet, a avó da internet, já não era novidade na minha universidade. Qualquer conversa científica na cafeteria invariavelmente começava com a expressão "Recebi hoje um bitnet (como não existiam os browsers, o uso principal da rede era para troca de mensagens eletrônicas, que em lugar de e-mail chamavam-se pelo nome do sistema) dizendo que ....". Numa dessas conversas um colega (ou professor, não lembro mais) havia recebido um bitnet sobre um fenômeno impressionante e revolucionário: a fusão fria, que estava causando furor entre químicos e físicos no mundo inteiro. Parecia bom demais para ser verdade: fusão de núcleos de hidrogênio (ou deutério) aprisionados em paládio a temperatura ambiente. O fenômeno foi anunciado com pompa e circunstância pelos professores Martin Fleischmann e Stanley Pons da Universidade de Utah. A fusão nuclear é uma fonte de energia limpa e durável, mas que até hoje não conseguiu viabilidade técnica para ser empregada na Terra (apesar de ser a fonte de energia do Sol!). Em geral a reação de fusão envolve muita energia e atinge temperaturas muito altas gerando um plasma (gás ionizado) muito quente. Até agora tem sido tecnicamente impossível manter uma reação de fusão estável confinada e controlada em laboratório (as bomdas de hidrogênio são um exemplo de fusão não confinada e não estável). Se por um lado não parecia impossível que um fenômeno de fusão estivesse ocorrendo a um ritmo muito lento (sem grande aumento de temperatura, portanto, daí o nome "fusão fria") , os resultados foram recebidos com grande ceticismo. Um detalhe experimental em particular chamou a atenção da comunidade: Uma das evidências para a fusão fria no artigo original (só para assinantes) era uma emissão de raios gama na energia esperada para a reação. No entanto, o pico de radiação apresentado no artigo não trazia a chamada borda Compton, um efeito relativístico que ocorre dentro de detectores sólidos e é conhecido por qualquer estudante de graduação em Física que tenha passado por um laboratório de física moderna. Muita gente dizia que se fusão fria realmente tivesse ocorrido na montagem de Fleischmann e Pons eles estariam mortos por falta de proteção contra radiação. Vários laboratórios pelo mundo inteiro buscaram reproduzir o experimento, com taxa de sucesso quase nula. Lembro que a revista Nature usou um subterfúgio para dizer que os resultados não se reproduziam: publicou um artigo jornalístico que no título já dizia que "fusão fria é reproduzida no Brasil e na Índia". Depois um editorial (só para assinantes) assinado por John Maddox, que mais tarde se tornaria célebre por desmascarar a fraude da memória da água duvidava da veracidade dos experimentos.
Com o tempo a comunidade científica em geral ficou convencida de que a fusão fria era resultado de nada além do desejo de obter resultados animadores junto com fraude pura e simples por parte de pesquisadores que alteravam ou inventavam resultados para suportar suas idéias. Isso não impediu que muito dinheiro fosse gasto no assunto. Financiados por capital japonês, Fleischmann e Pons abriram um laboratório dedicado à pesquisa em fusão fria em Sophia Antipolis, no sul da França (o laboratório foi fechado em 1998). Estabeleceu-se uma série de conferências internacionais (a de número 14 acaba de ocorrer nos Estados Unidos, com Martin Fleishmann no Comitê Internacional).
Os defensores da fusão fria hoje em dia consideram-se incompreendidos e injustiçados pela comunidade científica e criaram uma comunidade própria, com publicações pretensamente científicas que passam por revisão por pares e tudo mais além da conferência. Isso não é diferente de outras manifestações de pseudo-ciência. Não faltam revistas especializadas em Homeopatia, para usar um exemplo conhecido. No entanto, devido à falta de resultados reprodutíveis algumas agências governamentais (em particular a japonesa) que vinham financiando suas pesquisas estão deixando de fazê-lo. A fusão fria já pode ser considerada uma manifestação de ciência patológica: ciência que está baseada em premissas e resultados falsos mas é praticada mesmo assim. Qualquer semelhança com outras manifestações de pseudo-ciência não é mera coincidência. Isso sempre ocorre quando uma idéia supostamente boa não corresponde aos fatos e alguém, versado ou não no método científico a "demonstra" seja fraudando os experimentos seja por pesquisa metodologicamente mal-feita ainda que de boa fé.
A história não tem fim. Em 22 de maio deste ano uma "demonstração" de um reator nuclear de fusão fria teve lugar na Universidade de Osaka no Japão. Não convenceu muita gente, como pode ser visto na reação à descrição detalhada do experimento. Uma fria.

sábado, 13 de setembro de 2008

Quiropraxia decidiu medalha nas Olimpíadas de Beijing

Samantha Cools era uma das esperanças da equipe canadense para obter uma medalha de bicicross nos Jogos Olímpicos de Beijing. Cinco vezes campeã mundial na categoria Junior, ela estava pronta para a competição. No entanto, ela quase não conseguiu competir no campeonato mundial que valia uma vaga para os jogos em fins de maio passado em razão de uma lesão no pescoço. Ao contrário do que se poderia imaginar a lesão não ocorreu devido a uma queda, mas sim a um tratamento quiropático. Um quiropraxista na Suíça, onde ela treina, forçou demais o pescoço de Samantha durante um "ajuste" de rotina causando uma lesão a tendões e músculos, que passaram a exercer pressão sobre a artéria principal do pescoço e também alguns nervos. A lesão foi extremamente dolorosa e tão grave que afetou até sua capacidade de mastigar.
"Era difícil mastigar porque os músculos da frente do meu pescoço estavam tão tensos que eu não conseguia abrir a boca completamente" disse Cools ao jornal canadense The Star. Ainda assim Cools conseguiu chegar em quinto lugar conseguindo classificar-se para os jogos olímpicos.
Ainda se recuperando da lesão e sem conseguir treinar como esperava nem manter a concentração, Cools colidiu com outra competidora e deixou escapar seu sonho olímpico.
O caso de Samantha é apenas um entre muitos outros listados em What's the harm? (Qual o perigo?), dedicado a chamar a atenção para os riscos de práticas pseudo-científicas supostamente inofensivas mas que na realidade oferecem riscos (até de morte) aos praticantes.
Provavelmente ignorando o ocorrido com Samantha a equipe olímpica brasileira contou com os serviços de um quiropraxista, assim como Colômbia, Suécia, Nova Zelândia, Canadá, Reino Unido, China. Ainda bem que não ocorreram acidentes similares ao de Samantha entre os atletas dessas delegações.
Submeter-se a um "ajuste" da coluna para livrar-se de supostas "sub-luxações" que impediriam o fluxo da "inteligência inata", apesar de não ter efeito terapêutico superior ao placebo (como uma boa massagem) não seria problema nenhum se fosse um procedimento livre de riscos. Não é, como demonstra o caso de Samantha.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Medicina pseudo-científica na grande imprensa

A revista Veja desta semana tem um artigo interessante sobre pseudo-medicina na internet. Ele menciona por exemplo o Dr. Joseph Mercola, o Dr. Stephen Sinatra, o Dr. Andrew Weil entre outros. Esse trio merecerá um artigo exclusivo em breve. Trata-se de exemplos acabados de pseudo-ciência em ação para vender medicamentos que supostamente agem contra supostas doenças (algumas vezes genuínas, muitas vezes não). É muito positivo que um órgão da grande imprensa tenha uma abordagem crítica em relação a essas atividades pois o normal é que eles validem as práticas pseudo-científicas. A coisa vai bem até que no final do artigo são feitas afirmações de um otimismo que dá pena. "Aqui, os conselhos regionais de medicina fazem marcação cerrada. Os sites com assinatura de um médico dificilmente vendem produtos on-line. Introduzir no mercado substâncias sem respaldo científico resulta em punição severa ao profissional.".
Doce ilusão. Aqui no Brasil os conselhos regionais de medicina reconhecem como práticas médicas terapias sem nenhum fundamento científico. Meu seguro de saúde cobre tratamentos homeopáticos e acupuntura. Todos os estudos sérios vêm mostrando reiteradamente que essas práticas não têm efeito maior do que o placebo. Não é difícil encontrar medicamentos homeopáticos a venda on-line, com as bênçãos dos conselhos de medicina e de farmácia. Isso convive com um artigo em que um médico recomenda que não se use antitérmicos contra a febre ou outro que recomenda o uso de medicamentos homeopáticos para tratar HPV.
Quem decidiu reconhecer práticas pseudo-científicas como eficazes é que merece uma punição severa. Talvez nem tanto. De qualquer forma está mais do que na hora de revisar esses conceitos. Isso foi sugerido em 2007 por ninguém menos que o ex-conselheiro e ex-diretor do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) Celio Levyman em um artigo na Folha de São Paulo (só para assinantes) que também póde ser encontrado aqui . Até agora nada...

domingo, 10 de agosto de 2008

Inteligência e Ateísmo

A revista Época dessa semana apresenta uma entrevista com Richard Lynn, professor emérito da University of Ulster. Entre várias afirmações bombásticas, o entrevistado afirma que as pessoas mais inteligentes são mais propensas a questionar dogmas religiosos. Se por um lado a conclusão me agrada (teste sua inteligência inferindo a crença deste blogueiro), ela cheira a pseudo-ciência trabalhando para validar uma ideologia. Mais adiante na entrevista ficam claras as posições do prof. Lynn. Segundo ele "a média da população dos Estados Unidos tem Q.I. 98, alto para o padrão mundial, e ao mesmo tempo cerca de 90% das pessoas acreditam em Deus. A explicação é que houve um grande fluxo de imigrantes de países católicos, como México". Pode piorar: “Os negros americanos são mais inteligentes que os africanos porque têm 25% de genes da raça branca”. O próprio prof. Lynn afirma ter um Q.I. 145, o que o qualificaria como genial. Não percebi toda essa genialidade na entrevista. Na verdade fiquei bastante incomodado com as afirmações do prof. Lynn que me pareceram muito mais preconceituosas do que científicas. O próprio conceito de Q.I., ou Quociente de Inteligência é bastante controverso, dado que diferentes testes podem levar a diferentes resultados. Cada teste está fortemente vinculado à cultura de quem o escreve e quais seus valores sociais e intelectuais.
Como é possível a partir de uma medida tão difusa quanto a de QI afirmar que um grupo de pessoas (ou uma certa raça) é mais inteligente do que outro?
Antes de mais nada investiguei um pouco o perfil do prof. Lynn. Lynn é um defensor da eugenia, o aprimoramento da espécie humana através de controle da reprodução buscando melhorar a nossa carga genética. Esse tipo de idéia deu origem à ideologia nazista no século passado. O prof. Lynn faz parte do conselho (e recebe financiamento) do Pioneer Fund, uma fundação norte-americana estabelecida em 1937 para avançar o estudo científico de hereditariedade e diferenças humanas" (o grifo é meu). Na verdade trata-se de uma instituição que vem promovendo o racismo e o anti-semitismo pretensamente científicos. Trabalhos do prof. Lynn foram citados no infame The Bell Curve, o livro lançado nos EUA em 1994 que pretendia mostrar que os brancos são mais capazes que os negros e que felizmente caiu no merecido descrédito e esquecimento por entre outras coisas basear suas conclusões racistas em medidas metodologicamente mal feitas.
O trabalho do prof. Lynn é constantemente criticado pelas dificuldades das medidas, distorções e conclusões obtidas a partir de amostras muito ruins e limitadas.
Enfim, seu trabalho é muito mais ideológico do que científico, buscando dar uma roupagem de ciência a seus preconceitos. Isso fica claro na explicação dada pelo professor ao baixo índice de ateísmo no Brasil: "O Brasil segue a lógica, um porcentual baixíssimo de ateus (1%) e Q.I. mediano (87). É um país muito miscigenado e sofreu forte influência do catolicismo de Portugal e dos negros da África. Fica difícil mensurar a participação de cada raça no Q.I. atual. O que posso dizer é que a história do país se reflete em sua inteligência."

Apesar de viver muito feliz com meu ateísmo radical, não é com pseudo-ciência e racismo que vamos avançar em alguma direção.

O melhor a fazer em relação ao prof. Lynn é ignorá-lo. Aliás, essa é minha atitude em relação aos que colocam seus dogmas acima do bom senso e dos fatos. A revista Época errou ao dar-lhe espaço e credibilidade.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Placebos na prática médica

O setor de saúde da UNICAMP, assim como os da USP e UNIFESP padecem de uma natureza dupla, de intituições provedoras qualificadas de serviços de saúde a uma vasta população por um lado, ao mesmo tempo que são instituições de liderança inquestionável na formação de médicos, de cientistas e na pesquisa científica e tecnológica vinculada à area da saúde. Não é fácil desempenhar as duas funções com a qualidade, com a excelência, que estas instituições exigem de si mesmas. Esta dificuldade me parece particularmente complicada no problema dos “tratamentos alternativos”, como a homeopatia e a acunpuntura.

De um lado, não de pode negar a eficácia do efeito placebo, e que um tratamento humanitário de doentes não pode prescindir do seu uso. Note-se que a máxima ética “primum non nocere” (primeiro não prejudicar) é perfeitamente compatível com o uso de placebos, desde que estes não interfiram com a saúde do paciente ou com a aplicação de outros tratamentos. Cabe também observar que o princípio operante por trás do efeito placebo é a fé do paciente que o tratamento oferecido é de fato eficaz (eu tenho uma reclamação metodológica sobre os estudos duplo-cego em medicamentos: ao saber que o estudo é duplo-cego a fé dos pacientes já está comprometida pois eles sabem que há uma boa chance que estejam recebendo não-remédio, reduzindo o efeito placebo – isso afeta tanto os pacientes do remédio quanto os do placebo, e portanto, apesar de subvalorizar o efeito do tratamento, pode ainda servir para distinguir efeito terapêutico real de efeito placebo. Contudo, para os que entendem de estatística, esse erro sistemático pode tornar incorretas avaliações sobre “achados estatisticamente significativos”) . Mais ainda, estudos pseudo-científicos, explicações cheias de jargão e a aparência científica aumentam a fé dos pacientes e portanto a eficácia do placebo. Não se deve castigar um exercício profissional que efetivamente reduza o sofrimento das pessoas simplesmente por este ser não-científico.

Por outro lado, acolher discursos e práticas irracionais e anti-científicas sem denunciá-las é precisamente o oposto da missão educacional e científica da universidade. Nossos estudantes precisam ser solidamente formados no método científico e saber a medida terapêutica de cada procedimento. Como conciliar estas duas missões, essas duas visões? Note que a questão está sendo posta por um matemático, com base na discussão levantada por um físico. Os médicos não parecem se emocionar com esse tipo de discussão, e pessoalmente, eu tenho uma teoria a respeito: a formação dos médicos lida desde o primeiro dia na escola com essa tensão entre os lados humanos e científicos da prática médica. O que parece um conflito irresolvível para um cientista natural, é o feijão com arroz da prática médica e uma visão serena e realista sobre as práticas “alternativas” pode muito bem ser a resposta adequada ao conflito colocado aqui.

terça-feira, 24 de junho de 2008

O Estudo Duplo Cego

A metodologia de estudo duplo-cego é provavelmente a mais importante invenção científica desde o método científico. Sem essa ferramenta intelectual seria muito difícil realizarmos com confiabilidade qualquer teste científico envolvendo seres humanos. O objetivo do teste duplo-cego é evitar qualquer interferência consciente ou não nos resultados de um experimento. Para isso é necessário que o experimento inclua um grupo de controle sobre o qual nada é feito (por exemplo, se se trata do teste de uma droga a esse grupo é ministrado um placebo), mas que os componentes do grupo não saibam o que estão recebendo. Isso constitui um teste simples cego. Para tornar o estudo ainda mais livre de tendências sub-conscientes, nem mesmo o experimentador deve saber qual o resultado esperado da medida que está fazendo. Metodologias duplo-cego são empregadas não apenas na área médica, mas sempre que o resultado de um experimento pode depender da vontade do experimentador. Em particular, estudos duplo cego controlados por placebo são fundamentais para sabermos se uma determinada terapia (ou droga) tem realmente efeito terapêutico ou não. Isso ocorre porque nosso corpo oferece uma resposta bioquímica mensurável à sugestão de tratamento, que é chamada de efeito placebo.
O teste duplo-cego ganhou notoriedade graças ao célebre episódio da memória da água. Em 1988 um grupo de pesquisadores liderado pelo francês Jacques Benveniste submeteu à Nature um artigo em que era demonstrado que glóbulos brancos humanos apresentavam uma resposta bioquímica após expostos a água na qual foi diluido um anticorpo até o ponto em que nenhuma molécula do anticorpo restaria em solução. O efeito só ocorreria quando a solução era violentamente agitada. Qualquer semelhança com alguns dos princípios da homeopatia não é mera coincidência. O objetivo do experimento era fornecer uma base científica à homeopatia, ou seja, mostrar que a água pode ter memória de um soluto mesmo quando esse soluto não mais está nela. Benveniste não oferecia nenhuma explicação para o fenômeno, que no entanto não parecia tão absurdo. A água é um líquido especial, que mesmo a temperatura ambiente contém longas cadeias poliméricas. Seria possível, mas não provável, que as cadeias poliméricas guardassem informação estrutural sobre um soluto que não estava mais nela. Como se tivesse memória dos soluto que passou por ela mas não está mais lá.
John Maddox, o editor da Nature na época era um cientista de mente aberta e achou que o estudo devia ser publicado caso não contivesse erros. Por outro lado, ele temia que um resultado tão surpreendente envolvesse alguma falha de procedimento. O artigo foi publicado apesar dos temores, mas em contrapartida o Dr. Benveniste aceitou repetir o experimento perante uma comissão indicada pela Nature. A comissão era eclética. Além de Maddox foram chamados Walter Stewart, físico do National Institutes of Health norte-americano e James Randi, mágico e desmascarador de fenômenos paranormais, com passagens pelo Brasil. O experimento foi primeiramente repetido com sucesso perante a comissão. No entanto, Maddox notou que os experimentadores sabiam quais os tubos de ensaio continham os anti-corpos e quais não os continham. Um novo experimento, dessa vez com protocolo duplo-cego foi realizado. Agora os experimentadores não mais sabiam quais tubos continham o quê. A tabela de códigos de cada tubo foi embrulhada em papel alumínio e lacrada em um envelope que ficou colado no teto do laboratório (como garantia de que os códigos não seriam adulterados por ninguém). Dessa vez o efeito desapareceu completamente. Numa nova tentativa o lacre do envelope foi violado por alguém do laboratório durante a noite.
Quando há alguns meses recebi um convite para participar como voluntário de um teste duplo-cego eu aceitei imediatamente. Trata-se de um estudo sobre possíveis efeitos do ácido linoléico conjugado (CLA) sobre o teor de gordura corporal em homens na minha faixa etária. É um assunto polêmico, em que indícios se misturam positivos aparecem misturados com ceticismo e mesmo uma proibição da comercialização do produto pela Anvisa. Buscavam-se dois grupos, um de sedentários e um de atletas. Obviamente me inscrevi na segunda categoria, embalado por minhas habituais corridas 3 vezes por semana.
Depois de uma longa entrevista sobre hábitos alimentares e um exame biométrico, complementado por exames de urina e de sangue, recebi o conjunto de potes 533. Nem eu nem a pesquisadora responsável sabemos se as cápsulas dos potes 533 contém o tal ácido ou um placebo. Como solicitado tenho ingerido as cápsulas religiosamente 3 vezes por dia após as refeições. É verdade que uma vez ou outra eu esqueço. Também anoto compulsivamente tudo o que ingiro 3 vezes por semana.
Até agora (já estou ingerindo as cápsulas há mais de um mês) não notei efeito algum. Fico me perguntando se estou recebendo o CLA ou o placebo. As vezes identifico algo que poderia ser um efeito colateral. Ou será minha imaginação? Há 3 semanas eu coloquei uma cápsula no bolso da calça para não carregar a caixa inteira num passeio a pé que incluiria almoço em Cartagena de Índias na Colômbia. Fazia um calor infernal. A cápsula se desmanchou parcialmente no meu bolso e vazou um líquido oleoso com um leve odor de farmácia. Não consigo dizer se era o placebo ou o ácido linoléico conjugado. Ainda bem.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Acupuntura na USP

A Unicamp não é a única universidade de pesquisa brasileira em que os adeptos da Medicina Complementar e Alternativa buscam validar suas crenças. Na seção Vida& do Estadão de 16/06/2008 uma reportagem conta maravilhas de um estudo feito na USP que demonstrou que "Meia hora de sessões de acupuntura três vezes por semana nos mesmos dias da aplicação foram suficientes para acabar com as dores, náuseas, vômitos e desconforto provocados pelo tratamento [quimioterápico] - e que tanto incomodam pacientes com câncer". Que ótimo. Pareceria que os efeitos colaterais da quimioterapia finalmente têm um paliativo barato, relativamente seguro e fácil de obter. Não parece bom demais para ser verdade enquanto milhões de pessoas sofrem todos os dias com esses efeitos colaterais? Infelizmente na reportagem não há referência a uma publicação científica relatando o tal estudo. Busquei algum artigo do Dr. Wu Tu Chung, o responsável pela pesquisa da USP, no Google Acadêmico e não encontrei nada. Mau sinal. Então busquei seu currículo no sistema Lattes, onde estão cadastrados virtualmente todos os pesquisadores brasileiros. Nada consta. Pesquisei então na página da USP e descobri que trata-se da tese de doutorado do Dr. Chung.
Infelizmente, ao contrário da minha expectativa inicial, o estudo do Dr. Chung não é conclusivo. Ele cometeu um dos erros mais freqüentes nesse tipo de trabalho: não considerou o efeito placebo, já discutido (superficialmente, reconheço) em um texto anterior. O Dr. Chung comparou 3 grupos de pacientes: grupo A tratado com um antiemético convencional, grupo B com antiemético convencional e acupuntura clássica e grupo C combinando antiemético convencional e acupuntura auricular. Faltaram os grupos D: placebo convencional, E: placebo + acupuntura convencional e F: placebo+acupuntura auricular. Poderia sofisticar com o grupo G: antiemético+falsa acupuntura (acupuntura evitando os pontos por onde supostamente passam os meridianos). Somente comparando com grupos de controle placebo em um estudo duplo cego randomizado seria possível afirmar qualquer coisa sobre a eficácia do tratamento. Há ainda outro problema metodológico: os grupos de pacientes são demasiado pequenos (cerca de 20 pessoas) para obter significância estatística.
O estudo do Dr. Chung demonstrou mais uma vez que há um efeito placebo associado à acupuntura, o que já estava fartamente documentado. Para quem quer saber mais recomendo o livro Snake Oil Science, de R. Barker Bausell.
Para piorar, o artigo revela que outra universidade de pesquisa, a UNIFESP mantém um Setor de Medicina Chinesa e Acupuntura. Um membro da "Comissão Intersetorial de Práticas Integrativas e Complementares" conta que o SUS realizou 700 mil atendimentos de acupuntura e homeopatia em 2 anos. Ele ainda enaltece o fato de que essas técnicas "têm custo menor que as práticas tradicionais e têm resultados comprovados". Curiosamente a literatura científica séria nunca publicou uma única comprovação de que essas técnicas apresentam efeito superior ao placebo. Se consideramos isso, concluímos que a relação custo/benefício dos tratamentos alternativos é muito inferior aos tratamentos comprovados cientificamente.
Não tenho nada contra algumas pessoas preferirem os tratamentos complementares e alternativos. Cada um é responsável pelo que faz com sua própria saúde. Só que é feio (para não usar uma palavra mais forte) os adeptos dessas práticas apresentarem ao público leigo uma eficácia inexistente, baseada em estudos metodologicamente falhos, numa linguagem pseudo-científica rebuscada.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Fidel e a fuga de cérebros

Durante a Conferência Regional de Educação Superior 2008 (CRES2008) da UNESCO, em Cartagena, Colombia, houve uma mesa redonda sobre "Desafios da Cooperação Sul-Sul". Os participantes eram Ministros da Educação de diferentes países (o Ministro Fernando Haddad do Brasil se fez representar pelo Secretário de Ensino Superior Ronaldo Mota). Durante sua intervenção, o Ministro da Educação Superior de Cuba Juan Vela citou um dado revelado a ele pelo companheiro Fidel Castro: há 40 anos a cada dia 70 pesquisadores da América Latina emigram para os Estados Unidos e Europa, no processo que chamamos de brain drain ou fuga de cérebros.
Isso corresponde a metade da lotação de um Boeing 737 a cada dia. Uma conta rápida revela que em um ano 25500 pesquisadores emigrariam daqui. Parece que o senso crítico do comandante está um pouco debilitado. O Brasil forma atualmente 10 mil doutores por ano. Junto com o México forma quase a metade de todos os doutores da América Latina. Esses números são recentes. Há 10 anos formávamos menos de 5 mil doutores por ano.
Se os números do comandante estivessem certos, um milhão de pesquisadores de qualidade teriam nos deixado nos últimos 40 anos, muito mais do que a nossa capacidade de formá-los. Vela já havia afirmado isso em 2005 sem que ninguém aparentemente tivesse contestado (naquela oportunidade a fuga era só para os Estados Unidos). Sem dúvida o processo de fuga de cérebros é um problema e precisamos proporcionar oportunidades e vantagens para que nossos melhores pesquisadores fiquem na América Latina. Por outro lado, é impossível que o primeiro mundo drene mais cérebros do que somos capazes de produzir.
Política algumas vezes obscurece a razão, o senso crítico e o método científico.

Conexão astral

Bob Park é um dos mais antigos blogueiros científicos em atividade. Sua coluna What’s New existe há mais de 20 anos, muito antes dos blogs terem sido inventados. Toda semana ele produz uma ácida crítica a notícias, projetos, ações em geral onde o método científico é ignorado ou mal empregado.
Na sua coluna da semana passada, Bob Park expressou sua surpresa ao saber que a Universidade de Maryland, onde ele é professor, oferece acupuntura em seu serviço de saúde. Convencido de que uma universidade de pesquisa não deve promover medicina baseada em superstições, Bob escreveu à administração da universidade solicitando o fim desses serviços. A resposta foi negativa, com argumentos do tipo “’e um serviço de saúde com procura imensa” ou “universidades de ponta como Berkeley e Harvard também oferecem esse serviço”. Reagindo a essa resposta, Bob propõe que a universidade crie também um serviço de astrologia para os estudantes. Talvez devessem. Numa dessas coincidências que certamente a astrologia explica, provavelmente devido a uma conjunção entre Mercúrio e Netuno, formou-se na semana passada uma ressonância astral entre Maryland e Campinas. O Jornal da Unicamp apresentou uma matéria sobre um livro recém lançado, "A construção da medicina integrativa". O autor é professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (FCM) e militante pela inclusão do ensino de medicina complementar e alternativa no currículo . Mais que isso, segundo o artigo no JU ele coordena o Laboratório de Práticas Alternativas, Complementares e Integrativas em Saúde (Lapacis), um laboratório que não aparece na página da FCM. Fiquei curioso e via Google acabei descobrindo a Liga de Homeopatia da Medicina Unicamp. Sim, isso existe. A chamada para sua página está hospedada no servidor da FCM. Devidamente decorada com os logos da Unicamp e da FCM, pareceria ser um órgão da Unicamp. No entanto, não se encontra menção a essa liga na página da FCM. Parece que a liga é formada por um grupo de professores e estudantes da FCM. É correto eles se apropriarem de ícones oficiais da instituição? Se um grupo de professores criasse a "Liga Machista da Unicamp", teria ela o direito de associar suas idéias a esses ícones?

Na página da liga, (sem os símbolos da Unicamp), há informações curiosas (esclareço que o Milton Lopes que deu a aula inaugural da liga em 2008 não tem nada a ver com o colaborador desse blog!). Uma monografia supostamente científica que está nessa página apresenta entre outras a seguinte "hipótese para o mecanismo de cura homeopático: Teoria vibratória. Todo ser vivo e substâncias emitem energia vibratória, ondas eletromagnéticas. Quanto mais a vibração do remédio for semelhante à vibração do doente, mais perto se chegará da cura. Haverá ressonância. Como se uma onda (do remédio) com determinada freqüência e amplitude interferisse em outra onda (do doente) semelhante." Como costuma ocorrer nas pseudo-ciências, usa-se uma terminologia científica fora de contexto formando um amontoado de afirmações sem sentido. Os seres vivos e as substâncias só emitem ondas eletromagnéticas (na forma de calor) quando estão a uma temperatura superior a seu meio. Não há ressonância alguma entre remédio e ser vivo. Mesmo que houvesse, isso não significaria cura de nada. Curiosamente, o autor não aventa a hipótese de as curas se deverem ao efeito placebo, como já foi largamente demonstrado na literatura

Tomo o exemplo de Bob Park: Deve uma universidade de pesquisa de ponta brasileira usar recursos para pesquisa em práticas médicas que não apresentam um efeito maior que o placebo? Deve uma universidade de pesquisa em nome da liberdade acadêmica emprestar seu prestígio para grupos ou agremiações que promovem pseudo-ciência? Ou será que devemos pensar em abrir o Departamento de Astrologia?

sábado, 10 de maio de 2008

Parceria

A partir de hoje Cultura Científica passa a contar com a colaboração do Milton Lopes Filho, colega de Unicamp e companheiro na luta por uma sociedade mais letrada. Para o leitor isso significa a possibilidade de formar opinião também a partir de uma visão diferente, um estilo de escrever diferente, sempre com o objetivo de discutir assuntos relevantes relacionados à cena da ciência.
Benvindo Milton!

Ciência no Discurso Político

Eu ainda era criança, talvez estivesse no mestrado, quando me deparei com o filósofo Paul Feyerabend (1924-1994). Seu principal livro: “Contra o Método” (1975), traduzido pela Editora da UNESP em 2007, soa como uma escandalosa (e divertida) invectiva contra a ciência ocidental e a comunidade científica em geral. De maneira geral, Feyerabend retrata a ciência como uma grande conspiração, em que resultados são fabricados para dar aos cientistas acesso a fundos e prestígio, enquanto um grande cobertor de silêncio conspiratório encobre toda a trama do olhar do público. É claro que ler estas idéias, escritas com toda seriedade em um livro era, digamos, um pouco preocupante para um jovem cientista em treinamento. Contudo, o tom geral era tão estridente, que era natural desqualificar Feyerabend como um semi-desvairado e ficar por isso mesmo.

Algo como vinte e tantos anos depois, peguei de novo um livro de Feyerabend para ler num avião, e muito para minha surpresa, me vi gostando muito do argumento, e concordando com a maior parte do que ele estava dizendo. O livro em questão não era o “Contra o Método”, mais panfletário, mas sim o “Science in a Free Society” (1978), que não creio ter sido traduzido para o português. Finalmente eu entendi que o Feyerabend não era nem um pouco “anti-ciência”. A invectiva dele era contra o uso da racionalidade científica para esvaziar questões essencialmente políticas. A preocupação dele, formulada nos anos setenta, mas ainda bastante atual, era o uso da credibilidade da ciência e dos cientistas para declarar uma certa posição essencialmente política de “racional” ou “científica” e classificar todo mundo que discordasse como “irracional”. Isto colocava a comunidade científica como interlocutor privilegiado em qualquer debate, por ser a detentora primordial da “verdade”. Este papel de detentor privilegiado da verdade pertencia historicamente às religiões organizadas, que, aliás, gostariam muito de continuar ocupando este papel. Veja-se, por exemplo, o tom dos debates sobre o uso de células-tronco embrionárias em pesquisa e sobre descriminalização do aborto. De fato, na sociedade mais democrática e pluralista de hoje em dia, muitos grupos buscam essa posição privilegiada de donos exclusivos da verdade: ambientalistas, patrulheiros ideológicos, grupos religiosos, e, por que não, cientistas também. Felizmente, com menos sucesso que antigamente.

O problema é que deslocar a ciência para o centro de debates políticos, além de ser uma tentativa de sabotar o debate, também desvirtua a ciência, transformando-a em pseudo-ciência. Por duas razões essenciais: a verdade científica é sempre transitória, provisional, sujeita à revisão a qualquer momento que novos fatos assim exigirem. Tornar os fatos científicos em certezas pétreas e exagerá-los com fins retóricos é distorcê-los a ponto de torná-los, sim, em pseudo-ciência. Um exemplo disso é o filme “Uma Verdade Inconveniente”, que rendeu a Al Gore um Nobel e um Oscar ano passado. Apesar de nobre em intenções e brilhante em execução, aquele filme é uma peça de propaganda política e pseudo-ciência alarmista semelhante, sob certo aspecto, a uma exposição sobre os benefícios da homeopatia. A segunda razão é algo mais sutil, mas igualmente importante. A ciência tem uma tensão conceitual irremovível com a mais importante das ferramentas da política – o bom senso. A razão disso é que a ciência só se realiza plenamente quando ela descobre o que não é óbvio, o que não está aparente. Além disso, a natureza da verdade cientifica tende a ser aplicável em situações altamente idealizadas, com ruídos e efeitos complexos removidos ou reduzidos, o mais longe possível da complexidade intrínseca à mais simples das interações envolvendo seres humanos. Retirar a ciência de seu ambiente natural no laboratório e nos sistemas naturais mais simples, e tentar aplicá-la por analogia nas preocupações quotidianas das pessoas é uma outra forma perniciosa de pseudo-ciência. Um exemplo disso é a prática de psicólogos, educadores e outros acadêmicos, que pretendem ensinar a pais e professores como educar crianças. Pesquisa sobre desenvolvimento neurológico, sobre aquisição de linguagem e desenvolvimento emocional e social são assuntos fascinantes, e frequentemente constituem-se em ótima ciência. Mas muito pouco de útil têm a dizer sobre as atividades de pais e professores.

Em resumo, para além de irracionalidade disfarçada de ciência, o rótulo pseudo-ciência aplica-se igualmente bem à ciência legítima que tenha sido retirada de seu contexto, exagerada, distorcida por analogias falaciosas e utilizada como borduna política , social ou econômica. Em seu lugar apropriado, a ciência pode subsidiar discussões, mas, carecendo de absolutos, não pode substituir ou tornar obsoleta a discussão.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Espiritualidade Quântica

Enquanto na maioria das universidades o Centro ou Diretório Acadêmico está mais preocupado com atuação político-partidária ou com invadir a reitoria, na Unifesp o Diretório Central dos Estudantes tem um Departamento de Cultura Científica (DCC). Ótima notícia. Cultura Científica é um assunto no qual temos sérias deficiências e por isso as pseudo-ciências ocupam um espaço tão importante.
No entanto, provavelmente levado pela ingenuidade e inexperiência, o DCC está se deixando seduzir por atividades que promovem a pseudo-ciência e a anti-cultura científica.
O DCC está promovendo de 4 a 7 de junho próximos na Unifesp o II Simpósio e V Congresso Nacional Universitário de Saúde e Espiritualidade. O evento é apoiado entre outros pelo NUSE - Núcleo Universitário de Saúde e Espiritualidade da Unifesp e pela AME - Associação Médica Espírita. Ele começa com o Simpósio "A saúde sob a visão do paradigma quântico" e continua com o Congresso "A Interface entre a Mente, o Cérebro e a Espiritualidade". Neste post concentro-me no Simpósio, mas não posso deixar de mencionar uma das palestras do Congresso: "Achados das Neurociências sobre os Estados de Consciência Ampliados: prece, caridade, meditação, transe, glossolalia e hipnose" . Certamente o palestrante Dr. Júlio Peres discorrerá sobre a célebre fraude ocorrida na Columbia University em 2001. Uma equipe incluindo o obstetra nascido no Brasil Dr. Rogério Lobo conseguiu burlar o sistema de revisão por pares (ver post anterior. Eu avisei que o processo não é infalível!) da prestigiada Journal of Reproductive Medicine e publicou um estudo indicando que rezar por alguém dobrava as chances de sucesso de procedimentos de fertilização in vitro desse alguém, o que na época chamou a atenção da literatura especializada. Resultado extraordinário, que merecia uma comprovação extraordinária. Em lugar disso uma fraude nos dados foi descoberta. O resultado verdadeiro (que provavelmente será enfatizado pelo Dr. Peres) é que preces têm pouca ou nenhuma influência a saúde, e essa influência é negativa. Em 2004 os nomes do Dr. Lobo e da Columbia University foram excluídos do artigo em circunstâncias nunca satisfatoriamente esclarecidas quando outro autor foi condenado a 5 anos de prisão por fraude financeira.
Melhor falar sobre o Simpósio, mais próximo de minha área de formação. Após uma apresentação artística (ótima maneira de abrir um simpósio, em lugar das enfadonhas palestras de abertura), teremos a palestra "Correlações entre Saúde, Física Quântica e Espiritualidade" pelo Dr. Fábio Nasri. Uma consulta ao Google Acadêmico revela que infelizmente nenhum de seus artigos trata desse assunto. Pena, pois eu fiquei curiosíssimo com o título da palestra. Será que as correlações de que ele fala têm a ver com a coerência da função de onda da Física Quântica? E a espiritualidade sofre efeitos de difração como os elétrons?
A próxima palestra é ainda melhor. "O Espírito sob o ponto de vista da Mecânica Quântica", proferida pelo Prof. Dr. Wladimyr Sanchez. Dessa vez o Google Acadêmico revela o perfil de um engenheiro hidráulico especialista em saneamento com 26 publicações em português e uma em inglês. Pelo Google é possível descobrir que ele é o presidente do Instituto de Pesquisa e Ensino de Cultura Espírita (IPECE) , autor de pelo menos 5 livros sobre espiritismo. Mais impressionante, ele é físico formado pela USP, engenheiro mecânico formado pela Universidade Mackenzie, engenheiro nuclear, formado em Oak Ridge, USA, engenheiro civil, pela UNESP. É Mestre e Doutor em Ciências, pela USP e PhD em Gerenciamento de Recursos Hídricos, pelo MIT, USA. Uau.
Como será a mecânica quântica dos espíritos? Difícil saber, mas podemos especular. Os espíritos apresentam várias propriedades quânticas. Por exemplo, o hábito de aparecer e desaparecer pode ser interpretado como o colapso da função de onda no momento de uma medida (sobre medidas em Mecânica Quântica, ver o post sobre Amit Goswami) . Os espíritos têm sua função de onda confinada a castelos, que podem ser pensados como poços de potencial e podemos até estimar a probabilidade de o espírito escapar por tunelamento e aparecer em outro lugar. Dado o tamanho típico de um castelo pode-se estimar a incerteza no momento espiritual, e por aí vai. Estou propositadamente fazendo uma confusão conceitual entre espíritos e mecânica quântica. A mecânica quântica não se aplica ao estudo de espíritos, pelo simples motivo que espíritos não são entidades físicas.
O simpósio continua com "Fisiologia Transdimensional" por Dr. Décio Iandoli Jr. (para sair da pseudo-mecânica quântica e entrar na pseudo-relatividade) e depois segue com "O uso do Pensamento Quântico para a Saúde integral" pelo meu xará Dr. Leandro Romani de Oliveira, que provavelmente explicará o que significa "pensamento quântico". É um conceito que não faz parte dos paradigmas da mecânica quântica.
Esse pessoal provavelmente andou assistindo "Quem somos nós?", o docudrama místico-quântico ou "O Segredo". A maioria deles, senão todos, é de alguma forma ligada ao espiritismo ou a entidades espíritas. É possível ver fotos de vários na página do I British Congress on Medicine and Spirituality, curiosamente hospedado no site da AME brasileira.
Não há nada de errado na existência de congressos e simpósios como esse. No entanto, a UNIFESP não deveria abrir espaço para esse tipo de atividade. Ciência e espiritismo são coisas diferentes. A UNIFESP é conhecida e respeitada pelo alto padrão da ciência lá produzida e não deveria emprestar essa credibilidade a atividades mistificadoras que só criam confusões conceituais e pseudo-ciência. Assim como os cientistas não devem ir aos templos espíritas para colocar em dúvida as crenças dos espíritas, os espíritas não devem tentar confundir suas crenças com ciência, que elas não são.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Dentadura robótica

A comunidade científica criou ao longo dos anos mecanismos de auto-controle. O mais importante para o desenvolvimento da ciência é talvez o processo chamado em inglês de peer review, que pode ser traduzido livremente como revisão pelos pares. As revistas científicas mais prestigiosas não publicam nada que não tenha recebido um parecer positivo de pelo menos dois ou três cientistas independentemente. Isso é uma forma de garantir que pelo menos alguns experts no assunto foram convencidos pela argumentação do(s) autor(es) e o artigo não contém resultados absurdos ou idéias malucas. É graças à estrita revisão por pares que publicar em revistas como Nature e Science dá tanto prestígio aos cientistas. O processo não é infalível, mas é o melhor que temos. Faz todo sentido portanto desconfiarmos de idéias, teorias, terapias, especialmente as mais surpreendentes ou mirabolantes, quando elas não passaram pelo crivo da revisão pelos pares.

Um cartaz afixado em uma cantina da Unicamp anuncia um curso de biocibernética bucal. Bio o quê? Essa deve ser a primeira reação dos pacatos transeuntes que o lêem. Por um módico investimento de 8 x R$ 340 (em 2008) e mais 8 x R$ 400 (em 2009) é possível fazer um Curso Básico de BioCibernética Bucal de 160 horas. Os temas dos encontros são no mínimo não-convencionais. Algumas palavras-chave como eutonia, distonia, setênios fazem acender uma luzinha de alerta. Adorei o tema do 11° encontro: "Decodificação dos sistemas através da boca; interpretação dos sistemas corporais e comportamentais. Somatotopia psicológica e comportamental dos dentes."
Não resisti a aprender mais sobre o assunto. Muita informação está na página do Instituto Brasileiro de Bio Cibernética Bucal (BCB). A BCB nasceu em Araçatuba em 1969. Na década de 70 os criadores da BCB, professores da Faculdade de Odontologia de Araçatuba lançaram seu primeiro livro. Daí para frente seguidores começaram a aparecer e atualmente há uma comunidade atuante em várias cidades.
Afinal, o que é BCB? Nas varias páginas sobre o assunto é difícil encontrar uma definição precisa. As melhores que encontrei foram:
"Na década de 60 dois odontológos paulistas, depois de muito atender, observar e tratar os pacientes e também pesquisar, criaram os princípios de uma escola de odontologia chamada de Bio Cibernética Bucal. Sua principal característica é a resposturação das funções da oralidade na expectativa de reverberação somática a distância (Baldani e Figueiredo)."

"Trata-se de ciência odontológica que considera a programação biológica contida no DNA humano, suas praxias e as suas repercussões na oralidade decorrentes, principalmente, do estilo de vida do paciente."
Se alguém entender isso por favor envie um comentário. Se conseguir conciliar as duas definições melhor ainda. Tem outras definições igualmente claras mas que ocupam meia página. Uma foi qualificada por um dentista blogueiro como conversa de vendedor de livro misturada com maçonaria.
A BCB permite um estudo de caso sobre como nasce uma pseudo-ciência. Não é todo dia que isso acontece em Araçatuba. Com todo respeito pela Faculdade de Odontologia de lá, que atualmente é uma instituição de qualidade, os proponentes e principais praticantes de BCB têm uma formação científica no máximo limitada. Todos que encontrei na web foram formados em instituições de reputação científica limítrofe, como a própria FOA (na época), a FO de Presidente Prudente, a UNIP, a UMC, a UMESP, a Unicastelo, o Instituto Brasileiro de Estudos Homeopáticos entre outras. Locais que possivelmente formam bons profissionais mas não formam cientistas. Pessoas com treinamento científico deficiente podem se deixam levar pelo palavreado rebuscado e pelo jargão recheado por conceitos que elas não entendem direito (nesse caso específico, sinceramente, nem eu). Há um reforço comunitário na medida em que abrem-se cursos e clínicas em várias cidades. Organizam-se eventos sobre o tema. O cenário está armado.

Como é comum nas pseudo-ciências, os praticantes da BCB consideram-se vítimas de um suposto conservadorismo da comunidade científica que não aceita as idéias inovadoras e revolucionárias. Nada mais falso. Poucas áreas do conhecimento humano são tão abertas a mudanças quanto a ciência. Todo um arcabouço teórico pode mudar rapidamente quando novas descobertas assim exigem. Foi assim com o nascimento da mecânica quântica. Está sendo assim na medida em que aprendemos mais sobre o genoma. Ocorre que na BCB como em muitas otras terapias complementares e alternativas as idéias não encontram suporte nos fatos. Nesse caso fica difícil convencer os cientistas.

Os conceitos e idéias da BCB estão publicados em vários livros. Há um Instituto Brasileiro, um Grupo de Estudos (GEBICI), seguidores em várias cidades e mesmo em outros países. No entanto, não é possível encontrar um único artigo sobre o tema publicado em alguma revista científica com revisão por pares. Seria difícil convencer 2 ou 3 especialistas da "estreita correlação entre alterações na relação dos maxilares e alterações posturais" ou que "Desequilíbrios orais podem provocar desequilíbrios posturais e outras alterações biofuncionais" sem que tenha sido feito um estudo duplo cego controlado. Ou ainda que "a vida humana está programada em ciclos de sete anos". Para validar a BCB seria pelo menos prudente ter resultados publicados em pelo menos uma revista de alta reputação científica.

O GEBICI está organizando seu Décimo Encontro em Campinas de 16 a 18 de maio próximos. Como a sede do GEBICI fica aqui em Campinas, a próxima vez que eu for a um dentista vou antes me certificar que a obturação não vai interferir com a minha postura! Vai que essas coisas holísticas sejam uma via de mão dupla...

Agradeço à Juliana por ter me apontado a BCB. Esse post é dedicado ao amigo Guerreiro, araçatubense radicado em Campinas como a BCB.

sábado, 26 de abril de 2008

Picaretagem quântica

Amit Goswami vem ao Brasil em junho próximo junto com a psiquiatra Uma Krishnamurthy. Eles oferecerão um workshop de um dia inteiro sobre "Criatividade Quântica, Transformação Pessoal e Psicologia do Yoga" pela módica inscrição de R$ 675 (pode fazer em 3 vezes no cartão. Inclui um almoço vegetariano). Para os menos abonados ocorrerão palestras com 3 horas de duração sobre "A Física da Alma", "Economia Espiritual", "O Médico Quântico" e "Psicologia do Yoga e Transformação de Emoções" que custarão entre R$ 297 e 360 (pode fazer em 3 vezes no cartão. Nesses valores não dá para incluir o almoço vegetariano).
Amit Goswami é professor emérito do Institute of Theoretical Science da University of Oregon, nos Estados Unidos. Professor emérito é provavelmente a maior distinção que um professor universitário pode obter, reservada para aqueles que se distinguiram em suas carreiras a ponto de sua instituição não desejar que eles dela se afastem no momento de sua aposentadoria. Certamente o professor Goswami foi um professor exemplar. Infelizmente nos últimos anos vem se dedicando somente a difundir conceitos pseudo-científicos envolvendo mecânica quântica e consciência. Goswami é uma das estrelas do controverso filme "Quem somos nós?", que fez algum sucesso há alguns anos ao misturar misticismo com mecânica quântica.
Goswami é autor dos livros A Física da Alma, O Universo Autoconsciente, O Médico Quântico, A Janela Visionária e Criatividade Quântica. Haja quantização! No entanto, uma busca no ISI Web of Knowledge (acesso apenas para assinantes), um dos maiores bancos de dados de publicações científicas do mundo revela que há mais de 20 anos o prof. Goswami não publica nada em revistas científicas sérias usando o endereço da Universidade de Oregon.
Goswami foi o entrevistado do programa Roda Viva da TV Cultura em 2001. Há uma transcrição aqui. É longo mas divertidíssimo. Ele cita como verdadeiros estudos claramente fraudados, faz referência a uma fauna que mistura cientistas sérios com notórios pseudo-cientistas. Diz pérolas como "Na Física Quântica, o tempo é não-linear", o que não significa absolutamente nada. Goswami voltou ao Roda Viva em 2008. Não me dei o trabalho de ver. Alguém na TV Cultura deve gostar de uma programação quântica.
Parece que o Prof. Goswami tem uma interpretação muito particular da mecânica quântica. Incrivelmente muita gente está disposta a ouví-lo. No filme citado ele diz que "O mundo material que nos cerca não é nada mas movimentos possíveis da consciência. Eu escolho minha experiência a cada momento. Heisenberg disse que os átomos não são coisas, apenas tendências". Heisenberg nunca disse isso. Os átomos estão aí, independentemente de pensarmos neles ou o que pensemos deles.
Mecânica quântica é a teoria que usamos para descrever as estruturas muito pequenas (da ordem do nanômetro ou menores) do universo. Nessa escala a física clássica do nosso dia-a-dia apresenta resultados incompatíveis com as observações. As leis de Newton não podem ser aplicadas. Não podemos tratar a aceleração de um elétron sob uma força com a equação F=ma. Efeitos devidos ao princípio da incerteza de Heisenberg se tornam importantes. Portanto só podemos descrever um átomo usando a mecânica quântica. Na mecânica quântica é impossível prever a priori qual será o resultado de uma medida, mas podemos computar a probabilidade de a medida dar cada um dos muitos resultados possíveis. No instante da medida o objeto assume um dos seus possíveis estados (dizemos que a função de onda que descreve o objeto colapsa). A medida é algo sutil e pode ser entendida como uma interação do objeto com o resto do universo. Complicado, não? Místicos como o prof. Goswami costumam achar que essa medida precisa necessariamente ser feita por algum ser consciente. É como se o universo só pudesse existir na presença de uma consciência cósmica ou divina. Nada mais absurdo, como exaustivamente demonstrado por John Bell, um dos maiores especialistas contemporâneos em interpretação da mecânica quântica.
A comunidade científica reiteradamente rejeita como falsas as idéias do prof. Goswami. Já o grande público... Dada a limitada cultura científica reinante, Goswami adora o Brasil, país que visita anualmente desde 1996 a convite da Universidade da Paz (sem comentários). Pior, é venerado como um cientista que trabalha com a fronteira do conhecimento. Goswami foi um dia um cientista. Há muito não o é. As fronteiras da ciência passam longe de mistificações. Juntar misticismo com mecânica quântica é uma obsessão entre os profetas da nova era, os holísticos, os naturebólogos (ver postagem anteiror) entre outros. Alguns dispostos a pagar o que pedirem para celebrar suas crenças. E eu que tinha achado o show do Bob Dylan caro...

Agradeço ao Cristiano Cordeiro por ter me indicado a iminente visita de Amit Goswami ao Brasil.

domingo, 13 de abril de 2008

Naturebologia

Dias 17 e 18 de maio próximos ocorrerá na Universidade Anhembi-Morumbi o I Congresso Brasileiro de Naturologia. Como a organização de congressos científicos é uma forma de promover a cultura científica, achei que valia a pena conferir a programação.
Comecei por tentar aprender mais sobre Naturologia. Será que como o nome indica trata-se do estudo da natureza? Eu achava que a Física era a ciência que estuda a natureza (do grego Φύσις, que significa natureza). Para isso a página da Associação Paulista de Naturologia (APANAT) é muito esclarecedora. Ao contrário da minha primeira impressão, descobri que "A Naturologia é uma ciência que estuda métodos naturais antigos, tradicionais e modernos de cuidado, com objetivos de promover, manter e recuperar a saúde, através da estimulação e suporte à inerente energia do corpo, para a melhoria da qualidade de vida, harmonia e equilíbrio do ser humano com o meio em que vive". Boa notícia. Naturologia, como o nome indica, se define como ciência. Mais ainda, ela consiste em manter aquecidos os corpos dos enfermos, na esperança que isso reestabeleça a qualidade de vida, a harmonia e o equilíbrio. Pelo menos é isso que está escrito, pois calor, como todos sabemos, é a única forma de energia inerente ao corpo.
Existem dois cursos superiores de Naturologia no Brasil, sendo que um deles apresenta seu currículo em detalhes na web. Infelizmente, em lugar de ensinar seus alunos a estimular a inerente energia do corpo, eles dedicam 4 anos a um cardápio notável de pseudo-ciências e pseudo-filosofia. Até que começa bem, com disciplinas como Metodologia Científica e de Pesquisa ou Filosofia I, mas vai descambando até chegar em Fundamentos da Medicina Energética I a IV, Radiestesia, Antroposofia, Irisdiagnose, Geoterapia, só para citar algumas das disciplinas.
Como compatibilizar uma compreensão minimamente correta do método científico com essas disciplinas é algo que escapa minha compreensão.
Sempre pode piorar. A principal finalidade da APANAT, descrita em seus estatutos, é "Promover a elaboração de processos de pesquisas e investigações terapêuticas, a fim de se avaliar e demonstrar a eficácia das práticas realizadas pelo profissional Naturólogo, bem como apresentá-las à comunidade científica visando a sua regulamentação e/ou normatização nos Órgãos de Classe Competentes".
Os elaboradores do estatuto certamente faltaram às aulas de metodologia científica. Eles já sabem de antemão qual será o resultado das suas pesquisas, o que contradiz a investigação científica.
Grave mesmo é a intenção de regulamentar a profissão. Ou seja, em bom português, reservar o lucrativo mercado da prática de terapias baseadas em pseudo-ciências para os formados em um dos cursos privados existentes. Em troca, isso garantiria para a população que, por exemplo, o diagnóstico a partir da íris não mais correria o risco de ser praticado por charlatães. Sem comentários. Nisso ela é apoiada pela Associação Brasileira de Naturologia (ABRANA).

A programação do congresso começa com Mecânica Quântica (os naturebólogos adoram isso e a usam para justificar quase tudo. Entender conceitos como princípio da incerteza, quantização da energia ou comutadores é outra história...) e termina com Florais de Bach, passando pela "Análise comportamental e fisiopatológica dos biótipos constitucionais sob o enfoque da Acupuntura Constitucional Universal" entre outras. Acho que vai ser no mínimo divertido!

domingo, 6 de abril de 2008

Milagre! Resultado do ENEM 2007 foi 40% melhor que em ano anterior!

Todo ano é a mesma coisa. Sai o resultado do ENEM e os jornais e revistas brasileiros (e algumas vezes as autoridades também) correm para comemorar (ou lamentar) resultados que supostamente mostram como o ensino médio vem melhorando (ou piorando). A manchete esse ano é Resultado do Enem-2007 foi 40% melhor que em ano anterior. Em lugar disso deveria aparecer: Prova do Enem- 2007 foi 40% mais fácil que no ano anterior.
A ironia é que as escolas deveriam estar ensinando seus alunos a terem um pouco de espírito crítico, um dos ingredientes fundamentais da cultura científica.
Por maiores e mais eficazes que sejam os esforços das autoridades e educadores para melhorar a educação no Brasil, é pouco provável no período de apenas um ano o resultado acadêmico dos estudantes melhore em média 40%. O curioso é que poucos órgãos de imprensa parecem desconfiar que isso não é razoável.
As provas do ENEM, por mais bem elaboradas que possam ser, mudam o grau de dificuldade a cada ano. Elas envolvem questões diferentes, elaboradas por pessoas diferentes. Um mesmo estudante que resolva a prova em dois anos diferentes muito provavelmente obterá notas diferentes. Portanto é rigorosamente errado chegar a qualquer conclusão sobre a evolução da qualidade do ensino a partir da média do ENEM. Na verdade a média é muito mais sensível ao grau de dificuldade da prova.

É possível comparar como avança ou retrocede a educação em uma certa região, ou num determinado grupo de escolas (as públicas, por exemplo) em relação à média nacional ou local. Isso pode trazer informações valiosas para avaliar iniciativas e práticas de ensino. De qualquer forma, quando comparamos qualquer desempenho com a média nunca é possível saber, por exemplo, se as escolas públicas melhoraram ou se as escolas particulares pioraram. Para dificultar ainda mais a análise, no complexo universo da educação é muto difícil separar os resultados do processo educacional de variáveis interrelacionadas como nível sócio-econômico e acesso aos bens culturais.

É possível avaliar como evolui a qualidade do ensino como um todo?
Sim, e há diferentes estratégias para isso. Uma possibilidade é comparar medidas nacionais com outros países em provas internacionais como o PISA. Essa prova vem revelando que em média os estudantes das escolas de elite brasileiras são menos bem formados que a média dos piores de alguns países europeus.
Outra possibilidade é o que é feito em relação à educação básica no SAEB. Em todas as provas há questões-âncora que se repetem todos os anos. Os estudantes não sabem quais são essas questões. As médias obtidas nessas questões a cada ano são usadas para padronizar e comparar diferentes provas, estimando a evolução do sistema. Uma desvantagem desse método é que obviamente as questões das provas nunca podem ser divulgadas.

Entender os limites de um conjunto de dados e desconfiar de resultados que contrariam o bom senso são atitudes que acompanham a formação científica básica. Talvez eu esteja esperando demais de jornalistas formados em um país onde uma prática que propõe que quanto mais diluídos alguns princípios ativos mais eficazes eles ficam é considerada especialidade médica.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O juízo final em Genebra

O New York Times tem uma notícia pelo menos curiosa essa semana (na verdade ela está em vários serviços de notícias, mas citar o NYT dá um ar intelectual mais blasé). Dois cidadãos, Walter L. Wagner e Luis Sancho abriram um processo junto a uma corte federal norte-americana para salvar o mundo, e talvez o universo. O processo pede a imediata suspensão das operações do Large Hadron Collider (LHC), o maior acelerador de partículas do mundo com 27km de circunferência próximo a Genebra, na fronteira entre a França e a Suíça. O LHC, que deve iniciar sua operação nem maio de 2008, vai forçar feixes de prótons circulando em sentidos contrários a colidirem com energias de até 7TeV por feixe, nunca antes alcançadas na terra. Os senhores Wagner e Sancho temem que nas colisões se forme um buraco negro que poderia causar o fim do mundo.
Por mais que isso pareça uma piada, o próprio CERN, administrador do LHC, fez um estudo sobre "Eventos potencialmente perigosos durante colisões de íons pesados no LHC". O estudo considera cenários como a formação de strangelets de carga negativa, buracos negros e monopolos magnéticos, e conclui que nenhum deles representa alguma ameaça.
Esse tipo de temor é antigo. Em 1999 o mesmo Walter Wagner trocou cartas na Scientific American com o prêmio Nobel F. Wilczeck sobre os riscos do acelerador RHIC, o mais energético daquela época e depois abriu processos em San Francisco e Nova Iorque com o objetivo de cancelar os experimentos. Ele não teve sucesso, os experimentos continuaram e o mundo não acabou. O sisudo Sunday Times publicou a alarmante manchete "Máquina do big bang pode destruir a terra" e a New Scientist buscou um pouco de serenidade com Um buraco negro comeu meu planeta. Muito antes disso, no projeto Manhattan, quando foram explodidos os primeiros artefatos nucleares, o famoso relatório LA-602 garantia que as explosões não iriam causar a ignição da atmosfera assim destruindo a vida na terra.
Um dos objetivos dos experimentos do LHC é recriar as condições do universo frações de segundo após o big bang, e dessa forma testar modelos da para a natureza e mesmo desafiar nossa compreensão da realidade física. Por exemplo, as equações de Maxwell, que descrevem os campos eletro-magnéticos precisariam ser modificadas se existirem monopolos magnéticos, até hoje nunca detectados. A construção do LHC já dura 14 anos tendo custado mais de US$ 8 bilhões.
Cientistas causando o fim do mundo ou criando monstros incontroláveis consiste em um tema recorrente na ficção. No best-seller Anjos e Demônios de Dan Brown uma garrafa contendo antimatéria (obtida justamente no CERN) é roubada e ameaça destruir o mundo.
Obviamente a sociedade deve interagir com a comunidade científica quanto a aspectos éticos da pesquisa, como é o caso da discussão atual sobre células-tronco no STF. Um experimento que pode destruir o mundo é sem dúvida um caso a ser discutido. Por outro lado, para formar opinião é fundamental estar corretamente informado e ter uma formação científica mínima. O Sr. Wagner formou-se em Berkeley em Biologia com um minor em Física. Mas ele ao mesmo tempo delira quando diz ter no início de sua carreira descoberto uma nova partícula inicialmente identificada como um monopolo magnético em um experimento com raios cósmicos em um balão, mas concede que há controvérsias sobre o assunto. Talvez ele tema que a ainda que improvável descoberta de um monopolo magnético torne o seu próprio ainda mais nebuloso. De acordo com o Hawaii Tribune Herald (precisa se registrar para ter acesso) Wagner e sua esposa foram indiciados por roubo de identidade em um processo local.
Como acontece freqüentemente nesses casos, conceitos científicos se misturam com vontades, medos e fantasias para criar uma paranóia coletiva baseada apenas na desconfiança generalizada sobre os cientistas e seus procedimentos. Esse é o mesmo ingrediente que leva incautos a terapias complementares e alternativas. No caso do LHC nem precisa invocar energias vitais, forças místicas ou a quinta dimensão.
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