sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Como uma metodologia errada conduz a resultados equivocados: o RUF da Folha de São Paulo

Há uma máxima que aprendi com os computeiros quando ainda era estudante: GIGO: garbage in, garbage out ou Entra Lixo, Sai Lixo. É um trocadilho com FIFO (First In, First Out, ou Primeiro a entrar, Primeiro a sair), uma estratégia usada no gerenciamento de estruturas de dados. GIGO pode ser entendido como dados errados invariavelmente levam a conclusões equivocadas.

O universo acadêmico brasileiro começou a semana com uma notícia bomba: a divulgação do Ranking Universitário da Folha, o RUF. A exemplo do Times, que publica um dos mais respeitados rankings mundiais de universidades, a Folha de São Paulo decidiu fazer um ranking independente das avaliações oficiais feitas pelo INEP. Uma iniciativa desse tipo só merece elogios e tenho certeza que no futuro será uma referência fundamental. Até o Ministro da Educação, responsável pela avaliação oficial, elogiou a iniciativa. Rankings universitários consistem num assunto polêmico sobre o qual não quero me alongar agora (talvez no futuro...).

A exemplo de rankings internacionais, o RUF adotou uma mistura de parâmetros com pesos arbitrários mas bastante razoáveis para seu objetivo: 55% para um indicador de Pesquisa Acadêmica, 20% para Qualidade de Ensino, 20% para Avaliação do Mercado e 5% para Inovação. Com base nos parâmetros adotados, trata-se de um ranking voltado para orientar os estudantes na escolha de uma instituição, a exemplo do QS, Forbes e US News. No contexto brasileiro eu daria menos peso para a pesquisa, mas isso é uma questão de opinião pessoal.

Cada um dos parâmetros precisa ser medido ou estimado por uma metodologia própria. Os resultados são computados, pesados e tabelados. O resultado final está reproduzido na tabela abaixo:


as 10 melhores universidades

USPSP
UFMGMG
UFRJRJ
UFRGSRS
UnicampSP
UnespSP
UFPRPR
UnBDF
UFSCSC
10ºUFPEPE


Não há surpresas quanto às 10 primeiras colocadas: As 3 universidades públicas paulistas e mais 7 federais de reconhecida qualidade. No entanto, fiquei muito surpreso com a posição da Unicamp como 5a colocada.  Em TODOS os rankings acadêmicos internacionais (ARWU, THE, QS, Scimago, US News), a Unicamp aprece em segundo lugar no Brasil, com exceção do de Leiden onde ela está em terceiro. Mesmo no Webometrics, que eu não considero um ranking acadêmico, ela está em terceiro.

Um resultado surpreendente como esse levou a uma análise detalhada: No RUF a Unicamp aparece em Primeiro lugar em Inovação, segundo lugar nos parâmetros Pesquisa Acadêmica e Avaliação do Ensino, e 42 em Avaliação do Mercado.

Como assim 42???? Não devemos esquecer que segundo Douglas Adams (e o Google) 42 é a  resposta para a vida, o universo e tudo mais. Pena que não se saiba mais qual a pergunta...

Um resultado tão surpreendente exige uma explicação. De fato o RUF encontrou uma supremacia das universidades privadas na Avaliação do Mercado, ao contrário do esperado. O próprio RUF aponta a diferença entre a UNIP (9a segundo a Avaliação do Mercado) e a Unicamp (42a) . Segundo ele:
"O executivo valoriza a instituição que lhe oferece bons profissionais - em geral, eles saem de escolas do local de atuação da empresa. Podem ser até instituições de ensino superior sem papel relevante na pesquisa científica, mas que tenham fama de oferecer boa formação. O cientista, por outro lado, valoriza as que se destacam na produção em suas respectivas áreas, dependentemente da região do país."

Essa interpretação não é minimamente razoável, nem compatível com as leis do "mercado". A grande maioria dos jovens brasileiros busca no Ensino Superior uma garantia de emprego e bom salário. Se o "mercado" prefere os formados nas universidades privadas, por que a concorrência no vestibular das públicas é tão maior?

Sempre que uma medida dá um resultado muito surpreendente, os cientistas têm vários caminhos a tomar. Antes de divulgar alguma bobagem, que pode derrubar sua reputação para sempre, o responsável pelo resultado deve verificar a consistência. Por exemplo, verificar se algum outro laboratório encontrou resultado semelhante. No caso, não. Por exemplo, no relatório do QS a Unicamp aparece em segundo entre as brasileiras no geral e no parâmetro Employer Reputation, apesar de a metodologia usada não estar explícita. Ou seja, o dado do RUF é muito diferente do QS apenas nesse parâmetro.

Outra possibilidade é verificar a consistência entre o parâmetro medido e os demais parâmetros. Para isso é preciso fazer algumas considerações: No caso do "mercado", o que ele esperaria de um profissional? Por mais que imaginemos que o empresariado brasileiro seja pouco criativo e descompromissado com inovação ou pesquisa (não é!), certamente ele buscaria os profissionais educados onde a qualidade de ensino é mais alta. No entanto, entre as 40 primeiras segundo a Avaliação do Mercado 10 receberam ZERO em Avaliação do Ensino. É razoável supor que o "mercado" privilegie universidades com um ensino tão mal avaliado? Haveria uma máfia de responsáveis por recursos humanos que de propósito privilegiaria egressos de certas escolas, ainda que de qualidade inferior?

A resposta para essas questões está no relatório técnico que detalha a metodologia usada para estimar a Avaliação do Mercado. Como foi dito no início desse texto: GIGO: Entra lixo, sai lixo.

A metodologia usada para medir a Avaliação pelo Mercado é de uma ingenuidade incompatível sua pretensão de orientar políticas públicas. Foram entrevistados por telefone 1212 responsáveis por recursos humanos em empresas de diversas áreas. Os 20 cursos pesquisados estão no quadro abaixo. Cabe notar que a maior parte dos cursos está presente prioritariamente nas universidades privadas.



A Unicamp não oferece graduação em pelo menos 8 desses cursos. Nada mais óbvio que não seja lembrada. Aliás, assim como muitas das universidades públicas, que só detém 25% da matrícula em graduação.

Nenhuma das explicações oferecidas se sustenta, simplesmente porque a metodologia que foi usada para estimar a Avaliação do Mercado avalia a presença de profissionais em empresas, mas não como o "mercado" avalia os formados em cada instituição.

Isso poderia ser feito de outras maneiras, certamente mais trabalhosas, que alguns dos rankings internacionais usam: por exemplo, computar a empregabilidade dos formados, que salário médio eles obtém no início de carreira (isso sim dá uma boa idéia de como o "mercado percebe cada universidade), que tipo de cargo ocupam após alguns anos na empresa, etc.

É difícil acreditar que na experiente equipe que elaborou o RUF ninguém tenha se dado conta de que o indicador de Avaliação do Mercado tem algo de inconsistente. O blog Cidadania e Cultura do Fernando Nogueira Costa fez uma análise similar.

O raciocínio aqui exposto aplica-se também à UFSCar, uma das universidades mais concorridas do país e que não forma nas áreas privilegiadas pelo RUF. Se refazemos o ranking ignorando o parâmetro mal medido, ela pula de 17o para 10o lugar.

Só posso esperar que a Folha reconheça o erro e reveja seus métodos nas próximas edições do RUF.


Disclaimer: Potenciais conflitos de interesse: O autor é professor e assessor do Reitor da Unicamp, universidade que devido à metodologia utilizada foi classificada em 5o lugar pelo RUF, significativamente abaixo de sua real relevância no ensino superior brasileiro.

Atualização 8/9/2012: Dois textos sobre o assunto, em ordem cronológica:
Questionamentos ao “Ranking Universitário Folha”, do Dmitri Cerboncini Fernandes, de 3/9/2012.
Forrobodó Universitário: a polêmica do RUF, do Gene Reporter (Roberto Takata), de 8/9/2012.

domingo, 2 de setembro de 2012

Chimarrão, chá verde e câncer

ResearchBlogging.org
Eu sempre gostei muito de chás. Começando pelo delicioso chimarrão muito apreciado na minha terra. Ao mate são atribuídas diversas propriedades medicinais benéficas, algumas certamente exageradas, como não causar insônia. Minha própria experiência nos tempos de estudante indica o mate como mais eficaz que o café para passar a noite estudando (eu sei, péssimo hábito, mas já faz mais de 30 anos. Além disso, não se trata de um estudo com uma amostra grande e controlado por placebo). Menos conhecido é o lado carcinogênico do chimarrão. Um estudo feito por uma equipe da UFRGS indica que o hábito de tomar mate é um fator de risco para câncer de esôfago (apesar de a metodologia empregada ser questionável), o que é corroborado por estudos epidemiológicos, ainda que um recente artigo de revisão sugira que esses estudos são inconclusivos. Sempre que se discute a associação entre o mate e câncer é argumentado que na verdade o mate não é nocivo, mas sim a alta temperatura (até 70C!) da água usada na infusão. No entanto, pelo menos um estudo indica que são encontradas altas concentrações de substâncias cancerígenas em infusões preparadas tanto com água quente quanto a temperatura ambiente, indicando que a ação cancerígena está associada mesmo à erva.

Foi muito interessante o anúncio feito recentemente por pesquisadores da University of Strathclyde: Composto do chá verde é promissor para combater o câncer.

O último artigo de revisão sobre o assunto publicado em um periódico de prestígio afirma que apesar de existirem mecanismos bem estabelecidos para que o chá verde previna o câncer e resultados promissores em estudos com animais, "atividade preventiva para câncer ainda ainda não foi observada de forma consistente em humanos". Isso foi discutido num post muito mais otimista que esse no RNAm.

No que consiste o resultado de Strathclyde? Não consegui ler o preprint do artigo, que foi submetido à Nanomedicine-UK, que não faz parte dos 33010 periódicos assinados no portal Capes. Apesar disso, pelo resumo é possível entender o que foi estudado: O composto epigallocatechin-3-gallate (EGCG), presente no chá verde, apresenta propriedades anticancerígenas. No entanto, seu potencial é limitado porque ele não consegue atingir tumores após injeção intravenosa. A hipótese do artigo, que foi aparentemente confirmada, é que a eficiência do EGCG aumenta se ele for encapsulado em vesículas contendo transferrina. A conclusão do artigo é muito simples: Encapsulamento de EGCG em vesículas contendo transferrina é uma estratégia terapêutica promissora. Nada a ver com beber chá ou prevenir câncer pelo consumo de chá. Alguém na assessoria de imprensa da universidade deve ter percebido o potencial midiático do chá verde e o fato de pouca gente ler com cuidado os press releases e o estudo virou manchete no mundo todo. No Brasil:

Chá verde pode ser nova arma contra o câncer de pele, com uma foto de uma xícara de chá.
Chá verde pode combater o câncer de pele, mais uma xícara de chá.
Chá verde pode prevenir o câncer, outra xícara de chá.
Cura do câncer de pele pode esta no chá verde, dessa vez são as folhas de chá.

Curioso é que a conclusão do estudo é justamente que o EGCG só funciona bem quando encapsulado, ou seja, não adianta beber litros de chá para prevenir ou para combater o câncer. 

Outros sites foram mais cuidadosos, começando as chamadas com : "Extrato de chá verde...", mas a xícara sempre está lá. Para aproximar isso da realidade do estudo, ilustrei esse post com o instrumento necessário para o consumo do EGCG encapsulado. A realidade às vezes espeta.

O estudo precisa ser reproduzido e mais bem estabelecido, mas pode conter uma dica importante sobre por que é tão difícil reproduzir in vivo (no caso, in humano) os resultados obtidos in vitro.

Ah, e para constar, continuarei tomando meu mate e chá nas suas diversas formas: verde, preto, branco...


Referências:

Sérgio Gabriel Silva de BARROS, Eduardo Sörensen GHISOLFI, Letícia Perondi LUZ, Gabriel Guinsburg BARLEM, Roberta Machado VIDAL, Fernando Herz WOLFF, Valentino Antônio MAGNO, Helenice Pankowski BREYER, Judite DIETZ, Antonio Carlos GRÜBER, Cleber Dario Pinto KRUEL, João Carlos PROLLA (2000). Mate (Chimarrão) é consumido em alta temperatura por população sob risco para o carcinoma epidemóide de esôfago Arquivos de Gastroenterologia, 37 (1), 25-30 DOI: 10.1590/S0004-28032000000100006

Ana Luiza Curi Hallal, Sabina Léa Davidson Gotlieb, Maria do Rosário Dias de Oliveira Latorre (2001). Evolução da mortalidade por neoplasias malignas no Rio Grande do Sul, 1979-1995 Revista Brasileira de Epidemiologia, 4 (3), 161-177 DOI: 10.1590/S1415-790X2001000300004

Dora Loria, Enrique Barrios, Roberto Zanetti (2009). Cancer and yerba mate consumption: a review of possible associations Revista Panamericana de Salud Pública, 25 (6), 530-539 DOI: 10.1590/S1020-49892009000600010

Farin Kamangar, Michele M. Schantz, Christian C. Abnet, Renato B. Fagundes, Sanford M. Dawsey (2008). High Levels of Carcinogenic Polycyclic Aromatic Hydrocarbons in Mate Drinks Cancer Epidemiology, Biomarkers and Prevention, 17 (5), 1262-1268 DOI: 10.1158/1055-9965.EPI-08-0025

Chung S. Yang, Xin Wang, Gang Lu, Sonia C. Picinich (2009). Cancer prevention by tea: animal studies, molecular mechanisms and human relevance Nature Reviews Cancer, 9 (6), 429-439 DOI: 10.1038/nrc2641

Fanny Lemarié, Chun Wai Chang, David R Blatchford, Rumelo Amor, Greg Norris, Laurence Tetley, Gail McConnell, Christine Dufès (2012). Antitumor activity of the tea polyphenol epigallocatechin-3-gallate encapsulated in targeted vesicles after intravenous administration Nanomedicine-UK DOI: 10.2217/nnm.12.83

sexta-feira, 6 de abril de 2012

PseudoScientific American Brasil

O ano era 1845. A Mecânica Quântica ainda não tinha sido inventada, homeopatia era moda e a prática da acupuntura era restrita à China. Em Nova Iorque, o inventor Rufus Porter fundou a Scientific American, "a palavra da indústria e da empresa, e o jornal das melhorias mecânicas e outras". De lá para cá a revista mudou de dono várias vezes, mas construiu, especialmente a partir de 1900, a reputação de traduzir para o público interessado os avanços da ciência e da tecnologia. E isso foi feito com extremo cuidado. A partir de 1948 os donos da revista decidiram que a maioria dos artigos deveria ser escrita pelas pessoas que fizeram o trabalho sobre o qual estão escrevendo, para que os artigos sobre novas descobertas aparecessem rapidamente, com maior exatidão e autoridade. Isso continua sendo feito até hoje. Ao longo de sua história, não menos que 140 ganhadores do prêmio Nobel escreveram para a revista, a maioria antes de receber o prêmio.
Eu aprendi muito sobre ciência assinando a Scientific American na minha adolescência. Para dizer a verdade, o nível dos artigos fora da minha área de interesse era alto demais e eu tinha dificuldade para entendê-los. Mesmo assim eu tinha certeza da qualidade e do rigor de tudo o que era (é ainda) publicado ali.
Hoje a Scientific American é publicada em 14 línguas e lida em 30 países. Em francês ela se chama Pour la Science. Em espanhol é Investigación y Ciencia. Aqui ela se chama Scientific American Brasil e é editada pela Duetto Editorial.
Recebi com muita surpresa os comentários dos leitores Décio Legno e Solvat na postagem anterior deste blog. Segundo eles na página 17 da edição nº 119 (ano 10) da versão impressa da Scientific American Brasil, num artigo na seção "Saude" intitulado "A Eficiência Questionada da Homeopatia", de autoria de Nina Ximenes, havia a seguinte afirmação: "...a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados...". Comentarei essa pérola mais adiante. Eu estava muito ocupado nesses dias e não consegui comprar a revista para conferir. Achei que devia ser algum engano. A Scientific American não publicaria uma bobagem desse tamanho, no Brasil ou em qualquer lugar.  Alguns dias depois o ótimo Never Asked Questions do impagável Roberto Takata (quem duvida leia um dos quase 65 mil tweets de sua lavra @rmtakata) apresentou uma resenha dos últimos fatos a respeito: Não somente o texto tinha sido publicado como causou furor no respeitadíssimo Science-Based Medicine e a editora chefe da Scientific American americana, Mariette DiChristina desautorizou publicamente o editor da Scientific American Brasil em seu Twitter.

Podia piorar: dia 30/3 o editor da Scientific American Brasil, Ulisses Capozzoli publicou um  texto no blog da revista chamado "Ciência e Falsa Ciência" no qual discute a recente decisão do Tribunal Federal da 1ª Região reservando aos médicos a prática da acupuntura no Brasil. No texto ele implicitamente afirma que a acupuntura tem efeitos terapêuticos. Os que como eu sempre afirmaram que espetar agulhas em pontos na pele ao longo de meridianos para corrigir o fluxo de Qi não tem base científica alguma são tratados como fundamentalistas limitados e limitantes. É como se a decisão do Tribunal mudasse a realidade e portanto estaríamos redondamente errados ao dizer que acupuntura não é ciência. Em todos os testes já feitos com algum rigor a acupuntura nunca apresentou resultado melhor que o placebo. Basta conferir na maior e mais reputada base de dados médicos do mundo, a Colaboração Cochrane. Ali há metaestudos sobre acupuntura aplicada a mais de 20 condições de saúde. O efeito em todas é comparável ao placebo. Portanto, nada impede que pessoas se submetam a tratamentos por acupuntura. No entanto, fico um pouco preocupado quando a reputação da Scientific American , construída rigorosamente ao longo de 165 anos, é usada para tratar como científicas práticas notadamente pseudocientíficas.

Podia piorar mais ainda:  dia 2/4 a Scientific American Brasil publica um tweet onde afirma que "Sobre a nota de homeopatia (abril): refere-se a um curso sério da UFV, com apoio do CNPq e envolvimento da Unesco/Fundação Banco do Brasil". De novo, argumentos de autoridade, nesse caso falsos. Trata-se de um curso de extensão oferecido na UFV (o programa é ótimo: inclui, obviamente, a "Teoria dos Miasmas").  O CNPq não apóia ou referenda o curso como não apóia curso de extensão algum. Ocorre que o coordenador do curso tem projetos aprovados pelo CNPq (o que também não significa que homeopatia seja ciência).
De qualquer forma isso não seria um motivo para a Scientific American, no Brasil ou qualquer outra parte do mundo, tratar homeopatia como ciência. Não é. A homeopatia é um excelente exemplo de anti-ciência: alguém formulou algumas hipóteses e mesmo elas sendo incompatíveis com o conhecimento científico e refutadas em todos os testes bem feitos uma legião de seguidores crê no modelo e trata sua saúde a partir delas. Isso tem outro nome.

Pode melhorar: dia 5/4 no blog da Scientific American Brasil, o editor Ulisses Capozzoli publica com o título "Erro de Avaliação" um texto em que pede desculpas publicamente aos leitores pela publicação do texto. É uma atitude muito corajosa e lúcida. Não é  comum as pessoas reconhecerem um erro e pedirem desculpas em público.
No entanto eu ainda fiquei um pouco preocupado com a argumentação do editor: ele afirma que se um médico homeopata abre um consultório e atende pacientes ele não pode ser acusado de desvio de conduta ou charlatanismo porque a homeopatia é legalmente reconhecida como especialidade médica no Brasil.
A palavra chave dessa frase é legalmente. Nenhum sistema legal do mundo tem a capacidade de mudar a natureza. Não é porque um lobby de 300 médicos obtém de políticos (e não cientistas) o reconhecimento de homeopatia como especialidade que ela magicamente passa a ter efeito maior que o placebo. Assim como não é porque é praticada há muito tempo, ou que alguém a associe a redução de cólicas, que a acupuntura venha a ter respaldo científico.

O editor local da mais prestigiosa revista de divulgação científica do mundo deveria tomar muito cuidado com o que escreve ou deixa publicar. O prestígio da revista, duramente conquistado, não deveria estar exposto a uma situação tão frágil. Talvez esse episódio possa se resolver com a publicação de um artigo rigoroso e bem embasado mostrando porque homeopatia não é ciência. Afirmar isso não significa ser careta, limitado, limitante ou com horizontes estreitos, mas simplesmente entender o que significa ciência e suas consequências sobre nossa vida.
Todos têm direito de escolher como tratam de sua saúde, mas assim como a decisão do Tribunal essas escolhas infelizmente não mudam a realidade. Se alguém tiver uma doença que exige tratamento cirúrgico  pode tomar os melhores medicamentos homeopáticos ou submeter-se à mais apurada acupuntura. Ainda que essa pessoa acredite que isso a salvará, suas chances de sobrevivência serão reduzidas sem uma cirurgia.

Não posso terminar sem atender ao pedido do Décio e comentar a associação entre Mecânica Quântica e homeopatia feita pela autora do artigo, a bióloga Nina Ximenes, que tem passagens televisivas e arrasa no jazz e na bossa nova.  Ao contrário do que provavelmente foi ensinado no curso de extensão em homeopatia, a realidade não escolhe qual a teoria que vai adotar. A homeopatia não pode escolher a física quântica em lugar da química. A realidade existe muito antes da nossa vã filosofia. Mecânica Quântica, assim como Química são invenções humanas para descrever e entender a realidade. A Mecânica Quântica descreve relativamente bem sistemas muito pequenos (inclusive as ligações químicas!) mas passa a ser menos aplicável na medida em que vai-se perdendo a coerência entre as funções de onda associadas às partículas. Portanto a frase da Nina não faz sentido.

Realmente espero que a Scientific American Brasil continue fazendo o que a matriz vem fazendo muito bem há 165 anos: divulgar o pensamento científico e convidar as pessoas a entender a ciência. Seria muito triste ela passar a usar sua reputação para validar práticas pseudocientíficas.

Agradeço aos leitores Décio Legno e Sovat por terem chamado a atenção para essa história.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Amálgama

Só uma notinha para dizer que agora Cultura Científica é parceiro do Amálgama. Gostei muito do nome e do blog. Espero que eles não se arrependam...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Saúde Quântica

Um colega passou-me uma recente mensagem que curiosamente foi distribuída a todos os professores IMECC, o Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Unicamp. A mensagem anunciava a Iª Conferência Internacional de Saúde Quântica, que ocorrerá em Gramado de 28 a 30 de abril de 2012. Saúde Quântica?  Há uma tentativa de explicação na própria página da conferência. A parte mais próxima de uma definição é "A Saúde Quântica está voltada para a promoção e proteção da Saúde Integral do ser humano e para compreensão de que a doença é uma oportunidade de olharmos para nós mesmos como investigadores da nossa jornada como ser humano em busca de aperfeiçoamento e de ser feliz. A simples supressão dos sintomas nos distancia do nosso processo evolutivo." Difícil de entender. Mas o que a Mecânica Quântica tem a ver com isso?  "a Física Quântica, associada à Física Relativística, assume papel de destaque por elucidar o jogo de xadrez das freqüências internas e externas que influenciam o estado de saúde e de doença." Sei que muitos Matemáticos adoram jogar xadrez, mas o IMECC deveria tomar mais cuidado com as mensagens que envia aos seus docentes.
O evento será acompanhado pela I Expoquantum, onde será possível ter contato com "novas Tecnologias Quânticas eletrônicas e humanas, que nos possibilitam acessar uma nova era de Saúde e Qualidade de Vida." Mal consigo imaginar o que estará exposto. Talvez o SCIO?
Pode piorar. Um dos objetivos do encontro é "fortalecer processos curativos como a Homeopatia e a Acupuntura e novas e eficientes técnicas terapêuticas como o EFT (Emotional Freedom Techniques) e o EMDR (Eyes Movement Desensitization and Reprocessing), e PNL (Programação Neurolinguística), entre outras, com comprovados potenciais curativos em processos pouco invasivos e de baixo custo, fácil aplicação e alta eficiência em curto espaço de tempo, comparado com as terapias tradicionais. Elas introduzem, muitas vezes, um verdadeiro salto quântico nos processos de cura." Agora entendi onde entra a Mecânica Quântica! Mas as técnicas são ótimas: EFT é apresentada como "Acupuntura emocional sem agulhas". EMDR consiste em reprocessar lembranças difíceis através dos movimentos dos olhos. Para quem duvida tem até vídeo no YouTube!
Mais que isso, "Nesse Simpósio, teremos a oportunidade de conhecer o trabalho de cientistas respeitados, cujas descobertas, algumas com patentes internacionais, apontam para uma nova percepção da realidade de maneira contundente e acessível a todos nós." Os palestrantes são certamente pessoas respeitadas. Não são no entanto cientistas respeitados. Amit Goswami, apresentado como indicado ao Prêmio Nobel (só que da Paz, não da Física!), já passou por esse blog anteriormente. Como ele todos os demais palestrantes nunca foram cientistas ou deixaram de ser cientistas há muito tempo.
Ao contrário das conferências científicas de verdade, não há nenhuma informação no site sobre quem são os organizadores do evento, exceto que ele acontecerá no Centro de Eventos UFRGS/FAURGS.
Os organizadores têm todo direito do mundo de organizar um evento como este. Só fico muito contrariado por estarem tentando travestir algo puramente místico como se fosse um evento científico, nas barbas dos colegas do Coletivo Ácido Cético e ocupando um espaço de uma universidade séria pela qual tenho um carinho infinito. Acho um dever da comunidade científica manifestar-se duramente sempre que a pseudociência tenta invadir o espaço de discussão acadêmico. Pseudociência não é ciência. Foi na UFRGS que em 1979, como estudante do segundo ano de Engenharia matriculei-me em Física IV. A disciplina dava uma introdução ao que chamamos de Física Moderna. Tratava das duas teorias desenvolvidas na virada do século XX (Mecânica Quântica e Relatividade) que mudaram definitivamente nossa compreensão do universo. Isso me seduziu a ponto de mudar minha carreira. Deixei de lado a Engenharia e resolvi virar Físico para tentar entender melhor as manifestações macroscópicas do universo quântico microscópico. Obviamente muito dessa mudança de caminho deveu-se ao professor que lecionou a disciplina. Ele tinha a mesma cara que tem hoje, na quinta foto da coluna da esquerda do cartaz, Lama Padma Samtem. Na época chamava-se Alfredo Aveline e fazia doutorado em Física Teórica de Sólidos.  Tornei-me amigo do Alfredo e presenciei o início da sua trajetória em direção ao misticismo oriental. Nunca mais o vi. Eu preferi o caminho da ciência, inspirado em parte por ele. Guardo o mais profundo respeito pela sua coragem por mudar completamente os conceitos que o orientavam e em assumir o modo de vida em que acredita até hoje, e assim ter se tornado uma referência importante dentro da sua comunidade.
Creative Commons License
Os direitos de reprodução de Cultura Científica são regulados por uma Licença Creative Commons.