Logo depois descobri que tinha o colesterol elevado para os padrões estabelecidos. Minha médica, muito cuidadosa, me receitou a estatina da época (acho que era Lipitor). Meu nível de colesterou baixou rapidamente. Com base em um artigo da época (só consigo lembrar que era um estudo alemão) ela me receitou também uma cápsula diária de Ephynal, contendo 400mg de vitamina E. O artigo não era conclusivo, mas apontava efeitos aparentemente positivos na redução do LDL, o colesterol ruim. Na dúvida e aparentemente sem efeitos colaterais relevantes, decidi aderir ao tratamento. Ephynal era caríssimo. Eu logo descobri que nos Estados Unidos era possível comprar em qualquer farmácia ou supermercado cápsulas de vitamina E por uma fração do preço do Ephynal. Eu comprava embalagens com 400 cápsulas, suficientes para mais de um ano. Assim por mais de 10 anos eu tomei uma dose diária de vitamina E que correspondia a 40 vezes o recomendado a um indivíduo saudável. Isso pode parecer estranho para um cético assumido como eu, mas dada a ausência de efeitos colaterais achei que no pior caso não teria efeito algum, no melhor teria uma redução no LDL, além dos supostos efeitos benéficos que na época se achava que todos os antioxidantes teriam no organismo. O tempo passou e um belo dia em 2009 um artigo no NY Times fez com que eu desistisse de vez da vitamina E. O título já diz tudo: "Vitamina E: nenhum benefício, talvez danos". Estudos mais bem feitos tinham mostrado que a ingestão contínua de vitamina E aumentava o risco de ataque cardíaco. Atualmente a Cochrane Collaboration afirma claramente que "vitamina E não deve ser recomendada para doenças do fígado". Trato do nível de colesterol com uma dose mínima de rosuvastatina.
Uma outra conclusão importante é, literalmente: "é preciso que os consumidores sejam céticos em relação a alegações a respeito de saúde de produtos não regulados vendidos sem controle, na ausência de forte evidência de benefícios demonstrada em testes clínicos".
Espero que outras pessoas não caiam no meu erro de achar que uma vitamina recomendada por 10 entre 10 naturebas era inofensiva. É impressionante a quantidade de drogas e produtos sem nenhum efeito comprovado em testes clínicos sérios que são vendidos livremente em farmácias brasileiras (e americanas também!).
Depois da leitura desse artigo eu, como todos os homens na minha idade deveriam fazer, tenho mais motivos para repetir anualmente meu exame de próstata para caso (mais provavelmente quando) apareçam os primeiros sintomas de câncer ele seja tratado em sua fase inicial, com grandes chances de cura.
Update: O Petrucio me passou links para dois ótimos artigos no Science-Based Medicine: um sobre um estudo de cohorte em mulheres pós-menopausa, que não encontrou evidência de efeitos positivos e outro recente que mostra a inutilidade de ingestão de megadoses de vitaminas.
Referência:
Klein, E., Thompson, I., Tangen, C., Crowley, J., Lucia, M., Goodman, P., Minasian, L., Ford, L., Parnes, H., Gaziano, J., Karp, D., Lieber, M., Walther, P., Klotz, L., Parsons, J., Chin, J., Darke, A., Lippman, S., Goodman, G., Meyskens, F., & Baker, L. (2011). Vitamin E and the Risk of Prostate Cancer: The Selenium and Vitamin E Cancer Prevention Trial (SELECT) JAMA: The Journal of the American Medical Association, 306 (14), 1549-1556 DOI: 10.1001/jama.2011.1437
