quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Cólera, epidemiologia e celular

Em meados do século XIX Londres era castigada por freqüentes surtos de cólera. As pessoas que a contraíam a doença quase sempre morriam em poucos dias. Havia pouco a fazer pelos pacientes. Sabia-se que pessoas próximas às já infectadas tinham tendência a também contrair a doença. Com essas evidências e sem ainda ter sido estabelecida a conexão entre doenças contagiosas e micróbios, o melhor modelo para a propagação da doença era a teoria do miasma. O miasma era um suposto vapor ou névoa invisível contendo partículas de matéria em decomposição (miasmata) que carregaria a doença. Ele supostamente podia ser identificado pelo cheiro nauseabundo característico. Um modelo que fazia sentido e tinha suporte parcial nos dados disponíveis na época.
John Snow era um médico inglês reputado por seus estudos em anestesia. Ele era um cético em relação ao modelo do miasma, que nem sempre se verificava. Por isso ele fez algo simples que mudou a história da medicina: marcou em um mapa o número de mortos por cólera em cada casa da Broad Street no surto de 1854. Com o auxílio do mapa acima ele mostrou que o número de mortos em cada casa diminuía na medida em que se afastava de uma bomba usada para o abastecimento de água potável. Mais que isso, não havia nenhum morto na cervejaria (BREWERY no mapa), onde os operários bebiam a água da fonte usada para a fabricação do precioso líquido em lugar da água bombeada. Snow concluiu corretamente que a transmissão da cólera devia estar relacionada com o consumo de água contaminada. Para provar isso e evitar mais mortes Snow usou seu prestígio para fazer com que a alavanca de bombeio fosse retirada. O surto desapareceu graças à primeira intervenção de um médico sanitarista na história.
E estava criada a epidemiologia. Desde então a interpretação de dados demográficos é uma ferramenta fundamental para ajudar a entender relações sutis de causa e efeito em saúde. Um trabalho bem feito pode mudar a história. Há uma excelente palestra legendada sobre o assunto no TED.
Lembrei disso ao ler uma matéria publicada na Folha há algumas semanas. Uma tese de doutorado defendida na UFMG afirma associar proximidade da antena de celular a maior probabilidade de câncer.
Uau. Finalmente a mecânica quântica foi desmentida (ver artigo anterior) e fótons de alguns mili eV estão conseguindo causar danos em ligações químicas de mais de 3 eV em moléculas de DNA. Será verdade?
Lá vou eu em minha eterna busca por informação. Infelizmente a UFMG não disponibiliza suas teses on line, de forma que não é fácil obter uma cópia eletrônica. Mas um resultado epidemiológico de tal importância certamente foi publicado em uma revista importante. Peço ajuda ao Google Acadêmico. Nada. Ou seja, uma pesquisadora mineira mostra definitivamente que a proximidade a antenas de celular aumenta a incidência de câncer e não publica isso numa revista de impacto? Sempre pode piorar. Basta entrar na página da MRE Engenharia, uma empresa que ganha dinheiro explorando a desinformação e o medo de radiações invisíveis que foi incutido nas pessoas ao longo dos últimos 30 anos. Por exemplo, ali aprendemos que "Radiações eletromagnéticas dos linhões preocupam" e podemos agendar uma "Medição de radiações eletromagnéticas Industrial, Empresarial, Ocupacional, Residencial e de Público em Geral".  Não só isso, lá podemos comprar a tese de mestrado da autora, "com impressão colorida, 175 páginas e encadernação com capa dura, enviada por Sedex, preço sob consulta". Há também referências a uma série de artigos da revista Patophysiology, lamentavelmente célebre por seus baixos padrões editoriais e por publicar regularmente artigos mostrando que tudo causa câncer, do tipo de cama (isso mesmo!!) a qualquer campo eletromagnético, ou as maravilhas da drenagem linfática. Desnecessário mencionar a ligação próxima entre a autora das teses e a empresa. Pelo menos eles não prestam serviços de des-fantasmização. A Folha também publicou uma entrevista com a "epidemiologista" Devra Davis, que afirma um amontoado de besteiras sobre celulares e câncer. Um recente What's New questiona a qualificação da Dra. Davies como epidemiologista.
Existe epidemiologia como a feita por Snow e seus seguidores 150 anos depois e que através de rigorosa análise de dados continua produzindo resultados científicos relevantes. Existe pesquisa mal feita, com metodologia furada e sem rigor algum, que nem consegue ser publicada em uma revista internacional como as citadas acima.
Enquanto isso, o Science Based Medicine abre um artigo dizendo que "Telefones celulares continuam sendo o foco de estudos epidemiológicos e preocupação pelo público, apesar de até hoje não ter aparecido evidência convincente de qualquer qualquer risco à saúde a eles associado". Aliás, uma das autoras do SBM fez uma declaração com o bom senso dos médicos em lugar da pretensão dos físicos ao Skeptic Magazine: "Não existem boas evidências de que telefones celulares causem câncer. Até hoje não estou convencida que os mecanismos propostos possam causar câncer". Gostei muito disso. É possível que os celulares causem câncer, mas se esse for o caso, certamente não é através dos mecanismos propostos. No entanto, até hoje não há evidências epidemiológicas confiáveis que sugiram isso. Nem os estudos mineiros.
O mesmo vale para vários tratamentos alternativos sem base científica: É possível que acupuntura tenha um efeito analgésico, mas isso não se deve a correções do fluxo de qi pelos meridianos. É possível que quiropraxia alivie dores nas costas, mas isso não se deve à ação da inteligência inata nem ao realinhamento das vértebras. É possível que as pessoas melhorem enquanto usam homeopatia, mas isso não se deve ao potencial das diluições infinitas nem ao reforço dos sintomas. O perigo das pseudociências para nossa compreensão é justamente esse: propor mecanismos sem pé nem cabeça e acreditar neles mesmo quando as evidências apontam em outra direção.
Celulares são equipamentos extremamente perigosos para nossa saúde, quando na mão de motoristas. Pelo menos aqui em Campinas vejo todo dia gente dirigindo enquanto fala ao celular (ou será que é falando ao celular enquanto dirige?) sem medo nenhum de punição, multa ou de causar um acidente grave. Algum dia alguém fará um estudo epidemiológico sério mostrando que celular associado a automóvel põe em risco usuários e transeuntes. Mas através de um mecanismo de mecânica que nada tem a ver com as emanações de microondas ou mecânica quântica.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Extra Terrestres, NASA e sonhos de infância

Para todos nós que crescemos nos anos 60/70 a palavra NASA tem um significado quase mítico. Dez entre dez dos meus colegas de jardim de infância tinha uma resposta pronta quando nos perguntavam "O que você vai ser quando crescer?". Astronauta.
A NASA significava a descoberta de outros mundos, o desafio para os corajosos, a aventura. Nós achávamos que a NASA era O lugar onde trabalhavam os cientistas. O grande sonho era um dia eles encontrarem vida em outros planetas.
De lá para cá o mundo mudou e mudei eu. Hoje eu sei que a NASA era um ambiente muito mais de realizações de engenharia do que da ciência. Sei também que diferentes formas de vida não precisam ser antropomórficas nem mesmo baseadas no DNA que conhecemos.
Mesmo depois de falhas graves como os dois acidentes com o ônibus espacial que resultaram a cada vez na morte de toda a tripulação, e outros erros patéticos como a perda de uma espaçonave não tripulada devido a confusão entre os sistemas de unidades métrico e o americano (essa foi difícil de acreditar mas aconteceu), o nome NASA continua associado a alta tecnologia e é continua usado para vender de travesseiros até geringonças pseudocientíficas inúteis.
Mas nos Estados Unidos, onde os contribuintes pagam as contas da NASA, ela hoje em dia não é uma unanimidade. Críticos questionam os pesados investimentos demandados pela agência argumentando que os avanços científicos dela advindos não se justificam. Bob Park, do clássico blog What's New, é um ácido crítico da insistência da NASA em missões tripuladas enquanto segundo ele os mesmos resultados poderiam ser obtidos de forma mais barata e menos arriscada através e missões não-tripuladas. Claro que isso tiraria grande parte do charme que me fascinava na infância...
A NASA vem buscando justificativas para sua existência. Então, na semana passada eu estava numa conferência sobre educação para todos na UNESCO quando recebi da amiga Sabine Righetti da Folha de São Paulo uma notícia que quase me fez ter um treco: Pesquisadores descobrem bactéria com DNA "ET". Será que tinham descoberto vida fora da terra? Lendo a notícia fica claro que não é bem isso, como o press release da NASA dava a entender com uma aura de mistério. Nossa imprensa seguiu o script da NASA. Teve até um blog ao vivo.
Afinal, qual era a novidade? Para citar o título do artigo publicado na Science e está aberto ao público: Uma bactéria que pode crescer usando arsênio no lugar de fósforo. Isso é uma notícia muito importante, mas não exatamente extra-terrestre. Afinal, os ácidos nucléicos conhecidos até hoje são compostos dos elementos carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, enxofre e fósforo. Uma forma de vida que substitui o fósforo pelo arsênio é improvável do ponto de vista energético mas não impossível sob condições extremas. É o fato do arsênio substituir o fósforo mas não realizar processos metabólicos vitais que o torna tão tóxico para os seres vivos. Isso seria portanto realmente uma novidade importante. Mas daí para sugerir que essa forma de vida tem origem extra-terrestre é um longo caminho. Não dei muita atenção ao fato, mas de volta ao Brasil assisti na TV a uma entrevista com  Felisa Wolfe-Simon, a principal autora do artigo. Fiquei um pouco perturbado pela atitude dela de usar evidência limitada para fazer afirmações profundas e significativas. Hoje decidi ver o que há na web sobre o assunto. E o resultado não cheira bem. Talvez cheire a arsênico...
Comecemos pelo blog da Felisa. Poucas vezes vi algo tão metido na internet. Adorei a parte: "Eu sou intrinsicamente multidisciplinar". Vai piorar. Através do The Scientist descobri que o blog RRResearch da microbióloga Rosie Redfield faz sérias críticas metodológicas ao artigo. Qual a reação da NASA? Desqualificar as críticas porque elas não foram feitas em um periódico com revisão de pares. Isso é um absurdo. Artigos científicos precisam de revisão pelos pares (e ainda assim o processo não é infalível), não críticas. A atitude da NASA só me deixou ainda mais desconfiado. Atualmente acho que é bem provável que o artigo nem consiga provar o que afirma.
Em lugar de encontrar vida nas luas de Saturno ou em Marte, Felisia e seus colegas isolaram uma linhagem de uma bactéria que eles chamaram de GFAJ-1 nas águas ricas em arsênio do lago Mono, na Califórnia. No laboratório, eles cultivaram a bactéria numa sopa de nutrientes. Quando eles diminuíram a oferta de fosfatos e o substituiram por arsenatos a bactéria sobreviveu e se reproduziu, ainda que mais lentamente. Eles então examinaram o DNA dessas bactérias e concluíram que ele continha arsênio. Mas não convenceram a todos.
Os críticos simplesmente dizem que não foram feitos experimentos simples que poderiam mostrar além de qualquer dúvida que o fósforo do DNA realmente foi substituído por arsênio. Mais que isso, eles não mostram que o DNA supostamente arseniado é capaz de replicar-se como o DNA comum.
The Loom, da Discover juntou numa página os 9 mais relevantes críticos ao artigo. Carl Zimmer do Slate vai além: Esse artigo nunca deveria ter sido publicado. Numa era de afiados blogs científicos só mesmo a NASA para insistir em ignorá-los.
Uma coisa é clara: Ciência mal feita não é usada só para validar crenças sem fundamento, mas também para justificar investimentos bilionários também com fundamento limitado. A sociologia da ciência certamente tem muito a dizer sobre como cientistas como a Felisia e seus chefes se comportam.
Não foi dessa vez que se demonstrou vida extra-terrestre. Mas também não se mostrou sua impossibilidade. Posso continuar sonhando tranquilo...

PS: Levei vários dias escrevendo esse texto. Quando comecei verifiquei os blogs mais óbvios para ver se já tinha saído algo. Não tinha. Acontece que viajei e não conferi se no momento que terminei já tinha saído algo. Tinha. Então tardiamente faço referência ao Brontossauros em meu Jardim, ao Gene Reporter, ao Geófagos e ao Quiprona.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mecânica Quântica e celular

Na minha vida real de professor eu gosto de lecionar uma disciplina de Laboratório de Física Moderna para estudantes do último ano da graduação. Nesse curso os alunos devem realizar uma série de experimentos que no final do século XIX e início do século XX revolucionaram nosso entendimento da natureza e deram origem a duas das mais importantes construções teóricas da história: a Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica (usarei os links para a Wikipedia em inglês sempre que eu achar os textos em inglês melhores ou mais completos que em português).
Nesse curso um experimento muito simples, o efeito fotoelétrico, exigiu para sua interpretação uma reviravolta nos conceitos então estabelecidos. Sua interpretação com novas idéias resultou no prêmio Nobel da Física em 1921 para Albert Einstein. Curiosamente, muita gente pensa que Einstein ganhou o Nobel pela Teoria da Relatividade.
O equipamento experimental consiste em um tubo transparente contendo uma placa de um metal alcalino (normalmente Sódio, Potássio, RubídioCésio ou uma liga desses elementos) que chamamos de catodo e outra de algum metal nobre como Cobre que chamamos de anodo. O experimento consiste em iluminar o catodo com luz de um comprimento de onda bem definido e medir a eventual corrente elétrica que pode ocorrer entre catodo e anodo. Parece complicado, mas o experimento é bem simples.
Para modelar o comportamento da corrente em função do comprimento de onda e da intensidade Einstein propôs que quando interage com a matéria, a luz consiste em pacotes de energia que hoje chamamos de fótons. A energia E associada a cada fóton é dada E=hν é a freqüência da luz (inversamente proporcional a seu comprimento de onda) e h é a constante de Plank. Essa idéia de associar energia à freqüência é revolucionária. Ela na verdade foi proposta por Max Plank que foi o primeiro a resolver de forma satisfatória o chamado problema do corpo negro. O corpo negro é um modelo usado para, por exemplo, deteminar a temperatura da superfície de coisas a partir do espectro de radiação que emitem. Por exemplo, a partir desse modelo sabemos que a temperatura da superfície do sol é aproximadamente 5700K. Plank (que propôs a constante h que leva seu nome) mostrou que é possível escrever uma equação que associa o espectro emitido à temperatura se associarmos energia com freqüência da luz. No entanto, ele por muitos anos achou que isso era nada mais que um artifício matemático. Ao interpretar o efeito fotoelétrico Einstein deu-se conta de que associar energia à freqüência (estou insistindo nisso porque é muito importante) é muito mais que um artifício de cálculo mas parte da natureza. Isso deu origem ao que hoje chamamos de Mecânica Quântica.
A fórmula E=hν pode ser expressa em função do comprimento de onda dos fótons E=hc/λ onde c é a velocidade da luz e λ é o comprimento de onda, ou seja, a energia do fóton é inversamente proporcional a seu comprimento de onda.
Existem excelentes simulações do efeito fotoelétrico (lembre que uma simulação NÃO é a mesma coisa que um experimento e não pode substituí-lo) na web. Eu gosto desta e desta. Podemos variar parâmetros virtualmente e observar o que ocorre.
Um fato é muito importante: para um dado material de cátodo, o efeito fotoelétrico só ocorre para fótons com energia acima de uma energia mínima. Por exemplo, se usamos um catodo de sódio, NENHUM elétron é emitido se o comprimento de onda da luz incidente for maior que 451nm, não importando a intensidade da luz nem a voltagem aplicada. Isso não tem explicação usando a chamada Física Clássica ensinada no ensino médio, mas pode ser facilmente entendido pelo modelo de Einstein. 451nm corresponde a fótons com energia de 2.75eV (essa unidade de energia é um pouco curiosa mas muito prática. 1eV corresponde à energia ganha por um elétron ao passar por uma diferença de potencial de 1 Volt, ou seja, 1eV=1,6x10⁻19J) que é a energia correspondente à ligação de um elétron com o catodo. Fótons com comprimento de onda maior do que este simplesmente não têm energia suficiente para romper a ligação entre um elétron e os átomos que compõem o catodo. Isso significa que mesmo se iluminarmos um catodo de sódio com luz vermelha para sempre nenhum, mas nenhunzinho elétron será ejetado.

E o que isso tem a ver com telefonia celular?

Acontece que o mesmo efeito fotoelétrico que arranca elétrons de superfícies também arranca elétrons de ligações químicas. Isso pode ter conseqüências muito importantes.

Hoje sabemos que vários tipos de câncer são devidos a danos ao DNA do núcleo de algumas células. Essas mudanças são induzidas sempre que um elétron é arrancado de alguma ligação estratégica entre átomos. Os elétrons podem ser arrancados por um efeito químico (é por isso que alguns produtos químicos, vírus e alimentos podem contribuir para causar câncer) ou pelo efeito fotoelétrico, quando radiação com energia de fóton superior à da ligação química atinge o DNA. Vale lembrar que em geral o dano causado pelo elétron arrancado é reparado por diversos mecanismos, e é por isso que as pessoas só adquirem câncer quando os mecanismos reparadores falham.

A energia das ligações químicas presentes no nosso DNA é da ordem de 4eV, que corresponde a fótons na região do ultravioleta. Por isso a exposição ao sol do meio dia que tem grande intensidade no ultravioleta pode causar câncer de pele. Ou a exposição a raios-X ou raios gama, com fótons com energia de alguns milhares de eV. A probabilidade de falha dos mecanismos reparadores do DNA aumenta na medida em que o tempo de exposição aumenta, de modo que devemos sempre minimizar as doses recebidas dessa radiação. Por outro lado, as ondas do infravermelho (calor) e de rádio, com energia de fóton de frações de eV não podem causar danos eletrônicos ao DNA. Claro que calor intenso danifica o DNA, podendo destruí-lo, mas por outras razões. Os danos eletrônicos justamente causam câncer porque preservam o DNA exceto pela mudança causada.

A radiação dos telefones celulares está na região das microondas, com comprimentos de onda da ordem de alguns centímetros, muito mais longo que o ultravioleta. A energia de fótons correspondente é incapaz de causar danos ao DNA. Ao contrário do que afirmou em uma revista de grande circulação uma "especialista" no assunto, não há "efeito cumulativo". Por outro lado, as microondas têm outro efeito: elas podem excitar vibrações moleculares, especialmente na água e portanto aumentar a temperatura local. É por isso que é possível usar fornos de microondas para cozinhar ou aquecer alimentos.

O único possível efeito da radiação dos celulares é um aumento da temperatura local. Dada a potência usada pelos aparelhos e a eficiente circulação sanguínea no cérebro, o aumento de temperatura que pode ser associado ao uso intenso de celulares é muito pequeno, alguns décimos de grau no máximo para alguém que passe horas ao celular. Esse aumento na temperatura é menor que o que acontece quando corremos alguns quilômetros num dia ensolarado. Obviamente, existem na web artigos de qualidade científica pelo menos duvidosa atribuindo câncer a celulares, com vários "sustentadores"  (inclusive um brasileiro) sem explicar muito bem os supostos mecanismos.
Nunca ninguém associou a prática de corridas a câncer no cérebro. Ao contrário, uma vida saudável aparentemente ajuda a prevenir o câncer por tornar os mecanismos de reparação do DNA mais eficientes.
Pelos motivos acima, eu sempre desconfiei muito de erros metodológicos em vários estudos que associavam celulares a câncer.
Da mesma forma, fiquei muito cético quando no início do ano um grupo de pesquisadores anunciou que o uso de celulares pode na verdade reverter o mal de Alzheimer em ratos! Trata-se de um laboratório sério, que fez um estudo aparentemente cuidadoso do ponto de vista metodológico. Os próprios autores desconfiaram dos resultados e recomendaram cuidado ao extrapolar os dados para seres humanos porque da mesma forma que não encontramos nenhum mecanismo para causar câncer eles não conseguiam imaginar um mecanismo para a prevenção do câncer. Um artigo recente argumenta  que um muito leve aumento de temperatura pode mobilizar melhor as defesas do organismo.

O resumo de tudo o que sabemos sobre riscos associados a celulares pode ser encontrado na página da Organização Mundial da Saúde:
  • O uso de telefones móveis é onipresente, com aproximadamente 4,6 bilhão de assinaturas no mundo.
  • Até agora nenhum efeito adverso à saúde devido ao uso de celulares foi estabelecido.
  • Há estudos em andamento para avaliar os possíveis efeitos a longo prazo do uso de celulares.
  • Há um aumento no risco de acidentes de trânsito quando os motoristas usam celulares (tanto de mão quanto em viva voz) enquanto dirigem.
Realmente os celulares são perigosos para nossa saúde se mal usados, mas não aumentam o risco de câncer.
Eu nunca gostei de falar ao telefone. Fixo ou celular. Os celulares ainda por cima têm o péssimo hábito de tocar nos lugares e momentos mais impróprios. Continuo evitando na medida do possível.

domingo, 25 de julho de 2010

Vale a pena blogar sobre ciência?

Eu participei recentemente em uma mesa redonda no CBPF sobre A prática da divulgação científica e as novas mídias sociais. A mesa era parte da programação da VIII Escola do CBPF. Deve ser mais que elogiada a idéia dos organizadores de abordar esse assunto num evento voltado para jovens estudantes de Física. Os demais componentes da mesa eram o Dulcídio Braz Jr. do premiado Física na veia! (que tem a nobre missão de levar a Física às pessoas de idade avançada do sexo feminino) e a Fernanda Poletto do Bala Mágica.
Nossas falas foram diferentes mas parecidas. Dulcídio falou sobre como motivar o numeroso público de seu blog a entender e discutir Física, provando seu slogan "A Física é pop". Fernanda abordou a importância que os blogs vêm ganhando na divulgação, inclusive citando o célebre editorial da Nature It's good to blog. Eu tentei falar sobre a importância de uma formação que todo cidadão deveria ter em método científico para entender minimamente a natureza. Isso é uma parte fundamental da cultura ocidental. Já que estava entre físicos, não pude deixar de falar também sobre a direção oposta, a importância que deveria ser dada a uma formação mínima em humanidades, estética e artes para os estudantes de exatas. Em algum momento da nossa história algum positivista deve ter achado que ensinar fundamentos de ciência para estudantes interessados em humanidades ou ensinar humanidades para estudantes interessados em "exatas" era uma perda de tempo. Deu no que deu, uma sociedade de cidadãos (e de intelectuais) com conhecimento fragmentado e com baixa capacidade de entende qualquer conceito que fuja de seus interesses mais imediatos.
O que mais gostei foi uma pergunta feita no final da discussão sobre que tipo de reconhecimento institucional nós blogueiros temos. Fernanda é farmacêutica e doutoranda em Química. Seu blog é reconhecido e estimulado por suas orientadoras. O Dulcídio é físico e trabalha em uma grande instituição privada de ensino médio. Seu blog é reconhecido e inclusive festejado e mencionado cada vez que ganha um prêmio. Nada mais justo.
Minha percepção pessoal, como professor de uma prestigiosa universidade pública, é que em meus colegas de instituto consideram minha dedicação ao Cultura Científica uma perda do precioso tempo que eu deveria estar dedicando a "coisas sérias" como publicar mais artigos em revistas indexadas. A atitude da grande maioria dos cientistas acadêmicos em relação à divulgação e discussões com grande público é meio esquizofrênica: queremos muito mas não fazemos muito, e damos pouca importância ao que é feito. Parece que no Brasil blogueiros científicos com mais de 40 anos são uma raridade.
Esperemos que essa cena mude e num futuro próximo falar de ciência e entender ciência e suas relações com a sociedade seja parte da nossa cultura geral.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cotas infladas

Estou cada vez mais prestando atenção na Cultura Científica (ou a ausência dela) na grande imprensa brasileira. O azedíssimo (isso é um elogio!) blogueiro Ben Goldacre, do Bad Science atribui à falta de um mínimo conhecimento científico de editores e jornalistas do Reino Unido grande parte do sucesso de tratamentos milagrosos com pílulas, ervas e vitaminas naquelas bandas. Ele sempre insiste que os editores em geral têm formação mais próxima das humanidades e das ciências sociais, com uma percepção bastante incompleta sobre o que é a ciência e como ela funciona.
Li hoje no Jornal da Ciência, clipping de ciência da SBPC, um artigo curioso sobre cotas no acesso ao ensino superior. O artigo original saiu no jornal O Estado de São Paulo. O título é: "País tem 148 instituições públicas de ensino superior com sistema de cotas". Eu estive bastante envolvido na elaboração do projeto de Ação Afirmativa da Unicamp e conheço os debates que até hoje vêm ocorrendo. Achei o número um pouco exagerado. O artigo ainda menciona que "Enquanto projeto [de lei] sobre o tema tramita no Congresso, as universidades têm autonomia para criar seus próprios modelos". A fonte da informação é uma compilação feita pelo Educafro, entidade que vem há anos defendendo cotas com todos os meios que dispõe. Resolvi olhar os dados originais do Educafro (que no meu browser pelo menos aparecem com caracteres estranhos). Parece ser uma compilação bastante completa de tudo o que há em ação afirmativa no Brasil.
A conclusão a que se pode chegar a partir da compilação é bem distinta da oferecida pelo Estadão. Segundo os dados do Educafro 48 instituições de ensino superior (1/3 do total) têm programas de bônus, que não é a mesma coisa que cotas. Não se pode classificar instituições que oferecem bônus como se oferecessem cotas. Cotas consistem em reserva de vagas. Bônus não. Mais de 2/3 do total, ou seja 102 instituições adotaram programas de ação afirmativa por força de decreto ou lei (municipal, distrital, estadual ou federal), o que é o contrário de "autonomia para criar seus próprios modelos". Há no meio acadêmico debate sobre a legitimidade de uma lei determinar como uma universidade deve selecionar seus estudantes.
Cada uma das 12 FATECs do Rio de Janeiro e das 38 São Paulo foi listada como se fosse uma instituição diferente. Na verdade são braços de uma só. As decisões são tomadas para o conjunto delas. Ou seja, 48 das 148 instituições não são instituições independentes.
O texto do jornal não chama a atenção para nenhum desses aspectos. A dificuldade de ler e entender textos, números, tabelas e gráficos não é exclusividade de artigos jornalísticos sobre ciências da natureza, como o Bad Science sempre insiste. Ela está presente também em artigos mais próximos às ciências sociais mesmo em jornais de prestígio.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Isto É um milagre!

O artigo de capa da Isto É de 30 de junho chamou-me a atenção. A revista, que tem seu conteúdo aberto na web, o que é louvável, apresenta-se como "a revista mais combativa do Brasil". Deve ser combate à razão.
O artigo chama-se "Milagres Contemporâneos". Ele trata literalmente de supostos "milagres" que estariam ocorrendo em torno de nós atualmente no Brasil. Ora, todo mundo sabe que milagres são eventos fora do normal que envolvem a intervenção divina. Coerentemente eles estão em geral descritos com detalhes nas escrituras. Mas milagres ocorrendo no início do século 21, no Brasil, sob nossos narizes...
O artigo apresenta casos médicos, alguns triviais e alguns mais especiais como milagres. não apresenta nenhuma informação científica para ajudar o leitor a entender o que realmente ocorre. Ao contrário, numa demonstração de proselitismo católico barato diz que "A maioria das denominações religiosas crê em milagres, mas os católicos são os únicos que usam o rigor científico para conferir o selo apostólico romano de miraculosidade. Não podia ser diferente. Para os cristãos, o primeiro a fazer milagres foi Jesus Cristo, que multiplicou pães, transformou água em vinho e fez um morto voltar à vida, entre outros gestos, segundo contam os evangelistas no Novo Testamento. Para estar à altura de um ato que já foi executado pelo Filho de Deus, dois mil anos depois de sua passagem pela Terra, um caso só é considerado milagre depois do aval de uma comissão mista de teólogos e cientistas do Vaticano." O negrito e texto maior aparecem na versão impressa. Esse parágrafo é uma contradição em si: Se usasse realmente rigor científico, o Vaticano se recusaria a reconhecer TODOS os milagres relatados no artigo e tantos outros mais. Eu fico imaginando quem são os "cientistas" que compõem as comissões mistas com teólogos para validar os milagres. Que experiência científica têm? Costumam publicar seus resultados em periódicos especializados? Conhecem realmente o método científico e o aplicaram aos supostos milagres?
Tomo como exemplo um dos "milagres" relatados, o do jovem João que sofreu um terrível acidente e teve grave traumatismo craniano e parada cardiorrespiratória, com pequenas chances de sobreviver. Mas ele sobreviveu, graças aos competentes cuidados médicos aos quais foi submetido (mesmo com a infraestrutura limitada disponível em Barra Bonita, onde o acidente aconteceu) e à incrível capacidade de recuperação que do corpo humano. O artigo atribui a cura à oração praticada pelos colegas de João. Cita também a opinião do neurologista Odérzio Marcato, de Barra Bonita, que acompanhou João (a revista não esclarece se foi ele quem prestou atendimento primário): "A medicina não explica uma melhora tão rápida e plena". Acho curioso um médico falar em nome da Medicina. Como infelizmente não conheço nenhuma instituição de pesquisa médica em Barra Bonita, busquei mais informações sobre a atuação científica do Dr. Marcato. Não encontrei nenhum artigo científico de sua autoria. No entanto, encontrei alguns artigos que indicam que a opinião do Dr. Marcato deve ser tomada com cautela. O Diário da Região de São José do Rio Preto publicou pelo menos 2 artigos que citam o Dr. Marcatto. Em 2005 ele foi citado no processo de beatificação do Padre Mariano, justamente atribuindo a cura de João a esse religioso espanhol que viveu no Brasil. Só tem um problema: o Padre Mariano faleceu em 1983. O acidente de João aconteceu em 1996. Imagino que esses milagres não dependem da presença física do milagreiro entre nós. Outra citação ao Dr. Marcatto é de 2007, quando o Padre Mariano foi beatificado. Sou absolutamente solidário à família de João e seu sofrimento que felizmente terminou bem. Daí para atribuir sua cura a um milagre há uma enorme distância.
O artigo da Isto É vai mais longe. Afirma que "São muitos os estudos que comprovam que a fé tem efeito positivo sobre a saúde...Está provado, por exemplo, que crer em Deus ou em algo transcendente provoca reações no organismo que reduzem a produção de substâncias como o hormônio cortisol.". Busquei na Medline as palavras "cortisol" e "god". Nenhum dos 3 resultados apóia essa afirmação. Pode piorar: "Para o neurocirurgião Raul Marino Júnior, professor de bioética da Faculdade de Medicina da USP e autor do livro `A Religião do Cérebro` (editora Gente), ter algum tipo de fé é sempre melhor que ser ateu. `A vida fica sem propósito se a pessoa achar que é formada de carbono, cálcio, fósforo e magnésio', afirma." O Currículo Lattes do Prof. Marino Jr. lista a invejável marca de 144 artigos publicados. Nenhum deles trata da questão da fé e de ateísmo. Ao contrário de livros (e blogs), para publicar um artigo é preciso convencer outros cientistas de que suas afirmações fazem sentido. O Prof. Marino Jr. não tentou ou não conseguiu esse feito em sua longa e produtiva carreira. Eu pessoalmente entendo que ser ateu é melhor que ter algum tipo de fé. Mas não tento convencer ninguém disso a partir de argumentos duvidosos.
Um famoso estudo duplo cego aleatorizado sobre o efeito de rezas sobre a saúde de pacientes mostrou claramente que o efeito é ZERO. Sua versão original, que mostrava o efeito contrário, revelou-se uma fraude. Isso foi parar nos tribunais, pois o principal autor da fraude abriu um processo contra um médico que sistematicamente desafiava as falsas conclusões do artigo. A decisão judicial no ano passado favoreceu o médico. A Isto É ignora isso e insiste em atribuir poderes terapêuticos à reza e à fé. Ela termina com mais proselitismo religioso: "Traduzindo, os propósitos divinos seriam insondáveis. Para quem crê, o que importa é que Ele continua estendendo sua mão para a humanidade." É difícil acreditar que isso tenha saído numa das supostamente boas revistas semanais do Brasil.
Se os jornalistas envolvidos tivessem um mínimo de senso crítico e de formação científica talvez teriam buscado informação de verdade para seus leitores.

Eu passei há alguns anos por uma situação terrível. Minha mãe teve câncer de pâncreas, diagnosticado já em um estado avançado. Todos sabíamos que não havia muito a fazer para curá-la. A medicina (olha ela de novo aí) ainda não consegue oferecer uma cura para essa doença. Ela submeteu-se a quimioterapia usando o que havia de mais avançado na época, uma droga chamada gemcitabina, comercializada com o nome Gemzar. Mesmo com o tratamento, a mediana de sobrevivência é de 6 meses. Ela resistiu por um ano, chances de 18% para pacientes tratados com Gemzar. Seria isso um milagre? Claro que não. 18 de cada 100 pacientes tratados com Gemzar sobrevivem um ano. Por sorte ela foi um deles. Sem que ninguém rezasse para isso. Há casos (raros) de pacientes que sobrevivem 5 anos. Eu queria muito que um milagre acontecesse e ela fosse um deles...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Plantão Médico Homeopático

Estou trabalhando em umas 4 postagens diferentes sem conseguir terminar nenhuma. Crise de inspiração? Muita coisa pra fazer? Eis que sou salvo por uma mensagem de um amigo com um vídeo anexado. Investiguei um pouco sobre o vídeo, que apareceu na web em meados de 2009, já tendo sido mencionado em inglês em vários blogs científicos.


O sketch é da série That Mitchell and Webb Look e faz referência aos clichês dos seriados médicos. Humor britânico de primeira. Reparem nos nomes das enfermarias que aparecem nas placas.

Para nossa sorte os pronto-socorros do mundo não funcionam assim. Nem os bares!
Como será que os usuários da homeopatia compatibilizam sua fé na diluição infinita como potencializador de efeito terapêutico com a experiência mundana ao diluir a lager?

Agradeço ao Bindi por ter mandado o vídeo.


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