sábado, 31 de dezembro de 2011

Pseudociência nas alturas

Último dia do ano. Eu queria na verdade estar surfando nos mares do sul mas o vento nordeste de 20 nós e o mar mexido não permitem. Então aproveito para o último post do ano. Dei uma olhada nos vários inacabados e escolhi esse assunto porque é muito bom.  O Guilherme Genestreti da Folha tinha me entrevistado em agosto sobre uma nova família de pulseiras do equilíbrio. Trata-se da iBalance, anunciada pela empresa chinesa Oregon Scientific Brasil no Blogger (estranho usar o Blogger para promover um produto comercial...) com um preço recomendado de R$99. O texto promocional é um amontoado de bobagens entoado em linguajar tipicamente pseudo-científico. A melhor parte é "Os íons negativos são capazes de aumentar os níveis alcalinos do corpo, o que neutraliza os íons positivos e melhora a circulação sanguínea, elevando a temperatura corporal e o equilíbrio do metabolismo." Isso não significa rigorosamente nada. A iBalance "recebeu o certificado e registro da Associação Japonesa de Pesquisa e Aplicação de Íons (The Japan Association of Ion Research and Application)". Ah, bom! Então a tal pulseira é certificada pela obscura JAIRA. No entanto, infelizmente a página da JAIRA é em japonês e organizada de forma que o Google Translate só consegue traduzir o menu para o inglês. Mas a página da Eco-Holistic Inc.  tem explicações em inglês. Ali é possível descobrir que a JAIRA apareceu para "endireitar o caótico mercado de íons negativos no Japão". Que sorte. Assim a gente fica livre de picaretas! Desnecessário dizer que a Eco-Holistic dedica-se a vender geradores de íons negativos para incautos. Um dos produtos, o iOnion deve ter um baita cheiro de cebola . Tem mais na página de Hong Kong da Oregon Scientific, que dado o tom do que afirma na verdade devia se chamar Oregon PseudoScientific. Ainda que houvesse qualquer evidência de que aumentar a densidade de íons negativos tivesse algum efeito benéfico para a saúde (estou agora próximo ao mar, com uma alta densidade de do íon negativo Cl- no ar, o que na verdade tem um efeito corrosivo sobre estruturas metálicas), não há como uma pulseira com dois imãs gerar íons negativos sem uma fonte de corrente associada, ou ela mesma rapidamente assumiria uma maléfica carga positiva...

Revista da Lufthansa
Revista da Pluna
 Mas a Oregon não está sozinha nisso. Eu tenho viajado muito nos últimos tempos (essa é uma das razões pelas quais algumas vezes levo tanto tempo para produzir um novo artigo). Na falta do que fazer em aeroportos e aviões algumas vezes leio a revista de bordo ou de vendas sem impostos de companhias aéreas. É falta do que fazer mesmo! Para minha surpresa encontrei na alemã Lufthansa a propaganda da Lunavit, uma variante da iBalance. Pelo menos na página eles dizem os supostos "efeitos são controversos na Alemanha e não reconhecidos pela medicina ortodoxa". Germanicamente é exibido um esquema da pulseira: dois imãs com um bloquinho de germânio 99,9% entre eles (no meu laboratório eu só uso germânio 99,999%). O germânio é um semicondutor que era muito usado nos anos 60 para confeccionar diodos e transistores até o desenvolvimento da tecnologia do silício. Se alguém souber como dois ímãs e um pedaço de germânio podem gerar íons negativos por favor me avise. Por 79 euros ou 23 mil milhas, essa pulseira é a mais cara. 
A uruguaia Pluna oferece a Enerjii, sua versão por US$ 29. Nesse preço não dá para oferecer o germânio 99,9%, mas somente "silicone com íons negativos, bolas de cerâmica e ímãs de neodímio". É a versão sul-americana. Dado que o efeito das 3 pulseiras é o mesmo: nenhum. Melhor ser enganado pela Pluna...

Bom 2012 para todos (melhor ir aproveitando bem porque se os apocalípticos estiverem certos quando chegar 21/12 vai ser um problema...)

sábado, 15 de outubro de 2011

Vitamina E e câncer de próstata

ResearchBlogging.org Há uns 20 anos descobri quase acidentalmente que tenho duas enzimas hepáticas, AST e ALT eternamente em doses um pouco elevadas no sangue. Isso é indicativo de inflamação no fígado. Fui testado para hepatites de A a Z, fiz uma biópsia de fígado e até hoje não tenho um diagnóstico conclusivo.
Logo depois descobri que tinha o colesterol elevado para os padrões estabelecidos. Minha médica, muito cuidadosa, me receitou a estatina da época (acho que era Lipitor). Meu nível de colesterou baixou rapidamente. Com base em um artigo da época (só consigo lembrar que era um estudo alemão) ela me receitou também uma cápsula diária de Ephynal, contendo 400mg de vitamina E. O artigo não era conclusivo, mas apontava efeitos aparentemente positivos na redução do LDL, o colesterol ruim. Na dúvida e aparentemente sem efeitos colaterais relevantes, decidi aderir ao tratamento. Ephynal era caríssimo. Eu logo descobri que nos Estados Unidos era possível comprar em qualquer farmácia ou supermercado cápsulas de vitamina E por uma fração do preço do Ephynal. Eu comprava embalagens com 400 cápsulas, suficientes para mais de um ano. Assim por mais de 10 anos eu tomei uma dose diária de vitamina E que correspondia a 40 vezes o recomendado a um indivíduo saudável. Isso pode parecer estranho para um cético assumido como eu, mas dada a ausência de efeitos colaterais achei que no pior caso não teria efeito algum, no melhor teria uma redução no LDL, além dos supostos efeitos benéficos que na época se achava que todos os antioxidantes teriam no organismo. O tempo passou e um belo dia em 2009 um artigo no NY Times fez com que eu desistisse de vez da vitamina E. O título já diz tudo: "Vitamina E: nenhum benefício, talvez danos". Estudos mais bem feitos tinham mostrado que a ingestão contínua de vitamina E aumentava o risco de ataque cardíaco. Atualmente a Cochrane Collaboration afirma claramente que "vitamina E não deve ser recomendada para doenças do fígado". Trato do nível de colesterol com uma dose mínima de rosuvastatina.
Qual não foi minha surpresa ao ler em pleno feriado do dia da criança um artigo escrito pelo amigo Reinaldo Lopes na Folha: "Suplementos de vitamina E aumentam o risco de câncer de próstata". Como eu faço parte do grupo de risco para esse tipo de câncer, devorei o artigo original. Vale a pena comentá-lo porque é um excelente exemplo de ciência bem feita.O objetivo original do estudo era verificar se afinal a ingestão de selênio ou de vitamina E reduziriam o risco de câncer de próstata. A conclusão foi contrária à hipótese: a ingestão contínua de 400mg de vitamina E por dia aumenta em 17% o risco de câncer de próstata em homens brancos com mais de 50 anos e negros com mais de 55 anos. O estudo envolveu 35533 homens e o resultado tem relevância estatística. Mais que isso, os autores reconhecem não poder propor a partir dos dados um mecanismo químico responsável por esse aumento. Ele deve existir e será objeto de mais estudos.
Uma outra conclusão importante é, literalmente: "é preciso que os consumidores sejam céticos em relação a alegações a respeito de saúde de produtos não regulados vendidos  sem controle, na ausência de forte evidência de benefícios demonstrada em testes clínicos".
Espero que outras pessoas não caiam no meu erro de achar que uma vitamina recomendada por 10 entre 10 naturebas era inofensiva. É impressionante a quantidade de drogas e produtos sem nenhum efeito comprovado em testes clínicos sérios que são vendidos livremente em farmácias brasileiras (e americanas também!).
Depois da leitura desse artigo eu, como todos os homens na minha idade deveriam fazer, tenho mais motivos para repetir anualmente meu exame de próstata para caso (mais provavelmente quando) apareçam os primeiros sintomas de câncer ele seja tratado em sua fase inicial, com grandes chances de cura.

Update: O Petrucio me passou links para dois ótimos artigos no Science-Based Medicine: um sobre um estudo de cohorte em mulheres pós-menopausa, que não encontrou evidência de efeitos positivos e outro recente que mostra a inutilidade de ingestão de megadoses de vitaminas.

Referência:
Klein, E., Thompson, I., Tangen, C., Crowley, J., Lucia, M., Goodman, P., Minasian, L., Ford, L., Parnes, H., Gaziano, J., Karp, D., Lieber, M., Walther, P., Klotz, L., Parsons, J., Chin, J., Darke, A., Lippman, S., Goodman, G., Meyskens, F., & Baker, L. (2011). Vitamin E and the Risk of Prostate Cancer: The Selenium and Vitamin E Cancer Prevention Trial (SELECT) JAMA: The Journal of the American Medical Association, 306 (14), 1549-1556 DOI: 10.1001/jama.2011.1437

domingo, 25 de setembro de 2011

O fantasma da OPERA

A  primeira vez que eu cometi um erro monumental num experimento foi lá por 1983 ou 84. Eu fazia o mestrado na Unicamp, onde junto com o trabalho de pesquisa individual de cada um dos membros do grupo tentava desenvolver uma tecnologia de células solares de silício amorfo com 4% de eficiência. Tínhamos preparado um,a nova série com uma camada tipo-n diferente e eu fiquei de medir a eficiência num simulador solar. Era o final do expediente e a primeira célula que medi deu mais de 6%. Todas as demais ficavam entre 5 e 10%. Chamei colegas para verificarem se eu não estava fazendo nada de errado. Nada. Alguém teve a brilhante idéia de ligar para o chefe do grupo vir de casa para comemorar. Quando ele chegou ele não acreditou nos 10%. Apesar de não violar nenhuma lei fundamental da Física, 10% de eficiência com aquela tecnologia estava acima do atingível naquela época. Na verdade alguém numa medida anterior mexeu num controle que ninguém usava e  multiplicou por 10 o ganho de um amplificador de sinal. Nossas células tinham cerca de 1% de eficiência. Mesmo hoje em dia é muito difícil atingir eficiência de 10% com essa tecnologia. Paguei meu mico, pedi desculpas a todos e o episodio só teve conseqüências para o meu ego machucado.

Há ocasiões em que pesquisadores estão certos de que há algo de errado nas medidas mas não conseguem encontrar o que está errado. E o que fazer quando os resultados obtidos violam alguma lei fundamental do universo?

Nos últimos dias a imprensa mundial vem noticiando com estardalhaço o que pode ser uma das mais importantes descobertas dos últimos cem anos: neutrinos movendo-se mais rápido que a luz. Isso teria sido detectado pelo projeto OPERA no CERN. Minha primeira reação, de professor de laboratório de física moderna: mais um grupo de pesquisadores que não sabe tratar erros experimentais buscando notoriedade, a exemplo de vários casos recentes discutidos aqui e em outros blogs. E o anúncio foi feito antes que um artigo tenha sido aceito em alguma revista científica respeitada...

Sexta-feira uma versão preliminar do artigo foi divulgada no repositório ArXiv, junto com o seminário de Dario Autiero, que falou pela OPERA. O seminário dura cerca de uma hora, com mais uma hora de perguntas. Meu julgamento precipitado do grupo estava completamente enganado. Trata-se de um pessoal sério, que sabe muito bem o que está fazendo e trata os erros de forma sofisticada e aparentemente correta. Eles mesmos estão surpresos com o resultado. Em resumo, medir velocidade é sempre medir uma distância e um tempo. A maior fonte de erros nesse caso é a medida do tempo. Eles supostamente conseguem uma precisão muito boa na posição usando uma versão sofisticada do GPS, que dá conta em tempo real do continental drift. Eles conseguem uma precisão de 20cm em 1000km, e afirmam que essa medida poderia ser melhor (1cm) se não se tratasse de um túnel subterrâneo! Ao medir eles detectam os neutrinos chegando 60ns com uma incerteza de 10ns adiantados em relação à velocidade da luz.  Chamamos esse tipo de resultado de "6σ", pois o  sinal é 6 vezes maior que a incerteza σ.
Vale a pena mencionar que essa NÃO é a primeira vez que são detectados neutrinos andando acima da velocidade da luz. Um artigo do experimento MINOS do Fermilab detetou neutrinos a velocidades supraluminais mas os desconsiderou devido às incertezas nas medidas. E há o caso da supernova SN1987a, quando o feixe de neutrinos originado na explosão da estrela chegou à terra 3 horas antes da luz. No entanto, aparentemente o resultado da OPERA não é consistente com o da SN1987a.

 Há um aspecto sociológico interessante. Na Itália, país com uma cultura bastante chauvinista, onde fica o detector em que foram feitas as medidas, o jornal La Stampa não tem o cuidado dos pesquisadores da OPERA e avança tomando como correto o resultado da equipe italiana e colocando a relatividade de Einstein em questão. Ainda bem que ciência não é copa do mundo!

O blog de um físico teórico engraçado mas de estética duvidosa menciona, por exemplo, que desconsiderar a variação do índice de refração da atmosfera (1.00003 contra 1.00000 no vácuo), procedimento legítimo para quase todos os proósitos do GPS, pode ser a causa do aparente adiantamento de 60ns na medida do tempo. O mesmo blog levanta outras hipóteses. O sistema GPS não foi projetado para tamanha precisão. Caso neutrinos realmente andem acima da velocidade da luz há uma dependência da velocidade com a energia que deveria ser observado. Aparentemente isso não ocorre.

Se os resultados da OPERA estiverem corretos, nosso entendimento do universo precisará mudar. A teoria da relatividade restrita, que foi testada tantas vezes, precisará mudar. Minha intuição vai na direção de a relatividade estar correta e alguma fonte de erro sistemático não estar sendo considerada. Extraordinary claims require extraordinary evidence. Afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias. Essa frase foi popularizada pelo extraordinário divulgador da ciência Carl Sagan. Infelizmente, as evidências do OPERA apontam mais para um erro sistemático que escapou dos pesquisadores do que para evidências extraordinárias.

Update: O excelente Física na Veia! do meu colega Dulcídio Braz Jr. tem uma abordagem mais do ponto de vista da Física. Vale a pena conferir. É o nosso segundo bate-blog, expressão cunhada pelo Dulcídio!

Update 2: Citando Bob Park: "Disseram-me que Andrew Cohen e Sheldon Glashow (prêmio Nobel em 1979) em arXiv 1109.6562v1 fazem a observação que neutrinos superluminais iriam irradiar pelo mesmo efeito da radiação de Cerenkov quando a velocidade das partículas excedesse c/n (onde n é o índice de refração do meio). Isso torna claro, se já não estivesse, que a suposta observação de neutrinos superluminais está errada. Ninguém sabe o porquê."

Update 3: Assunto encerrado. Saiu na Science. O suposto efeito era devido a uma má conexão entre um cabo ótico e um cartão eletrônico. A relatividade está salva.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mais kW/h

No início desse ano foi a Época. Agora é a poderosa FIESP. Grande imprensa e federação das indústrias unidas pela confusão conceitual, tão bem comentada com profundidade no Física na Veia!.
Num anúncio de página dupla (páginas B6 e B7) na edição dominical da Folha de São Paulo, a FIESP reclama do preço cobrado pela energia brasileira. Curiosamente, em todo o anúncio não é dito nenhuma vez que eles estão se referindo às tarifas da energia elétrica.
O pior é quando o anúncio denuncia que o preço médio da energia (elétrica, subentende-se) vendido nas usinas é de R$ 90,98 por megawatt/hora. Essa unidade meio estranha se repete outras vezes no texto.
O que há de errado nisso? Simples:  megawatt/hora não é uma unidade de energia! o Watt é uma unidade de potência no Sistema Internacional de Unidades (SI), adotado no Brasil. A unidade de energia é o Joule. Um Watt corresponde a um Joule/s. Em sistemas elétricos é comum utilizar-se a unidade prática Watt.hora, que corresponde a uma potência de um Watt utilizada durante uma hora. Um megaWatt.hora (MWh) corresponde a um milhão (10 elevado à potência 6) Watts.hora.
As concessionárias cobram pela energia consumida, não pela variação da potência com o tempo, como sugere a campanha da FIESP. Se o texto da FIESP estivesse correto, poderíamos deixar todas as luzes, computadores e chuveiros elétricos da casa funcionando o tempo todo e não pagaríamos nada por isso desde que não houvesse variação da potência utilizada.
Na própria página da campanha o megawatt/hora aparece impune na seção chamada "Entenda" (!).
Uma entidade como a FIESP, povoada por engenheiros, devia ser um pouco mais cuidadosa com unidades em seus textos oficiais.
Motivado pela campanha fui conferir minha conta de luz. A CPFL cobra aqui em Campinas R$ 0,32882 pelo kWh, ou seja, R$ 328,82 pelo MWh. Isso é mais de 3 vezes o custo médio na usina! Pagamos pela distribuição o dobro do que pagamos pela geração. Há uma publicação muito legal que compara os preços ao consumidor da energia elétrica em diversos países (infelizmente o Brasil não está nela). O preço varia de US$ 0,0786 no México até US$ 0,3655 na Dinamarca. Nosso valor é comparável aos US$ 0,2060 do Reino Unido. Poderia ser menor.
Com ou sem MW/h sou a favor da assinatura do manifesto. Acho poucas as 2781 dada a dimensão da campanha. Talvez as pessoas tenham se intimidado pelo MW/h e recusam-se a assinar um documento com um erro tão básico de unidades!

Upideite 31/12/2011: O deputado federal Alfredo Sirkis escreveu dia 15/12/2011 um artigo chamado O Desafio Solar na Folha de São Paulo (acesso só para assinantes) onde mede energia elétrica em MW/h e GW/h. Apesar das boas intenções ecológicas, o erro continua. Não é possível medir energia em W/h.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Edzard Ernst, homeopatia e outras pseudociências

O médico e pesquisador Edzard Ernst tem uma carreira peculiar. Durante muitos anos ele manteve uma carreira de homeopata (que não deve considerada atividade médica, como muito bem apontado por um "Médico E Homeopata" no comentário #11 a esse artigo) paralela ao exercício de medicina. Com dez anos de experiência ele iniciou uma carreira acadêmica que o levou a ser o primeiro Professor Titular de Medicina Complementar e Alternativa (MCA) do mundo na Universidade de Exeter, na Inglaterra. Nessa posição ele começou a estudar, com um rigor científico raro para a área, diferentes assuntos relacionados à MCA. Em uma trajetória notável de honestidade intelectual, Ernst terminou se convencendo do que para céticos parece óbvio: que com raras exceções as práticas de MCA tem efeito igual ao efeito placebo. Imagino o quanto isso deve ter custado para ele: ter demonstrado que aquilo no que ele vinha acreditando por anos não corresponde aos fatos. E passar a dizer isso alto e bom tom, inclusive com uma coluna no prestigiado jornal The Guardian, além de livros e numerosos artigos científicos publicados em revistas com rigoroso processo de revisão por pares.
A Época dessa semana publica uma excelente entrevista com o Prof. Ernst. No entanto ela não menciona um fato recente que o colocou em evidência na mídia européia.
Em 2005 o Príncipe Charles, adepto de MCA entre outras bobagens, encomendou ao economista Christopher Smallwood um estudo que mostrasse que MCA é barata e valeria apena mantê-la no Sistema Nacional de Saúde britânico. A propósito, o SUS brasileiro, assim como meu seguro de saúde privado, também financia essas práticas. Comentário meu: do ponto de vista estritamente econômico, MCA é muito efetiva: sem tratamento adequado os pacientes morrem mais rápido e assim deixam de onerar os cofres do sistema.
Ernst tornou-se um ácido crítico do relatório Smallwood, inclusive tendo publicado artigos desafiando a metodologia empregada. Ernst foi acusado pelo secretário do Príncipe de ao publicar seus artigos ter rompido um acordo de confidencialidade em relação ao relatório. Ele foi investigado por uma comissão de sindicância da universidade pela qual, segundo suas palavras, ele foi "tratado como culpado até provar sua inocência". A universidade o considerou inocente, mas continuou tratando-o, segundo ele, como persona non-grata. Toda atividade de captação de fundos para sua pesquisa foi interrompida e ele se viu forçado a fechar seu laboratório.  Em 2011 ele aposentou-se, dois anos antes do previsto.
Ernst é o autor, junto com Simon Singh, do excelente livro Trick or Treatment?. Espero que mesmo depois de sua aposentadoria ele continue ativo trazendo mais luz para o entrevado mundo da Medicina Complementar e Alternativa. Não tenho nem nunca tive nada contra os usuários dessas práticas, mas validá-las e transformá-las em políticas de estado certamente não é uma boa prática. Ernst tem sido uma importante voz nessa direção.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Cultura universitária

Eu passei uma semana de abril visitando a University of Wisconsin - Madison. É uma universidade pública norte-americana das boas, número 17 no ranking de Shangai. Madison foi um centro importante de protestos contra a guerra do Vietnã e pelos direitos civis nos anos 1960, essa história é contada no ótimo documentário War at Home.
Como em todas as universidades norte americanas públicas ou privadas os estudantes pagam parte da sua formação. Seguindo ouvi da reitora Biddy Martin, a UW cobra a segunda menor anuidade de uma universidade pública, depois da Universidade de Iowa. Na minha primeira visita a Madison, no ano passado, ouvi que a contribuição do estado ao orçamento da universidade não passava de 14%. O resto vem de fundos federais (principalmente através de bolsas e contratos de pesquisa), fundos privados e do endowment, essa palavra de difícil tradução porque não é um hábito brasileiro. Para completar, com a eleição do ultra-conservador republicano Scott Walker para o governo do estado o campus de Madison está sendo privatizado. Isso mesmo. Essa palavra que causa horror aos intelectuais das universidades públicas brasileiras foi muito bem recebida pela reitora e comunidade da UW-Madison (mas não pelos demais campi da universidade). Pior, a reitora não foi eleita pelos professores, alunos e funcionários, mas escolhida pelo board of regents (conselho diretor) que é indicado pelo governador (com mandato de sete anos) e envolve representantes da sociedade. Na composição atual só um é da comunidade universitária. Com a privatização o board of regents será substituído por um board of trustees.
Quando cheguei ao Brasil deparei com a notícia de que a família de um banqueiro que havia deixado R$1 milhão para a USP estava pedindo o dinheiro de volta alegando que a faculdade de Direito não cumpriu o contrato de doação que estipulava que o auditório reformado com o dinheiro doado tivesse o nome do doador.
O Brasil tem uma cultura universitária auto centrada, claramente inspirada na Europa da virada do século XIX para o XX.
Vou aqui enumerar algumas das suas características, com a intenção óbvia de acender um debate para que possamos pensar em mudar.

1. Ensino público deve ser gratuito. Partindo do princípio (correto) que pessoal bem formado contribui para o progresso do país, entende-se que o próprio país (ou estado) deve bancar a formação de seus abnegados cidadãos selecionados pelos vestibulares. Além disso, o ensino superior público não for gratuito, como os cidadãos das camadas mais pobres poderão ter alguma chance de subir na vida?
Ocorre que se por um lado a formação superior de qualidade contribui para o progresso do país, ela também contribui para o progresso pessoal do indivíduo. Não me parece absurdo que o indivíduo contribua para parte dessa formação. Programas de bolsas e de crédito educativo podem dar conta de apoiar os estudantes mais pobres. Hoje em dia na Europa já é comum a cobrança de taxas para o ensino superior (em Portugal elas se chamam propinas). As famílias americanas que podem guardam dinheiro para garantir a formação de seus filhos.

2. Universidade privada não faz pesquisa de qualidade. Algumas das melhores universidades do mundo são privadas. Ocorre que as boas universidades privadas não têm fins lucrativos, e funcionam como gestoras de fundos que recebem de fontes públicas e privadas. Assim não ficam amarradas às regulações e leis da burocracia estatal ganhando agilidade e autonomia administrativa. No Brasil praticamente todo o sistema privado tem fins lucrativos. Falta na nossa cultura a percepção de que um patrimônio privado bem gerido pode trazer grandes vantagens educacionais. Antes que alguém me censure, aviso que tenho conhecimento de casos catastróficos de mau uso do dinheiro público por parte de instituições privadas. Um célebre museu na Av. Paulista é o melhor exemplo disso.

3. A comunidade universitária é soberana na sua autogestão. Reitores devem ser eleitos pela comunidade, preferivelmente em eleições paritárias. Todo o funcionamento da universidade deve ser regido por órgãos colegiados que devem ser soberanos.
Acho que em poucos lugares do mundo a escolha de reitores ocorre exclusivamente pela comunidade universitária. As universidades são financiadas pela sociedade e devem considerar essa sociedade na sua gestão. É mais que razoável que um comitê dessa sociedade participe da escolha dos dirigente, que não precisam obrigatoriamente ser professores da própria universidade.
Não aceitamos interferência externa nem mesmo de um doador que vincula sua doação a seu nome batizar algo da universidade.
Sempre que visito universidades no estrangeiro me surpreende que os nomes dos edifícios, bibliotecas, laboratórios, cátedras sejam associados a doadores que nem sempre passaram pela universidade. Eu tive meu doutorado financiado pela bolsa Helmuth Heineman, O senhor Heineman nunca passou pela minha universidade. Ele enriqueceu muito com suas minas de cobre no Chile e doou uma quantidade razoável de dinheiro para estabelecer um fundo que até hoje financia doutorados de latino-americanos em áreas remotamente ligadas a energia em universidades israelenses. Se fosse no Brasil as universidades decidiriam atribuir o nome de algum personagem local ao fundo e talvez o senhor Heineman desistisse de sua doação. Foi exatamente isso que causou a discórdia entre doador e USP.

4. Todo conhecimento tem o mesmo valor, portanto os salários de todos deve ser igual. Isso viola um princípio básico do mercado, e condena algumas áreas a não ter as pessoas mais brilhantes trabalhando na universidade. Infelizmente não existem tantas oportunidades para um físico ou um filósofo como para um dermatologista. Da mesma forma um estudante de medicina está disposto a pagar mais por sua formação que um de antropologia. Na tabela de taxas da UW algumas carreiras custam 3 vezes mais que outras. Há um motivo para isso. Seria importante as universidades poderem oferecer salários compatíveis com a área e competir por professores da melhor qualidade.

5. A educação superior é dever do estado. Se eu enriqueci em função do que aprendi na universidade isso é mérito meu e não devo nada para ela. Não há no Brasil a cultura de doações para as universidades, nem de ex-alunos que enriqueceram nem de empresários importantes. Há pouco tempo um dos empresários mais ricos do Brasil (educado em Harvard) doou um centro de estudos latino-americanos e caribenhos à pública University of Illinois at Urbana-Champaign. O centro leva seu nome. É verdade que no Brasil foi estabelecido o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, mas ele não é parte da universidade e deve-se a o esforço de um cientista brasileiro radicado nos EUA.
O endowment é provavelmente a fonte mais importante de recursos e de estabilidade financeira das melhores universidades do mundo. Nisso precisamos avançar em duas direções: as doações e as condições de aceitação.

Cinco pontos polêmicos é suficiente para um domingo à noite, mas certamente tem muito mais para se discutir sobre cultura universitária. Está mais do que na hora de revermos conceitos muito arraigados. Uma universidade mais dinâmica é muito importante para um país que percebe seu papel no futuro.

sábado, 26 de março de 2011

A busca da equidade no Ensino Superior Brasileiro

O artigo a seguir foi publicado originalmente em inglês no jornal International Higher Education, editado pelo Center for International Higher Education do Boston College
Em alguns lugares do mundo, especialmente nos Estados Unidos, há vários grupos de pesquisa que tratam a atividade humana em ensino superior como assunto científico no sentido de conseguir respostas a perguntas do tipo: Como estruturar um sistema? Como expandir um sistema? Como atrair os melhores estudantes para a ciência, etc.
O artigo foi escrito para um público internacional e portanto contém passagens que podem parecer obvias para os brasileiros. Apesar de estar um pouco fora da pauta usual do blog, publico-o aqui atendendo a inúmeros pedidos (na verdade três) para que eu o publicasse em português e porque esse assunto terá consequências sobre o futuro da atividade científica no Brasil. Agradeço ao Roberto Takata pela primeira versão da tradução.

A busca da equidade no Ensino Superior Brasileiro
Leandro R. Tessler

O Supremo Tribunal Federal está para decidir se as ação afirmativa é compatível com a Constituição Federal. Em 2003, o Conselho Universitário da Universidade de Brasília decidiu reservar 20 porcento das suas vagas para os candidatos PPI (pretos, pardos e indígenas) brasileiros, a partir do processo seletivo de 2004. Após essa decisão, diversas instituições de ensino superior adotaram programas de ação afirmativa, seja por iniciativa própria seja seguindo leis estaduais. Em 2009, o partido de direita Democratas (DEM) entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal, alegando que o sistema de cotas raciais da Universidade de Brasília violaria não menos que nove preceitos fundamentais da Constituição. A decisão sobre esse caso determinará o futuro das políticas de ação afirmativa no Brasil. A imprensa geral e especializada vem publicando artigos que buscam formar opinião para uma ou outra posição. Surpreendemente, todo os artigos “provam” que ação afirmativa é ou a salvação ou uma ameaça a todo o sistema de ensino superior brasileiro.

O inevitável viés das provas seletivas
O Brasil teve que esperar até o início do século 20 para ver o estabelecimento das primeiras universidades. Já em 1911, o Ministro da Justiça e Negócios Interiores aprovou uma lei determinando que o acesso às instituições públicas de ensino superior deveria se dar por um exame universal, que se tornou conhecido como vestibular, já que os candidatos eram em número superior ao de vagas existentes. Essa lei tinha a intenção de introduzir a equidade ao processo seletivo: em lugar de serem escolhidos entre os membros da elite, seriam admitidos os mais bem preparados em um processo democrático e imparcial que oferecia as mesmas chances para todos. Um século depois, a maioria das instituições ainda organizam e aplicam seus próprios processos de admissão, embora o Ministério da Educação tente implementar um exame nacional similar ao SAT. Ao longo dos anos, o público brasileiro foi levado a perceber o vestibular como um processo justo e confiável. No entanto, estudos têm mostrado que mesmo onde os testes são cuidadosamente preparados para depender mais das capacidades verbais e de raciocínio do que da memorização, os candidatos de famílias mais ricas têm mais chances de sucesso. Algum grau de viés do teste é inevitável.

A melhor educação: ensino fundamental particular, educação superior pública
Desde os anos de 1990, a expansão do sistema de ensino superior tem se dado principalmente entre as instituições privadas com fins lucrativos e de menor qualidade. Atualmente, apenas 25 porcento dos 5,5 milhões de matrículas são em instituições públicas de maior qualidade, que são constitucionalmente proibidas de cobrar mensalidades. Devido à falta de investimentos apropriados, a qualidade da educação fundamental pública caiu drasticamente a partir da década de 1960. Escolas particulares caras de educação fundamental que preparam seus alunos explicitamente para ter sucesso no vestibular das melhores universidades públicas são as preferidas pelos que podem arcar com os custos. Como consequência, esse modelo de exame tornou-se um instrumento validado de exclusão social: as vagas mais disputadas das melhores universidades públicas são ocupadas principalmente por candidatos brancos das classes média e alta. Ter estudado em escola pública ou particular tornou-se um indicador confiável da classe social.

O debate da equidade
A demanda para tornar o vestibular das universidades públicas mais equitativo começou ainda na década de 1990. Depois da Conferência Mundial contra o Racismo, em Durban, 2001, pressões para o estabelecimento de cotas para estudantes de escolas públicas e para PPI ganharam força. Logo o debate chegou à grande imprensa e a círculos intelectuais por todo o país; as discussões tornaram-se altamente polarizadas. Movimentos sociais organizados, especialmente de ativistas negros, demandavam cotas raciais em todas as universidades públicas usando argumentos de reparação histórica pelo passado de escravagismo e racismo. Do outro lado, intelectuais que realmente acreditavam na justiça e democracia associados ao vestibular alegavam que a implementação de ação afirmativa seria injusta com os candidatos que obtinham pontuação maior nas provas (e não seriam admitidos) e certamente iria reduzir o nível acadêmico das universidades públicas.

A questão mais controversa era se raça poderia ser usada como critério para ação afirmativa. Devido à radicalização do debate, cotas tornaram-se sinônimo de ação afirmativa no Brasil. Diversas universidades (algumas fontes dizem que 70% de todas as instituições públicas de educação superior) aplicam alguma forma de ação afirmativa, mais frequentemente cotas para escolas públicas. Enquanto isso, o Governo Federal criou o Programa Universidade para Todos (ProUni), em que universidades privadas ganham redução de impostos se não cobrarem mensalidades para um certo número de estudantes das escolas públicas, entre os quais uma porcentagem de PPI. Curiosamente, embora beneficie 500 mil estudantes e na prática implemente cotas sociais e raciais, esse programa nunca foi alvo das severas críticas dirigidas aos programas de ação afirmativa nas universidades públicas. A elite brasileira aparentemente percebe as prestigiosas instituições públicas de ensino superior como seu território exclusivo.

Confiabilidade na seleção
No que se refere ao desempenho acadêmico, os sistemas de cotas que reservam vagas para um número fixo de estudantes independentemente da demanda pode admitir estudantes que não estão nem um pouco preparados para a educação superior de qualidade. Relatos individuais confirmando isso em diversas instituições são frequentemente ideologicamente motivados, inconclusivos e não confiáveis – apoiando-se mais de opiniões preconcebidas que em dados robustos. Em contraste, um estudo recente e abrangente comparou resultados acadêmicos da Unicamp, uma conceituada universidade de pesquisa do Estado de São Paulo, com da UFBA, a Universidade Federal da Bahia. Desde 2005 a primeira adota um sistema de bônus para estudantes das escolas públicas e para PPIs autodeclarados. A última tem um sistema de cotas, reservando quase metade das vagas para essencialmente a mesma população. Os dados da Unicamp mostraram que estudantes das escolas públicas admitidos com bônus, em média, possuem melhor desempenho do que seus correspondentes que estudaram em escolas privadas. Isso significa que os estudantes admitidos pelo programa de ação afirmativa estão na verdade mais bem preparados do que aqueles que deixaram de ser admitidos por causa deles. Na UFBA, como em qualquer lugar que adote cotas, os candidatos que deixaram de ser admitidos em função da ação afirmativa são os que têm as menores notas no vestibular entre os não-cotistas. O desempenho acadêmico e a taxa de evasão dos estudantes admitidos por cotas não são piores do que os dos últimos classificados no vestibular nos anos anteriores à adoção de cotas (que eles estão substituindo).

Um grande número de estudantes que alcançam a educação superior com a ajuda de programas de ação afirmativa no Brasil, vêm de escolas secundárias de baixa qualidade. Isso não significa que eles não tenham talento ou as competências necessárias para completar a educação superior de boa qualidade. Dadas as condições adequadas, os melhores estudantes vindos de condições socioeconômicas adversas se saem melhor do que seus colegas após um ou dois semestres na universidade. Suas taxas de evasão podem ser maiores do que a média em algumas instituições, mas não maiores do que as correspondentes aos candidatos que eles substituem. Como um benefício colateral, as instituições tornam-se mais diversas, proporcionando um ambiente melhor para a educação.

As reais consequências institucionais e sociais dos programas de ação afirmativa no Brasil ainda não estão claras porque a primeira turma ainda está se formando. Independentemente de qual venha a ser a decisão do Supremo Tribunal Federal, o sucesso dos programas de ação afirmativa no Brasil mostra que selecionar estudantes com base somente no desempenho em uma bateria de testes está longe de ser um processo justo, democrático e equitativo. Todo o processo de seleção de alunos deveria ser ser revisado nos próximos anos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Homeopatia não é ciência

ResearchBlogging.orgOs eventos ocorridos às 10:23 do último sábado 5/2/2011 chamaram mais uma vez a atenção para o status da homeopatia na sociedade brasileira. Isso fez com que a Associação Médica Homeopática Brasileira se sentisse incomodada a ponto de manifestar-se através de Nota Oficial em seu periódico "A Gazetinha". Nota oficial, como seu pomposo nome indica, é um recurso utilizado quando algum fato é grave o suficiente demandando uma atitude formal e solene. Aqui vou analisar e comentar a nota e as informações nela contidas dentro de uma visão científica.
O cabeçalho da Gazetinha, reproduzido aqui, já chama a atenção. Além de uma estranha imagem de Samuel Hannemann, o criador da doutrina homeopática e do logo da associação, aparecem os logos da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina, como se eles fossem parceiros da AMHB na publicação. A presença do logo da AMB se justifica. Trata-se de uma associação à qual a AMHB é filiada. Já a presença do CFM causa desconfiança. O que o logo de um conselho que possui atribuições constitucionais de fiscalização e normatização da prática médica faz na Gazetinha? Seria a Gazetinha um instrumento de fiscalização e normatização? Obviamente não. Por exemplo, na capa do boletim Circulação da Associação Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular há o logo da AMB mas não o do CRF.
O título da Nota Oficial é "Céticos versus homeopatia: conflitos de idéias e interesses". Abaixo reproduzo em azul e comento somente as partes principais que estão em desacordo com os fatos e com a Cultura Científica.

"Com apelos publicitários expressivos, lançam mão agora de falsos conceitos sobre a ciência, para enganar a opinião pública e principalmente tentar ludibriar as INSTITUIÇÕES de ensino, de pesquisa e de profissionais."
Não sei exatamente a quem a nota se refere, mas não li nenhuma linha crítica à homeopatia empregando "falsos conceitos sobre a ciência para enganar a opinião pública".

"Os motivos verdadeiros que os movem, naturalmente se escondem atrás das fontes de seus financiamentos. E estas fontes não são oriundas da ciência nem daqueles que são sinceros com os interesses da mesma!"
A velha e paranóica afirmação em relação aos cientistas que mostram que homeopatia não é ciência. Este blog, como vários outros, tem reiteradamente afirmado que homeopatia não é ciência. E nunca recebeu um centavo da indústria farmacêutica. Aliás, ele não tem fonte de financiamento alguma.

"A homeopatia tem sido uma ferramenta a mais nas mãos das ciências médicas há mais de 200 anos, prestando serviços à saúde das populações. Ao longo destes anos, os HOMEOPATAS jamais se furtaram ao debate acadêmico e científico."
Aí está a primeira confusão conceitual: Ciência não é debate. É método. Ao contrário do que ocorre nas humanidades, o debate acadêmico científico só existe balizado por uma metodologia que permite verificar hipóteses. As idéias de Hannemann jamais foram validadas pelo método científico. Ao contrário.

"E do ponto de vista da ciência, existe algo que nunca se pode abrir mão: SÃO OS FATOS."
Eu não poderia concordar mais com essa passagem da nota.

"É importante salientar que a Organização Mundial de Saúde, além de constatar o crescimento do uso da homeopatia nos diversos continentes, vem também adotando como estratégia o incentivo aos seus países membros, para que adotem o uso da homeopatia como recurso terapêutico e adotem pesquisas sobre a segurança e a eficácia de seu uso."
Essa frase longa contém uma verdade e uma mentira.
É verdade que a OMS publicou em 2010 um "Guia de Segurança para a preparação de remédios homeopáticos, que pode ser obtido diretamente na página da OMS. Nada mais apropriado: vários remédios homeopáticos são preparados a partir de substâncias altamente tóxicas ou letais, sacudidas e diluídas até que não sobre nenhuma molécula da substância original no remédio que será tomado. É muito importante o farmacêutico que prepara essa diluição ter certeza de que nenhuma molécula tóxica está presente no produto final, caso contrário conseqüências desagradáveis podem ocorrer.
É mentira que a OMS incentive o uso da homeopatia. Em 1999 B. Poitevin, então presidente da "Associação Francesa de Pesquisas em Homeopatia" publicou um artigo de opinião no Bulletin of the World Health Organization, no qual ele propunha a integração da homeopatia nos sistemas de saúde. Esse artigo reflete a opinião do Sr. Poitevin, não da OMS.  Em meados de 2010 o grupo Voice of Young Science Network enviou uma carta aberta à OMS sugerindo que a OMS condenasse o uso de homeopatia para tratar de tuberculose, diarréia infantil, gripe, malária e HIV. Todas doençcas que podem levar ao óbito do paciente. A carta foi devidamente criticada na página da ABMH. No entanto, a OMS pronunciou-se claramente NÃO recomendando homeopatia para tratar essas doenças. Isso está documentado no Counterknowledge e pela BBC.

"SÃO OS FATOS OBSERVADOS PELA EVOLUÇÃO CLÍNICA DOS PACIENTES E DOENTES que atestam e cientificamente definem o valor de um tratamento, pois a prova final será dada pela qualidade dos resultados clínicos, em termos de segurança e eficácia, para a medicina."
Quem escreveu a nota mostra desconhecimento do que é o método científico. Testes clínicos científicos exigem um protocolo rígido a ser seguido, o do estudo duplo cego. Todos os meta-estudos feitos a partir de estudos duplo-cego até hoje mostraram que a homeopatia não tem efeito maior que o placebo. Isso é definitivo, motivou em 2005 um editorial da Lancet sugerindo que não se gaste mais recursos em pesquisas com homeopatia. O resultado não surpreende, dado que os remédios homeopáticos não contém concentração relevante de princípio ativo.

"Por isso, o nosso repúdio a este movimento de pseudo-céticos ingleses, que procuram expandir mundo afora os seus ataques à Homeopatia, que insultam deliberadamente a inteligência, a autonomia, as instituições, a auto-determinação e a soberania da nação brasileira!"
Não sei por que a nota qualifica o movimento 10:23 britânico como pseudo-cético. A frase final de tom emocionado-nacionalista mostra um certo exagero. Eu venho há anos dizendo que a homeopatia não é uma prática científica sem insultar essa lista de instituições.

Para finalizar esse longo texto, quero chamar a atenção para o que o NCCAM afirma sobre homeopatia em sua página. O National Center for Complementary and Alternative Medicine é uma instituição de pesquisa do National Institutes of Health norte-americano que foi estabelecida para estudar medicina complementar e alternativa. Ele foi criado por pressão de membros do congresso adeptos dessas práticas que esperavam assim validá-las. Milhões de dólares do contribuinte americano foram investidos nessas pesquisas. Está na página deles:
"A maior parte das análises da pesquisa em homeopatia concluiu que há pouca evidência para apoiar homeopatia como um tratamento efetivo para qualquer condição de saúde específica, e que muitos estudos foram falhos. No entanto, existem alguns estudos observacionais individuais, estudos duplo-cego controlados por placebo, além de pesquisa laboratorial que apontam resultados positivos ou propriedades físicas e químicas únicas de remédios homeopáticos".

Eu adoraria ver esses raros estudos.

O maior problema com a Nota Oficial da ABMH é que ela pretende validar cientificamente o que não pode ser demonstrado cientificamente. E apelam para outras formas de validação de autoridade, como o logo e a menção ao CRM e a falsa recomendação da OMS.

Não seria a hora, como sugeriu aqui nesse blog o ex-conselheiro e ex-diretor do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) Dr. Celio Levyman, de o CRM rever o status de especialidade conferido à homeopatia? Não poderíamos seguir o exemplo do Voice of Young Science Network e buscar formar opinião nessa direção?

Referências: 
Shang, A., Huwiler-Müntener, K., Nartey, L., Jüni, P., Dörig, S., Sterne, J., Pewsner, D., & Egger, M. (2005). Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy The Lancet, 366 (9487), 726-732 DOI: 10.1016/S0140-6736(05)67177-2

The Lancet, . (2005). The end of homoeopathy The Lancet, 366 (9487), 690-690 DOI: 10.1016/S0140-6736(05)67149-8

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Desespero homeopático, ou beba gotas de água e vá em cana

Era 2004. As mais importantes companhias de seguros de saúde belgas dobraram-se à pressão popular e passaram a cobrir os custos de tratamentos homeopáticos. Um grupo de 23 céticos caiu em profunda depressão devido à decepção com o fato de as seguradoras encorajarem a charlatanice (nas palavras deles). Isso teve uma conseqüência terrível, e os levou a decidir pela única saída. Suicídio em massa em praça pública. Eles resolveram tomar um coquetel de venenos mortais que incluiu arsênico, veneno de cobra e beladona. Para o horror dos homeopatas, eles aumentaram a potência da mistura da melhor maneira homeopática. Diluíram uma parte em 100 de água, obviamente tomando o cuidado de sacudir o frasco vigorosamente antes da diluição para potencializar o efeito. Essa diluição foi repetida 30 vezes, obtendo assim um preparado mortal diluído 30C. Qualquer homeopata que se preza garantirá que numa diluição dessas é preciso tomar muito cuidado com os remédios. Todos os jornais e TVs foram convidados para acompanhar a lenta agonia dos 23 suicidas, entre os quais renomados professores de medicina. A cobertura da mídia foi um sucesso. A tentativa de suicídio um fracasso.

Hoje lembrei dessa história que na época apareceu no What's New e no Skeptical Enquirer.

Em poucas horas, às 10:23 da manhã de 5/2/2011 ocorrerá em Natal, São Paulo e Porto Alegre, assim como em várias outras cidades do mundo, o Desafio 10:23 2011. Várias pessoas (inclusive eu, não fosse um imprevisto doméstico que me impede de viajar até São Paulo) tomarão overdoses de preparados homeopáticos para mostrar de uma vez por todas que homeopatia é feita de nada. 10:23 é uma alusão ao número de Avogadro, que implica que qualquer coisa diluída acima de 10²³ (aproximadamente 12C) não contém nenhuma molécula do produto original. Tem mais sobre o protesto muito bem humorado no Ceticismo Aberto

Claro que isso causaria a ira das várias organizações homeopáticas. No entanto uma delas passou dos limites do risível. Segundo a Associação Brasileira de Farmaceuticos Homeopatas (ABFH) todos aqueles que estiverem bebendo água ou engolindo bolinhas de açúcar em praça pública às 10:23 do dia 5/2/2011 devem ser presos. Isso mesmo: ir em cana. A página deles tem a seguinte chamada: Movimento dos céticos contra homeopatia pode cometer crime se consumir medicamentos em praça pública. Não resisto a reproduzir a declarações de Márcia Gutierrez, a presidente da associação: “Um ato de irresponsabilidade contra a saúde pública que pode ser impedido pelas autoridades, tanto sanitárias quanto da segurança”. A matéria continua dizendo que "De acordo com a lei penal, este ato pode configurar crimes de indução ao suícidio, infração de medida sanitária preventiva e incitação ao crime."
Como foi mostrado acima, a última tentativa de suicídio homeopático na Bélgica foi um fracasso total. Pelo contrário, talvez se mais suicidas fossem adeptos da homeopatia e utilizassem seus venenos em diluições acima de 12C teríamos uma redução na taxa de sucesso dos suicidas.
Márcia vai além: "A prática proposta por esse grupo torna-se perigosíssima à saúde dos manifestantes, tendo em vista que os medicamentos homeopáticos devem ser tomados observando as prescrições e recomendações médicas, podendo desenvolver em pacientes, sensíveis a eles, uma série de sinais e sintomas peculiares ou mesmo a gravação (sic) de sintomas de enfermidades pré-existentes. Também a prática proposta pode levar insegurança e pânico aos milhares de pacientes que no Brasil e no mundo fazem uso da homeopatia como escolha terapêutica e que influenciados por este episódio poderão optar pela interrupção do tratamento vigente expondo-os também a sérios riscos de comprometimento de seu estado saúde."
Essa é realmente boa. Já imagino o pânico nos pacientes adeptos da homeopatia quando algum dos manifestantes tomar sua overdose homeopática.
A ABFH continua reduzindo o protesto a uma disputa comercial britânica (a velha inimiga indústria farmacêutica, que como se sabe não é nenhuma flor de ética) e insiste que "os estudos sobre a eficácia do medicamento (sic) homeopáticos são divulgados quase que exclusivamente no âmbito científico, médico e farmacêutico." Desnecessário repetir aqui que os estudos publicados nas mais prestigiosas revistas científicas têm sempre demonstrado que o efeito da homeopatia nunca é maior que o efeito placebo.
O desespero demonstrado pelo tom da notícia da ABFH e ao sugerir a prisão das pessoas que cometerão o crime de beber uma overdose de água sacudida só mostra que o protesto está tendo um efeito colateral antes mesmo de começar. Parabéns aos organizadores!

Esse texto é dedicado ao Omo, o simpático rapaz de 3 meses e meio dessa foto, que conquistou a todos da casa. Quando cheguei em casa hoje ele estava machucado e caído. A veterinária diagnosticou um rompimento da bexiga, talvez devido a um atropelamento. O estado dele é grave e só poderá ser operado amanhã cedo. Espero que ele resista a essa noite e amanhã tudo dê certo na cirurgia.




Update 1. O Omo infelizmente não resistiu até poder ser operado.


Update 2. Há um post legal sobre o mesmo assunto no Bule Voador.



segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A Época do kW/h

Durante meus anos coordenando o vestibular da Unicamp eu recomendei sempre que os candidatos lessem jornais e revistas para se manterem informados. Mas tenho ficado surpreso pela baixa qualidade das matérias que envolvem ciência. Um amigo jornalista uma vez me corrigiu ironizando sobre o fato de eu entender melhor os assuntos ligados à ciência que os demais...
Aqui registro mais um de uma longa lista. A revista Época da semana passada publicou um diagrama para explicar a nova iluminação do Cristo Redentor no Rio que é um amontoado de erros e equívocos.
A partir de 1º de março o Cristo será iluminado por LEDs. Época se atrapalha ao tentar explicar o que é um LED. Segundo ela, as lâmpadas comuns "tem filamentos que propagam calor e se queimam. A luz se dispersa mais facilmente." Já o LED "é baseado em um condutor elétrico (diodo). A luz é dirigida, melhorando o foco."
Se você consegue entender alguma coisa a partir dessa explicação deve ser um gênio.
O que a revista queria dizer é que o funcionamento das lâmpadas de filamento é baseado na radiação térmica emitida devido à alta temperatura do filamento (cerca de 2800 a 3000ºC). Somente uma pequena parte da energia emitida corresponde à parte visível do espectro eletromagnético, sendo o resto perdido na forma de calor. É possível modelar a emissão do filamento como se esse fosse um corpo negro.
Isso caso o Cristo ainda fosse iluminado por lâmpadas de filamento. Há décadas a iluminação é feita por lâmpadas de haletos metálicos, nas quais a luz é resultado de uma descarga elétrica em um gás a alta pressão, que são muito mais eficientes. Não há filamento aquecido, mas um arco de alta voltagem. Essas lâmpadas emitem algum calor devido à alta potência dissipada no arco, mas muito menos do que as lâmpadas de filamento.
Já os LEDs baseiam-se na emissão de luz devido à recombinação de portadores em uma junção de semicondutores. Essa emissão tem um espectro bastante estreito comparado às lâmpadas de filamento e de descarga de gases e por isso são ainda mais eficientes. Praticamente toda a energia é emitida na forma de radiação visível.
Pode piorar? Claro que sim. Quando Época decide explicar a sustentabilidade a confusão só aumenta. Eles desenham um diagrama mostrando corretamente que atualmente as lâmpadas (que não são de filamento!) emitem luz e calor para frente. Na verdade elas emitem em todas as direções mas um refletor atrás da lâmpada projeta toda a radiação para frente. Mas segundo eles nas lâmpadas LED a luz sai pela frente e o calor por trás. Como elas conseguem essa façanha é impossível saber. Desconfio que isso seja resultado de um entendimento muito raso do processo por parte de quem fez o diagrama. Os LEDs também emitem calor em todas as direções, mas a quantidade de calor emitida é muito pequena comparada com a energia luminosa.
E a pérola maior: o consumo. Segundo a revista o consumo vai cair de 72 para 17,2 kW/h. Potência (medida em kW) por unidade de tempo (medida em horas) é uma grandeza sem significado nesse contexto.
É possível entender de onde vem essa confusão. A concessionária de energia elétrica cobra pela energia que fornece, não pela potência. Ela usa uma unidade prática de energia que é o kWh (kW*hora, e não kW/hora). Um kWh corresponde a um dispositivo com 1000 W de potência operando durante uma hora. Por exemplo, um banho de 12,5 minutos (0,208 hora) em um chuveiro elétrico de 4800 W consome 1 kWh. Um banho de 25 minutos no mesmo chuveiro elétrico na posição "verão", de 2400 W consome também 1 kWh.
O que a revista provavelmente queria dizer é que a potência do novo sistema de iluminação é de 17,2 kW. O /h apareceu para o consumo ficar parecido com a conta de luz. Só que kW/h é muito diferente de kWh.
Enfim, um assunto que poderia ser esclarecedor numa das mais importantes revistas semanais brasileiras virou uma peça de desinformação com uma seqüencia de erros primários. Uma revista desse tamanho poderia, a exemplo de similares estrangeiras, pagar um bom consultor científico.

Update: Numa parceria inédita, há uma continuação muito aprofundada desse post no ótimo Física na Veia!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

(Des)Equilíbrio Poderoso

Esse assunto foi motivo de vários textos no passado, como o do Ceticismo Aberto e mais recentemente do Coletivo Ácido Cético (eu realmente adorei o nome deste blog). Ele voltou a mim ontem com uma ligação Equilíbrio e Saúde da Folha de São Paulo, enquanto eu comprava frutas para garantir uma alimentação equilibrada. Ele queria saber se pulseiras com hologramas podem afetar o equilíbrio de uma pessoa. Imediatamente pensei no que ele queria dizer com equilíbrio. Equilíbrio mental? Emocional? Financeiro?


de um jornalista da editoria
Power Balance (literalmente Equilíbrio Poderoso, ou Equilíbrio do Poder, ou Equilíbrio da Potência), uma empresa com sede em Orange County na California, foi fundada em 2007 "por atletas com uma grande experiência em cuidado holístico". Essa empresa só comercializa quatro produtos: uma pulseira de silicone (que existe em 16 cores), uma faixa de neoprene (em 10 cores),  um pendente em liga de zinco (em duas cores) ou um pendente em prata de Bali. Os produtos são vendidos por US$ 29.95 na página da empresa (US$ 79.95 em prata) e têm em comum o holograma reproduzido ao lado. Até aí tudo bem. Gosto não se discute. Todo cidadão tem o direito de carregar os penduricalhos que bem entender e pagar por eles o que achar razoável. No entanto, o fabricante afirma que "Power Balance é baseado na idéia de otimizar o fluxo de energia do corpo natural, semelhante aos conceitos que sustentam muitas filosofias orientais. O holograma em Power Balance foi projetado para entrar em ressonância e responder ao campo de energia natural do corpo". Aí complicou. No Brasil elas passaram a ser chamadas de "pulseiras bioquânticas". É curioso como freqüentemente as pessoas acham que todo tipo de picaretagem em saúde tem a ver com mecânica quântica.
Um holograma é um registro de imagem baseado em padrões de interferência de luz. Para descrever o fenômeno, que rendeu o Prêmio Nobel de 1971 a Dennis Gabor, é preciso usar uma descrição sofisticada da teoria eletromagnética clássica. Nadinha de Mecânica Quântica.
Nenhum holograma pode entrar em ressonância com o campo de energia natural do corpo porque hologramas não entram em ressonância e não existe campo de energia natural do corpo.
Em agosto de 2010 a ANVISA determinou através da Resolução 4092 a suspensão de todas as propagandas dos produtos Power Balance e similares "pelo fato dos produtos apresentarem indicações de uso em saúde e não possuírem o devido cadastro junto à Anvisa".
Na Austrália eles foram muito mais longe: A Comissão de Concorrência e Consumo obrigou a empresa a reconhecer que fazia alegações sem fundamento em sua página e a publicar o seguinte Anúncio Corretor:
"Em nossa publicidade afirmamos que as pulseiras Power Balance melhoram sua força, equilíbrio e flexibilidade.
Admitimos que não há evidências científicas confiáveis que sustentem nossa alegação e portanto nós tivemos uma conduta enganosa, violando o artigo s52 do Trade Practices Act de 1974.
Se você acha que foi enganado por nossas promoções, queremos pedir desculpas sem reservas e oferecer um reembolso total.
...
Este Anúncio Corretor foi pago por Power Balance Australia Pty Ltd e publicado seguindo um compromisso com a Comissão Australiana de Concorrência e Consumo de acordo com a  seção 87B do Trade Practices Act de 1974."

Para provar que a Power Balance respeita o consumidor também no Brasil, eles mostram um alerta contra falsificações já na página de entrada brasileira. Como todo o produto que é vendido por um preço muito acima do custo (segundo o próprio representante é impossível vender por menos de R$120 no Brasil) eles são vítimas de imitações. Eles alertam para a venda de produtos clandestinos em "sites piratas e pequenos comércios" e dão uma série de orientações ao consumidor. A melhor de todas:

"- Se você comprou seu Power Balance em sites de venda - DESCONFIE, Provavelmente você adquiriu um produto falso sem utilidade."

Falso sim, mas tão (in)útil quanto o original. E o representante já afirmou que ao contrário da Austrália, no Brasil não haverá devolução de dinheiro aos incautos.

Provavelmente existe um efeito similar ao placebo nas pessoas que usam as tais pulseiras. Basta ver o depoimento do piloto Rubens Barrichello, que "sentiu uma diferença muito forte na pista". Pelo menos uma coisa é verdade: o fabricante nunca afirmou que o uso das pulseiras pode fazer um piloto andar rápido! Há vários vídeos no YouTube mostrando uma suposto melhor equilíbrio quando as pessoas sabem que estão usando a pulseira. Mais placebo impossível.



Mesmo estando claro que os hologramas não melhoram nem seu equilíbrio nem sua capacidade de pilotar um carro de Fórmula 1, ter alguns hologramas no bolso não causam dano algum à saúde. No entanto, seu equilíbrio financeiro pode ser duramente afetado se você tem uma tendência a se afastar dos hologramas presentes nas notas de R$20, ou pior ainda, não souber controlar o poder oferecido pela águia ou pelos dois mundos que aparecem nas imagens holográficas dos cartões de crédito mais utilizados. Nesse sentido, certamente alguns hologramas afetam o equilíbrio. Negativamente...

Update: Tem Power Balance de barbada aqui.
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